terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Entre o Sorriso e a Cura: Um Olhar ao filme "Patch Adams: O Amor é contagioso".

Antes de tudo, eu sei que essa análise vai acabar se demonstrando e/ou apresentando como uma crítica amarga ou desnecessária sobre a película em questão. Mas não tenho como evitar. Na verdade até teria, mas não quero evitar. O proposito desta postagem não é macular a imagem do filme, que é deveras fantástico dotado de um grande poder dramático e de uma mensagem belíssima, cuja força reside na história real de um sujeito extremamente fora do comum, absurdamente extraordinário, chamado Hunter “Patch” Adams.
         Na verdade, a crítica não residirá sobre os aspectos técnicos do filme, mas sim, sobretudo no que concerne a alguns pontos importantes dos bastidores de sua produção, que de certa maneira, nos ajuda a evidenciar um certo paradoxo adotado pela produtora do filme em questão, quando posto frente às ações e atitudes do biografado. Em linhas gerais, para ratificar a minha crítica – que não é corrosiva – vai se basear, como um “referencial teórico” mais do que incontestável, nas palavras do próprio Patch Adams, o sujeito real e histórico.


Capa do Filme " Patch Adams: O Amor é contagioso", de 1998, dir: Tom Shadyac.

          Portanto, me seguro em uma fonte mais do que segura e confiável para analisar os bastidores e a execução do filme: o próprio Patch Adams. Como dito, a idéia não é atacar o filme, belíssimo por sinal, que tanto emocionou o mundo, e de maneira singular, soube apresentar ao mesmo, a figura deste “singular” médico americano. Uma comédia leve, com bons tons de drama, esta película tornou-se dentro de pouco tempo – o filme foi rodado em 1998 – um clássico instantâneo da “Sessão da Tarde” ou daquelas manhãs de “Cine Educativo” quando as nossas professoras na época do colegial, procuravam passar este filme para fomentar o espirito critico e de bons valores nos alunos.
         O Filme também é bastante cultuado em meio acadêmico, pois não é atoa que muitos professores do curso retratado na película – que é o de Medicina – constantemente se utilizam do mesmo, nos períodos iniciais do curso, para suscitar a emoção dos discentes e encaminhá-los a prática de uma conduta médica próxima ao retratado no filme. 


Hunter "Patch" Adams: O Biografado.

           Enfim, paralelamente a análise de alguns pontos importantes na reconstrução fílmica do biografado, nos interessa entender como o Cinema se apropria da trajetória de vida de uma personagem em destaque, e, sobretudo como, a partir deste momento, este meio midiático de massas poderia causar um impacto profundo, contribuindo para a elevação dos ideais tão centrais na proposta de vida do biografado. Isso tudo vale ser dito por que, curiosamente, a película e principalmente os bastidores de sua produção, acabaram não agradando tanto ao Patch Adams Real, justamente pela carência da efetivação dos acordos feitos quando foi iniciada a roteirização e a proposta do filme.

Robin Willians foi o escolhido para interpretar magistralmente Patch Adams nas telinhas..

          Em resumo, eis a sinopse da película: O Filme nos leva aos caminhos de redenção de Hunter Adams, sujeito amargurado com os traumas de sua Infância e Adolescência, que de tal maneira, procura por livre arbítrio, se internar em um hospital psiquiátrico para contornar sua vida. Estando lá, acaba aprendendo com os pacientes do recinto – e não com os profissionais do local – que a vida deve ser vivida através da amizade, da troca de amor, e que só assim o mundo se encaminharia para um desfecho feliz para todos; para a cura das doenças, para a valorização do ser humano como pessoa. 
         Daí em diante, a película nos mostra Hunter Adams, agora apelidado de “Patch” por seus amigos do hospital psiquiátrico, adentrando ao mundo acadêmico, onde se torna em especial o melhor aluno da instituição, com as melhores notas, despontando a inveja de outros no local, e a raiva da alta cúpula que é absurdamente egocêntrica e trata aos pacientes como coisas, como números.


Patch é o aluno mais velho de toda a Universidade; por conta de suas ótimas notas, desponta a inveja dos outros alunos e a ira do reitor por suas atitudes "malucas".

         O Caminho trilhado por Adams é de justamente alertar para a necessidade efetiva da mudança desse paradigma: Fazer do ato médico, da prática da medicina, uma atitude de amor ao próximo, num sentido mais amplo do termo. Não é apenas medicar e evitar a morte, mas como também aconselhar, afagar e ouvir os sonhos de seus pacientes. É procurar “saber o nome” dos pacientes e não apenas receitar o comprimido do “sujeito com câncer no pâncreas”.
         Como todo sujeito idealista ao extremo, Patch Adams acaba encarando muitos entraves, principalmente pela alta cúpula da instituição, que em muitas ocasiões acaba interferindo procurando expulsá-lo da mesma, por conta justamente de sua metodologia de trabalho, que é descrita na pauta da expulsão como de “exagerada felicidade demonstrada”. Como se isso fosse um erro a ser impelido.


Cena fantástica do Filme: Patch transformando um instrumento médico em um simples nariz de palhaço para a alegria de uma ala inteira de crianças com cancer. Tudo feito as escondidas é claro!
           
              Enfim, o filme consegue fazer uma justa homenagem a Patch Adams, ainda que para isso se utilize é claro de “Licenças poéticas” comuns ao meio cinematográfico, bastante entendível é claro, pois Cinema também é Mercado. No filme, Adams constantemente afirma a seguinte frase: “O Riso é o melhor remédio”, mas Patch em entrevista ratificou que nunca afirmou tal frase; Na verdade havia dito em uma de suas obras que o amor e a amizade são o melhor remédio, e em um sentido bastante ampliado do termo. Não se deve apenas fazer sorrir a pacientes, mas viver em harmonia com todos no mundo, desde a enfermeira até o sujeito que você encontra embriagado na esquina.
         Outro ponto interessante a ser observado é que na película, uma namorada de Adams acaba sendo assassinada por um paciente, o que na verdade não ocorreu na realidade. Foi um amigo de Adams quem foi assassinado. Obviamente que a inclusão desta mudança se insere dentro de uma necessidade fílmica de recriação dramática de um romance interrompido, e etc.

Dr. Patch Adams: De uma Infância traumatica; da Tentativa de suicidio ao Hospicio; Para o Mundo da amizade e do sorriso.

           Enfim, cheguemos ao ponto que realmente interessa: Hunter “Patch” Adams foi, e é, já que ainda está vivo – no auge dos seus 65 anos – um sujeito mais do que humanamente dotado de valores necessários à humanidade e que parecem esquecidos nos dias de hoje. Patch Adams é um médico “subversivo”, que muito além da sua metodologia do amor, da amizade e do riso, encara e critica de frente, as agruras de seu tempo.
         É nesse ponto que enrolamos um pouco para chegarmos agora. Recentemente, no ano de 2007, o médico americano, que até hoje viaja o mundo todo com seu grupo de médicos – palhaços, contribuindo em locais de guerra pouco visitados, zonas afastadas e etc., acabou visitando o Brasil, de forma que recebeu então o convite da Rede Cultura para participar do conceituado – e, diga-se de passagem, ótimo – programa “Roda Viva” onde passaria por uma sabatina de entrevistadores de vários gêneros sobre várias temáticas.

Patch Adams no "Roda Viva" em 2007: Críticas ao Mundo em Geral.


O Resultado da entrevista foi surpreendente. Adams criticou desde o governo americano em geral e a promoção de suas guerras, ao sistema falido de saúde americano, que privilegia as companhias de saúde em detrimento dos pobres – para entender, e só assistir ao documentário “S.O.S Saúde” de Michael Moore -, entre outras críticas, até a correção de alguns aspectos apresentados no filme.

O Documentário "S.O.S Saúde" de Michael Moore nos ajuda a entender a realidade dos hospitais e planos de saúde em um país de "primeiro mundo" como os Estados Unidos.

         Isso tudo surpreendeu aos entrevistadores que certamente esperavam a apresentação de um bom velhinho médico, doce e afável em suas palavras – o que ele demonstrou ser, mas de uma forma realista e ativista – ao invés de um sujeito extremamente versado e critico frente a várias questões da sociedade. Daí então que nos pareceu bastante oportuno e curioso, apresentar algumas dessas questões. Segue então a transcrição de uma parte da entrevista, justamente seu inicio, quando Adams aborda sobre a película:

·        Sobre a opinião de Patch Adams acerca da película:

Patch Adams:

No início, fiquei constrangido com o filme. Sou ativista político, trabalho pela paz e pela justiça. Considero fascista o meu governo. Se não mudarmos de uma sociedade que venera dinheiro e poder para uma que venere compaixão e generosidade, não haverá esperança para a sobrevivência do ser humano neste século. Precisamos deter um sistema que, pela TV, estimula a concentração do dinheiro na mão de poucos. Então… Hollywood queria vender ingressos. Duas coisas vendem ingresso: violência e humor. Desse modo, preferiram enfatizar o meu esforço em abrir o único "hospital maluco" da história. Ignoraram o fato - falo de um país que se recusa a cuidar de 50 milhões de pessoas porque são pobres - de que luto pela medicina gratuita. Se me permitem – estou aqui na berlinda – posso corrigir algumas coisas do que foi lido?

·        Patch então continuou:

Não concordo com “rir é o melhor remédio”. Eu nunca disse isso. A amizade claramente é o melhor remédio. É a coisa mais importante na vida. São nossas relações com aqueles que amamos. Infelizmente, os meios de comunicação, sendo como são, muito antes de me conhecer, imaginam que rir seja o melhor remédio.
Então, quando escrevem o artigo, põem essa frase porque o fazem, na realidade, sem pensar. Também quero corrigir a idéia de que rir seja uma terapia. Também nunca penso em música como terapia, nem em arte, nem em dança. Nunca precisam da palavra “terapia”, que é pequena para ajudar. A arte não precisa de ajuda da palavra “terapia”. É a cultura humana. Não fazemos terapia de cultura. Se estamos saudáveis, fazemos cultura. Para mim, humor é contexto.
No nosso hospital, exigimos que o pessoal seja alegre, gozado, carinhoso, cooperativo, criativo e atencioso. É um modo para uma comunidade humana saudável integrar-se, para não haver violência, para um cuidar do outro. Portanto, nunca penso… também nunca penso na diferença entre levar humor para uma criança moribunda e ser cordial com um homem de negócios no elevador. Para mim, são experiências iguais.
O filme dá a impressão de que estou prestes a entrar no quarto de uma criança enferma e fazer palhaçada. É um filme bom e bonitinho, mas não faz o Brasil querer alimentar todos os cidadãos famintos e parar de matar o rio Amazonas. E eu quero proteger o Amazonas e acabar com a violência contra as mulheres no mundo inteiro. E o filme podia ter integrado isso tudo.
Consegui ficar mais tranquilo com o filme porque o mundo está tão faminto - até da versão condensada, mais simples de qualquer coisa ligada ao amor, porque o amor não está na TV, nem em nenhum lugar, não é ensinado nas escolas - que qualquer versão, até mesmo a versão hollywoodiana mais simples, o mundo aceita. Está faminto por si. Eu assisti. Era um filme internacional de muito sucesso. Estão famintos.
Podia ter sido um filme muito mais inteligente.
No mesmo ano em que Patch Adams foi lançado, Benigni lançou a Vida é Bela. É uma versão bem mais inteligente, com uma mensagem parecida. Sei que isso não é exatamente o que vocês queriam, mas como estou na berlinda, esta situação permite que a conversa tome rumos que as pessoas podem não ter pensado que pudesse tomar. Antes do filme, quando tentei levar palhaços à guerra da Bósnia, a ONU [Organização das Nações Unidas] levou sete meses para me dar a permissão. Disseram: “Como pode querer levar palhaços para a guerra? Isso não é engraçado!”.
Depois do filme, para a guerra em Kosovo, só levou quatro dias. E por causa do filme, grupos de palhaços do mundo todo visitam hospitais. Ajudou-os muitíssimo. Pessoas de mais de três mil projetos do mundo todo disseram: “Vi o filme trinta vezes, adorei! É o meu filme favorito. Abri esta clínica, esta escola, isto…” Mecânicos escrevem para mim: “Vi o seu filme, agora faço um trabalho honesto.” E assim, agora, sinto mais respeito pelas consequências, não pela inteligência do filme. 

·        Sobre a Veracidade de alguns fatos apresentados na película:

Sou um intelectual. Existem grandes filmes na história, este não é um deles. Este é um filme comercial de Hollywood. Quanto à veracidade do filme, na verdade, quem foi assassinado foi o meu melhor amigo. É humilhante para a família dele, mas eu o conheço. Ficaria feliz por ser interpretado por uma bela mulher [risos]. Iria convidá-la para sair [risos]. Lembra-se da cena da convenção de ginecologistas, das pernonas em cima da porta? [cena em que Adams é convocado a ajudar nos preparativos de um seminário de ginecologistas, os quais são recebidos, por obra de Adams, por uma grande armação em formato de duas pernas gigantes abertas, que convergem para a porta do auditório principal] Eu não faria aquilo, fui muito bem em anatomia feminina [risos].
O verdadeiro filme do banho de macarrão se viram a minha versão é muito mais engraçada e mais interessante [uma paciente terminal diz a Adams, ao ser questionada por ele, que tinha um sonho infantil de nadar em uma piscina de macarronada, desejo que é atendido por Adams].
Tudo no filme foi atenuado. Muita gente pensa, porque Hollywood é uma exageração. Na verdade, é uma atenuação. Fico muito triste porque o meu nome está em filme em que não há paz e justiça. Vocês viram, nesta entrevista, fiz com que fosse a primeira coisa sobre o que falar.

·        E por fim, Patch, ainda sobre as consequências e os possíveis impactos da película, respondeu a seguinte pergunta do entrevistador:

Ricardo Westin: Mr. Adams, você citou [que é] um filme de Hollywood, é um filme que não se cita a paz, a justiça, mas tem um lado positivo de ter incentivado pessoas no mundo inteiro a seguir seu exemplo, a palhaços entrarem em hospitais... Mas, no seu caso específico, esse filme ajudou a sua entidade a receber mais doações, a se construírem novos hospitais que estão sob sua responsabilidade?

Patch Adams: Fiz o filme porque não consegui arrecadar dinheiro durante 28 anos para erguer o que seria o único hospital-modelo do mundo para os problemas de que ouço falar por médicos do mundo todo. Por ser um hospital tão radical, ninguém quis me ajudar. A Universal Studios prometeu erguer nosso hospital. O filme rendeu mais de quatrocentos milhões de dólares. Ninguém ligado ao filme veio me dar nem um dólar [pausa]. Ele me ajudou a ganhar mais pelas minhas apresentações. Antes do filme, eu recebia 300 mil dólares por ano. Depois do filme, um milhão de dólares por ano. Não guardo dinheiro. Escolhi não possuir nada. Dou todo o dinheiro para podermos fazer mais. Também nos permitiu começar a erguer clínicas e escolas pelo mundo e a expandir a nossa atividade, mas não nos trouxe dinheiro para erguer o nosso hospital.

Quem deseja assistir a entrevista por completo, pode ver no vídeo a seguir:

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

[TOP10] Filmes de Charles Chaplin

Eis uma tarefa árdua e dificílima: tentar listar os 10 melhores filmes do gênio irretocável Charles Chaplin; Da minha parte não farei uma lista levando-se em conta apenas aspectos técnicos e a importância histórica das películas em questão; obviamente o gosto pessoal também conta como critério, ou seja, alguns desníveis de opção serão evidentes e fazem parte de qualquer lista – que por sinal, estou fazendo, mas só a efeito de curiosidade mesmo. 




Vou tentar justificar o injustificável, pois todas as obras são absurdamente geniais, estando a ordem da colocação apenas a efeito pessoal mesmo, ou seja, a distância de qualidade entre o primeiro colocado e o décimo é mínima, para não dizer ilusória, haja vista que é só compará-la com outras listas já montadas, nas quais o décimo colocado pode ser justamente o primeiro da minha lista em questão. Obviamente outros tantos filmes faltarão nesta lista!

 Segue a Lista:

1. O GRANDE DITADOR (1940)


         Talvez a maior obra produzida por Chaplin. A sua sátira corrosiva a Hitler já prenunciava – o filme é rodado em 1940 – os horrores do holocausto e da segunda guerra mundial como todo. Chaplin em sua genialidade artística se personifica como Hitler em Hynkell, e em um barbeiro judeu, numa capacidade de atuação que só ele conseguia engendrar. O Discurso final do filme é clássico, estando talvez entre os grandes momentos da história do Cinema, quando o autor se sobrepõe ao personagem, se apresentando como figura direta da História. 

2. LUZES DA CIDADE (1931)
    Belíssimo filme. Como descrever o indescritível? Foi o grande questionamento que me fiz após o termino da película. Rara beleza em um filme simples, porém com uma temática estonteante. Primeiro filme com toques de som – apenas no inicio do filme – Chaplin consegue guardar todo o romantismo do Cinema Mudo, e a partir daí, contar a triste e bela história do vagabundo Carlitos e da jovem florista cega. Com certeza, um grande clássico da Comédia Romântica. Carlitos é a doçura e a obstinação em movimento; a poesia da mentira de alguém que ama e passa por cima de tudo que irrompe como impedimento. 


3. TEMPOS MODERNOS (1936)
          Outro grande clássico que não precisa de muitos comentários; Com esta película, Chaplin mais uma vez abria a sua sátira a alienação e a selvageria do mundo moderno da industrialização, retratando também as mazelas e os problemas sociais oriundos desta industrialização em massa, que ocorre em detrimento da situação das classes mais pobres. É o tempo da fabrica quem rege toda a película. Clássico marcante; praticamente um item indispensável nas salas de aula, quando se quer discutir as consequências da Revolução industrial. Afinal, quem não assistiu a cena clássica de Chaplin sendo engolido pelas engrenagens na fabrica?!

4. O GAROTO (1921)

      Mais uma vez o vagabundo Carlitos passa por uma situação calamitosa que põe a prova todo o seu humanismo. A Cartela inicial do filme consegue captar com perfeição, toda a áurea fantástica do filme: “Um filme de sorrisos... mas de algumas lagrimas também.”.
          Belo drama que apresenta à atuação excepcional do jovem ator de seis anos, Jackie Coogan, a primeira criança a atuar em um papel representativo na história do Cinema; Coogan é um órfão que abandonado passa a ser cuidado pelo vagabundo, e com ele, vai aprender todas as artimanhas para sobreviver, se tornando quase quê uma copia irretocável do próprio Chaplin em todo filme. Fantástico. Um filme, como nos diz a cartela, é um misto de risos e lagrimas.

5. LUZES DA RIBALTA (1952)
        Penúltimo filme produzido por Chaplin se trata de um drama fortíssimo, onde Chaplin coloca toda a sua genialidade dramática a serviço do Cinema, ao interpretar um clown velho e decadente, que ao apaixonar-se por uma jovem bailarina, vê todos os seus derradeiros projetos de vida mudados.
             O Filme é também, com toda a certeza, um daqueles que apresenta um dos momentos mais mágicos da história do Cinema em toda a sua história: ter a oportunidade de ver contracenarem em um ato, os maiores gênios da comédia mundial em toda a sua história, o próprio Chaplin e Buster Keaton. A Cena é antológica, e para aqueles que são fãs disparados de ambos, é de arrepiar e não cansar de assistir; Chaplin e Keaton, ambos idosos, e já no termino de sua carreira, neste ato, procuram homenagear todos os palhaços do vaudeville – gênero que ambos foram formados – em uma estonteante passagem do filme. Indescritível. Chaplin e Keaton.


6. O CIRCO (1928)
        Praticamente um thriller policial; filme engraçadíssimo onde Chaplin homenageia novamente toda a uma gama de artistas circenses; nesta película, ao ser confundido com um ladrão, Carlitos se aventura ao se disfarçar de palhaço para esconder-se dos policiais que o perseguem. O Filme todo é uma correria de Carlitos para que não seja perseguido e preso por uma injustiça cometida.


7. O IMIGRANTE (1918)



Não é um filme; mas um excepcional e acido curta produzido por Chaplin logo durante a sua chegada aos Estados Unidos. Daí é que logo de cara Chaplin sempre se mostrou incomodado com as ilusões produzidas pelo “American Way of Life”. Neste pequeno curta de não mais que 20 minutos de duração, Chaplin mostra um sujeito sonhador que parte de sua terra natal na Europa, mas que ao chegar aos Estados Unidos, se depara com os maus tratos locais.
               Seria o cartão de visitas de Chaplin, que ao longo de sua carreira, acabou sendo vigiado e fichado de perto por entidades policiais – principalmente e com mais rigidez durante o Macarthismo nos anos 1950 – quando era acusado de ser comunista, por conta de suas obras críticas, tendo como ápice, seu exilio forçado no ano de 1952, retornando apenas nos anos 1970 para os Estados Unidos para receber um Oscar honorário por toda a sua obra produzida, que na verdade simboliza um pedido de Desculpas; A Plateia do Oscar ao ver o idoso e debilitado Chaplin levantou-se e por mais de cinco minutos o aplaudiram. 


8. EM BUSCA DO OURO (1925)


        Um dos filmes mais engraçados de Chaplin se passa no Alaska, na chamada “Corrida do Ouro” ocorrida aos fins do século XIX. Lá Carlitos se envolve em muitas confusões como sempre; Talvez o filme seja mais conhecido por uma cena antológica, talvez aquela que mais remonte a doçura artística de Chaplin que é a Table Ballet, ou a dança com os pães enfiados nos garfos, encima da mesa. Antológica cena da História do Cinema. Não canso de assistir e de tentar copiar!


9. MONSIEUR VERDOUX (1947)

        Com certeza o filme mais diferente de Chaplin; em todos os aspectos: na atuação e principalmente na composição de seu personagem; ao contrário dos antigos filmes de Chaplin, não temos mais um doce vagabundo, mas, agora, nesta película, temos um sedutor viajante de caráter duvidoso que empreende tudo que é possível para atingir seus fins, não por meios positivos.
        Grande comédia de humor negro, sátira ao capitalismo deste American Way of Life, onde o mundo das aparências se sobrepõe a realidade da condição humana. Com certeza, outra grande película que “contribuiu” para que Chaplin fosse mal visto pelas lentes do poder nos EUA. Chaplin como um dissimulado assassino, notável filme!

10. O PASTOR DE ALMAS (1923)


        Outra grande comédia de Chaplin; sátira critica do mesmo aos fanatismos religiosos; Neste filme, Chaplin é um ex-prisioneiro que ao fugir da cadeia passa a se tornar um pastor de uma pequena cidade do interior americano. Obviamente que esta causou choque em muitas cidades americanas, sendo proibidas em muitas delas por sinal. Vale demais assistir! É uma sátira, e muito bem divertida!

Uma Flor para o vagabundo sonhador..

Em algumas situações da vida, ao que parece, é necessário se utilizar do artificio da mentira. Manejo feio e de natureza torpe, a mentira falseia, omite ou dissimula situações do cotidiano. Mas, não é a minha intenção discutir o mérito da questão. Com esta singela postagem, quero apenas fazer uma ode a mentira; Sim, uma ode a mentira. Uma ode ao bom uso da mentira, pelo menos no que se refere a fins positivos.
         Chaplin já mentiu por amor. Não Charles Chaplin, mas seu álter – ego, o vagabundo Carlitos. É dessa afirmativa que partirá a minha postagem. Refiro-me ao grande clássico “Luzes da Cidade”, rodado no ano de 1931. Nesta película, a temática central que rodeia todo o filme, é a mentira; a doce mentira como um véu que envolve um amor quase quê impossível: um vagabundo e uma florista cega.

Luzes da Cidade: Uma Doce Ode a Mentira
         Não vou falar muito dos acontecimentos relatados no filme. Seria desnecessário e retiraria toda a graça de quem porventura queira assistir a obra, mas, algumas menções são fundamentais, sendo assim, não tem como negligenciá-las nesta postagem.
         Carlitos é um vagabundo – como o filme o caracteriza: “The Tramp” - que sobrevive de trapaças e de jogos de sua esperteza. Até que certo dia acaba por conhecer uma jovem florista que vende seus ramos em um local de passagem dos aristocratas. Em linhas gerais, Carlitos percorre todo o filme, passando a trabalhar em inúmeros ofícios – o que era um sacrifício para ele – como gari e até boxeador, justamente para sustentar sua “farsa”. Queria Carlitos fazer a jovem e cega florista, acreditar que ele fosse um jovem rico para que esta se apaixonasse por ele, e acreditasse que um dia este pudesse tirar-lhe da vida da pobreza, e, sobretudo da cegueira, por meio de uma cirurgia.

O Momento em que Chaplin conhece a Florista.
         Este é o eixo central do filme; as desventuras de Carlitos para sustentar sua mentira em nome do amor que passou a sentir por aquela florista. Não falarei mais do que isso; É melhor assistir a película; O Final é belíssimo, como só Chaplin sabia recriar.
          É nessas horas que eu concordo com Shakespeare quando este dizia:
 “O Amor é cego e os amantes não dão conta das lindas loucuras que cometem; se assim não fosse, o próprio Cupido coraria de me ver disfarçado de pajem.”
William Shakespeare (O Mercador de Veneza)

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Cinema para entender o Racismo. (Part.1)


1. Introdução: Porque o Cinema?

 

         Discutir a problemática concernente aos variados modos de difusão da Intolerância em nossos tempos, nos leva diretamente ao resgate de um Passado, que de outrora nos parece tão distante, emerge com uma força histórica significativa a ponto de suscitar reflexões sobre a mesma, ainda nos mais variados segmentos da sociedade, seja no campo sócio-cultural ou em outros campos representativos da sociedade.

        Não obstante, em um primeiro olhar, nos parece estranho desviar nossa reflexão, sobretudo aos primórdios da Arte Cinematográfica e entrever ali os resquícios de um estudo, de uma possível reflexão ou simplesmente do espelho refletor das variadas formas de Intolerância que emergiram no caminhar da humanidade durante os séculos.

        Remontar aos primórdios do Cinema é uma atitude ousada, cujos fins e compromissos podem não ser atingidos, mas a premissa com que partimos aqui, é justamente de tentar enxergar uma “contra-analise” da sociedade a partir de certas obras clássicas daquele momento que podem e refletem o sentido e pensamento de uma civilização ou nação de outrora, fazendo da teoria uma pratica da viabilidade do campo do Cinema, como propunha Marc Ferro.

        Esta ousadia é puro reflexo de uma atitude inovadora em respeito à importância da Imagética em geral, iniciada principalmente a partir da década de 60, quando o movimento Annalles revolucionou o campo metodológico da História, dando em profusão um sentido viável de fontes que ultrapassa o mero limite das paginas escritas.

        É certo que a aceitação dessa viabilidade, no que toca ao campo do Cinema, ainda encontra inúmeras barreiras dentro do seio acadêmico, muito ainda pela incapacidade ou falta de apreço dos mesmos em procurar enxergar uma aceitação, um meio de entender os filmes ou tudo que possa ser Imagem como algo com valor histórico, que possa reconstruir de certa forma, ou ao mínimo imaginar um sentido para o Passado ou, sobretudo a maneira como as pessoas pensavam o mundo a sua volta.

        Assim, o Cinema, como mais um espelho das mentalidades, pode nos ajudar a compreender os estereótipos, os preconceitos arraigados em determinado momento histórico, e é a partir desta menção, que inicio a analise seguindo, tomando como referencial,  cineastas e obras importantíssimas – e reconhecidas dentro da História do Cinema –  que nos ajudam a compreender o racismo, o preconceito, que era expelido com certa naturalidade em dado plano histórico.

2. O Caso Clássico: Darren Griffith e a sua obra “O Nascimento de uma Nação”.

           Quando em 1915, o jovem cineasta Darren Wark Griffith lançou sua obra “O Nascimento de uma Nação”, talvez não imaginasse o estardalhaço que aquela película iria causar não somente nos Estados Unidos, como também em todo o Mundo onde fora rodado seu filme. Todo esse estardalhaço, muito além do que podemos inferir, nos ajuda a entender a ideologia e os pensamentos de uma época, como também a evitar pensamentos maniqueístas quanto a “monstruosidade” de uma pessoa, como sendo parte única de um pensamento, que como veremos, fazia parte de um todo.  


O Nascimento de uma Nação: A História dos Estados Unidos pelo viés racista.

       Não se trata aqui de uma defesa, mas sim de posicionar as atitudes e os pensamentos do cineasta frente às estruturas históricas de seu tempo – o que obviamente não exime sua culpa – para observar então como o Racismo obteve uma presença fortíssima na construção de sua imagem.
        Griffith se torna cada vez mais controverso quando levamos sua obra mais conhecida, de cunho altamente racista em comparação com obras seguintes, nos levando a refletir sobre sua personalidade e a partir daí entender então a sociedade americana a época – sem generalizações é claro. Afinal, após lançar esta sua obra acachapante, Griffith, um ano depois, lançava no Mercado mundial, uma película intitulada “Intolerância”. 




   Griffith: Grande cineasta, o pai da montagem; contudo, um racista.


            Sendo assim, esta situação nos parece uma contradição e um absurdo evidente e difícil de entender e contextualizar historicamente. Contudo, para entendê-la é necessário que façamos um exame sobre o estatuto da obra, de seu autor, e, sobretudo de todo o contexto histórico americano vivido a princípios do século XX, quando do recente fim da chamada Guerra da Secessão Americana. 
          Griffith nasceu em 22 de Janeiro de 1875 no estado do Kentucky, filho de Jacob Griffith, um colono americano considerado herói de Guerra na chamada Guerra Civil Americana, finalizada dez anos antes do nascimento de seu filho.
        Mas o que afirma de tão absurdo para nós, esta obra de Griffith e em que contexto histórico ela está inserida?
        Griffith foi um jovem cineasta inovador, aclamado pelo russo Sergei Eisenstein e por Charles Chaplin, que além das inovações técnicas e de filmagem trazidas por sua habilidade técnica para o Cinema, como a montagem de grandes planos de fundo, uso de grande quantidade de figurantes, e da linearidade progressiva no enredo, teve sua imagem muito, além disso, principalmente no que se refere às ideologias passadas em suas obras. 
         Refletir sobre a personalidade de Griffith – sem eximi-lo de toda a sua culpa, e em contraponto, sem maniqueizá-lo demais - é ainda hoje bastante dificultoso, pois não temos ainda o limite certo do que podemos afirmar sobre o que é de seu pensamento individual em relação ao pensamento coletivo. Enfim, o eterno questionamento feito, é se os julgamentos efetuados em torno de seu exacerbado racismo são efetivamente justos, quando consideramos ou não o contexto da época?!
        Segundo Rosenstone, “Hoje, temos de ser cautelosos ao elogiar este filme por causa de seu caráter abertamente racista, repleto de estereótipos cruéis afro-americanos como pessoas bárbaras, sem instrução e sem cultura.” (Rosenstone,2010, p.30).
        Contudo, mais interessante está em observar que:
“A sua representação da Guerra Civil Americana, a sua visão do Sul como vitima das depredações dos ex-escravos e dos oportunistas do Norte durante a reconstrução, a sua exaltação dos integrantes da Ku Klux Klan como heróis do conflito racial e seus estereótipos terríveis dos afro-americanos eram (infelizmente) reflexos diretos das principais interpretações da época em que o filme foi produzido – não apenas das crenças das ruas, mas do saber da mais poderosa escola de historiadores americanos daquele período” (Rosenstone, 2010, p.30).
        Enfim, ao que parece o “artefato cultural” que nos aparece com o filme “O Nascimento da Nação” nos leva a concluir que Darren Griffith foi talvez o espelho ideal de uma ala do pensamento norte – americano pós – secessão: Racista.  Esta ala de pensamento era tão forte quanto nós podemos supor, atingindo campos da sociedade – os intelectualizados – que teoricamente deviam compreender o quão é nefasto e horrendo qualquer tipo de preconceito existente.
        Mas não era esse o quadro. Ao que parece, seu filme não era “nem uma interpretação pessoal bizarra nem uma interpretação puramente comercial da Guerra Civil Americana e da Reconstrução, mas que, na verdade, era um reflexo razoável da melhor história acadêmica de sua própria época, o inicio do século XX.” (Rosenstone, 2010, p.44).
        Isso é tão verdadeiro que, como nos mostra Rosenstone, no momento de lançamento da obra, esta acabou sendo rodada em especial, na Casa Branca para o então presidente americano Woodrow Wilson, que sulista convicto, ficou bastante emocionado com a representação apresentada no filme, aprovando o possível caráter “realista” da obra, para afirmar: “É como escrever história com raios. E meu único pesar é que tudo aquilo é terrivelmente verdadeiro.” (Rosenstone, 2010, p.30).


Woodrow Wilson: Racista convito.

          Woodrow Wilson foi o mesmo que idealizou o projeto da sociedade das nações durante a primeira guerra mundial, mas ficara também famoso por suas convicções racistas, tendo reduzido drasticamente em sua politica interna, a participação efetiva dos negros americanos na política.     Enfim, o Cineasta, o Presidente sulista, o fazendeiro e tantos outros mantinham um preconceito racial tão forte, que esta atitude parecia naturalizada dentro do seio norte – americano. Isto tudo também se intensificou com a difusão da horrenda ciência da eugenia, que partindo da Inglaterra, atinge os Estados Unidos, onde vai ganhar grande parte dos seus incentivos, e também de seus teóricos.

        O Racismo se solidificava numa época -  como sabemos – onde toda uma ordem de estereótipos, de preconceitos – contra judeus, ciganos, homossexuais -  queria fazer parecer um traço comum em grande parte das civilizações.

      Aqui no nosso país, Monteiro Lobato, consagrado escritor nacional, era visivelmente adepto do ideário eugenista norte – americano, gritando em suas obras “nacionalistas” que a culpa do atraso do país estava na forte miscigenação histórica porque passara o país. Seu livro “O Presidente Negro” escrito e lançado em solos americanos, evidencia todo o seu pensamento. Aliás, a figura da Tia Anastácia, pouco conhecida pelas linhas da pena de Monteiro, e mais pela recriação doce do seriado televisão, é por Lobato mesmo execrada constantemente nas histórias do sitio do pica – pau amarelo. 

Monteiro Lobato: eugenista tupiniquim

        Enfim, o que nos cabe entender aqui para a correta analise de “O Nascimento de uma Nação” é que esta película foi inspirada em uma obra literária do escritor Thomas Dixon Jr, que depois se tornou uma peça teatral, chamada “The Clansman”, de onde em todas as paginas da obra, emerge uma caracterização romântica da atuação da Ku Klux Khan envolta a um fundamentalismo religioso protestante muito forte, e é claro, rodeada de um preconceito racial fortíssimo, admitido e aceito por toda a sociedade, sejam os leigos ou os acadêmicos estudiosos da época.



The Clansman: A KKK.

       Fato é que no filme, algumas cenas emergem com grande terror para o publico do nosso tempo, como por exemplo, há uma cena em que membros da Ku Klux Khan “heroicamente”, na visão americana da época, assassinam através de um linchamento a um escravo que havia cometido um crime. Mais interessante e que está dosado de um alto caráter pitoresco está na presença de inúmeros atores brancos pintados com tinta preta para poderem interpretar escravos. Isso não significa que no filme não há atores negros. Existem, mas nas cenas com personagens brancas, para “aterrorizar” os atores brancos eram pintados pitorescamente para contracenar com elas. Talvez uma das cenas mais representativas do filme esteja na cena em que a personagem Flora corre em direção a um abismo para que o “Negro Gus” não a toque.

" O Negro Gus sendo linxado pela KKK": O Blackface


      É interessante notar que durante a época era bastante comum até ocorrer estas caracterizações de personagens negros a partir de atores brancos pintados a tinta. Era o chamado artifício do “Blackface”. – Sobre este fenômeno, explicarei com mais atenção na próxima postagem do blog.
        Não obstante, o primeiro grande filme falado da história do Cinema chamado “O Cantor de Jazz” fez uso intenso desse artifício na criação de seu personagem principal. O Ator Al Jolson para interpretar um jovem cantor emergente negro chamado Jack Robin, atuou pintado no decorrer de toda a película.
        O pesquisador americano Corin Willis, manifestou concisamente a sua opinião sobre o uso da face negra pintada pela personagem Jack Robin em O Cantor de Jazz, ao afirmar que esta situação é:

                “Uma exploração artística e expressiva da noção de duplicidade e hibridismo étnico dentro do que pode ser chamada identidade norte-americana. Dos mais de setenta exemplos de rosto pintado nos primeiros filmes sonoros de 1927 a 1953 que eu vi mesmo as novas aparições de Jolson em outros filmes, The Jazz Singer é único e o único onde a face pintada de negro é central ao desenvolvimento narrativo e temático.” (Willis, 2005, p.127)
O Cantor de Jazz.
            Mais interessante ainda, e o que é basicamente despercebido a despeito de toda a fama e o romantismo estético e hollywoodiano que a perfaz, está no aclamado e reconhecido filme “E o Vento Levou”, dirigido pelo também aclamado diretor Victor Fleming, o mesmo que dirigiria nove anos depois o clássico “Joana D´arc”, da produtora MGM ou Metro Goldwyn Mayer, aquela produtora cujo presidente pedira o máximo possível de fidelidade histórica durante a criação das películas.

        Neste filme, de 1938, basicamente quase tudo passou despercebido. Ao que parece o romantismo e a perfeição estética das musicas e da fotografia do filme, que encantam e merecem encantar até hoje, ajudaram a apagar ou a esquecer o pano de fundo muitas vezes também racista desta obra. No filme, mais uma vez, os colonos são vistos como bons senhores vitimados pela ação assassina dos ex-escravos. Os personagens negros também são representados bem caricatamente em uma das vertentes possíveis de se velar um artifício “Blackface”. – Será explicada na próxima postagem.

" E o vento levou": O Racismo Velado no Romantismo da obra.
        Enfim, poderíamos ficar aqui eternamente citando o forte teor racista que perfaz toda a obra “O Nascimento de uma Nação”, como demais clássicos americanos do período. Sugiro a prática da visualização da obra e das demais citadas, que será mais ilustrativo do que as minhas meras citações.

        Todas as cartelas do filme “O Nascimento de uma Nação” espelham tudo isto que foi afirmado. Afirma-se, sem existir a certeza, que Darren Griffith chegou a afirmar durante a cena do assassinato do escravo pelos membros arianos da Ku Klux Khan que os negros seriam parte “de um renegado, um produto das doutrinas imorais espalhadas pelos republicanos."

        Enfim, após todo o termo de execução da película, nos Estados Unidos tornou-se um sucesso imediato de bilheteria e críticas, contudo, na Europa o ambiente de recepção da obra foi de intensas criticas depreciativas. Como resultado, Darren Griffith imediatamente dá inicio a sua cartada de inteligência encontrada na realização do ano seguinte chamada justamente e concisamente “Intolerância”, cujo enredo entrelaça quatro histórias ocorridas no decorrer de toda a história da humanidade, da Babilônia a Jesus Cristo, e principalmente até os dias americanos contemporâneos da situação operaria, onde Griffith as utiliza para construir um filme de fortíssimo teor moral, onde para ele, a intolerância no decorrer do século impossibilitou a concretização perfeita do ideal do amor. 

Intolerância (1916): Uma contradição de Griffith?!
        A Despeito de todo o enredo das quatro historietas que se decorrem e se entrelaçam no decorrer de todo o filme, convergindo para o mesmo final, achamos conveniente aqui não delongar demais sobre cada uma delas. Cabe-nos apenas destacar o caráter fantástico do filme, e que justamente por isso, engendra toda a polêmica sobre o caráter dúbio de Griffith: Genio, porém, racista.

        A película “Intolerância” é belíssima, foi feita encima de um vasto investimento tomado por um orgulho e uma necessidade de resposta as criticas por parte de Griffith. O Resultado foi uma participação direta do mesmo, que a partir das cartelas de legendas durante o decorrer do filme, exibi sua poética e seu saber histórico para exprimir sua indignação em torno da Intolerância. 

É em suma, altamente contraditório, mas suas palavras nestas cartelas e toda a ligação das histórias que ligam a Babilônia traída por um sacerdote, a morte de Jesus, inclusive com inúmeras passagens da Bíblia, a Intolerância religiosa que levou ao conhecido Massacre de São Bartolomeu na França dita moderna, contudo toda a carga dramática fica a cargo principalmente da triste situação da injustiça de vida feita graças à ação das reformadoras das fabricas na história da “Queridinha” e de seu marido que quase perde a vida ao fim.

        Os quadros do filme são perfeitos, as cenas de guerra na Babilônia são impressionantes para os investimentos da época, e principalmente a capacidade de ligação entre as histórias e a poética desenvolvida por Griffith nos deixa extasiados, e cada vez mais confusos.

        Sua Metáfora principal está na ligação das histórias no decorrer do filme, a partir da passagem da “Mãe que balança o berço da Humanidade”, algo que se assemelha a uma simples alusão de que a humanidade ainda remonta a um bebê que precisa amadurecer para ser algum dia feliz, ultrapassando esses entraves da “Intolerância” para atingir esse fim.

        Contudo, nas quatro histórias que se seguem, não há um só negro, ou evidencia de intolerância contra eles. Há todo o tipo de intolerância: religiosa, moral e até de prazeres. Mas não há intolerância racial ou étnica. Seria então somente um debate sobre a intolerância em relação ao mundo ariano eugenista norte - americano?


Conclusão



        Assim encerramos este breve artigo. Não nos foi dada a intenção de defender este ou aquele cineasta, muito menos sortir de elogios as suas películas, mas a partir da frutífera relação Cinema – História pareceu ser oportuna a oportunidade de entender os referidos filmes a partir de seu contexto histórico nos quais surtiram como “artefatos culturais” que nos foram deixados, como espelhos dos pensamentos de outrora, nos trazendo a tona, idéias, preconceitos e conflitos que refletiam as Ideologias de uma época, que podem assim ser evidenciadas através de tais obras.  O Racismo como parte integrante de forma política e cientifica – eugenia na ciência e nas políticas de estado mundiais – se apresenta assim como um fenômeno marcante àquela época, mas que nos faz refletir ainda hoje, de que forma o racismo e o preconceito continuam a se expressar, com novas mascaras, mais veladas, mais hipócritas. Sobre isto, é o que tentaremos refletir na próxima postagem.


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