quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Gênero Religioso - Parte 1. Jesus Cristo no Cinema.

    Em comemoração aos festejos da Páscoa que por meio de seu simbolismo acaba por ocasionar uma profunda reflexão sobre a passagem de Jesus Cristo em vida terrena com os ensinamentos cristãos, vos trago agora uma breve analise de um gênero especifico do Cinema que sempre se manifestou como um grande campo de apropriação cinematográfica: O Drama Religioso.

            Fato é que a comoção da vida e paixão de Jesus Cristo, grande símbolo da história da humanidade, sempre despertou os olhares dos cineastas, tornando-se no decorrer dos anos, um espaço de inúmeras interpretações acerca dos acontecimentos ocorridos. 
             Não obstante, um dos primeiros grandes filmes do Cinema tratou-se justamente de um grande épico religioso chamado “La vie et la passion de Jésus Christi", em português “Paixão e Vida de Jesus Cristo”, filmado no ano de 1903  de autoria do cineasta Ferdinand Zecca. De origem francesa, a película expunha em 44 minutos as passagens cruciais da Bíblia, enfim de toda a trajetória de Jesus Cristo por sob a terra, com filmagens ainda sob molde teatral, caracteristicos dos príncipios do Cinema mudo.

 La vie et la passion de Jésus Christi

            De 1903 para 2011, temos um grande alargamento temporal, e deste tempo decorrido sobressaltam algumas grandes obras religiosas que marcaram época, frente a outras tantas de mesmo teor temático, contudo mais desconhecidas.

            Destes grandes filmes, não aparecem somente obras voltadas propriamente a vida de Jésus Cristo, como também de personagens importantes que o cercavam, como Maria Madalena, sua mãe Maria, Judas Iscariotes, todos os seus discípulos, enfim, há uma enormidade de temas abordados dentro do gênero histórico.

           Longe de querer analisar todos os filmes existentes, até porque seria inviável e impossível, almejo apenas listar alguns filmes que admiro, e que me habituei a assistir desde a tenra infância. Alguns grandes clássicos consagrados, outros nem tanto.

            Aparecerão na história do Cinema, filmes mais transversais em relação à vida de Cristo, sendo assim, aparecendo então outras histórias, outras personagens bem posteriores ao mesmo. O que não os diferencia e o que torna todas as obras bastante próximas é justamente o caráter moral, religioso. 

           Por conseguinte pode ocorrer de alguns grandes filmes louváveis acabarem não figurando na lista. Não se trata de escolhas ou juízos de valores. Por assim dizer, a minha falha memória pode consecutivamente me trair e com isso somente prometerei expor alguns filmes, de forma a ilustrar mesmo, sobre a temática. Na primeira parte desta postagem, postarei apenas alguns filmes diretamente ligados a figura de Jesus Cristo, ou seja, biografias do mesmo. Mais tarde, em outras ocasiões, postarei sobre seus circundantes como também filmes que abordam contextos religiosos interessantes e que são basicamente posteriores a Cristo.

      Dito isto,vamos agora tecer pequenos comentários sobre algumas obras em especial:

1. Jesus de Nazaré, de Franco Zefirelli ( 1977).

           Com certeza trata-se de uma das maiores, se não a maior, representações biográficas da vida de Jesus Cristo. Exibido com certa fluência em datas como a que vivemos neste momento, esta obra é uma co-produção italiana e inglesa, rodada em 1977, por seu idealizador o grande cineasta italiano Franco Zefirelli, que ao transmiti-lo em formato mini-serie, acabou levando-o também as telas do Cinema.

         Com mais de sete horas de filmagem, a película consegue percorrer significativamente grandes passagens da vida do Cristo, passando da sua infância até o momento de sua morte e posteriormente sua ressurreição. Vale destacar no filme a grande interpretação do ator Robert Powell que desempenha justamente a dificil tarefa de tentar encarnar Jesus em corpo e alma. 

     Enfim, sem mais delongas, esta obra é um clássico que considero que todos se ainda não a assistiram, já ao menos tiveram a oportunidade de contato. Passou-se o tempo, mais ainda este filme setentista ainda continua sendo um modelo para os épicos religiosos atuais.

Jesus muito perto de ser condenado.

2. A Paixão de Cristo, de Mel Gibson (2004).

     De assumido grande impacto, esta película mais contemporânea acabou sucitando as mais diversas opiniões sobre seu possível teor moral.  De autoria do cineasta Mel Gibson, a película logo de cara acaba por se destacar pelo carater decididamente perfecionista como são todas as obras destes respectivo cineasta. Gibson sempre inovara em suas obras ao utilizar-se das linguas matrizes locais de cada local, de cada época. Portanto, em a Paixão de Cristo são faladas as linguas da época de Jesus, que são o aramaico, o latim e o hebraico. Este " Efeito de Realidade" traz ao filme uma dimensão muito especial e o sentido de realidade frente ao público se torna justamente muito maior por esta adoção linguistica.

    Essêncialmente a obra como as demais do gênero procura abordar os fatos ocorridos na vida de Jesus, contudo esta acaba inovando ao adotar o Flash Back para rememorar os fatos pensados e vividos pelo Cristo. 

   Contudo o filme ganharia mais destaque e mais considerações na imprensa e pelos críticos que a foram, devido a uma possível brutalidade e excesso de violência que choca durante a execução do filme, e principalmente sob certa acusação de antisemitismo por parte do diretor, Mel Gibson, do que por sua qualidade técnica que é também impressionante.

Jesus e as marcas do sofrimento: Um exagero por parte de Gibson?

   Sobre uma possível demonstração exagerada do sofrimento de Cristo, o proprio Papa a época chegou a dizer que o filme era relevante na medida em que expunha realmente as dores que Jesus havia sofrido por nós. Ou seja, o Vaticano aprovara a obra.

   No tocante ao quesito do antisemitismo, algumas correntes judaicas contestam e acusam Mel Gibson, este religioso bastante conservador, de ter dado a cabo uma visão deturpada e impondo uma visão sobre os judeus como os verdadeiros responsaveis pela condenação e morte de Cristo.

  Enfim, polêmicas a parte, o filme é tecnicamente muito bonito, o choque de realidade é impressionante, e as atuações de Jim Caviezel como Jesus Cristo e principalmente da atriz Rosalinda Celentano como no papel de Satanás são decidamente louvaveis entre outras tantas questões do filme.

O Diabo representado na figura tentadora.


3. O Rei dos Reis, de Cecil B. de Mille (1927).

   Grande épico relígioso típico de B.de Mille, a película " O Rei dos Reis" marcaria a época justamente pelos grandes cenários, pelas vestimentas e pelo grau de investimento em geral. Por ser de 1927, ainda caracteriza-se como do Cinema Mudo, contudo sua fama aparece justamente além dos grandes arranjos arquitetônicos bem avançados para a época, inovará também quando B.de Mille procura utilizar-se de certos truques de ilusão para recriar os milagres da vida de Cristo, como o andar sobre o mar e a transformação da agua em vinho.

   Enfim, trata-se de um grande clássico ainda hoje muito cultuado. Grande filme com quase 2 horas e meia de relato biblico, com destaque para o ator H.B. Warner que interpreta com muita lucidez a Jesus.

H.B.Warner como Jesus.

4. A Última tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988).

        Com certeza nenhum filme conseguiu causar tanta comoção dentro das estruturas da Igreja, nos meandros do Vaticano, como esta película de Scorsese conseguira. Isto tudo porque o filme faz uma releitura dos momentos finais da vida de Jesus, também utilizando-se do efeito Flash Back, onde o mesmo vai rememorando variadas questões de sua vida, arrenpendendo-se de algumas, lamentando-se por outras, dando margem então a personificação de um Jesus mais humano e menos divino, sujeito a erros. Neste, em outras tantas abordagens, Jesus se imagina como teria sido seu destino caso tivesse casado com Maria Madalena, como também é demonstrado como um sujeito inseguro cuja relação com seu pai Deus é sempre tumultuada.

    Enfim, a película de pronto foi considerada como herética e não recomendada aos cristãos por ser considerada desviante dos bons costumes, por parte das ordens do Vaticano. O Filme é inspirado assim na obra homônima do escritor grego Nikos Kazantzakis que obviamente também sofreu inumeras críticas por parte da Igreja, mas seu livro não menos tornara-se um best seller mundial a ponto de ser alçado como vemos a uma película.

  Aos de pensamento mais fechado o filme torna-se um exercicio dificil, mas a leitura passada com a obra é interessante, e no mínimo é necessário assistí-lo para poder então criticar suas idéias. 

  No campo da atuação vale destacar com absurda certeza o grande papel desempenhado pelo ator Willem Dafoe que encarna com perfeição esse Jesus humano, cheio de tentações, dúvidas e incertezas sobre seu destino e sua natureza. 

Dafoe como um Jesus atormentado está sensacional.

  Enfim, não obstante, ainda hoje a obra causa grandes polêmicas sendo idolatrada por alguns, e sendo destroçadas por outros. Vale assistir e tirar sua propria conclusão tanto sobre este filme como quanto aos outros citados. Uma Boa Páscoa a todos!

Ass: Rafael Costa Prata 

Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Les yeux sans visage.


          Desde pequeno sempre me acostumei a ouvir através de um provérbio popular que a expressão dos olhos revela as profundezas mais intimas da alma humana. Por assim dizer, sempre fui levado a procurar no artifício da compreensão e da observância do olhar uma infinidade de sentimentos que nos são escondidos, nublados pela carapuça humana.
         Talvez seja esta a faculdade mais incrível do olhar humano. Não é a toa que o simples ato do cobrir dos olhos esconde a face do sujeito que a possui. Ainda que os olhos sejam apenas uma pequena parte da nossa face ele assim se faz. Contudo, nunca deixará de ser o espelho da nossa alma.
         Se você almeja conhecer a natureza de alguém procure perscrutar sobre o que os seus olhos podem lhe revelar. Com grande margem de acerto, os olhos nunca lhes enganaram, mesmo que camuflados pelo mais experto ser humano.
         Os Olhos de Buster Keaton nunca enganaram a ninguém. Muito menos a ele mesmo. Keaton sabia da força da sua expressão facial, compreendia como a introspecção do seu olhar fazia emergir em seu público uma gama infindável de emoções, sentimentos diante de suas personagens.

Keaton parecia ter olhos de vidro.
         Mas os olhos de Keaton revelam muito além de suas personagens. Revelam o próprio Keaton. Nesse sentido não há diferenciação entre a personagem e/ou o ser humano. The Great Stone Face, ou o Homem que não sorria como era conhecido, é a metáfora viva dos seus olhos que revelam a tristeza e melancolia de uma vida atribulada desde a infância, de sofrimentos, vícios e tormentas que aparentemente perfazem o quadro geral da vida de todo gênio. Da minha parte, sempre acreditei que todo gênio sempre tem de ser atormentado. Se não for, não foi gênio.
         Keaton teve nos seus olhos seu maior artifício artístico. Até por isso chamou a atenção doutros gênios contemporâneos a sua época, que fascinados com a capacidade de reflexão acerca dos enigmas daquele olhar, se propuseram a estudá-lo, pensá-lo, refleti-lo.
         Se os olhos são o espelho dos sentimentos, esta faculdade chamaria a atenção dos grandíssimos surrealistas, o pintor Salvador Dalí e o escritor Federico Garcia Lorca, ambos espanhóis.
         O movimento surrealista desejava imprimir nas suas artes um rompimento com o racionalismo cada vez mais vigente na sociedade, procurando um estudo das emoções, o manifestar do inconsciente, enfim, o não – racionalizar é deixar-se sentir tudo o que é da esfera sentimental.
         Assim sendo, Lorca e Dalí que manifestavam especial interesse também em relação ao Cinema, a ponto de participarem ativamente do clássico curta metragem chamado O Cão Andaluz do também espanhol Luis Buñuel, se detiveram ao estudo do enigmático olhar de Buster Keaton.
         Com rara inteligência e singular beleza, jamais alguém conseguiria definir com tamanha eficiência o olhar de Keaton, como fora efetuado por Frederico Garcia Lorca.
         Para Lorca: “Os seus olhos infinitamente tristes... são como o fundo de um copo, como os de uma criança louca. Muito feios. Muito belos. Olhos de avestruz. Olhos humanos com a dose certa de melancolia."
         Desta obsessão de Lorca como também de seu amigo Salvador Dalí em perscrutar a essência absurdamente surreal que permeava os olhos de Keaton, nascia uma serie de escritos, poemas e cartas trocadas entre ambos os surrealistas.
         Nestes escritos, Lorca e Dalí se perguntavam sobre os limites da arte. Indagavam-se sobre o fato de ser possível realmente creditar à arte a capacidade de imitar a vida, como também a vida imitar a arte. Até que ponto Buster Keaton representava uma personagem? Até que ponto representava a si mesmo?

Keaton: Personagem ou Realidade?
      Num desses primeiros escritos, em 1926, Dalí escrevera para Lorca, um escrito denominado “El Casamiento de Buster Keaton”, onde para ele, ao contrário do que acreditava Lorca, era possível perceber o Keaton fora das telinhas em comparação as suas personagens. O Keaton que em vida pessoal manifestava inúmeros problemas, como o vicio no alcoolismo, casamentos com moças fúteis, para Dalí nada tinha a ver com o Keaton mostrado as telas.

El Casamiento de Buster Keaton, por Dalí.
         Contudo para Lorca isso não era verdade. Acreditava-o que todas as contradições e os problemas revelados na vida de Keaton emergiam em uma figura unitária portadora de um olhar único: triste e objetivo. Keaton, artista, ser humano e personagem, se revelava a partir de seu olhar, sendo impossível assim separar ambos os campos.
         Desta maneira, Lorca escreveria em resposta a Dalí, o poema chamado “El Paseo de Buster Keaton” para mostrar justamente o que acreditava: que só havia um Keaton, de olhos infinitamente tristes, reveladores de toda a sua dimensão.

El Paseo de Buster Keaton, por Lorca.
          O Fato é que ambos os amigos trocaram inúmeras correspondências no decorrer de certo tempo, analisando com toda vivência e profundidade o que para eles era a essência de Keaton. Talvez nenhuma outra personagem, ou artista, tenha chamado tanta atenção de grandes gênios da intelectualidade como conseguira Keaton. Justamente porque ele tinha este dom ou característica especial citada no decorrer de todo este comentário. Era difícil entender a melancolia de Keaton. Entender a tristeza nos olhos de alguém que porventura é apontado como o maior comediante da história do Cinema. Com certeza acredito que sua genialidade aparece deste ponto: Keaton é genial porque é humano. Recria sorrisos, mas é antítese pura. Não sorri. No intimo chora. Já disse, todo palhaço chora antes de dormir. Por ser tão profundamente real e humano que Keaton porta toda sua dimensão.
         Não tenho pretensão nenhuma com esta postagem. Aliás, não almejo até ter conseguido a proeza de ter conseguido me expressar ao menos bem, e ter assim ter tido a oportunidade de passar um pouco do que Lorca e Dalí discutiam.
         Enfim, não há o que discutir. A única certeza que temos realmente é que os olhos são o espelho da alma. 

Buster já idoso: Uma vida atormentada.
        Sendo assim:
Nunca houve um espelho tão revelador como os de Keaton.
Olhos sem face.
Les yeux sans visage.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

terça-feira, 29 de março de 2011

O Homem Mosca....

...foi como costumeiramente ficou conhecido e apelidado o grande comediante Harold Lloyd no decorrer de toda a sua carreira gloriosa. Com certeza ainda para muitos, este nome também não deve soar conhecido, mas a despeito desta menção, Lloyd, que também era chamado de "O Garoto" devido ao alter ego de suas personagens com feições e atitudes mais juvenis, entrou para a história como um dos maiores comediantes que o nosso Cinema já encontrou.

Harold Lloyd, em sua feição mais típica.
Se pudessemos imaginar e mentalizar uma trindade sagrada da era de ouro da comedia no cinema mudo, encontraríamos então Harold Lloyd ao lado dos supremos Buster Keaton e Charles Chaplin, os quais para mim de tão geniais e absurdos como foram, podem ser caracterizados, com o perdão da heresia e/ou apostasia, como sendo faces únicas, ainda que diferenciadas, de um mesmo ideal supremo, quase sacro  do que se torna a essência maior da comédia.

Encontrar-se dentro de tamanha magnitude significa então alcançar um posto que com certeza não foi  concedido e conquistado por um qualquer, que em vida não tivesse colhido as honras necessárias e justificadas para tal posição.

Lloyd e seus óculos tão caracteristicos.
Harold Lloyd, com absoluta certeza, foi um dos grandes gênios da comédia em toda a sua dimensão histórica. Seu apelido clássico que nomeia o titulo desta postagem, "O Homem Mosca", nasceu justamente da caracterização de seu personagem mais popular chamado de "O Garoto", que foi composto como um misto de sujeito caipira, idealizador, ingênuo, mas, sobretudo, de extrema força de vontade, esperança e esperteza. Isso tudo é claro somado a altas doses de azar e mais ainda de confusões que engendram o modo desajeitado e repleto de atos desastrados desta personagem.

Tal personagem foi cunhado então encima de um semblante fácil que o imortalizaria também dentro do gênero: Lloyd seria um sujeito do interior, que de lá partiria para a cidade, para vencer naquela, através de um ideal de vencer na vida, representando com toda graça e infortúnios que poderia existir, a vida e os sonhos de inúmeros jovens do campo que seguiam o mesmo caminho em suas trajetórias.

Assim por exemplo nos é apresentado "O Garoto" em sua obra mais conhecida chamada "Safety Last", de 1923, que em português foi traduzida justamente a partir de seu apelido, sendo então denominada de "O Homem Mosca".

Capa de Safety Last, 1923.
A partir desta obra, podemos perceber além de toda a magnitude de Lloyd, também o tipo ideal da personagem, que se caracterizaria justamente por uma absurda habilidade física e por uma capacidade enorme de resolver por sua sagacidade, a inúmeras situações conflitantes do dia a dia. Desta maneira, muito inspirado no Live Action Comedy ou no gênero Vaudeville incorporado nas obras de Buster Keaton, Lloyd também desenvolve um personagem muito rápido, sagaz e acima de tudo flexível.

Também não poderia deixar de ressaltar justamente o que torna Lloyd mais cômico e até de certa forma um fato que sendo de sua autoria nos apresenta uma inovação: Seu personagem pode ser entendido como um certo adolescente ou até no maximo um jovem saindo desta fase. Se as personagens de Chaplin e Keaton são também jovens, mas podem ser considerados adultos mais maduros, a personagem central de Lloyd, por seu físico, por suas vestimentas e principalmente pelos espaços apresentados durante seus filmes e por seus sonhos, podemos apontá-lo como um adolescente.

Não obstante, Lloyd recria inúmeras situações que vão desde a entrada do jovem na faculdade retratada no filme "O Calouro" de 1925, como também a outros momentos que demonstram sua pouca idade a qual aparece na película intitulada "O Caçula" de 1927. 

Lloyd praticando Futebol Americano na Universidade retratada no filme "O Calouro" de 1925.
Marcado por seu rosto adolescente, quase que ligeiramente quadrado, com seu óculos característico e seu chapéu de feltro, a personagem de Lloyd torna-se então símbolo de um verdadeiro ideal americano de outrora que representava a vontade nata de vencer na vida a qualquer custa, passando por cima de quaisquer desafios que porventura estivessem a prova, colocando-o até em sérios riscos de vida.

Lloyd: Um desajeitado jovem sonhador.
Por conseguinte durante a execução de "Safety Last", o jovem destrambelhado e desajeitado que saído do interior para vencer a vida na cidade, procurando enricar para assim pedir a mão de sua amada noiva, acaba por se meter em variadas confusões, ao passo que nos é dado o momento épico de sua transformação em Homem Mosca durante o desenlace final da obra, que por aqui não fiz questão de detalhar justamente para não tirar-lhes o gosto e a vontade de acertá-la. 

Lloyd em uma das cenas mais clássicas e formidáveis da história do Cinema, acaba então escalando um prédio comercial até o seu ultimo andar, até que acaba pendurado em um relógio. A Cena é absurdamente hilária, e como tantas outras no decorrer deste filme e de outros, acabou por imortalizar esta figura tão simples e ao mesmo tempo cômica na história do Cinema.

Lloyd pendurado no Rélogio: O Momento mais cômico da Obra.
Por assim dizer, Harold Lloyd apresentava um alter ego sonhador, típica de qualquer jovem de ontem e de hoje, que diante de seus sonhos muitas vezes se mete em enrascadas, mas que persistindo no sonho, prefere tentar ainda que não saiba os riscos imediatos, a desistir.

Enfim, esta postagem segue a titulo de menção a mais uma grande personalidade da Comédia mundial e também obviamente do Cinema em toda a sua extensão. Quem ainda não viu suas obras, não se desespere, pois ainda é tempo, e seus filmes podem ser encontrados até com certa facilidade. Sugiro a todos que assistam primeiramente a Safety Last ou como já referido como seu titulo de tradução, ao filme quase biográfico da personagem, O Homem Mosca.

Daí por diante, a diversão e os sorrisos são mais do que garantia. Podem confiar! 

 Time to Fly ! Homem Mosca!

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Pequeno Shakespeare


          Chover no molhado. Foi à primeira expressão que me veio à mente quando em resoluto decidi que não iria levar a diante essa postagem. Sim porque escrever sobre uma personalidade cômica de reconhecimento tão acentuado em todo o mundo, e em especial na América Latina, poderia se tornar mais um exercício de repetição, contudo, deixando esses entraves de ordem especulativa de lado, eis que decidi trazer a tona apenas um comentário sobre Roberto Gomez Bolanos e sua importância artístico-histórica para o cenário latino-americano.

         Não se trata de alçá-lo de um comentário tão profundo sobre suas qualidades, inovações ou sobre suas principais obras que são tão reconhecidas e identificadas no seio do nosso imaginário que seria totalmente desnecessário efetuar por aqui tais observações. Atenho-me apenas, repito, aos aspectos mais sutis de toda a sua trajetória, dando destaque as suas influências e sobre como Bolanos sobre inteligentemente torna-se um cômico que refletia as realidades sociais da nossa América mais pobre, com toques de doçura e de extrema realidade, em seus mais conhecidos trabalhos.

          Há um ditado que diz: “Todo palhaço sempre chora antes de dormir”.  Talvez por isso, os grandes gênios da comédia de toda a nossa história, souberam converter realidades sociais absurdas que mais se assemelhavam a grandes tragicomédias da vida real, sabendo daí transformar toda a dureza em um grande conjunto de obras, de alter egos, enfim, uma produção artística incomensurável que ao mesmo tempo torna-se de singela delicadeza cômica, como também traz a tona praticamente aspectos autobiográficos muito marcantes e fortes.

"Todo Palhaço chora antes de Dormir"


           Exemplos disso não faltam, e claro que não se trata de uma regra geral, mas é quase impossível não levar em conta que os grandes vultos da comédia mundial se encaixam ou se encaixaram perfeitamente neste modelo.

         Afinal, todo mundo conhece um Charles Chaplin das telinhas do Cinema que projetou em seu alter ego mais famoso, a personagem Carlitos, retratos ao mesmo tempo cômicos e mais ainda autobiográficos de sua infância conturbada, onde teve de sobreviver às duras penas, órfão de pai, e filho de uma mãe com problemas mentais. Ora, até que ponto Carlitos não é o proprio Chaplin sorrindo para as suas desgraças do passado?

Carlitos ou Charles Chaplin: Real ou Fantasia?



Em seu filme “O Garoto” de 1921, ele nos conta a história do vagabundo Carlitos, tentando tomar conta de uma criança órfã encontrada nas ruas. Sempre o tema do abandono e do “ser órfão” aparecia nas películas de Chaplin. Ele soube superar através de seu talento maximo, e alcançou um patamar que na minha opinião o eleva ao maior gênio da história da humanidade. Bom, Chaplin é Chaplin, não há o que discutir.

Carlitos e o Garoto


         De igual maneira sobreveio o talento de Buster Keaton, filho de uma família de trapezistas e comediantes do circo de comédias de variedades ou o chamado “Vaudeville”, que soube vencer uma infância atribulada com relação às crises de seu pai, para alçar vôos mais altos.

Buster Keaton: Também uma Infância muito dificil.


                Procurando em nossa realidade, eu vos cito o grande Sebastião Bernardes de Souza Prata.  Quem seria? O nosso genial e sublime Grande Otelo. Nasceu negro em um momento em que a sociedade brasileira ainda exprimia doses diretas de preconceito e onde a inclusão artística também se tornava difícil, tivera desde o berço uma infância trágica. Seu pai, quando este era ainda criança, morreu esfaqueado, e sua mãe era alcoólatra. Grande Otelo sobrevivia fazendo comédias e gracinhas nos barzinhos e nas gafieiras do Rio de Janeiro. Desse pano sombrio sobreveio talvez o maior artista de nossa história, reconhecido em todo mundo, a ponto de ter sido convidado pelo aclamado Orson Welles em 1942 para participar do filme “Its all true”. Seus personagens também refletiam traços autobiográficos como malandros de gafieiras tomados pelo alcoolismo e pela melancolia.

Grande Otelo: Orson Welles veio conhecê-lo.
           Enfim, eu poderia ficar aqui eternamente falando sobre cada uma destas personagens, o que nos tomaria o maior tempo do mundo, e também acaba por ser injusto, ficar um ou outro de fora, o que obviamente aqui não me ocorreu à intenção. Dentre vários, quisera citar alguns exemplos que me pularam à mente em instantâneo momento.
         Mas sim, não são os únicos, são apenas uma parcela reduzida de uma lista enorme a ser um dia, e desejo assim, ser comentada.
         Não obstante, a pobreza e as mazelas da infância tornam-se uma realidade tanto na Europa, no Brasil, como também em outras regiões marcadas tão duramente pelo fenômeno como podemos imaginar. O México é uma delas. 
        Estereótipos a parte qual a imagem mental que refletimos ao pensar esta nação? Com certeza a conquista brasileira do tricampeonato mundial do Mundo em 1970, mas também e mais ainda considero a elevação de um grupo de comediantes que acabaram por se tornar símbolos da infância de todos, e aqui ainda continuam emergindo nas nossas mentes, como que marcados por uma química eterna, que não se desfaz e que continua irradiando emoção e alegria para nossos filhos, netos e assim por diante. 
        A pergunta afinal é : Qual o segredo da trupe de comediantes comandada por Roberto Gomez Bolanos?
       Talvez o maior segredo, é não ter segredos.  A Simplicidade quando abarca um talento puro traz a tona o sucesso. É dessa premissa que eu me pergunto qual foi o grande “toque real” de um sujeito baixinho, que media menos de 160m, chamado Roberto Gomez Bolanos, para emplacar por mais de 30 anos um sucesso tão forte e mundialmente conhecido como são suas series de comédia?
Bolanos: Um Baixinho de enorme talento.
            Obviamente que todo este sucesso não nasceu sozinho, teve participação direta de outros gênios da comédia mexicana como Ramon Valdez e Carlos Villagran, mas toda a emergência do conjunto acaba nos levando a sorrir e procurar entender este baixinho mexicano, que de tão inteligente e de tal forma talentoso, passou a ser chamado por seus próximos de “Pequeno Shakespeare”, devido a sua capacidade de escrever roteiros de séries, filmes, comédias, com extrema facilidade e acima de tudo qualidade.

          “El Chavo”. Seu maior sucesso. Esta expressão significa “O Garoto ou O Moleque”, e era assim como o nosso querido personagem Chaves era apresentado na sua nação natal: “El Chavo del Ocho”. Exibido inicialmente a partir de 1970, a serie “El Chavo” até hoje atinge índices exorbitantes de lares e fãs em todo mundo, sendo imediatamente um recorde a ser reconhecido, pois se trata de uma serie cômica de pequenos investimentos, datada de quarenta anos atrás, e oriundos de um mercado pouco reconhecido, como é o mexicano.

         Mas Chaves continua mais do que nunca na ativa. Mais realista, mais autentico e contemporâneo do podemos imaginar. Por que esta obra não perde sua credibilidade, originalidade ou até sua graça? 

         Ora, porque ao assistirmos Chaves nós nos encontramos diariamente com nada menos do que nossas realidades, ou pelo menos, ao que se encontra ao nosso redor. Chaves é um garoto órfão, mendigo que vive dentro de um barril, e que diante de suas atrapalhadas do dia a dia, mendiga o pão de cada dia para sustentar sua fome, dentro de uma realidade, de um ambiente que também nada se diferencia dos primórdios de uma favela, que é a Vila onde todos moram.

Chaves em sua Moradia: Um Barril


               Ainda nessa sobrevivência atordoada, Chaves nos dá inúmeras lições de moral, obviamente que adocicadas, mas que nem por isso não nos emocionam, ou quem nunca ficou ao menos sensibilizado com os pedidos de comida de chaves, ou quando este foi acusado de ladrão, ou mais ainda quando em um episodio épico, este morrendo de fome, se recusa de comer, oferecendo seu pão ao também de situação critica, um senhor desempregado, que não paga seu aluguel em dia, carrancudo mas que no fundo é de coração puro, chamado seu Madruga?

Chaves e seu Madruga: Um Companheirismo baseado em Amor e Odio.
         Pode parecer clichê, mas não é, e é justamente desse tipo de criação direta e ao mesmo tempo doce e que como pano de fundo sempre traz um sentido de esperança e que tudo pode mudar, que enlaça todo o sucesso da serie Chaves e o carinho que todos sentimos por ela.
        Afinal, temos ou não um retrato tão direto e incisivo das nossas realidades? 

        Pobreza, desemprego, mazelas, abandono... criatividade na arte de sobreviver, esperança por um dia melhor.


       É por isso que Chaves fez e faz tanto sucesso em toda a América Latina, não só o Brasil, como também no Peru, Colômbia, Venezuela e etc. Pois somos todos uma grande nação envolta basicamente nos mesmos problemas sociais, uns mais fortes e mais marcantes, e outros menores, mas todos com a mesma raiz e a mesma situação.

Periferia: Um Quadro social.
           A parte este contexto social, Roberto Gomes Bolanos é um sujeito de extrema inteligência que se torna evidente ainda que seus programas de comédia tenham sido evidentemente de investimentos mais limitados.
          
            Grande gênio idolatrado no México, sua inspiração artística retoma ao seu grande ídolo que foi Charles Chaplin, como também aos outros gênios da comédia onde visivelmente podemos perceber influências, como o proprio Buster Keaton como também Harold Lloyd. Uma comédia sutil, doce, também de variedades, com um palco moral e social maior até do que podemos supor.

           Em alguns episódios de sua segunda obra tão conhecida quanto foi Chaves, intitulada “Chapolin”, Bolanos nos leva a um anti-herói mítico, medroso e covarde, mas de coração puro. Em boa parte dos episódios, demonstrando sua capacidade intelectual, as histórias nos levam a grandes fatos históricos como a relação entre Cleópatra e Julio Cesar, como também a grandes lendas da literatura mundial como "Romeu e Julieta", do proprio Shakespeare, "Guilherme e Tell", e também o clássico "Branca de Neve", demonstrando como Bolanos era um artista imensamente versado e fazia por merecer seu titulo de “Pequeno Shakespeare”, de onde vem o termo Chespirito.

Chapolin: Bolanos em uma Satira a Hitler.

          Sendo assim, eu encerro por aqui este breve comentário, mais uma vez homenageando da minha parte a um grande comediante, que já não precisa mais ser condecorado, mas que ainda assim não poderia também deixar de estar no hall dos grandes gênios da comédia, tal qual aquele garoto órfão inglês, cujo Bolanos era maior admirador, e que a partir deste, eu encerro a postagem, com uma homenagem do mesmo Bolanos ao grande Chaplin.




 " Todo Palhaço chora antes de dormir.."
Mas sempre faz sorrir.


Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ode ao doce gênio quase esquecido..

Era Dezembro de 2010 quando ao retornar da Universidade e ainda dentro do ônibus conversava com o Professor Eduardo Pina, que como sempre, manteve a ótima e inovadora proposta de conceder um curso de verão cuja temática versaria a respeito da História do Cinema, procurando abordar as estéticas cinematográficas, os grandes precursores, artistas, enfim, tudo que concerte a dimensão histórica e artística da “Sétima Arte”.
Ali conversamos brevemente sobre a importância do Cinema para o entendimento histórico, sobre como os filmes podem ser um tipo de discurso histórico produzido em um determinado tempo especifico, e que sendo o historiador um estudioso dos pensamentos, ideologias e representações, em suma, das consciências históricas, cabe a ele também estar por dentro desta forma particular de produção de saberes.
Mas enfim, esta breve introdução serve também como um agradecimento ao professor que com toda paciência e gratidão ofereceu esta necessária matéria aos alunos, mas também para fazer um elogio quase que despercebido, pequeno para um grande ídolo, que para a minha felicidade, foi contemplado pela turma, com aplausos, sorrisos, como em toda sua vida, acabou sendo a sua especialidade.
Com toda certeza, de todos os aprendizados a qual ainda estou passando no decorrer da disciplina, que ainda está em curso, poder levar uma obra magnífica de um grande ídolo, que ainda que seja reconhecido, acabou não tendo da História e dos homens que a compõem,um devido reconhecimento à sua altura.
 Estou me referindo ao “Homem que nunca ri”, ou simplesmente Buster Keaton. Com certeza esse nome é incomum ou desconhecido para alguns de vocês que estão lendo este comentário, como também assim era para mim antes de algum pouco tempo atrás ter me deparado com sua obra, e ter me tornado seu fã, admirador de toda a sua vida, e de sua obra, a ponto de hoje está aqui escrevendo, ou procurando seus filmes mais antigos para assistir ou até para legendá-los caso ainda não o tenham sido.
Mas enfim, já ficou claro o caráter passional deste comentário, e com certeza vocês já devem estar se perguntando quem foi esse tal de “Buster Keaton” a que me refiro. 
Keaton com sua face imovel clássica: " O Homem que nunca ri"

Como resposta, e com muita calma eu vos digo, sabendo que causando polêmica estou, Buster Keaton na minha humilde opinião, e também para muitos, é o maior comediante  burlesco e lúdico de todos os tempos. Eu sei que muitos podem estar indignados, considerando um sacrilégio, uma heresia, o fato de para muitos, e para mim, te-lo como o maior comediante, o maior sujeito cômico, aquele que faz sorrir naturalmente, da História do Cinema, até mais do que Charles Chaplin, seu contemporâneo.
Antes que as pedras sejam atiradas, é necessário afirmar que esta opinião não é só de um amante amador do Cinema mudo como sou, mas de muitos críticos renomados do Cinema. Segundo, tanto Buster Keaton como Charles Chaplin são gênios absurdamente perfeitos da arte do sorriso, e sendo contemporâneos, as discussões atuais sempre acabam postulando uma curiosa, mas em minha opinião desnecessária colocação sobre :“Quem foi mais engraçado? Quem foi melhor?”.
Em primeiro lugar, sobre qual ponto de vista queremos entender as ditas “Qualidades”.  Cada um teve sua importância histórica especifica suas qualidades artísticas, seus problemas na vida particular, que por sinal, marcam a carreira de qualquer gênio em qualquer área. Mas, enfim, o que se deve concluir disso tudo é que um certo espírito de competitividade imposto no mundo capitalista, parece querer e tendeu a obscurecer a carreira de um a partir dos rumos do outro, como se ambos fossem rivais, o que na pratica, nunca foram, pelo contrário, eram amigos, que por sinal, juntos atuaram num dos mais belos e fantásticos filmes da história do Cinema, chamado “ Luzes da Ribalta” de autoria do proprio Chaplin.
Keaton e Chaplin em preparação para " Luzes da Ribalta"
Ao invés de nos alegrarmos de termos tido dois gênios contemporâneos atuando e participando ativamente da construção do Cinema, evidentemente com suas características particulares, algumas que se aproximam, e outras mais divergentes, sempre tendemos a reproduzir estes espectros de competividade.
Por isso tudo, essa discussão sobre quem foi maior parece inútil e descabida, quando na verdade devemos aplausos imensos a ambos, e também a outros gênios que acabaram ficando a margem dos holofotes da fama, mas que foram também fortemente geniais em sua arte e importância histórica.
Se em ultima via me fosse pedida uma decisão sobre essa irracional disputa, eu pediria a permissão ao professor Eduardo Pina para reproduzir a opinião dele que também na verdade acaba sendo a minha e a de muitos: Para mim, Buster Keaton é o maior gênio da comedia burlesca, aquela comedia mímica, não falada do Cinema Mudo, e também da Comédia em geral, que o Cinema já viu. Sua graça já é inerente em seu arquétipo, em sua “genética” como afirmou o professor. Keaton em si já é um personagem cômico. Com certeza vocês conhecem aquela pessoa que só de olhar já temos vontade de rir? Pois é, Keaton assume essa característica com a maior eficácia possível.
Quanto a Chaplin, não há o que comentar, pois todo o espaço das páginas impressas ou lidas possíveis não seria o suficiente para expressar a sua genialidade e sua importância. Trata-se do maior artista de todos os tempos. O Ser mais genial, mais sábio, mais revolucionário da História do Cinema. Chaplin é Chaplin, acho que dessa forma, encerra-se qualquer discussão. Sou partidário de que o nome “Chaplin” torne-se um adjetivo que expresse um elogio, assim como no dicionário, para outro ídolo chamado Kafka, há o termo “Kafkiano”, designando algo surreal, fantástico, inacreditável.
Keaton e Chaplin:Gênios inigualáveis
Enfim, Deus salve os gênios da comedia que nos dão a oportunidade atemporal de continuar sorrindo. Sim, porque os filmes geniais de gênios cada vez mais geniais (perdão o enorme pleonasmo) não enxergam a dimensão e as fronteiras das ventanias do tempo, pois continuam a fazer sorrir e são mais atuais do que imaginamos. Assistir Chaplin e Buster Keaton é a provação para alguns que para a arte da Comédia não é necessário “Palavras” ou “Falas”, mas a pureza de gestos simplesmente cômicos, a fantástica capacidade de por meio da montagem das cenas, da criatividade e principalmente do carisma e da veia cômica que já reside no talento individual é puramente suficiente.
Fazendo um paralelo a isso tudo, eu vos trago um caso recente, e que com toda certeza todo mundo aprecia e sorri bastante. Quase ninguém imagina quem seja o ator e comediante britânico Rowan Atkinson. Mas todo mundo conheceu seu personagem cômico “Mister Bean”. Ora, o personagem “Mister Bean”, criado em 1989, trata-se de uma criação artística que não deve nada a Comedia burlesca do apogeu do Cinema Mudo. Pelo contrário, se esta personagem foi criada por Rowan Atkinson, isso se deve a sua idolatria pelos grandes gênios da comedia, entre eles Charlie Chaplin, o também pouco conhecido Harold Lloyd, e mais ainda Buster Keaton, haja vista que boa parte dos curtas televisivos que deram fama a “Mister Bean” são releituras das obras de Buster Keaton para a comédia.
Ambos os personagens criados por Atkinson e anteriormente por Keaton possuem uma semelhança e um dote cômico idêntico, que remonta a grande qualidade do Cinema Mudo: Saber criar sorrisos a partir do efeito facial.
No começo deste comentário, eu havia me referido a Buster Keaton como “O Homem que não sorri”, e isso se deve ao fato de que seus personagens, eram em suma sujeitos que traziam gargalhadas sem nenhum tipo de antíteses faciais, ou seja, não eram personagens que variavam da alegria a tristeza, do susto a raiva, enfim, era quase que uma face única, de certa forma doce e ao mesmo tempo melancólica, que não foi assim construída sem intuitos.
Keaton sabia que o efeito de seriedade no seu alter ego cômico traria mais sustância e mais graça as ações do desastrado Johnnie Gray, como também torná-lo-ia mais enigmático e sedutor as emoções do publico que projetaria suas emoções “encima daquela face imóvel”.
Atkinson: Fã de Keaton, inspirou-se nele para criar seu personagem Mr.Bean






Assim foi Buster Keaton em grande parte de seus filmes. Keaton também, assim como Harold Lloyd que em breve destacarei em outro post sua importância, foi o grande inovador das cenas do que hoje chamamos de “Live Action” ou simplesmente “Cenas de Ação” para a arte do Cinema, obviamente sem o uso de dublês, que hoje são indispensáveis para muitos artistas, que inclusive, consideramos semideuses dos filmes de ação.
Buster corria, Buster pulava, Buster se esborrachava. Subia no trem, pulava de um lado para o outro, subia em um prédio, e fazia Le Parkour em plena década de 1920, assustando e deixando admirados a todos que assistiam a suas obras, mescladamente com uma ação e com uma velocidade inovadora, e acima de tudo imensamente cômicas.
Isso tudo graças a sua formação circense. Sim, quando criança juntamente com seus irmãos mais velhos, participavam de um espetáculo teatral com dotes circenses, conhecido como estética do Vaudeville, onde se misturava a arte da comédia com as acrobacias, quedas, pulos, pontapés e etc. Ali nasceram e cresceram sua veia cômica, onde ainda criança ficou conhecido ao atuar como um pequenino rebelde nas cenas deste teatro burlesco.
 

Keaton em mais uma de suas cenas de Live Action Comedy
Daí para o sucesso não foi tão fácil como podemos imaginar, haja vista que não o é hoje, imagine então no fechado mercado do Cinema daquele momento. Contudo para quem nasce com o talento supremo como nasceram Chaplin e Keaton, as portas não somente se abrem como também as chaves da casa lhe são graciosamente entregues.
Keaton teve seu auge no Cinema Mudo nas décadas 20 e 30, até quando por problemas pessoais que não vem ao caso, e principalmente por questões contratuais e de adaptação ao Cinema Falado, que afetou a todos da época, inclusive ao proprio Chaplin, acabou vendo sua carreira entrar em certo abismo. Sua obra mais conhecida é “A General” rodada no ano de 1927, onde Keaton deixa a mostra todas as características geniais citadas anteriormente que o consagraram.
Keaton interpretando Johnnie Gray em "A General"
É certo que ainda tivemos o prazer de vê-lo atuar em comedias faladas posteriores, como com especial atenção eu já citei o caso de “Luzes da Ribalta” de 1952, que metaforicamente trata-se de uma das maiores justiças históricas que este Universo nos podia dar, nos concedendo a chance de ver ambos os gênios Chaplin e Keaton dividindo o mesmo palco, a mesma película mesmo que seja por menos de dez minutos. Ainda que nesta obra, que é a penúltima produzida por Chaplin, ambos já estejam bem velhinhos, para quem a assiste, se trata de um momento único, de uma conjuração perfeita e magnífica de dois mágicos da comédia que se encontram numa mesma tela para afinarem e herdarem a todos a oportunidade de visualizar o encontro dos dois maiores sujeitos cômicos que o Cinema já viu.

Keaton já idoso..


Em 1966, aos 71 anos morria Buster Keaton acometido de câncer no pulmão. Sua obra magnânima foi e é reconhecida até hoje por fãs, críticos e academias de Cinema de todo o mundo. O nosso Pamplinas, como era chamado na Espanha e em Portugal, foi reconhecidamente apontado como dentre os 20 maiores artistas de todos os tempos pela academia de atores e cineastas norte americanos. Obviamente, isso seria o reconhecimento mínimo, devido e mais do que justo.
R.I.P - Buster Keaton.

Quase cinqüenta anos depois de sua morte, Keaton não desejaria deixar como herança, lamurias por alguém que morreria ainda cedo, mas sim um saldo de alegrias, de sorrisos, de doçura e acima de tudo de paixão a estética da arte do Cinema, assim como proporcionou em toda a sua vida.
Lá encima, no céu dos cômicos, ao lado de Chaplin, Harold Lloyd, e é claro dos nossos brasileiros Ronald Golias, Mussum, Zacarias, Mazzaropi, Otello, Oscarito, e de outros tantos comediantes do mundo, que  como tarefa e arte suprema faziam as pessoas sorrirem, ele nos observa.
E cada vez que um jovem, uma criança sorri com as travessuras e a falta de jeito de Johnnie Gray, com o seu modo desajeitado,  contudo absurdamente puro, o nosso “Pamplinas”, o “Homem que nunca ri”, deixa aparecer timidamente um pequeno e merecido sorriso de canto de boca, digno do maior comediante de todos os tempos. 


Deixo assim um Sorriso para o " Homem que não sorri", ou simplesmente através da belíssima canção escrita por Chaplin para " Luzes da Ribalta" repito:
"Smile, what's the use of crying...If you'll just Smile... Smile..!"


Goodbye Mr.Keaton!


Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.
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