sábado, 25 de fevereiro de 2012

Estatuetas “póstumas” do Oscar: O Talento vence a única certeza que temos na vida.

          
         
         Infelizmente a morte chega para todos. Não seria diferente para os grandes atores e atrizes do Cinema. São de carne e osso como somos nós. Contudo, a imortalidade daqueles reside no talento que ultrapassa épocas, que irrompe e vence as barreiras da morte, ultrapassando toda a nossa perene e limitada atuação física humana.
        Por assim dizer, Hollywood presenciou no decorrer de seus 90 anos de História, a algumas tristes situações do gênero, quando a morte aparecia diante dos candidatos aos prêmios do Oscar. Não é um fato tão comum, mas percebemos algumas eventualidades no decorrer das décadas.
        É de extrema importancia mencionar que, grande parte dos falecidos se encontravam na disputa pelos prêmios, não por uma homenagem póstuma – que muito bem seria representada por um Oscar Honorário – mas sim por seu talento em vida, pelas atuações recentes que lhes possibilitaram a adesão na lista de indicados. O Acidente de percurso é justamente a morte, pois, não sendo assim, estariam estes da mesma forma sendo indicados aos prêmios.
        Desta maneira, a titulo de curiosidade, podemos citar alguns casos que exemplificam tais situações:
        Recentemente um caso ganhou notoriedade. Aconteceu que infelizmente o grande ator Heath Ledger falecera durante as gravações do filme “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” em janeiro de 2008. Acontece que o ator, por sua extraordinária atuação no filme “Batman – The Dark Knight”, onde representava o Joker ou o Coringa, em uma atuação que com certeza está entre as dez mais fantásticas da história – pelo menos na humilde opinião de quem aqui escreve -, foi indicado ao premio de melhor ator coadjuvante do ano de 2009. Premio que mais do que merecidamente venceu, tendo sua família recebido a premiação em seu lugar. Foi talvez um dos momentos mais tristes e emocionantes da história de Hollywood.

Heath Ledger como Coringa: Há quem diga que o ator sucumbiu a perfeição da sua própria atuação.
        Outro caso tão clássico e tão marcante quanto, e que até certo ponto lembra o ocorrido com Ledger, aconteceu com o grande astro do Cinema, James Dean.  Acho até que esse foi o momento do gênero mais marcante de todos. Dean no decorrer dos anos 1950 acostumou Hollywood a vislumbrar todo o seu talento, tendo em pouco tempo, atuado em grandes produções da academia, se tornando verdadeiro símbolo de rebeldia, em suma, símbolo de um rebelde sem causa e/ou juventude transviada, titulo aliás de um dos seus grandes filmes de sucesso.
        Durante as gravação do fantástico filme “Giant”, intitulado aqui de “Assim Caminha a Humanidade”, no ano de 1955, do diretor Georges Stevens, na qual este atuava com outras lendas do Cinema como Elisabeth Taylor e Rock Hudson, Dean acabou falecendo num acidente de carro fora do set de filmagem. Dean era fanático por corridas de alta velocidade, tendo inclusive este fator se tornado uma característica pessoal até em seus filmes. Dean faleceu aos 24 anos de idade, no auge de seu sucesso. No ano de 1956, foi indicado aos prêmios de melhor ator para os filmes “Vidas Amargas” e o próprio “Assim caminha a humanidade”.

James Dean: o simbolo da rebeldia juvenil morreria em um acidente de carro.
        Outro caso que também permanece na lembrança do público se deu no ano de 1994, quando o ator italiano Massimo Troisi, após maravilhar o mundo com sua atuação no filme “O Carteiro e o Poeta” acabou falecendo com um ataque cardíaco. Não se esqueceram de sua atuação, sendo este indicado também ao premio de melhor atuação no ano de 1995, quando o filme foi exibido.

Massimo Troisi: Quando o mundo se encantava com a atuação deste ator italiano, veio a morte.
        Estes acontecimentos também podem ser encontrados lá nos primórdios do Cinema, em sua chamada Era de Ouro, entre as décadas de 1920 – 1940. Aliás, o primeiro episodio do gênero ocorreu já na primeira entrega do Oscar, quando a atriz Jeanne Eagels, falecida no ano de 1929, foi indicada ao premio de melhor atriz pelo filme “The Letter”. Dez anos depois, um dos grandes atores da era de ouro do cinema mudo, Douglas Fairbanks, acabou sendo premiado com um Oscar Honorário em 1939 por toda a dimensão de sua carreira.

Jeanne Eagels: A primeira indicação póstuma, na abertura do evento em 1929.
        Já nos anos 1960, outro fenomenal ator de nome Spencer Tracy, de clássicos como “O Julgamento de Nuremberg”, acabou sendo indicado ao premio de melhor ator do ano de 1967, por sua atuação em “Adivinhe quem vem para o jantar?”.  Tracy não pode comparecer pois havia falecido no ano anterior por conta de um ataque cardíaco que lhe retirou a vida.

Spencer Tracy: A História do Cinema passa por este grande ator.
        Na recente década de 1990, outra lenda do Cinema acabou entrando para esta triste lista. Audrey Hepburn, uma das maiores atrizes que o Cinema já viu, perdia a batalha para o Câncer no ano de 1993. No mesmo ano, a academia reconhecia toda a sua importancia, conferindo a sua família, um premio por toda a carreira. A Estatueta faria companhia a já ganha no ano de 1953 pelo filme “A Princesa e o Plebeu”, entre tantas outras, dessa atriz que é um das únicas a ganhar prêmios em todas as dimensões da arte: Oscar (Cinema), Tony (Teatro), Emmy (TV) e Grammy (Música).

Audrey Hepburn: Em 1993, o Cinema perdia a eterna bonequinha de luxo.
        Enfim, algumas outras menções a personalidades poderiam ter encabeçado essa lista; Não somente para atores e atrizes, mas também para diretores e roteiristas que infelizmente entraram neste rol. Contudo, como fica visto, o que não se pode apagar nem com a presença da morte, é o talento inegável de cada um destes, que anos e anos após o perecimento, continuam encantando e renovando a alma daqueles que amam a sétima arte.
        Foi-se o corpo. Fica o talento.

Ass.: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Freaks: Quando os monstros somos nós mesmos.


1. Introdução

       Freak: Aberração, Monstro. Ao consultarmos algum dicionário que apresente traduções do inglês para o português, certamente encontraremos tais designações para esta palavra.  Contudo, o que em especial deve nos assustar e chamar bastante a nossa atenção ocorre quando paramos para compreender a utilização desta palavra em algum momento especifico em destaque; em qual ocasião foi utilizada, em qual pano de fundo histórico, quem dita e rege a ofensa, e quem sofre a pungência da rotulação.
         Termos como este ganham especial força quando se inserem dentro de um quadro ideológico, cuja sua utilização praticamente se torna parte de uma cartilha segregadora, discriminatória, definidora dos direitos de inserção - ou não – dos sujeitos em sociedade.
         Daí que eu direciono o olhar de análise para um filme de titulo homônimo ao termo inicial deste texto: “Freaks”. Lançado no ano de 1932, esta película não nos chamaria atenção se não abordasse alguma temática em especial; A começar, o título poderia muito bem estar associado a filmes de terror com temáticas vampirescas e/ou monstruosas, como Drácula e Frankenstein, bem comuns no Cinema, durante o apogeu do gênero “Terror” nos anos 1930 – 1940.

Drácula e Frankenstein: Dois "Freaks" característicos do Terror dos anos 1930 - 1940; Vários filmes do gênero sobre as personagens em questão, marcaram época.
         Mas não era essa a questão. Muito pelo contrário, a temática adotada neste filme, surge como um contraponto, ou uma resposta de Mercado, a emergência e ao sucesso destes filmes de terror naquele momento. Na verdade, os anos 1930, foi o momento do auge da rivalidade entre as produtoras Universal Pictures e a MGM, que digladiavam ferozmente pela hegemonia das salas de Cinema, utilizando-se para tal, além dos clássicos românticos de sucesso, de filmes com grande apelo emocional – e de mercado – como eram aqueles pertencentes ao gênero Terror.
         A Universal Studios havia lançado em 1931, o grande sucesso “Frankenstein”, cuja “criação” foi interpretada pelo imortal astro do gênero, o ator Boris Karloff. O Filme foi um sucesso imediato, fazendo com que no mesmo ano, a Universal também levasse as telas, a história de “Drácula”, também marco do gênero, esta dirigida por Tod Browning, interpretado por outra lenda do gênero, Bela Lugosi, ator que certamente acabou ditando os transmites de interpretação da figura vampiresca aos demais atores que se aventuraram a interpretá-lo.
         A Alta cúpula da MGM ficou estupefata e ao mesmo tempo furiosa com o sucesso atingido por tais filmes, de forma que deveria encontrar em pouco espaço de tempo, uma resposta satisfatória e que alavancasse novamente a disputa pelo terreno. Segundo consta, os chefões da MGM – Irving Thalberg e Louis B. Mayer – encomendaram ao roteirista Willis Goldberg "qualquer coisa ainda mais horrível que Frankenstein".
Na foto: a esquerda, Irving Thalberg, e a direita Louis B. Mayer: Entrariam em choque durante os bastidores de produção do filme "Freaks" em 1932.

         O Resultado teria sido o Roteiro de “Freaks”. Ao ler o roteiro da película, se conta que Louis B. Mayer teria ficado horrorizado com a proposta apresentada pelo filme. Não somente pelo que seria levado as telas, mas, principalmente, pela necessidade da existência do chamado “Bastidores” para o filme.
         Em suma, Louis B. Mayer tentou vetar a execução da produção, entrando em atrito com o proprio Thalberg, na medida em que não desejava conviver com os atores e atrizes que participariam do casting do filme. Louis B. Mayer não era anti – social, costumava observar a produção dos filmes de sua produtora, mas, dentro do que apresentava aquela especial película, algo parecia incomodá-lo.
         Não obstante, enxergamos justamente nesse “Algo”, o espírito de uma época, e porque não dizer, algo que parece permanecer forte até os dias de hoje: O Preconceito. Nesse caso em destaque, o preconceito as pessoas com necessidades especiais, sejam estas deficientes físicos ou pessoas portadores de alguma síndrome genética.
          Contudo, o projeto não foi engavetado. Por conta de seu alto potencial de arrecadação, Louis B. Mayer saiu de cena, e então o filme pode então ser levado às telas, diga-se de passagem, com um pequeno patrocínio, haja vista que boa parte do casting era composto por atores desconhecidos e outra parte por amadores. Na escolha da direção, nada melhor que “puxar o tapete” da concorrência: a MGM seduziu a Tod Browning – aquele que no anterior havia dirigido Drácula pela Universal – que aceitou a proposta, e que de certa maneira, como explicaremos, tal escolha refletiu muitos traços de sua infância.

Tod Browning: Grande diretor dos filmes de Terror da Universal, foi atraido para a MGM, para dirigir um filme "diferente".
         O Filme foi rodado em 1932, e imediatamente causou furor e aversão por todas as salas de Cinema em que fora reproduzido. Pessoas abandonavam ao filme no meio de sua execução, a crítica especializada não poupava esforços em negativizar aquele filme, sendo assim, em pouco espaço de tempo, curiosamente, o filme foi engavetado, tendo sido apenas resgatado trinta anos depois de sua produção, durante os anos 1960, quando o filme se tornou um filme “Cult” para amantes do gênero e também objeto de análise para estudiosos do Cinema, como também da História, justamente por, na suas entrelinhas - pelo já dito clima de bastidores, o enredo e a recepção – apresentar um quadro fiel ao espelho do contexto histórico em que está inserido.

      Esta análise também objetiva tal proposta. Mas está longe de encerrar as discussões e os enfoques subjetivos que são dados ao filme. Na verdade, reiteramos o nosso intuito de, muito além de analisar os aspectos técnicos e artísticos da obra, entende-la frente ao contexto histórico em que foi produzido, reforçando cada vez mais, a velha máxima de Marc Ferro, na sua defesa da chamada “Leitura histórica do Filme”.
         É certo que todo tipo de preconceito ainda hoje insiste em existir, no tocante a várias questões possíveis. Mas devemos aqui nos transportar aos conturbados anos 1930 em que o filme foi produzido. 

2. O Contexto histórico mundial [1]

         É certo que todo tipo de preconceito ainda hoje insiste em existir, no tocante a várias questões possíveis. Mas devemos aqui nos transportar aos conturbados anos 1930 em que o filme foi produzido.
         O principiar do século XX foi marcado pelo fortalecimento de ideais cientificas preconceituosas, que concebidas ainda durante o ultimo quarto do século XIX, ganharam dimensões catastróficas no decorrer do século XX.  Já em 1884, Francis Galton procurou denominar uma nova ciência que ganhava força nos círculos científicos europeus, como eugenia. Tal ciência de destaque passaria dali à diante, a estudar o sangue humano, a procurar em certo “germe – plasma” os motivos da hereditariedade – e principalmente, do que consideravam uma “hereditariedade doentia”.

Francis Galton (1822 - 1911) : Em 1884, cria um nova ciência, a Eugênia.

         Logo, a ciência eugênica se espalhou por todo o mundo, chegando entre 1904 a 1910, entre vários países, como a Alemanha e os Estados Unidos. Rapidamente os “Centros de excelência cientifica” se converteram em verdadeiros balcões eugênicos, e o foco das universidades do ramo, passaria a ser, o estudo das chamadas “raças humanas”,partindo de uma viés tosco de analise da Teoria da Seleção Natural de Darwin, promovida tanto por Galton como também por Mendel, que espalharia a utilização deste conceito mundialmente, a partir da decada de 1910.
         Entendiam que certas “raças” possuíam predisposição a algumas características, que lhes eram inatas, independente de qualquer tentativa de inculcar-lhes nova tendência e/ou retirar-lhes algo que lhe fosse proprio: Assim fortaleceu-se em cadeia, a idéia dos judeus como avarentos e hábeis negociadores, os negros e asiáticos como sujeitos inferiores, e obviamente, a elevação, a gloria do homem branco, de origem nórdica, como a perfeição dentre as raças humanas.
        Dentro deste “critério selecionador”, que era amplamente difundido e visto como inovação cientifica a ser respeitada não somente em meios acadêmicos, como em expressões culturais diversas – dai o fato de termos aqui em nosso país, figuras como o aclamado Monteiro Lobato, defensor ferrenho da Eugenia, acusando ao misticismo nacional a culpa pelos “problemas do Brasil” -, também apareciam aqueles que geneticamente acabaram sofrendo as “conseqüências” desta “mistura e/ou choque de raças”, os quais eram justamente, as pessoas que nasciam com necessidades especiais e/ou síndromes genéticas.

Monteiro Lobato (1882 - 1948) : aclamado escritor brasileiro, entre obras de cunho nacionalista, Lobato deixava claro a sua visão "particular" sobre o país: No Sítio do Picapau amarelo, ofendia claramente a figura da Tia Anástacia, personagem negra da obra. Ainda no mesmo bojo, em sua única novela internacional, conhecida como "O Choque das Raças ou O Presidente Negro", Lobato apresenta um fim apocaliptico para uma obra inteiramente polêmica.

         Cientistas de todo o mundo procuravam, muito menos na analise genética do que no dito preconceituoso, responder a “origem” das síndromes genéticas; e muito longe de apontar tratamentos e vias de melhorias de condições da vida para as pessoas, entendiam que só havia uma única solução: a purificação da raça, do sangue. O Meio? A Castração, e em uma hipótese não tão distante, o extermínio.
         O Palco da execução destas idéias, todos nós sabemos. Começou com os experimentos nos centros americanos, na separação entre os sujeitos considerados de “raças diferentes” quando casais de negros e brancos eram separados a força, e culminou nas assombrosas fabricas de morte, constituídas pelo regime nazista, ainda no decorrer da década de 1930, quando o regime assumiu o país. Ao contrário do que se pensa, os campos de concentração não “surgiram imediatamente” no nascer da segunda guerra, em 1939, mas, eram em verdade, edificados lentamente em concreto, e na alienação mental de todo um povo construída gradualmente, nas lides iniciais desta dita década, após a ascensão do Nazismo ao Poder em 1933.
           O Filme “Amém” do diretor grego Costa Gravas, do ano de 2002, demonstra muito bem como o regime nazista importou esse “conceito eugênico” das experiências americanas – tendo inclusive Hitler em uma de suas cartas, dito que devia muito aos Estados Unidos por isso – edificando lentamente a partir de 1933, na mente da população alemã, tais idéias, para dar-lhes as “soluções e a resposta do motivo da crise econômica e social em que viviam”.


“Amém”, dir. Costa Gravas, 2002: O Filme mostra bem como se deu a alienação da população, e a edificação de uma industria da morte, bem antes da eclosão da Segunda guerra mundial. Os Campos de Exterminio realmente tiveram seus fetos antes da Guerra.
          Dos Programe, ocorridos em massa durante o ano de 1934, veio à delação e a perseguição brutal aos judeus.  Dentro do proprio seio familiar, pessoas levavam seus entes queridos para “manicômios” acreditando estarem perpetrando uma medida de cura. Na verdade, como bem mostra Costa – Gravas, eram estes manicômios ou casas de recuperação, proto – fabricas da morte. Locais da experimentação em micro escala, do que se constituiria em Auschiwtz e outros tantos campos poucos anos em frente.
         Enfim, foi esse o contexto histórico em que se enquadrou o filme “Freaks”. A pergunta em questão é: Como pensar um filme cujas personagens em grande maioria são portadoras de necessidades especiais e/ou síndromes genéticas?

3. Os Bastidores, a produção e a recepção da obra:

Freaks", dir. Tod Browning, 1932: Combates e Embates em torno da película.
         Não só a recepção da obra fala muito, como também o ponto inicial de sua produção. Ora, quando Louis B. Mayer pede aos roteiristas que escrevam algo demasiado assustador, nos aparece como “curioso”, para não dizer amedrontador, que a solução encontrada, e que para eles era horripilante, era empreender a um filme com essas características.
         O Preconceito esta no cerne de todo o filme; dos seus bastidores até a sua recepção dentro das salas do Cinema. Contudo, coube a uma pessoa, parece que exceção a regra, o diretor Tod Browning, a conduzir um filme que se apresenta como extremamente atemporal e contraposto as essas questões. Podia ele abusar dessa ojeriza popular e conduzir o filme a uma exibição atormentada daquilo que era mal visto e mal desejado pela sociedade.
         Sua atitude, entretanto, foi completamente contrária a isso. Talvez por sua experiência na vida real, dentro do que seria o enfoque central do filme. Tod Browning havia sido criado em um ambiente de circo; Não um circo comum, mas o chamado “Circo de Horrores” que era tão comum nos Estados Unidos do fim do século XIX e inicio do século XX, como qualquer outra coisa. Neste tipo de circo, pessoas com deficiências físicas e mentais de todos os gêneros eram recrutadas, muitas delas ali trabalhavam como conseqüência de um abandono familiar, para se tornaram “estrelas” de encenações circenses, que iam desde a “Mulher – Barbuda” até o “Homem – Cobra”.
       Pessoas portadoras de síndromes mentais eram recrutadas com o simples intuito de andarem no tablado do circo e desta “participação” provocarem risos ensurdecedores de todo o público. Browning soube muito bem demonstrar isso no filme a partir da participação de três personagens em especial: três irmãs portadoras de uma síndrome, cujo nome desconheço. Ambas possuem uma aparência juvenil por conta da síndrome. Daí era comum vestir-lhes com roupas de criança; O Resultado: a alegria de um público. É o Fetiche do deboche, do preconceito.
         Dessa infância circense, veio à idéia do roteiro para Browning. Após a aceitação do roteiro pela MGM, durante sua produção, alguns “fatos curiosos” podem ser indicados. Conta-se que durante uma reunião em um restaurante, para a apresentação do casting de elenco, Browning levou seu casting de atores. Na mesa, além de Louis B. Mayer, estava uma gama de grandes atores da época, que para evitar a decepção dos leitores, não irei citar. Todos ficaram horrorizados com o “casting”. Como resultado, foi construída na sede da MGM, uma sala de alimentação separada para os mesmos. Digamos que um Apartheid alimentar dentro dos estúdios da MGM.
             O Filme foi produzido com um pequeno custo de produção, alcançou o furor dito, e como conseqüência Browning acabou sendo rechaçado pelo proprio Louis B. Mayer - que já havia “desconfiado” inicialmente da proposta do filme – e do proprio Tallbert que lhe havia depositado “confiança” no enredo. Durante a sua produção, Browning contou com uma censura implacavel do proprio Louis B. Mayer que de tão pesada, acabou diminuindo o tempo de duração do filme, para pouco mais que 1 hora de duração. 
            Isso tudo porque o "ousado" Tod Browning havia escrito um roteiro que permitisse a participação efetiva de boa parte dos personagens "freaks", incluindo muitas cenas com "Zoom" nas expressões, atos e ações das personagens, as quais foram incisivamente "cortadas" do filme, sobrando apenas algumas boas cenas deste tipo. 

O Sorriso no rosto: uma marca em todo o filme.

               O Filme que é bastante reflexivo, poderia assim, ter sido mais ainda, se não tivesse contado com esta censura imposta. Como consequência, o filme ganha um rítmo eletrizante do ínicio ao seu fim, e de certa maneira, feito sob esta forma, o filme nos permite entender em poucas imagens, o universo de preconceito em que aquelas pessoas eram obrigadas a conviver, mas que curiosamente, conseguiam recriar o amor perdido, muitas vezes desde o berço do abandono, nos braços de seus "semelhantes"; Daí a curiosa menção feita pelo filme, dos costumeiros casamentos ocorridos entre os "freaks" no circo, entre pessoas com sindromes diferentes até, atropelando qualquer adversidade que poderia ser apontada. Tudo isso com uma particular ironia que não esconde a beleza de sentimentos naturais e a natureza de eventos comuns a vida de todos nós.

Na cena: O Pedido de Casamento de um "gago" a uma das irmãs siamesas.

         Enfim, como consequência "disso tudo", Browning foi exilado dos estúdios da MGM; aquele que era o grande diretor de filmes de terror do gênero, com grandes sucessos em ambas as produtoras rivais, nunca mais voltaria a produzir algo em Hollywood. Morreu em 1962, esquecido por todos. Todos os “normais”. Com certeza, não pelos seus amigos do Circo.
         Browning havia demonstrando nas telas, certas verdades que a “Era de Ouro de Hollywood” não desejava enxergar. A Década da beleza das grandes atrizes loiras, e dos galãs de colarinho, não entendia como alguém teria tido coragem de empreender a um filme “horrendo” como aquele.
         Como alguém havia tido coragem de contratar como parte central de todo um casting, um elenco de pessoas que viviam no circo de horrores mais famoso do mundo a época – o chamado Circo dos Horrores do empresário Barnum – e retratar-lhes nas telas como seres humanos, com sentimentos e expressões como qualquer outra pessoa?

Circo dos Horrores de Barnum: Todo o casting do filme foi contratado do Circo deste "Showman".

         Que ousadia! Mais do que isso! Eram eles personagens principais da obra! Mais ainda! A Mensagem moral do filme mostra os seres tido como “normais” como “por dentro” sendo de uma natureza pérfida, fria, dissimulada, arrogante, e cheia de maldade. Quanto aos “Freaks” são pessoas comuns, são doces, vivem em harmonia, apresentam sentimentos, choram, sorriem, sentem e trocam carinho... e são abusadas pelas pessoas “normais”. 

Os “Freaks” em comunhão: O Bem estar de um, é o de todos!

         Os Freaks, aliás, são motivo de chacotas, de enganações, e outros males. Possuem um senso de união fora do comum, o sofrimento de um é o de todos. Algo que falta no modus operandi do homem “normal” capitalista, reduzido a esfera do seu ego sujo que reside em seu proprio umbigo.
         Enfim, vale demais assistir ao filme. Freaks é um soco no estomago com uma beleza inigualável. Não há nada de assustador no filme. Pelo contrário, é uma poesia da simplicidade, onde o horror está do lado de cá! Não de lá!
         Atemporal. Freaks meche em uma ferida que não pode ser encerrada dentro de um curto espaço de tempo. É a ferida do preconceito diário, ainda tão rotineiro nos dias de hoje.
         Freaks, em especial, de maneira sutil e direta, nos ajuda a compreender, como na maioria das vezes, os monstros na verdade somos nós mesmos.

Ass.: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.



[1] Cf.: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. O século XX: entre luzes e sombras. In: O século sombrio: uma história geral do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.p.1-25.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Nunca houve uma mulher como Bettie Page.


           Ela é um mito. Mesmo após sua morte. Cultuada até os dias de hoje, “O Anjo Escuro” ou a “Rainha das pin – ups” com certeza deixou sua marca indelével na história recente não só do Cinema, como mais ainda, da fotografia, e porque não dizer, da ruptura do conservadorismo frente à sensualidade e/ou a expressão da beleza feminina.
         Media 1,66m. Tinha como característica marcante sua incomparável franja negra que lhe cobria a testa, oriunda dos seus cabelos lisos e pretos. Não foi a mulher mais bonita de sua época. Certamente foi a mais sensual. Por essência, diga-se de passagem.
         Nascida em Abril de 1923, Bettie explodiu no submundo da fotografia “erótica” em meados dos anos 1950, no auge da sua maturidade física e, sobretudo como mulher. Ao contrário do que se pensa, Bettie foi muito além do que um mero rostinho bonito – e corpo fantástico é claro -; Bettie não deixou de se mostrar como uma mulher de vanguarda, que irrompeu frente ao conservadorismo e a repressão característica de uma sociedade patriarcal e machista naqueles Estados Unidos de outrora – como em outras partes do mundo a época também é claro.

Bettie: No começo de sua carreira.
 
         Filha de uma família conservadora, Bettie desde cedo soube se mostrar uma mulher independente, e que sofrendo desde jovem, as “conseqüências” de ser visivelmente linda, teve que arcar com os “prejuízos” de tal característica. Isso foi marcante em sua trajetória. A Bettie parecia que todos que se aproximavam de si, assim faziam por conta de sua beleza. Não mais que isso. Sua história remonta a um abuso infantil, a um casamento mal sucedido com um jovem, e a um estupro ocorrido ainda em sua adolescência.
         Bettie queria ser atriz. Foi atrás de seus sonhos na antiga Nova York. Para sobreviver, trabalhou como secretária em uma firma enquanto estudava para se tornar atriz. E é claro, seu rosto não passaria despercebido naquela cidade que emulava beleza.
         Em pouco tempo, Bettie começou a participar de sessões de fotografia, onde toda a sua beleza estonteante passou a despontar e a chamar a atenção. Mais do que beleza, Bettie tinha um quê de sensualidade natural, que fazia de suas “caras e bocas” a mais pura expressão da sensualidade. 
          Daí em diante a carreira de Betty decolou. De um policial que nas horas vagas trabalhava como fotografo, surgiu a indicação a Bettie para utilizar sua clássica franja negra frente a sua testa “redondinha”. Nascia ali a caracterização perfeita da mais clássica pin – up da história: Bettie Page.

Bettie e sua franja clássica: sugestão de um policial - fotográfo.

             Sua vida frente às lentes fotográficas demorou menos que 10 anos de apogeu. Assim como acontecia com outras modelos da época, quando o tempo parecia atingi-las, em uma profissão que exigia a extrema beleza juvenil. Bettie nunca conseguiu ser a atriz que desejava. Talvez a fama que obteve frente a sua carreira como modelo sensual, prejudicou seus objetivos. 
            Não importa. Bettie foi o que podia e devia ser. Ela sabia disso. Era seu talento. Provocar. Dissimular.  Bettie provocou uma revolução sexual nos Estados Unidos. É claro que pin – ups existiram antes dela. Mas nenhuma delas conseguiu irromper até os olhares de admiração nas ruas americanas. Era tudo velado, reprimido. Bettie assinava autógrafos. Bettie provocou uma reação da extrema direita americana contra “os desvios de conduta sexuais”.
         Bettie era o cão com rosto de anjo. Uma menina do interior do Tennessie, religiosa, causou alvoroço nos Estados Unidos, influenciando até o meio cinematográfico, com o arquétipo de “mulher sensual e independente” que esta oferecia dali em diante.  

Bettie Page: A Rainha das Pin - ups.
           Traço característico desta influência pode ser visto no grande clássico cinematográfico do diretor Russ Meyer chamado “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” do ano de 1965, que reflete intensamente o auge da revolução sexual, da “força bruta feminina”, onde curiosamente, a personagem principal do filme, interpretado pela também bela atriz Tura Satana, apresenta as mesmas características físicas de Bettie. Enfim, uma homenagem no calor da época.

Tura Santana em "Faster": Inspiração em Bettie, as franjas que o digam.
            
          Bettie casou-se três vezes, mas separou-se em todas as ocasiões. Morreu em 2008. No fim de sua vida, havia trazido a tona todo a sua fé, tornando-se uma ativista religiosa, algo que nunca havia abandonado durante seu tempo de apogeu como “pin – up” ao contrário do que se imagina ou se costumava entender. Bettie era bem religiosa. Quando perguntada por um de seus fotógrafos, qual seria a sua reação se Deus estivesse vendo o que ela fazia, Bettie respondeu que agiria naturalmente, pois acreditava que cada pessoa tinha um dom especifico; Deus havia dado a ela o dom da pose, de ser fotografada. O Dom da Sensualidade.
         Bettie, portanto não foi só um rosto bonito, vazio e sem contestação. Foi ponto de ruptura. Ponto de desequilíbrio de uma sociedade marcada pela hipocrisia e pela repressão da sexualidade; Furacão de uma época. Muito além da sua beleza, Bettie retirou a sensualidade por detrás dos panos dos porões sujos de Nova York. Dela em diante, esse aspecto passou a ser valorizado. O Fenômeno das pin – ups, das mulheres fatais passou a ser cultuado e valorizado a partir desse momento. Marilyn Monroe já era famosa na época de Bettie. Certamente sua fama deve muito ao “reforço” dado por Bettie.
         Enfim, felizmente em 2005 foi produzida pela HBO, uma Biografia da mesma, chamada “Notorius Bettie Pagge”. Interpretada de forma magistral por Gretchen Mol – por sinal, nunca vi uma atriz estar tão idêntica a uma pessoa como esta – o filme mostra em 90 minutos a infância, a adolescência – e os “problemas com sua beleza” – até o apogeu artístico de Bettie como a Rainha das Pin – ups, e também o furor causado na época.

Gretchen Moll: Personificação perfeita de Bettie Pagge.

         Vale muito assistir. Para quem gosta de Cinema, para quem curte fotografia, para quem curte cultura vintage, para quem curte pin – ups, para quem procurar compreender a repressão, o conservadorismo, e a sensualidade como rompante em uma sociedade.
         Deve assistir quem é fã de Bettie Page. Nunca houve uma mulher como aquela. Certamente. Uma Franja.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Entre o Sorriso e a Cura: Um Olhar ao filme "Patch Adams: O Amor é contagioso".

Antes de tudo, eu sei que essa análise vai acabar se demonstrando e/ou apresentando como uma crítica amarga ou desnecessária sobre a película em questão. Mas não tenho como evitar. Na verdade até teria, mas não quero evitar. O proposito desta postagem não é macular a imagem do filme, que é deveras fantástico dotado de um grande poder dramático e de uma mensagem belíssima, cuja força reside na história real de um sujeito extremamente fora do comum, absurdamente extraordinário, chamado Hunter “Patch” Adams.
         Na verdade, a crítica não residirá sobre os aspectos técnicos do filme, mas sim, sobretudo no que concerne a alguns pontos importantes dos bastidores de sua produção, que de certa maneira, nos ajuda a evidenciar um certo paradoxo adotado pela produtora do filme em questão, quando posto frente às ações e atitudes do biografado. Em linhas gerais, para ratificar a minha crítica – que não é corrosiva – vai se basear, como um “referencial teórico” mais do que incontestável, nas palavras do próprio Patch Adams, o sujeito real e histórico.


Capa do Filme " Patch Adams: O Amor é contagioso", de 1998, dir: Tom Shadyac.

          Portanto, me seguro em uma fonte mais do que segura e confiável para analisar os bastidores e a execução do filme: o próprio Patch Adams. Como dito, a idéia não é atacar o filme, belíssimo por sinal, que tanto emocionou o mundo, e de maneira singular, soube apresentar ao mesmo, a figura deste “singular” médico americano. Uma comédia leve, com bons tons de drama, esta película tornou-se dentro de pouco tempo – o filme foi rodado em 1998 – um clássico instantâneo da “Sessão da Tarde” ou daquelas manhãs de “Cine Educativo” quando as nossas professoras na época do colegial, procuravam passar este filme para fomentar o espirito critico e de bons valores nos alunos.
         O Filme também é bastante cultuado em meio acadêmico, pois não é atoa que muitos professores do curso retratado na película – que é o de Medicina – constantemente se utilizam do mesmo, nos períodos iniciais do curso, para suscitar a emoção dos discentes e encaminhá-los a prática de uma conduta médica próxima ao retratado no filme. 


Hunter "Patch" Adams: O Biografado.

           Enfim, paralelamente a análise de alguns pontos importantes na reconstrução fílmica do biografado, nos interessa entender como o Cinema se apropria da trajetória de vida de uma personagem em destaque, e, sobretudo como, a partir deste momento, este meio midiático de massas poderia causar um impacto profundo, contribuindo para a elevação dos ideais tão centrais na proposta de vida do biografado. Isso tudo vale ser dito por que, curiosamente, a película e principalmente os bastidores de sua produção, acabaram não agradando tanto ao Patch Adams Real, justamente pela carência da efetivação dos acordos feitos quando foi iniciada a roteirização e a proposta do filme.

Robin Willians foi o escolhido para interpretar magistralmente Patch Adams nas telinhas..

          Em resumo, eis a sinopse da película: O Filme nos leva aos caminhos de redenção de Hunter Adams, sujeito amargurado com os traumas de sua Infância e Adolescência, que de tal maneira, procura por livre arbítrio, se internar em um hospital psiquiátrico para contornar sua vida. Estando lá, acaba aprendendo com os pacientes do recinto – e não com os profissionais do local – que a vida deve ser vivida através da amizade, da troca de amor, e que só assim o mundo se encaminharia para um desfecho feliz para todos; para a cura das doenças, para a valorização do ser humano como pessoa. 
         Daí em diante, a película nos mostra Hunter Adams, agora apelidado de “Patch” por seus amigos do hospital psiquiátrico, adentrando ao mundo acadêmico, onde se torna em especial o melhor aluno da instituição, com as melhores notas, despontando a inveja de outros no local, e a raiva da alta cúpula que é absurdamente egocêntrica e trata aos pacientes como coisas, como números.


Patch é o aluno mais velho de toda a Universidade; por conta de suas ótimas notas, desponta a inveja dos outros alunos e a ira do reitor por suas atitudes "malucas".

         O Caminho trilhado por Adams é de justamente alertar para a necessidade efetiva da mudança desse paradigma: Fazer do ato médico, da prática da medicina, uma atitude de amor ao próximo, num sentido mais amplo do termo. Não é apenas medicar e evitar a morte, mas como também aconselhar, afagar e ouvir os sonhos de seus pacientes. É procurar “saber o nome” dos pacientes e não apenas receitar o comprimido do “sujeito com câncer no pâncreas”.
         Como todo sujeito idealista ao extremo, Patch Adams acaba encarando muitos entraves, principalmente pela alta cúpula da instituição, que em muitas ocasiões acaba interferindo procurando expulsá-lo da mesma, por conta justamente de sua metodologia de trabalho, que é descrita na pauta da expulsão como de “exagerada felicidade demonstrada”. Como se isso fosse um erro a ser impelido.


Cena fantástica do Filme: Patch transformando um instrumento médico em um simples nariz de palhaço para a alegria de uma ala inteira de crianças com cancer. Tudo feito as escondidas é claro!
           
              Enfim, o filme consegue fazer uma justa homenagem a Patch Adams, ainda que para isso se utilize é claro de “Licenças poéticas” comuns ao meio cinematográfico, bastante entendível é claro, pois Cinema também é Mercado. No filme, Adams constantemente afirma a seguinte frase: “O Riso é o melhor remédio”, mas Patch em entrevista ratificou que nunca afirmou tal frase; Na verdade havia dito em uma de suas obras que o amor e a amizade são o melhor remédio, e em um sentido bastante ampliado do termo. Não se deve apenas fazer sorrir a pacientes, mas viver em harmonia com todos no mundo, desde a enfermeira até o sujeito que você encontra embriagado na esquina.
         Outro ponto interessante a ser observado é que na película, uma namorada de Adams acaba sendo assassinada por um paciente, o que na verdade não ocorreu na realidade. Foi um amigo de Adams quem foi assassinado. Obviamente que a inclusão desta mudança se insere dentro de uma necessidade fílmica de recriação dramática de um romance interrompido, e etc.

Dr. Patch Adams: De uma Infância traumatica; da Tentativa de suicidio ao Hospicio; Para o Mundo da amizade e do sorriso.

           Enfim, cheguemos ao ponto que realmente interessa: Hunter “Patch” Adams foi, e é, já que ainda está vivo – no auge dos seus 65 anos – um sujeito mais do que humanamente dotado de valores necessários à humanidade e que parecem esquecidos nos dias de hoje. Patch Adams é um médico “subversivo”, que muito além da sua metodologia do amor, da amizade e do riso, encara e critica de frente, as agruras de seu tempo.
         É nesse ponto que enrolamos um pouco para chegarmos agora. Recentemente, no ano de 2007, o médico americano, que até hoje viaja o mundo todo com seu grupo de médicos – palhaços, contribuindo em locais de guerra pouco visitados, zonas afastadas e etc., acabou visitando o Brasil, de forma que recebeu então o convite da Rede Cultura para participar do conceituado – e, diga-se de passagem, ótimo – programa “Roda Viva” onde passaria por uma sabatina de entrevistadores de vários gêneros sobre várias temáticas.

Patch Adams no "Roda Viva" em 2007: Críticas ao Mundo em Geral.


O Resultado da entrevista foi surpreendente. Adams criticou desde o governo americano em geral e a promoção de suas guerras, ao sistema falido de saúde americano, que privilegia as companhias de saúde em detrimento dos pobres – para entender, e só assistir ao documentário “S.O.S Saúde” de Michael Moore -, entre outras críticas, até a correção de alguns aspectos apresentados no filme.

O Documentário "S.O.S Saúde" de Michael Moore nos ajuda a entender a realidade dos hospitais e planos de saúde em um país de "primeiro mundo" como os Estados Unidos.

         Isso tudo surpreendeu aos entrevistadores que certamente esperavam a apresentação de um bom velhinho médico, doce e afável em suas palavras – o que ele demonstrou ser, mas de uma forma realista e ativista – ao invés de um sujeito extremamente versado e critico frente a várias questões da sociedade. Daí então que nos pareceu bastante oportuno e curioso, apresentar algumas dessas questões. Segue então a transcrição de uma parte da entrevista, justamente seu inicio, quando Adams aborda sobre a película:

·        Sobre a opinião de Patch Adams acerca da película:

Patch Adams:

No início, fiquei constrangido com o filme. Sou ativista político, trabalho pela paz e pela justiça. Considero fascista o meu governo. Se não mudarmos de uma sociedade que venera dinheiro e poder para uma que venere compaixão e generosidade, não haverá esperança para a sobrevivência do ser humano neste século. Precisamos deter um sistema que, pela TV, estimula a concentração do dinheiro na mão de poucos. Então… Hollywood queria vender ingressos. Duas coisas vendem ingresso: violência e humor. Desse modo, preferiram enfatizar o meu esforço em abrir o único "hospital maluco" da história. Ignoraram o fato - falo de um país que se recusa a cuidar de 50 milhões de pessoas porque são pobres - de que luto pela medicina gratuita. Se me permitem – estou aqui na berlinda – posso corrigir algumas coisas do que foi lido?

·        Patch então continuou:

Não concordo com “rir é o melhor remédio”. Eu nunca disse isso. A amizade claramente é o melhor remédio. É a coisa mais importante na vida. São nossas relações com aqueles que amamos. Infelizmente, os meios de comunicação, sendo como são, muito antes de me conhecer, imaginam que rir seja o melhor remédio.
Então, quando escrevem o artigo, põem essa frase porque o fazem, na realidade, sem pensar. Também quero corrigir a idéia de que rir seja uma terapia. Também nunca penso em música como terapia, nem em arte, nem em dança. Nunca precisam da palavra “terapia”, que é pequena para ajudar. A arte não precisa de ajuda da palavra “terapia”. É a cultura humana. Não fazemos terapia de cultura. Se estamos saudáveis, fazemos cultura. Para mim, humor é contexto.
No nosso hospital, exigimos que o pessoal seja alegre, gozado, carinhoso, cooperativo, criativo e atencioso. É um modo para uma comunidade humana saudável integrar-se, para não haver violência, para um cuidar do outro. Portanto, nunca penso… também nunca penso na diferença entre levar humor para uma criança moribunda e ser cordial com um homem de negócios no elevador. Para mim, são experiências iguais.
O filme dá a impressão de que estou prestes a entrar no quarto de uma criança enferma e fazer palhaçada. É um filme bom e bonitinho, mas não faz o Brasil querer alimentar todos os cidadãos famintos e parar de matar o rio Amazonas. E eu quero proteger o Amazonas e acabar com a violência contra as mulheres no mundo inteiro. E o filme podia ter integrado isso tudo.
Consegui ficar mais tranquilo com o filme porque o mundo está tão faminto - até da versão condensada, mais simples de qualquer coisa ligada ao amor, porque o amor não está na TV, nem em nenhum lugar, não é ensinado nas escolas - que qualquer versão, até mesmo a versão hollywoodiana mais simples, o mundo aceita. Está faminto por si. Eu assisti. Era um filme internacional de muito sucesso. Estão famintos.
Podia ter sido um filme muito mais inteligente.
No mesmo ano em que Patch Adams foi lançado, Benigni lançou a Vida é Bela. É uma versão bem mais inteligente, com uma mensagem parecida. Sei que isso não é exatamente o que vocês queriam, mas como estou na berlinda, esta situação permite que a conversa tome rumos que as pessoas podem não ter pensado que pudesse tomar. Antes do filme, quando tentei levar palhaços à guerra da Bósnia, a ONU [Organização das Nações Unidas] levou sete meses para me dar a permissão. Disseram: “Como pode querer levar palhaços para a guerra? Isso não é engraçado!”.
Depois do filme, para a guerra em Kosovo, só levou quatro dias. E por causa do filme, grupos de palhaços do mundo todo visitam hospitais. Ajudou-os muitíssimo. Pessoas de mais de três mil projetos do mundo todo disseram: “Vi o filme trinta vezes, adorei! É o meu filme favorito. Abri esta clínica, esta escola, isto…” Mecânicos escrevem para mim: “Vi o seu filme, agora faço um trabalho honesto.” E assim, agora, sinto mais respeito pelas consequências, não pela inteligência do filme. 

·        Sobre a Veracidade de alguns fatos apresentados na película:

Sou um intelectual. Existem grandes filmes na história, este não é um deles. Este é um filme comercial de Hollywood. Quanto à veracidade do filme, na verdade, quem foi assassinado foi o meu melhor amigo. É humilhante para a família dele, mas eu o conheço. Ficaria feliz por ser interpretado por uma bela mulher [risos]. Iria convidá-la para sair [risos]. Lembra-se da cena da convenção de ginecologistas, das pernonas em cima da porta? [cena em que Adams é convocado a ajudar nos preparativos de um seminário de ginecologistas, os quais são recebidos, por obra de Adams, por uma grande armação em formato de duas pernas gigantes abertas, que convergem para a porta do auditório principal] Eu não faria aquilo, fui muito bem em anatomia feminina [risos].
O verdadeiro filme do banho de macarrão se viram a minha versão é muito mais engraçada e mais interessante [uma paciente terminal diz a Adams, ao ser questionada por ele, que tinha um sonho infantil de nadar em uma piscina de macarronada, desejo que é atendido por Adams].
Tudo no filme foi atenuado. Muita gente pensa, porque Hollywood é uma exageração. Na verdade, é uma atenuação. Fico muito triste porque o meu nome está em filme em que não há paz e justiça. Vocês viram, nesta entrevista, fiz com que fosse a primeira coisa sobre o que falar.

·        E por fim, Patch, ainda sobre as consequências e os possíveis impactos da película, respondeu a seguinte pergunta do entrevistador:

Ricardo Westin: Mr. Adams, você citou [que é] um filme de Hollywood, é um filme que não se cita a paz, a justiça, mas tem um lado positivo de ter incentivado pessoas no mundo inteiro a seguir seu exemplo, a palhaços entrarem em hospitais... Mas, no seu caso específico, esse filme ajudou a sua entidade a receber mais doações, a se construírem novos hospitais que estão sob sua responsabilidade?

Patch Adams: Fiz o filme porque não consegui arrecadar dinheiro durante 28 anos para erguer o que seria o único hospital-modelo do mundo para os problemas de que ouço falar por médicos do mundo todo. Por ser um hospital tão radical, ninguém quis me ajudar. A Universal Studios prometeu erguer nosso hospital. O filme rendeu mais de quatrocentos milhões de dólares. Ninguém ligado ao filme veio me dar nem um dólar [pausa]. Ele me ajudou a ganhar mais pelas minhas apresentações. Antes do filme, eu recebia 300 mil dólares por ano. Depois do filme, um milhão de dólares por ano. Não guardo dinheiro. Escolhi não possuir nada. Dou todo o dinheiro para podermos fazer mais. Também nos permitiu começar a erguer clínicas e escolas pelo mundo e a expandir a nossa atividade, mas não nos trouxe dinheiro para erguer o nosso hospital.

Quem deseja assistir a entrevista por completo, pode ver no vídeo a seguir:

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