sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A Pequena vendedora de fósforos


            Nessa nossa correria cotidiana, onde pululam estudos, trabalho, e toda uma gama de obrigações possíveis, se torna até difícil encontrar uma brecha no tempo – ótimo seria possuir a faculdade mágica de pará-lo de acordo com a nossa vontade – para respirarmos um pouco mais de nossos hobbys que acabam esquecidos, preteridos, relegados diante disso tudo. 
          Meu maior hobby é a História. Isso é fato. Junto com ela, vem o Cinema. Para aqueles que porventura se encontrem nessa situação de escassez de tempo, uma possibilidade está justamente em recorrer aos chamados Curtas – Metragens.
         Obviamente que não faço menção a estes apenas como subsídios alternativos na ausência do tempo, pelo contrário, apenas reforço suas qualidades diante dessa conjuntura. Enfim, os curtas que podem ser tidos até como pílulas cinematográficas – muitas vezes mais significativas e com dose de Arte Total do que obras com temporalidade comum do Cinema – acabaram me aparecendo como o comprimido diário da minha inseparável relação Cinema – História.
               É daí que num desses dias de correria, entre a leitura de obras, entre as idas para o estágio, feituras de resenhas para as disciplinas, que num intervalo para almoço/ respirar, acabei por encontrar um curta-metragem, uma animação, com apenas sete minutos de extensão.  Inicialmente, o próprio titulo já me chamou a atenção: “A Pequena vendedora de fósforos.” Mais ainda quando eu percebi que junto ao pôster do curta, havia a indicação que ele havia concorrido ao Oscar de melhor curta no ano de 2007, quando fora produzido. Mas não havia ganhado. Mais um motivo para vê-lo.

Poster de divulgação de " A Pequena vendedora de fósforos"



           Consegui baixá-lo e procurei assisti-lo com total concentração diante da efemeridade de sua sustância, de seus sete minutos. O Resultado produzido é que temos quase 420 segundos da mais pura dramaticidade e da mais bela pureza narrativa. Uma estória contada evidentemente triste. Contudo, real. Doce e ao mesmo tempo triste. Reflexiva acima de tudo. Histórica porque se baseou em um conto revelador da natureza de um tempo especifico da história de nossa humanidade.
         Sem mais rodeios, o curta “A Pequena vendedora de Fósforos”, foi baseada no conto do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805 – 1875), mundialmente conhecido por seus contos aparentemente infantis, mas que em verdade, possuem no seu sentido latente, uma carga puramente histórica, que ultrapassa a típica doçura e leveza das historinhas infantis. 

H.C. Andersen: Um olhar aguçado ao seu tempo.
Aliás, quase como todas as histórias de conto de fadas. Grande parte delas, como João e Maria, ou originalmente Hansel e Gretel, um conto de tradição oral, coletado pelos reconhecidos Irmãos Grimm, a qual narra a triste história de um casal de irmãos, filho de um pobre lenhador, que acaba por abandoná-los na floresta por não ter condições de criá-los, entregando-os então as agruras da pobreza, da miséria. Estes então levam consigo pedaços de pão, que procuram soltar no meio do caminho, para marcar o caminho de casa, mas os pombos comem suas marcas deixadas. 
   Enfim, é uma história já conhecida e próxima de nossa realidade infantil. Na versão atual, temos que o casal de crianças conseguiu retornar aos braços do pai. Um final feliz. Mas não o que ocorre, conta-se, na sua versão original. Nesta, o casal de irmãos, ao matarem a bruxa, esquartejam-na e a comem devido a sua fome. Ademais, a história original estaria diretamente ligada a momentos conturbados da Idade Média, principalmente quando a fome estaria assolando as populações camponesas. O próprio cenário da floresta, que para o homem medieval, possuía um sentido mágico, assustador, onde residia o pecado, as bruxas, os loucos, os eremitas, e toda ordem de elementos do desconhecido, ajuda a evidenciar isso tudo.

Hansel e Gretel: A miséria infantil como pano de fundo

         Enfim, diferentemente de João e Maria, Hansel e Gretel, a história da nossa pequena vendedora de fósforos não foi atualizada, não teve seus meandros mudados, mantivera sua estrutura original.  Seu contexto histórico é o século XIX. Sua casa é a “Santa Rússia Imperial Czarista”. Sua história se passa provavelmente entre os anos de 1875 a 1890, período em que aquele grande país, um “gigante de pés de barro” deixava evidenciar toda a sua rede de contrastes. 
           O Historiador Daniel Aarão Filho deixa-nos tudo isto claro. A Rússia àquela época era ainda formada por uma grande composição rural – 80%– uma massa que vivia em meio ao atraso produtivo, com arados de madeira e mãos nuas para produzir. Em contrapartida, o eixo urbano passava por intensas transformações, devido a formação de bolsões tecnológicos, que na medida em que fomentava a uma melhoria de vida para um pequeno grupo de privilegiados nas cidades, só ajudava a demonstrar como era fato o grande traço de contrastes, de desigualdades entre os segmentos sociais da Rússia Czarista.
Mormente todo este quadro, entre 1860 até 1914, como cita Aarão Filho, o crescimento demográfico russo foi fulgurante. Uma média de 2,4 milhões por ano. Uma massa que rezava pelo bem estar do “paizinho”, visto como o representante nato de Deus na Terra. Rezava-se para que este predestinado lhes diminuísse as carências de vida; rogava-lhes por melhorias, por cobertas para as noites frias de São Petersburgo. Quem mais lhe rogava, eram justamente os mujiques – estes camponeses- ora no campo, ora na cidade, após um êxodo forte que os fazia agora parte de um excedente sem rumo e sem destino na capital econômica e política russa. Conseguindo emprego nas novas fabricas ótimo. Não obtendo este recurso, talvez esperar o encargo do destino.

O Czar no centro: Na ordodoxia russa, ele era um representante de Deus na Terra.

         É deste plano de fundo histórico que nasce a nossa doce historinha.
         Somos levados ao drama da pequena vendedora de fósforos. Uma doce garotinha de provavelmente seus oito anos que sobrevive nas frias ruas de São Petersburgo, tentando ganhar sua vida, vendendo palitos de fósforo para os passantes. O Fósforo era o fogo para conter o frio. Mas todos aqueles que passavam não davam conta de sua existência. Era um alguém no meio daquela multidão de gente. Alguém que não deveria ser visto. Aliás, ninguém a via. Todos estavam cegos diante de sua existência. Menos o policial que a impede de subir a um poste de luz, quando esta tentava se tornar mais alta diante dos olhos daquelas pessoas, e assim tentar aumentar sua chance de êxito nas vendas.
         Não vende nada. Seus pés estão frios. Ela está sozinha. Sozinha com seus raros palitos em sua pequena caixinha. Dos seus pés frios, somente meias furadas e nenhum sapato. No seu rosto, a desilusão da vida e a tristeza da miséria. Ninguém sabe o seu passado. Quem é essa menina? Qual seu nome? Porventura teria ela nome? Maria? Sônia? Nomes naturalmente russos! Mas não sabemos. Seu nome era expressão de sua situação. Talvez codinome criança pobre nas ruas, talvez codinome povo em geral.

A pequena vendedora de fósforos: Nas ruas frias e congestionadas, ninguém vê-la. Ou finge-se não ver.

         Enfim, na desilusão da fria noite russa, ela visualiza os antagonismos da vida. Vê crianças como ela, no colo dos seus pais, andando de boas charretes, comprando presentes e sorrindo com seus pais, naquela noite fria de Natal ou de Ano novo. Que seja qual for a festividade. Para ela nada mudava mesmo. Sua situação era única todos os dias. Fósforos, e desilusões. 

Talvez do alto, ela conseguia ser percebida!

         Caindo a noite, não tem onde deitar. Prefere então manter-se acolhida em mais uma das vielas daquela assombrosa cidade, retrato vivo do janus russo, moeda com face de deus romano que representa o passado e o futuro na mesma instância, mas que não deixa esconder as mesmíssimas contradições e opressões da vida.
         Seu leito é o seu próprio corpo. Sua camisa mirrada. Tenta esconder o frio dos pés, mas é uma atitude inútil, na medida em que cobre uma parte, mas deixa nua outra parte do corpo. Para aplacar o frio, vai recorrer ao seu próprio meio de vida. Quem lhe salvará? Seus fósforos!
         Procura no primeiro palito, o furor da pálida chama para conter todo o seu frio – frio intenso, números negativos quem sabe, Rússia – também a sua fome contida. Com o ascender do fogo, ascendem-se também as suas esperanças, os seus sonhos. É a chama da vida que nela teme em não apagar! Na verdade porque apagaria, se mal acabou de ser aceso? É uma criança! Tem toda uma fogueira da vida pra manter acesa!
         No primeiro palito aceso, vê num velho forno afundado em meio a neve do chão, a realidade de um sonho; enxerga-se diante desse mesmo forno, uma lareira para o seu frio. Esquenta seus pés, suas mãos. Mas é tudo ilusão. Volta do seu transe. De sua utopia. O Palito apaga-se e com ela sua alegria, seu subterfúgio.
         Acende o segundo fósforo. Só lhe restam mais cinco fósforos. O Frio lhe maltrata. É necessário mais do que nunca, fugir. Aceso. Ah como a visão agora lhe agracia e lhe atormenta! É comida! Frango! Um frango gordo como nunca imaginaria ter em sua mesa. Em mãos ao menos, porque mesa é para quem tem casa. Nem isso hoje, ela porventura tem.

A Primeira Chama

         Acaba a sua ilusão mais uma vez, e o anuncio de sua catástase começa a aparecer. É o vício do fósforo. Acende mais um: É levada por cavalos e charretes como aqueles vistos naquela mesma noite! Parece tudo tão real diante de seus olhos! É levada então a uma casinha distante! Talvez numa floresta russa! Lá está uma velhinha, talvez sua mãe, talvez sua avó! Uma casinha e uma mulher tão longe, tão distante, só possível talvez em seu âmago mais profundo! Chegando lá, ela procura olhar pela janela gélida se há realmente alguém naquele sonho impossível. Bate na porta, a velhinha a atende, mas quando ia abraçá-lo, o sonho apagou. O Fósforo. E o peito dela ia queimando. Queimando de dor. Quero retornar ao meu sonho. Eu quero o paraíso agora. Meu Éden. Acende então de uma única vez, seus últimos três fósforos, procurando trazer de volta seu maior sonho, e mantê-lo vivo o mais tempo possível, sem contar que com essa apocalíptica medida, findara com todos os seus meios de sobrevivência. Pouco importa. O Fogo agora forte, a leva de volta àquela velhinha dos grandes braços abertos. É lá onde ela quer ficar: abraça, ama e chora!
         Ela é uma velhinha mãe – avô como todas as outras. É a sua mãe. É a sua avó. Prostra-se diante de uma grande arvore de Natal. Um de seus sonhos. Sua fé ainda é viva. Acende as velas da esperança de cada um dos estamentos daquela grande arvore, mas na ultima grande estrela, no cume da arvore, o fogo acaba definitivamente. Ela vê que diante de si, não tem mais do que as estrelas frias do céu, ofuscadas pelo cair maciço das neves.

O Grande sonho: A Arvore de Natal



         Ela então dorme. “Dorme para a eternidade”. A Mãe Rússia como que então aparece de seu sonho para levá-la. Levá-lo para o mundo da infinitude. Talvez a morte seja a solução melhor. Não há mais frio, não há mais fome. Numa das mais belas cenas que eu já vi na vida, a mãe Rússia leva sua essência, sua alma, para além daquelas paredes, e seu corpo frio, permanece ali, esquecido, morto, talvez na espera da neve que caia e lhe esconda da vista daqueles que em vida nunca a viram. Não fará diferença. Agora ela está com a mãe Rússia, a mãe a quem sempre confiara como alguém que lhe daria a paz, a comida, o manto, o abraço materno, o amor.

O Ultimo sono: Os palitos queimados junto aos pés descalços.

Vivera e sonhara com esta grande mãe Rússia. Essa grande utopia. Morrera com ela. Sem nome. Sem fósforos. Mas com a fé acesa. A Certeza: Assim como ela, outras tantas crianças morreram. Projetos de Gente. Com sonhos e desilusões.  A Fé e a Espera.

“Quando cai urna estrela, é que uma alma está voando para Deus”

         É realmente um belíssimo curta – animação. Simples, doce, triste, verdadeiramente real. Para aumentar a qualidade da obra, a sua trilha sonora é fantástica e fala por si só, já que o curta é praticamente mudo. A criança não fale, a sonoridade triste fala por ela. Emociona por ela.
         Tal grandeza de adaptação da obra literária para o curta não surpreende, quando percebemos que o diretor da animação é o aclamado Roger Allers, o mesmo que ganhara o Oscar com a maior animação de todos os tempos, na minha singela opinião, o Rei Leão, também um conto dito infantil, mas que o caráter existencial, revela muito mais do que uma mera historinha para criança, discutindo questões como amor, traição, regeneração, perda, recomeço, religiosidade e outras tantas temáticas.
         “A Pequena vendedora de fósforos” não ganhou o Oscar. O que obviamente não quer dizer nada. Aliás, como os curtas conseguem dizer tudo, ou quase tudo, com a rapidez de suas poucas imagens. 7 minutos. 7 minutos que conseguem abarcar um sentimento que muitas películas de 2 horas e meia não conseguem recriar.
         Enfim, estou encerrando aqui este comentário.  Termino ratificando como vale assistir este curta. Rápido, não será tempo perdido, muito pelo contrário. Veja e espalhe. Reflita. Estou postando logo abaixo o curta para que todos visualizem.


         Enfim, é só. Até +

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Gênero “Noir” e a Crítica ao Sensacionalismo Midiático.

O Filme “Noir”. Ao ler esta adjetivação fílmica, a aparente primeira reação do leitor deve ser justamente compreender o que se deve entender como “Noir”.  Este termo de origem francesa que tem como tradução mais direta o qualitativo “Escuro”, acaba então por se apresentar, dentro das rédeas do Cinema, como um subgênero do filão dramático cujo aporte de importância dentro da sétima arte é incomensurável.
A Justificativa lógica para esta afirmação reside no fato de que o “Noir” ou o filme “escuro”, por assim dizer, acaba por concentrar em seu bojo justamente um caráter fílmico que vai muito além do glamour, do romantismo hollywoodiano, ou em geral, do clichê cinematográfico comum a uma época.
        O Noir se caracteriza pelo enfoque na psicologia das ações humanas; nas contradições, hipocrisias, veleidades e outras tantas questões que fulguram nas ações humanas e que por ora podem passar despercebidas em criações cinematográficas mais idealizadas.

O Gênero Noir: Relações Humanas em meio a escuridão das ruelas noturnas.
              Este choque de realidade “Noir” surge então no período da Grande Depressão Americana, justamente como uma quebra do paradigma do sonho americano, da utopia de um cinema onde pululam o glamour e o sonho das telas para os expectadores nas salas do Cinema. Do Noir aparecem grandes filmes com temática policial, alguns centrados nas ações da Máfia pelas ruas de Nova York ou Chicago, e grande parte procurando refletir as várias facetas humanas muitas vezes incompreensíveis ou negligenciadas diante do grande palco hipócrita das relações sociais, onde o jogo de sombras das ruas noturnas revela muito além do aceitável em comunidade.

A Escuridão da noite, onde andam Gangsters e mulheres ardilosas, foi palco frequente do gênero Noir.
        Longe de querer definir este gênero tão amplo e complexo que é o Noir, desta maneira e sem querer me alongar demais, procuro definir resumidamente e porcamente o que seria mais ou menos a composição do gênero, justamente para dar escopo à temática que abordarei daqui em diante. Refiro-me as explorações das mídias em geral de fatos do cotidiano, dos absurdos cometidos em busca da melhor manchete; do desrespeito frente às necessidades humanas em pró de um pragmatismo noticiário que deve ser pensado em primeiro lugar.  Daí é que as duas películas que escolhi para esta analise se apresentam então como atualíssimas, haja vista que tais situações ainda continuam em profusão, e por sinal muito longe de se exterminar, pois parece que para boa parte da população, o sensacionalismo e uma quase mórbida curiosidade que vai muito além do mero interesse informativo faz parte de suas vidas.

O Sensacionalismo na TV: É necessário tomar cuidado com o que se escuta e ter seu próprio discernimento dos fatos.

        Vale ressaltar que tal crítica não se fundamenta a um grupo especifico de profissionais, mas em geral a todos aqueles que fomentam tal conduta e/ou pertencem ao mesmo séquito, pois, não só aqueles que fornecem tal “espetáculo midiático”, como veremos em uma das obras aqui escolhidas, são os responsáveis por seu desastroso final. Existem os cumplices. Podemos ser nós; escondidos por detrás da TV, sentados em confortáveis poltronas, fornecendo todo o necessário IBOPE que alimenta esta prática. Obviamente que não se pode generalizar, e não é esta a intenção. Mas utilizando-se de tais filmes, ambos servem de alerta para toda e qualquer pratica humana que mascarada de seus reais interesses, costumam atropelar o respeito e a dignidade humana com outros fins.

As vezes compramos sua versão em papel.

        Em tempos de sequestros relâmpagos, de assaltos e homicídios transmitidos em tempo real para todo o mundo, com uma velocidade incomensurável e dotada de uma narração quase futebolística, é que o filme “A Montanha dos Sete Abutres”, de 1951, do genial diretor Billy Wilder, apresenta toda a sua contemporaneidade. Em linhas gerais, sem querer apresentar todos os traços do filme para não retirar a graça daqueles que pretendem degusta-lo, a película apresenta justamente uma acida critica ao sensacionalismo midiático, personificado na figura central do impetuoso jornalista Chuck Tatum, magistralmente interpretado pelo grande ator Kirk Douglas.

A Montanha dos Sete Abutres: A Exploração da Desgraça Humana em destaque.

        Tatum é um jornalista despedido dos principais jornais de Nova York devido aos seus excessos de confabulações de noticias, aos seus envolvimentos com esposas de editores, enfim, é tudo que pode ser considerado como deplorável no meio da ética jornalística. Daí então Tatum “exila-se” em uma pequena cidade do Novo México, onde irá trabalhar em um jornal regional apenas para a sua sobrevivência. Incomodado com a falta de grandes manchetes e pela pouca sorte de oportunidades de utilizar todo o seu “talento literário” na arte do rebuscamento sensacionalista, Tatum então, por sorte ou agrura do destino, acaba se deparando com a história um mineiro soterrado em uma caverna localizada na Montanha dos Sete Abutres. 

Kirk Douglas interpreta o ambicioso e pragmático Chuck Tatum

            Ávido por uma grande manchete que lhe faça recuperar a fama de outrora, desde o principio Tatum vai transformar a triste situação do mineiro em um circo onde o que menos importa é a salvação daquele ser humano. Pelo contrário, para Tatum o que importa é que aquele permaneça naquele buraco, soterrado e sem respiração, o máximo de tempo possível, que seja uma semana, ou um mês, lhe conferindo tempo para escrever seus exclusivos artigos diários. Sim, exclusivos, porque Tatum com sua ardilosa retorica vai fomentando relações sociais de contato com as principais autoridades locais, como por exemplo, o Xerife que é ao mesmo tempo Prefeito, garantindo que toda aquela situação pode ser benéfica para todos, desde que permaneçam aliados. 

O Mineiro Leo Minosa: Seu interminavel sofrimento é a escada da ambição alheia.

           Enfim, o filme aborda muito mais questões que aparecem em torno da triste história do mineiro Leo Minosa, como a cumplicidade da população em torno daquele circo, os interesses familiares e etc. Daqui não passarei, pois o melhor a se fazer é assistir a película.
O Circo armado em torno de Leo Minosa: Curiosidade e Exploração.

        Mineiro, caverna, buraco, escuridão, jornalistas, circo armado. Não quero ocasionar polêmica criando uma analogia quase esdruxula em relação aos “Mineiros do Chile”, pois não é o fato em si quem carrega o sensacionalismo, mas sim a maneira, ou postura editorial tomada pelos meios midiáticos procuram abordar tais questões. Daí nada mais do que justo mencionar que há grupos que praticam do mais puro sensacionalismo, como também há boas e necessárias exceções que só se preocupam em noticiar, como reza a boa cartilha da ética da Informação.


Mineiros do Chile: Será que o tratamento dado ao caso foi o mesmo?





         Por Conseguinte, uma outra obra da mesma época nos ajuda a suscitar outras considerações de ordem tão polêmica como as que esta primeira película também procura questionar. O Filme “A Embriaguez do Sucesso”, de 1957, do diretor Alexander Mackendrick, aprofunda mais ainda tais questões, ao refletir sobre os bastidores do meio jornalístico, e todos os jogos de interesses e atrativos que podem e em muitos casos existem na execução desta tarefa.   

A Embriaguez do Sucesso: O Cinismo Midiático

               Por meio da conflituosa relação entre um ambicioso assessor de imprensa chamado Sidney Falco, interpretado pelo grande ator Tony Curtis, e pelo impetuoso e mau caráter colunista J.J. Hunsecker, interpretado por outro grande chamado Burt Lancaster, o filme narra a linha tênue envolvendo o jogo de interesses pessoais, a difamação e destruição de pessoas, ou até a elevação de outras por meio de interesses pagos (aqui no país conhecido popularmente como Jabá), entre outras questões. 

Tony Curtis a esquerda como Sidney Falco, e Burt Lancaster a direita como J.J  Hunsecker.

O Foco principal da película está justamente na manipulação das colunas jornalísticas; na maneira como diante de tal obscuro jogo de poderes, conversas afiadas em bares noturnos de Nova York, onde conversam os grandes figurões do país como senadores, políticos, outros colunistas, e assessores ávidos como Falco, doidos por qualquer fofoca para vender e assim plantar suas noticias a quem lhe pagar melhor. Outras questões mais profundas também são abordadas. O Conselho é o mesmo dado em relação ao primeiro filme: Vale conferir e tirar suas próprias conclusões.
        Dito isto, encerro esta postagem ratificando novamente como o Noir, gênero a que se encaixam ambos os filmes, deve ser sempre uma categoria, que por mais que não tenha definição concebida, aliás, que assim seja, pois nunca foi sua intenção, sempre lembrada pelos amantes do Cinema como um filão importantíssimo cinematográfico e de crítica social.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Por detrás dos olhos de Christiane...

    ...Encontramos a mais bela e perfeita demonstração do que o gênero fílmico conhecido como “Terror” deve nos proporcionar. Christiane, seus olhos e sua mascara, como também sua camisola branca e comprida, fazem parte de uma película chamada “Les Yeux sans visage”, que em bom e claro português pode ser traduzido como “Os Olhos sem Face”.
Poster do filme à época (1959).
       Estranho. Um Filme etiquetado como pertencente ao mundo do Terror originário da França. Foi a minha primeira impressão preconceituosa, como se o grande Cinema francês, a qual, que fique claro, sou fã, não pudesse ter criado suas películas com o fio condutor do medo e do horror.  Causando-me mais surpresa ainda, tratava-se de uma obra de 1959, dirigida por um cineasta de nome Georges Franju, que havia fundado a Cinemateca francesa, com seu amigo Henry Langlois e Jean Mitry em 1936.

O Jovem Georges Franju na direção de " Olhos sem Face".
        A Cinemateca francesa se tornaria primordialmente o grande palco dos debates cinematográficos de Paris, onde convergiam as grandes expressões do cinema francês de outrora, e aprendizes dispostos a aprender com aqueles mestres; todos juntos com um proposito claro de restauração e preservação de filmes mudos ou tidos como perdidos, em grande parte dos Irmãos Lumiere e de Georges Melies, grandes patronos do Cinema Mundial.
        Só por isso a Cinemateca já justificava o seu culto. A Questão é que esta conseguiu se superar em seu estatuto existencial. Mais tarde, ao fim dos anos 1950, e inicio do acalorado anos 1960, ela se tornaria o grande palco de debates e de efervescência cultural de todo o país, quando a França se via revolucionada pela ação juvenil, pelas forças estudantis, e, sobretudo, por um novo paradigma cultural e porque não filosófico, que seria refletido na aclamada Nouvelle Vague, ou Nova Onda Francesa.
        Com a Nova Onda, os diretores, roteiristas e cineastas franceses em geral que pertenciam a esta tendência, subvertiam toda a ordem social, refletiam nas telas o que a efervescência juvenil carregava em estandarte nas ruas de Paris. Toda a estrutura clássica do filme passava a ser rompida; o fluxo linear era substituído pelo campo dos sonhos, o real era invadido pela ilusão, e a Poesia podia ser alimentada pelo Terror. Não havia dimensões impossíveis para esse movimento.


A Agitação popular e intelectual era comum diante da Cinemateca.

         É daí então que a nossa película em destaque acaba ganhando toda a sua carga fantástica. Se a poesia podia se alimentar do Terror, e o Terror podia ser descrito em linhas poéticas, talvez nunca na história do Cinema, houve uma obra poética tão surreal e fabulosa como “Olhos sem Face”.
      Georges Franju é um poeta da beleza escondida nas sombras do Horror. Isso é tudo que vemos em sua película.  Nesta, Franju, executa toda a sua genialidade de anos no meio cinematográfico, para levar à cena a adaptação fílmica de um aclamado romance francês de mesmo nome, escrito por Jean Redon. Não é um filme de terror como nos acostumamos hoje em dia. Não há sangue correndo em demasia, muito menos tripas escorrendo. A Obra recorre ao estatuto do Terror em sua essência máxima, quando assustar significa atrair o expectador e pegá-lo de surpresa na hora mais improvável: a Hora do Susto.
        O Medo se incrusta em cada quadro do filme, cada caminhar de seus personagens, cada dialogo traçado, em todo o delinear da trama. Esta é a grande sacada do filme. É uma Poesia do Terror vivo, do horror sublimado. Para assustar não é necessário sangue, tripas, ou todo tipo de nojeira em geral como nos acostumamos a ver no gênero slasher; mas sim basta deixar o dito falar pelo não dito. Ou o não dito, expressar o dito. Enfim, o terror está no que está para acontecer, e no que está em suas entrelinhas.
        Particularmente, eu nunca vi nada igual. Alguns podem considerar exagero da minha parte. Garanto o meu respeito às opiniões adversas; mas minha aclamada postagem se baseia no que considero um primor de resgate do terror e/ou suspense como forma de expressão das agruras da humanidade, ou como face até do real, do passível de se tornar vivo, como bem era retratado, por exemplo, nas obras de Edgar Allan Poe.

Edgar Allan Poe era o Poeta da Morte e do Terror.
         Por isso tudo é que Christiane me assusta muito mais do que Jason ou Freddy Krueger. Aquela magrela menina, de media estatura, de pernas finas, de olhar doce, chorosa e de caminhar adolescente, é o terror vivo da existência humana. Sobre estas considerações é que a película irá se justificar.

Christiane: Como esta jovem poderia assustar?

        Enfim, se a curiosidade deve se centrar no filme a este momento, eis então que rapidamente, ainda que com toda dificuldade possível, tentarei então abordar alguns pontos importantes da obra. Em primeiro lugar, a fotográfica e os quadros do filme por durante todos os seus noventa minutos de execução, são fantásticos. A Trilha sonora de do francês Maurice Jarre é sensacional, causando a cada minuto, a partir de uma balada de horror, um tormento incomensurável.

Maurice Jarre e sua música atormentadora.
         Não quero me alongar muito mais, vou direto ao centro da história. Esta, narra a triste história da família Genessier, que após um acidente de carro, acabam tendo toda a sua trajetória transmutada. Christiane, filha do aclamado cirurgião plástico Dr. Genessier, acaba tendo sua face desfigurada neste infeliz acidente do destino. Bela jovem era ela. Agora sua face não era mais do que uma carne crua e queimada.
O Cirurgião e Pai de Christiane: Dr. Genessier.
         Não, isso não nos aparece no filme. Somos poupados. E por este artificio é que o filme se torna cada vez mais acabrunhante. A Cada minuto queremos ver o rosto da bela Christiane. Deparamo-nos então com, talvez, o maior efeito de terror de todo o filme: Uma mascara, aparentemente de silicone, ou qualquer material cirúrgico. Ora, uma mascara incolor poderia assustar?! Sim, e muito!

Uma Mascara sem expressão.

       Na película há sempre um jogo entre a escuridão da casa dos Genessier e o andar fantasmagórico de Christiane com sua mascara protetora que muito lembra os efeitos obscuros do Expressionismo Alemão, com obras como " O Gabinete do Dr.Caligari", de Robert Wiene, rodado em 1920, que certamente inspirou o jovem Georges Franjou nos tempos de Cinemateca . 

O Jogo da Escuridão no " Gabinete do Dr. Caligari": Traço fortíssimo do Expressionismo Alemão.
Christiane na escuridão de sua mansão: A Claridade estava somente no seu rosto e na sua manta fantasmagórica.

            Mas eu sei que devem estar me perguntando: Qual o fio condutor da obra?! Sim, acontece que o Dr. Genessier, inconformado com a atual situação da filha, uma jovem agora sem futuro, desolada naquela Paris onde pululava a beleza e o ardor da juventude, aquela sua menina confinada dentro de sua enorme mansão, vai então elaborar uma maneira cirúrgica, obviamente antiética, para retirar a pele facial do rosto alheio e transportá-lo para sua filha, sem que este corpo novo a recuse.
      Obviamente que esta “transferência de pele facial” não se daria de forma pacifica. Para isto, o Dr. Genessier se utiliza dos dotes de sua fiel enfermeira, a belíssima Louise que vai até Paris para aliciar jovens e belas garotas cujo tipo físico facial se assemelha ao de Christiane. Aqui há outra grande sacada do cineasta Franju: Nestas situações, há sempre uma situação de lesbianismo sempre dissimulada. Louise vai até os cafés de Paris, até os cinemas, e sempre através de uma palavra doce, consegue atrair a todas as jovens para seu nefasto fim. Apesar disto, como em todo o movimento da Nouvelle Vague, Franju também em sua obra dá a mulher um papel crucial e de destaque em toda a película. Aliás, elas são o centro de tudo. 
Louise: A Sedução e a Morte em um dissimulado lesbianismo.

          Louise é uma mulher decidida, e todas as jovens que por ela são aliciadas, são jovens garotas com dezoito anos, sozinhas em Paris, assistindo filmes no Cinema – Uma Metalinguagem assumida – curtindo a vida e a liberdade sexual a todo ardor comum na Paris à época. Em outros momentos, também veremos como a mulher será retratada em toda a sua liberdade possível, ainda que em situações complicadas.
         Após aprisionar estas jovens, o Dr. Genessier começa as suas experiências, que sempre acabam mal fadadas. Nenhum daqueles rostos, ou daqueles tecidos, consegue se adaptar ao rosto de Christiane, que sempre acaba necrosando, e fazendo com que aquela volte a usar sua mascara tão simples, e ao mesmo tempo, tão metaforicamente horrenda. E à medida que os insucessos ocorrem, o cirurgião cada vez mais se desespera. Na mesma proporção são os cadáveres acumulados e enterrados em um tumulo onde supostamente estaria enterrada a sua filha Christine. Sim, isto porque após o acidente, o cirurgião fingira que sua filha havia morrido, para em sua paz, tentar reconstruir, sem tormentos, a vida daquela.

O Rosto perfeito da bela Chistiane após uma das muitas cirurgias...

Contudo a Necrose vem logo em semanas...
E com isso também a decepção de seu pai e sua mascara novamente..
       Paralelamente a esta vida particular, Genessier é um médico aclamado, palestrante, e um ótimo cirurgião. Em algumas cenas vemos como ele é atencioso aos pacientes do Hospital em que trabalhar. É um sujeito frio, mas correto. Este também é um ponto fortíssimo da obra. Genessier é humano, não é um personagem estereotipado, sem caráter e com a maldade aflorando a alma. É um homem atormentado pelo amor a sua filha, e cada vez mais pragmático em seus objetivos. Difícil de aceitar e justificar eu sei, mas enfim, é o que Genessier acaba se tornando.

Genessier: Um otimo pai e um excepcional médico. Um ser humano.
           Seus planos passam a se encontrar em dificuldade, quando a jovem Christiane não aguentando mais o enclausuramento naquela mansão escura, fria e doentia, acaba ligando para seu antigo namorado, também médico e auxiliar de seu pai, e a duras palavras assobiadas de fundo de suas cordas vocais, pronuncia: “Jacques...”. 

Ao telefone, o suspiro: "Jacques.."
           Cena fabulosa e agoniante esta, de forma que o filme então entra em sua fase final, quando a polícia começa a investigar indícios sobre a vida particular do cirurgião e o sumiço das moças de Paris; enfim, o que poderia haver de comum. 
         Neste momento uma jovem também belíssima chamada Paulette entra em ação. Esta é uma libertina jovem, que em sua cena inicial é demonstrada em apelos na cadeia para ser libertada. Para então o ser, o investigador arma um esquema para ela se colocar dentro do Hospital do Dr. Genessier visando descobrir algo. 
         Nenhum resultado para a Policia, mas ela acaba sendo também aliciada sem perceber por Louise na saída do hospital. Enfim, em uma das cenas mais fabulosas do filme, ela se acorda em uma maca de operação na casa do Dr. Genessier, e caminhando como um fantasma alucinado caminha a jovem Christiane atormentada. Aos gritos, Paulette lhe suplica a vida, pensando que encontraria a morte. 
       Mas a surpresa acontece: Christiane a solta, e ainda por cima assassina Louise e solta uma enormidade de cachorros – que eram utilizados por seu pai em larga escala para experimentos científicos – que acabam atacando seu pai o Dr. Genessier, e em um final belíssimo e absurdamente poético, Christiane com sua mascara, caminha nos jardins de sua mansão, e em seus ombros, pombos também libertos por ela, a seguem para um caminho que não se sabe qual destino.

Os cachorros experimentais são soltos: O Dr. Genessier pagará por seus pecados.
E os pombos apesar de libertos, não querem largar Christiane: Ela também desejou voar dalí.
Foi então que ela voou, mais sozinha do que nunca: Com sua face branca e vestidos brancos compridos.
            Enfim, como se pode perceber, o enredo não é nada fora do comum, mas, o absurdo e fantástico é justamente o modo como isto tudo é levado a cabo, cena a cena, dialogo a dialogo, respiração a respiração. Os diálogos são altamente significativos, as explosões de sentimentos, os rompantes de agonia de Christiane, a anunciação da violência por parte de Dr. Genessier sempre se anunciando, são algumas características que irrompem da obra para estas simples e descomedida postagem.
        Não há mais nada o que dizer. Até porque não consigo ultrapassar mais.
Dos Olhos mascarados de Christiane se anuncia a menção de que você deve assistir a película para entender, concordar, ou refutar tudo o que foi dito acima. Só não deixe de assistir, e tirar suas próprias conclusões sobre este filme surreal e fantástico filme de terror cujo enredo pode ser tão próximo a nossa realidade, ou sobre um filme de terror que não causa muito medo.
Christianne: Grandes olhos em destaque em meio a escuridão e a brancura.
        
         De uma coisa eu sei, esta película me agradou demais. Agora, pode ser que ao ver uma pessoa com mascara de silicone eu sinta ou não medo, mas, pensarei sempre, que por trás da mascara, os olhos agonizantes de Christiane podem estar à espreita. Espero, que por detrás da fantasia e de frente a realidade, nunca que me apareça na vida, verdadeiros olhos sem face – Les Yeux sans visage. 

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

domingo, 5 de junho de 2011

O Cinema - Denuncia de C.Gravas em Amém: O Reich e suas relações com o Vaticano.

       As produções cinematográficas incidentes sobre a Segunda Guerra Mundial sempre irromperam como um grande gênero fílmico há muito tempo explorado pelo Cinema, graças ao seu teor provocativo e histórico, o qual reconstruindo um assunto ainda do tempo presente, cujas feridas e chagas ainda perduram nos nossos dias, continuam ocasionando altas doses de emoção no público consumidor de tais películas.
             Ademais, alguns filmes dentro desse gênero conseguem fugir, no entanto a certo clichê que rodeia a produção destes filmes do gênero bélico: Grande maioria costuma em muito apenas se aventurar por narrativas épicas, dotadas de grandes heróis, com recriações que muitas vezes apenas servem como um divertimento fugaz, negligenciando fatores de ordem psicológica que podem ser inteiramente incluídos na obra, enriquecendo-a até como ponte para todo este contexto histórico absurdamente complexo e traumatizante que se apresenta a guerra.
            A Película “Amém” é uma destas obras que conseguem distinguir-se desse gênero clichê. Não é atoa que sua separação esteja diretamente ligada aos autores de sua produção, em especial, seu diretor, o grego Constantin Costa – Gravas. 
Costa - Gravas : Uma Câmera e uma Denuncia.

               Nascido em 1933, o cineasta grego, mas radicado na França, Costa – Gravas ficou conhecido pela crítica, sendo muitas vezes por isso aclamado pela mesma, pelo alto teor crítico e de denuncia que perfazem as suas obras.  Aos 36 anos, em 1969, ganhou notoriedade com sua obra “Z” onde narrava os horrores da ditadura militar na Grécia durante os anos 1960, pouco conhecida no Ocidente Europeu, e a partir dali então esta ganhara holofotes para a sua visibilidade. Com este filme, o jovem cineasta ganhara o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.
Z: A realidade da ditadura militar grega pelos olhos de um grego.
            Não obstante, sua linha cinematográfica o apresenta como um grande cineasta de tendência crítica, cujas obras em geral, denuncia alguma opressão ou violência sentida em algum momento histórico específico. Outra de suas grandes obras, - ratificando como Costa – Gravas se apresenta como um sujeito aberto às feridas mundiais, não apenas europeias – se chama “Missing”, do ano de 1982, que por aqui recebeu a tradução: “Desaparecidos, Um Grande Mistério”, a qual atenta para a ditadura militar chilena de Augusto Pinochet, na nossa América Latina.
Missing: Os Olhos vivos de Gravas se voltaram ao Chile.
           Logo, vistas todas estas considerações, não nos surpreende que a obra “Amém”, rodada em 2002, tenha recebido tantos elogios positivos, como também, ao mesmo tempo tenha suscitado revoltas em parte do público que a consumiu. Na França e na Alemanha, principais localidades onde se deu a sua rodagem em inicial, a reação do público ao mesmo tempo foram ambíguas: parte das críticas aclamou a obra pelo seu grande potencial psicológico e de denuncia, mas uma ala considerável, por fatores que demonstrarei adiante, recepcionou tanto a película como o seu diretor, portando as mais pesadas pedras nas mãos.
            A Origem destas pedras críticas é o que evidenciaremos agora.

Amém: Um filme extremamente corajoso.
          A película traz a tona, em linhas gerais, uma problemática ainda muito polêmica e porque não dizer ainda não satisfatoriamente respondida, que é justamente a participação da Igreja Católica, de sua cúpula maior do Vaticano, nos eventos que caracterizam a Segunda Guerra Mundial. Em suma, Costa – Gravas procurar perscrutar psicologicamente de qual forma o Nazismo e seus eventos já conhecidos por todos, foram recepcionados pelo Vaticano, e de que forma este pode ter se omitido ou contribuído na resolução de tais fatos. Por si só, esta breve sinopse, já explicaria o porquê das pedras que voam, pois por assim dizer, não menos que uma grande parcela da fervorosa população católica francesa da época, e toda a Cristandade, repudiou o filme, considerando indigna a fé católica, caluniador por certo.
            Mais obviamente que se tratando de um cineasta como Costa – Gravas sua intenção não seria causar reboliços com a Igreja e seus fieis, para obter público através de um mercado fomentado pelas polêmicas religiosas, mas, sobretudo, sua denuncia está decididamente calcada em raízes e indagações de teor histórico. Ainda hoje nos perguntamos e vemos o quão é complicado entender a participação do Vaticano, em especial do Papa Pio XII, em relação aos eventos daquela dita guerra, procurando entender quais tipos de relações sociais e econômicas poderiam ter ocorrido entre a cúpula eclesiástica romana e os nazistas.

Papa Pio XII e Hitler: Muiitos possíveis acordos firmados.
            Não pretendo trazer aqui um resumo da película, o maldito conhecido como spoiler que tanto causa raiva aos amantes do Cinema, pois tiraria toda a graça daqueles que porventura irão assistir a esta obra, motivados ou não por esta postagem. Em comentários gerais, abordarei apenas algumas questões cruciais, mormente ao eixo central do filme, que são personificadas e vivificadas nas falas das personagens principais, um soldado SS e um jesuíta italiano.
            O Filme conta a história de um soldado SS chamado Gerstein que trabalhando em pró da erradicação da febre tifoide e da proliferação dos vermes em geral, acaba tendo o resultado de seus estudos desviado na utilização errônea do chamado Zicklon B, como gás letal para as recém-criadas câmeras de gás nos campos de concentração do Reich.

Zyklon B: Morte imediata!
        Sim, leia-se recém – criadas, pois este é outro fator interessantíssimo do filme, pois ao contrário de outros que procuram abordar somente a Guerra em movimento e a Alemanha como um produto acabado como se até o iniciar da guerra em 1939 não tivesse ocorrido transformações internas levadas a cabo por anos, esta então tem sua temporalidade iniciada em 1936, quando o Reich ainda transformava os professores universitários em químicos eugenistas, e os hospícios alemães passavam a ser veladamente transformados em mini – campos de concentração, tendo seus pacientes, deficientes e loucos em geral, sido mortos naquelas localidades, porque se apresentavam como de altos custos e desnecessários a política ariana alemã. 
        Aliás, uma das mais dramáticas cenas do filme reside justamente neste ponto: Logo no inicio do filme, uma enormidade de pacientes de hospícios alegres saudavam aqueles que seriam seus carrascos, aos gritos de Sieg Heil. Pouco tempo depois, seriam colocados em um banheiro, e por meio da fumaça de um caminhão, foram mortos por asfixia. O Genocídio e/ou matança começara muito antes dos holofotes da Guerra, e isso é um dos elogios a serem feitos por esta película de Costa – Gravas, pois ele traz isso à tona.
       Ainda dentro desta premissa, outra cena choca e demonstra como toda a operacionalidade nazista atingia, e, sobretudo se justificava e fazia funcionar, através da educação de seus infantes alemães. Em uma cena, a jovem garotinha filha do SS Gerstein, está resolvendo suas tarefas da escola. Uma das indagações é justamente um problema de matemática que perguntava quantas casas para os arianos poderiam ser feitas com a economia obtida pela destruição dos hospícios de toda a Alemanha? Obviamente levando-se em consideração o Fator X determinante que seria a eliminação de seus componentes.
            Enfim, inconformado com esta situação, o obstinado soldado Gerstein inicia uma luta para acabar com este massacre de judeus, deficientes, e pessoas em geral, procurando anunciar a todas as fontes possíveis, o mal que tem sido feito na Alemanha. Seu canal fiel será o jesuíta italiano Ricardo Fontana, que filho de um conde próximo ao Papa Pio XII, tentará de tudo para acabar com esta situação, agindo dentro das redes sociais do Vaticano.
Ricardo Fontana e o SS Geirstein: Um Jesuita e um SS cristão.
            Neste momento é que a problemática central e mais complexa do filme se apresenta, pois durante mais de 120 minutos do filme somos levados aos questionamentos do jesuíta, a sua luta para que o Papa Pio XII e os cardeais romanos evoquem seu poderio da Cristandade para anunciar todos aqueles crimes, podendo assim tentar salvar os judeus, os deficientes, os negros e ciganos, todos aqueles que estavam sendo aniquilados pelas forças nazistas.
Somos arrastados até um embate moral onde ora pensamos que a Igreja procura auxiliar os oprimidos, e ora temos a mais certa certeza que a Igreja se omite e até contribui na consecução daqueles eventos. 
Pio XII:  De mãos dadas com a culpa?
          Em todos os momentos do filme, o jesuíta Ricardo Montana, que é fictício, representa uma luta ínfima dentro da Igreja para abrir os olhos e ouvidos dos poderosos do Vaticano, mas sua luta é cega, é ineficiente, pois os interesses papais e eclesiásticos se sobressaem a qualquer outro fator que possa aparecer. E é esta questão que justamente nos aterroriza: Em muitos momentos as rusgas existentes entre o Vaticano e o Nazismo são frutos apenas de querelas oriundas por impostos ou questões de ordem monetária, enquanto que a situação judaica e todos os levados aos campos são decididamente esquecidos e deixados à revelia.  A Igreja se defende, jurando que procura assim se “manter neutra”, e apenas abre sua boca quando são os “convertidos” que passam a ser levados aos campos.
            Quando se espera que o Papa Pio XII, as vésperas do Natal de 1942, exercite sua fala em pró daquelas vitimas, ele apenas recita as seguintes palavras:A humanidade deve esse voto às centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa pessoal, às vezes apenas por razão de sua nacionalidade ou raça, estão marcadas para a morte ou extinção gradativa.”.
 
Omissão do Papa Pio XII?!
        Este foi o seu maior revérbero durante a guerra, e percebemos que em nenhum momento foge de um comentário abstrato, quase um clichê camuflado em uma benevolência ocultada por interesses diversos. Não há indignação em nome dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, negros e etc. Aliás, nenhum desses nomes é citado em todos os seus discursos durante aquela época. Uma cena bastante bela e não menos pesada acontece quando indignado após este discurso, o jesuíta Ricardo Fontana, imprime sobre sua bata de jesuíta, uma estrela de Davi para desespero e indignação daquele clero romano, mais preocupado com outras questões.
            Enfim, daqui para frente, eu não prossigo mais, pois seria adiantar fatos e questões que anunciariam todo o restante do enredo do filme. Ademais, para concluir, apenas reafirmo a indicação desta película, para aqueles que desejam fugir um pouco do clichê bélico, perscrutando as inúmeras perguntas que ainda esperam respostas que possam explicar as raízes daquele evento, e, sobretudo, dos participantes da mesma.  
            Se o Cinema pode ser um eficiente canal de denuncias e reflexões, com “Amém”, Costa – Gravas consegue levar esta prerrogativa com total eficácia, legando a todos aqueles que sempre se inquietaram com estas questões, a obrigação de assistir a este filme, e refletir sobre os ocasos, omissões e culpas que a humanidade deve carregar, quando aqueles lavam as suas mãos, e gritam “Amém” para estes atos horrendos.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.

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