quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Blackface: Como “denegrir” a imagem do negro no Cinema.



            A Utilização do perigoso verbo “denegrir” no titulo desta postagem foi deveras intencional. Utilizado no dia a dia para “depreciar”, “macular” a imagem de alguém, este vocábulo traz consigo desde sempre, o germe do proprio preconceito, nesse caso, aquele pertencente ao racismo. Sim, porque a associação direta entre macular, depreciar, injuriar o outrem está diretamente associada com o ato de “fazer negro, escurecer”.
            Palavras e expressões como esta pululam no vocabulário cotidiano do dia a dia, de forma que muitas vezes não percebemos a essência de seus possíveis significados. Esta questão não se refere apenas aos negros, mas como também a outros que sofrem preconceito. Recentemente fiquei surpreso ao notar que o termo “judiar” se refere a um estereotipo depreciativo incidente aos judeus. Não se trata de defender o extermínio ou a não utilização destes termos, até porque, acredito que, 99% das pessoas que as utilizam, inclusive eu, assim não a fazem no intuito de depreciar este ou aquele.
            Este prologo serve apenas para demonstrar como algumas questões parecem se enraizar de forma tão forte que não nos damos conta. Puxo então esta questão do “denegrir”, pois foi com este intuito que um mecanismo cinematográfico foi bastante utilizado na primeira metade do século XX, no Cinema americano: o Blackface.
         O Blackface se apresenta como um conjunto de mecanismos artísticos que comportam tons e estereótipos puramente racistas em suas manifestações. Devemos ter em conta que o Blackface não surge com o Cinema, sendo apenas um espelho refletor da mentalidade norte – americana no pós – Guerra Civil Americana, em especial, uma visão branca sulista que procura sobrepor em todos os sentidos, inclusive raciais, a imagem do Norte, com destaque, a atuação dos escravos.
            Enfim, toda esta querela acabou se refletindo nos meios artísticos; o Blackface surge então no glamoroso a época, Vaudeville, ou o circo de variedades. Comediantes faziam sucesso representando de forma absurdamente estereotipada os antigos escravos americanos, para delírio de um público em sua maioria formado por aristocratas brancos, sulistas, ex – escravistas.

O Blackface no Teatro de Variedades ao iniciar do século XX: A Maquiagem e a encenação pitoresca.

            O Principal “efeito de realidade” utilizado nestas encenações é justamente a raiz do Blackface: pintavam-se os rostos brancos com tinta preta, procurando-se acentuar também o volume dos lábios – em alguns casos, chegava-se a pintá-los de vermelho – para chegar a uma certa “representação” desejada para os negros.
            O tão comum Blackface dos Cinemas logo galgou espaços dentro daquela nova mídia que crescia durante o iniciar do século XX. No Cinema, temos inúmeras mostras deste mecanismo, que vão desde películas hoje bastante criticadas e contestadas como de conteúdo puramente racista – como “O Nascimento de uma Nação”, de 1915 de Griffith – até outras obras menos faladas, estas de grande valorização e estima poética, mas que acabam por isso ocultando a utilização destes mecanismos em suas películas.
             Em “O Nascimento de uma  Nação” de Griffith, temos um filme de “caráter abertamente racista, repleto de estereótipos cruéis afro-americanos como pessoas bárbaras, sem instrução e sem cultura” (Rosenstone,2010, p.30) A idéia deste sulista era de dar a sua versão da guerra civil americana e as possíveis consequências para o país diante daquele fato. O que assusta disto tudo é que “A sua representação da Guerra Civil Americana, a sua visão do Sul como vitima das depredações dos ex-escravos e dos oportunistas do Norte durante a reconstrução, a sua exaltação dos integrantes da Ku Klux Klan como heróis do conflito racial e seus estereótipos terríveis dos afro-americanos eram (infelizmente) reflexos diretos das principais interpretações da época em que o filme foi produzido – não apenas das crenças das ruas, mas do saber da mais poderosa escola de historiadores americanos daquele período”(Idem).
            Enfim, obviamente que como artificio desta visão preconceituosa que se formaria durante o filme, o uso do Blackface ganharia destaque, sendo praticamente imortalizado no mesmo. Cena fortíssima que reflete o preconceito e que demonstra o uso pitoresco deste artificio racista se dá quando o “Negro Gus” persegue a jovem e branca Flora, que prefere jogar-se a morte em um penhasco para que aquele não a toque. O “Negro Gus” é um ator branco que se usa do Blackface. Gus é linchado pela Ku Klux Khan.

O Olhar "esbugalhado" do "Negro Gus" ao ser linxado pela KKK.
         
O Estereotipo do "Negro Buck": O Buck é um grande homem negro que é orgulhoso, às vezes ameaçador, e sempre interessado em mulheres brancas.
            Contudo, o curioso está em observar que este uso tão comum da “maquiagem” e “satirização” pelo Blackface não atingia somente a estes filmes mais, digamos políticos, atingindo também posteriormente películas mais comerciais com temáticas adversas. Curiosamente, o primeiro filme falado da história de Hoolywood procurou se utilizar deste artificio. Em “O Cantor de Jazz”, de 1927, o Blackface ganha papel de destaque na caracterização do personagem principal da película. Para isso, o Ator Al Jolson, a fim de interpretar um jovem cantor negro chamado Jack Robin, atua em boa parte do filme, com o rosto pintado.

Al Jolson em "O Cantor de Jazz": O Primeiro filme falado dá voz ao preconceito.

        Nestes dois casos, citamos o uso de um Blackface mais desmascarado, direto. A Maquiagem e a satirização é direta, sem disfarces. O Curioso, porém, é que ao passar do tempo, o uso do Blackface se metamorfoseia, se transforma ganhando novas feições que vão além de uma mera maquiagem: o Blackface se assume na caracterização de tipos sociais negros de ordem pitoresca. Não precisa pintar o rosto de negro e os lábios de vermelho, basta contratar atores e atrizes negras, e entregar-lhes personagens altamente depreciativos, moldados sob uma visão preconceituosa. Com este artificio, torna-se mais prático a arte do convencimento racista.
          


Eis a evolução do Blackface. O Negro Gus de antes, transforma-se no “Preto Velho” ou na “Mama Negra” – aquela cozinheira negra e gorda das casas de engenho -, ou nos “negrinhos danados”. Enfim, uma serie de caracterizações passam a surgir, estendendo todo o tipo de preconceito possível. 


              Um caso ilustre deste “Blackface moderno” se deu no venerado e poético filme “E o Vento Levou”, de 1938, onde mais uma vez a visão sulista ganha às caras, e os escravos representados por atores negros – ou seja, sem a necessidade de maquiagem – são sempre tipos caricatos de pessoas. Nesse sentido, vale destacar o papel dado a grande atriz afro – americana Hattie MacDaniel que interpreta “Mammy”, a cozinheira negra, das bochechas grandes, baixinha e gorda, e da voz “engraçada”. Mammy é um desses tipos caricatos preconceitos que surgem na evolução desse Blackface. É a personificação da escrava empregada que assume o papel de matrona dos filhos de senhores de engenho.


Hattie em "E o Vento Levou": O Oscar e o Preconceito
            Enfim, o preconceito perpassa todo o filme. Desde a sua cartilha que anuncia: “Existia uma terra de cavalheiros e campos de algodão chamada "O Velho Sul". Neste mundo bonito, galanteria era a última palavra. Foi o último lugar que se viu cavalheiros e damas refinadas, senhores e escravos. Procure-a apenas em livros, pois hoje não é mais que um sonho. Uma civilização que o vento levou!” até a caracterização dos Negros no filme.

Um dos estereotipos: a Mammy.

            Curiosamente esta mesma atriz, Hattie MacDaniel, entrou para a História do Cinema, ao ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz coadjuvante por este papel de destaque, tendo ganhado o premio, se tornando a primeira pessoa negra a ganhar este premio na história. Ora, temos aqui a demonstração do não – racismo e da valorização do negro?! Durante a entrega do premio, Hattie ficou em um local separado dos demais atores que recheavam a festa.

 

        Enfim, inúmeras citações poderiam sido feitas. A intenção foi refletir sobre este fenômeno, que ao contrário do que se pensa, continua ainda hoje a ocorrer dentro do Cinema e em decorrência, no restante da sociedade. O Blackface ganha cores modernas, desde o branqueamento de modelos negras em revistas de moda – no que seria um paradoxal White face – até a continuação da utilização destes estereótipos nas mídias, seja no TV ou no Cinema.

 Ps: Segue um vídeo que demonstra como o blackface atinge até as crianças, por meio dos clássicos desenhos infantis. Este desenho de nome "Scrub Me Mama With a Boogie Beat", do ano de 1940, engloba uma serie de estereotipos raciais. Vale conferir.

 

Referências bibliográficas:

 

ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes, os filmes na história. Tradução de Marcello Lino. São Paulo: Paz e Terra, 2010

Ass: Rafael Costa Prata

Graduando na Universidade Federal de Sergipe



quarta-feira, 2 de maio de 2012

Perseguições, delações, prisões e a histeria coletiva da “caça às bruxas” em Hollywood: o inimigo comunista encarnado em Orson Welles.


“Alguém devia ter caluniado Josef K, visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal”.

(Franz Kafka - “O Processo”, 1920.)

Introdução
                É com esta enigmática afirmação que o escritor tcheco Franz Kafka inicia sua mais profunda obra chamada “O Processo”. Escrita em 1920, em linhas gerais, a obra nos conta a história e o triste destino de um sujeito comum chamado Josef K, que repentinamente é acordado às 6 da manhã por forças policiais, sendo acusado por um crime que nunca havia imaginado ter cometido.
                Em seu leito, atordoado e surpreendido, Josef K, ouvia das vozes brutas daqueles robustos homens de preto, sua sentença: “Não pode sair; o senhor está preso”.  Estava preso por um crime que não havia cometido, e de pior maneira, não sabia do que estava sendo acusado, de forma que o seu maior crime, como veremos adiante, foi ter existido durante aquele contexto histórico especifico.
                Franz Kafka, que foi um judeu nascido em Praga, parecia com aquela obra aterrorizante ter anunciado os fúnebres destinos de seus familiares e de sua nação, quando em 1920, parecia narrar o triste fim dos judeus, ciganos, negros, e outros grupos, nos campos de concentração nazistas poucas décadas depois, condenados e executados sob acusação primaria simplesmente por terem nascidos da forma como haviam nascidos, ou seja, foram mortos pelo simples fato de terem existido.
                Não obstante, pode parecer muito estranho retomar a uma aclamada obra da literatura mundial escrita nos anos 1920, possivelmente anunciadora destes eventos apocalípticos e catastróficos, quando aqui desejamos ensejar um breve comentário sobre uma realidade e contexto histórico que aparentemente se apresenta divergente a estes fatos: A Caça as Bruxas, ou aos comunistas, durante os anos 1950 nos Estados Unidos, levada a cabo pela política do Macarthismo.
              Contudo, por mais estranha que esta analogia possa aparentar ser, suas similitudes, como veremos adiante, são bastante visíveis e correlatas, haja vista que em ambas as situações, ocorre a criação pragmática e “necessária” de um inimigo comum, que será devidamente caçado e aniquilado sob acusação e pena de algo que não cometera, e muito pior, sem a permissão de defender-se da acusação, sendo queimado e exorcizado pela histeria geral que habitava tais momentos, na santa fogueira da acusação, do medo do outro, que é julgado antes de ser conhecido. Uma Histéria que era geral, atingindo todos os setores da sociedade: do chefe de sindicato industrial ao cineasta.

Joseph McCarthy: Estamos hoje a travar a batalha final entre o ateísmo comunista e a cristandade. As fichas estão na mesa – vamos derrotá-los”.

Esta citação proferida pelo senador republicano Joe McCarthy em conferência dada em Virginia no ano de 1950, simboliza com perfeição o apogeu de toda a histeria coletiva iniciada pelo mesmo, e que não menos era o espírito da época, contra uma possível “febre comunista” que ameaçava atingir os lares americanos daquela época.
            De certo, o pensamento do senador Joe McCarthy apenas figura como a representação mais funcional deste pensamento que corria a época, haja vista que este conseguira alcançar representação política para assim então vociferar este medo. Fato é que terminada a Segunda Guerra Mundial, o mundo encontrou-se diante de uma guerra dicotômica entre os Estados Unidos, recém-saídos vitoriosos desta guerra, cujo capitalismo também se apresentava em intermitente expansão por meio do Plano Marshal, para com os soviéticos, ou seja, a União soviética, também fortalecida e cada vez mais disposta a encarar os Estados Unidos frente a frente nesta corrida armamentista, política, econômica, e de fronteiras, que ficou conhecida na história e/ou no imaginário político-bélico como “Guerra Fria”.
                Resumidamente, é neste cenário complicado do pós- guerra e de completa alienação psicológica onde o outro podia sempre ser visto como o inimigo real, que a política de Joe McCarthy vai encontrar campo propicio para objetivar sua perseguição desenfreada a supostos comunistas dentro da esfera pública americana, seja dentre os políticos até os meios midiáticos em geral, entre eles jornalistas, e cineastas, estes últimos, os que nos interessam aqui, quando tomaremos em analise, o caso especial do grande cineasta americano Orson Welles, acusado por este mesmo McCarthy de estar trazendo os ventos do Comunismo soviético para os Estados Unidos, ameaçando assim o bem estar social dos americanos. Orson Welles, de grande cineasta, passava a ser Persona non grata dentro do imaginário yankee da época, impulsionado é claro por uma construção pragmática feita com grande eficácia por esta ala amedrontada macarthista, que procurava cada vez mais recriar uma culpabilidade nesta como forma de justificar suas ações.

Joe McCarthy: Prendam-nos!


                O Perfil psicológico era de vivência de extrema suspeita, sendo todos aparentes sujeitos de suspeita. A Delação era então um artificio muito comum neste expediente, sendo acusados desde vizinhos mais acanhados, até grandes personalidades aclamadas pelo público em geral. A busca por uma verdade que só era vista por aqueles que a criavam, fazia, segundo as palavras de Robert Darnton, a enxergar e encontrar práticas de feitiçaria muito mais visíveis pelo olhar do inquisidor que já se dirigia a este fim do que propriamente a essência do fato.
O Inquisidor naquele caso, o século XV ao XVII, ao se reportar ao ato suspeito de Bruxaria, já determinava por meio do pragmatismo aquele fim, ou seja, o crime era pré-determinado e consolado por sua visão; já em nosso tempo, o século XX, o Inquisidor Macarthista também pragmático antes de julgar o acusado já o entendia como culpado, residindo no seu olhar um crime que em muitos casos somente ele conseguia enxergar. Em ambos os casos, nascem inúmeros Josef K, utilizado no inicio desta resenha, personagem injustiçado de Kafka, acusado e morto por um pragmatismo desconhecido, e sendo assim, ambos os fatos ainda que em contextos diferenciados, apresentam inúmeras semelhanças, dado então a apelidar o fenômeno de Caça as Bruxas as perseguições aos ditos suspeitos comunistas, por seu parentesco de expediente e, sobretudo de condenação sumaria, sem provas e sem culpabilidade.

 Orson Welles: Codinome "K" na lista negra dos comunistas.

Nascido em 1915 no condado de Wiscosin, Orson Welles desde muito cedo já demonstrara seus dotes artísticos, quando em um evento curiosíssimo e que lhe dera toda a sua fama quando jovem, narrara em uma radio local, uma suposta invasão alienígena aquela localidade, com grande eloquência de narrativa, dramaticidade na voz, baseando-se para isso na obra literária “A Guerra dos Mundos”, do escritor britânico George Wells.
Este curioso fato ocorreu no ano de 1938, quando o jovem Welles tinha apenas 23 anos, e causou enorme rebuliço e pânico naquela pequena e pacata cidade do interior. Ademais, o interessante a observar é que inconscientemente Welles já previa como este pragmatismo, como a criação de um inimigo invisível causava desordem social e alienação frente aos americanos. Ainda que os cidadãos daquela cidade não vissem alienígena algum, houve uma comoção popular onde portas eram fechadas, pessoas escondiam-se nos porões, e acreditavam piamente que aquele inimigo era real. Se não era visível para ele, para outro podia ser. Fato é que ele existia, era necessário esconder-se ou combate-lo.


O Jovem Welles "enganou" o país inteiro.

No outro dia deste ocorrido, a população assustada queria saber quem tinha sido o sujeito traquinas inventor deste rebuliço na radio local. Daí em diante, Orson Welles ficaria famoso por todo o seu talento dramático e artístico, destacando-se como um fantástico diretor e ator no Cinema, tendo nunca abandonado em suas obras, o caráter reflexivo de suas películas, onde a denuncia e a crítica a realidade, apareciam sempre de forma veladas, fazendo o que Ferro perfeitamente denominava de “Contra Analise da sociedade”, revelando muito mais do que propriamente esperava com o enredo e o roteiro escrito para aqueles filmes.
Sua primeira e grande aparição polêmica aconteceu com a filmagem de talvez a maior obra cinematográfica de todos os tempos, Cidadão Kane, do ano de 1941, quando este ainda era um jovem cineasta, ator, e roteirista de 26 anos. Audacioso, Welles ocupou todos estes cargos, e magnânimo como era, desempenhou com total genialidade cada uma destas funções, dirigindo e protagonizando a história de um magnata das comunicações baseado na vida do milionário William Hearst. Mostrando todas as contradições da vida deste Magnata, Welles acabou então entrando em desagrado frente ao mesmo, que após a tentar travar a exibição do filme, passaria a perseguir o mesmo, acusando-o de inúmeras prerrogativas, a principal era a de ser comunista, tendo aproveitado então e disseminado essa informação, que acabou fechando em muito, as portas do Cinema para o próprio Welles.


Cidadão Kane, 1941: Com esta película, Welles desafiou a grande mídia e atraiu a etiqueta de possível comunista.

Não obstante estas acusações e atritos com Hearst, Welles não tivera mais tranquilidade. Passaria a ser investigado e procurado diariamente pela policia americana, e seu nome se tornaria o alvo principal da lista negra criada anos depois pela política macarthista. Durante os anos de 1940 – 1950, o senador Joe McCarthy e toda a sua trupe de espionagem criaram a chamada “Lista Negra de Hollywood” onde uma gama de artistas em geral, entre eles, cantores, músicos, cineastas, pintores, roteiristas e etc., apareciam como suspeitos de serem agentes comunistas americanos, traidores da pátria a serviço da União soviética.
Estas listas causaram também enorme rebuliço no meio cinematográfico, quando este imaginário de perseguição a este inimigo indesejável, causaram inúmeras delações dentre pessoas do mesmo circulo artístico. Talvez um caso clássico tenha sido o do também grande cineasta Elia Kazan, que figurando entre estes “inquisidores”, denunciou uma enormidade de roteiristas e produtores próximos a ele que aparentemente figuravam entre estes de atitude suspeita. As delações de Elia Kazan eram levadas muito a sério haja vista que este havia sido filiado ao Partido Comunista americano, sendo assim, suas fontes e suas acusações plausíveis de serem levadas em diante, pelo menos para o Comitê de Joe McCarthy. O próprio Orson Welles, decepcionado com a atitude do colega de profissão teria dito que “Kazan trocou a alma por uma piscina".

Elia Kazan: Grande cineasta, contudo, X-9.

Dentre esta enorme de lista de acusados, apareciam o próprio Welles e também outro grande gênio, talvez o caso mais conhecido de perseguição, Charles Chaplin, que perseguido também por um delegado macarthista acabou sendo expulso dos Estados Unidos, tendo retornado a Inglaterra, só conseguindo retornar aos Estados Unidos no ano de 1972 para receber um Oscar Honorário. Chaplin diante desta conjuntura de perseguições, antes de seu exilio forçado, teria dito então que:

“Desde o fim da última guerra mundial, eu tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual indivíduos de mente liberal possam ser apontados e perseguidos. Nestas condições, acho que é praticamente impossível continuar meu trabalho do ramo do cinema e, portanto, me desfiz de minha residência nos Estados Unidos.”

Em 1948, o destemido Welles lança então outra grande obra que traria para si grande polêmica: Welles leva as telas do cinema, a clássica história de William Shakespeare chamada “MacBeth”, fazendo uma releitura do conto com novos fins modernos. Utilizando-se de seus dotes teatrais para recriar todo o ambiente dramático desta obra shakespeariana, Welles, sobretudo leva adiante uma releitura por meio deste conto, do cenário americano de sua época, retratando todo o ambiente pragmático em que vivia, onde acusações, perseguições e prisões desenfreadas ocorriam por meio desta política Macarthista que impunha um medo constante e um inimigo comum a ser batido.
Nesta releitura, Welles também em sua “contra analise” se utiliza do palco contado por Shakespeare, que vivera o embrião do pragmatismo na Inglaterra de Elisabeth, onde os fins justificavam os meios, para anunciar o que estava acontecendo nos Estados Unidos àquela época.
Na obra de Shakespeare, MacBeth é um soberano que motivado por sua pragmática esposa Lady Macbeth mata o soberano Rei Duncan, para em linhas gerais, assumirem o posto de soberania na Escócia. Sua ambição não tem freios em sua execução, ouvindo conselhos de temidas bruxas, e utilizando-se dos mais vis expedientes políticos para assumir aquele posto. Ao escrever aquela obra, Shakespeare, como já dito, sabia o que estava escrevendo, pois em sua época, ele observará este emergente pragmatismo nas atitudes de Elisabeth, quando esta cada vez mais ciente de seu papel de soberana inglesa, não media esforços para instaurar a Igreja anglicana de seu pai, e como também, as guerras que levava a cabo.

MacBeth: A própria coroa é uma clara alusão a estátua da liberdade.

  Não ter escrúpulos é justamente um dos fundamentos bases da verdade a ser alcançada, criada por este pragmatismo, atitude levada com grande eficácia tanto por MacBeth, quanto por McCarthy na vida real. Esta denuncia proferida por Welles de forma perfeita nesta sátira criada por meio de “MacBeth” ajuda como dito a nos revelar justamente aspectos que não aparecem diretamente na obra cinematográfica. Marc Ferro justamente ponderava tais questões, chamando a isso de conteúdo latente.
Enfim, indo cada vez mais longe e por métodos cada vez mais subliminares, Welles se utilizava muito bem de sua inteligência frente a adaptações de grandes obras da Literatura Mundial, de forma que ainda discutindo esta problemática, produziu então a adaptação da obra “O Processo”, do escritor Franz Kafka do ano de 1920, o qual justamente procurei iniciar propositadamente esta resenha.
O Processo foi filmado em 1962 e justamente porque o próprio Welles já estava marcado frente aos conteúdos velados de suas obras, os países que patrocinaram tal obra foram à França, a Alemanha e a Itália. Utilizando-se do mesmo argumento kafkiano, Welles recria a vida de Josef K, que ao acordar, vê-se diante de dois oficiais do estado, sendo acusado de um crime que não havia cometido, mas que seria preso por isso. 

O Processo, 1962: Welles retoma Kafka para satirizar o absurdo das acusações e delações durante o MacCarthismo.

                 Ademais, em todo o filme, fica visível o teor latente que Wells sempre deseja: o clima sombrio que permeia o filme é justamente de acusações, de delações e de um risco eminente de captura e prisão por algo que se sabe ter cometido. Josef K, um funcionário público comum como qualquer outro, tenta por meio dos meandros da burocracia estatal descobrir os motivos de sua aparente culpabilidade. Na verdade não há arquivos contra ele, não há nada que o incrimine. Seu crime é justamente ser Josef K. Talvez um comunista. Talvez um judeu. Enfim, ao final do filme, Welles com toques apocalípticos dar fim as angustias do acusado sob suspeita Josef K, que é então subitamente apagado por dinamites, sem ter o direito de saber qual crime teria cometido.
Este final assombroso não é uma expressão de exagero, quando nos indagamos quantas pessoas acusadas injustamente por esta conduta, foram assassinadas e jogadas em valas afastadas, sendo definitivamente e convenientemente para aqueles, apagados da história. Welles ao escolher este final, talvez tenha se inspirado num caso polêmico que estarreceu a sociedade americana da época quando um casal Ethel e Julius Rosenberg foi acusado e preso por suspeita de serem agentes internacionais comunistas a mando da União soviética para tentarem em terras americanas, uma intentona comunista. Ambos acabaram sendo executados sumariamente sem que provas legais e suficientes ao menos comprovassem essa suspeita. Muito pior, alguns meses depois da execução, a acusação feita sobre eles de venderem segredos militares americanos para a União soviética mostrou-se inteiramente infundada. Mas o estrago já havia sido feito e fazia parte do sistema. 
Dentro daquela verdade necessária, eram menos dois comunistas que podiam preocupar o Estado... Uma Verdadeira Histéria... Eles estão a solta! Fujam para as colinas! O Comunista pode ser você!.. Ou Eu!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe


sábado, 28 de abril de 2012

Distrito 9 e Avatar: Duas metáforas sobre a difícil habilidade humana da alteridade


            Será só quando nos colocarmos na pele do “outro” que sentiremos todos os sofrimentos pungidos ao grupo em questão; Não somente as dores, ou qualquer violência de todo tipo – que vai do preconceito físico ao verbal – mas para entendermos a vida de qualquer comunidade coletiva – sociedade, nação, pátria, tribo – devemos nos prender a um conceito antropológico que tem sido sempre muito caro por em prática, desde os primórdios da humanidade até os dias atuais: a noção de alteridade.
            O Termo “Alteridade” que significa justamente a compreensão do alter = outro como chave fundamental para a compreensão do que se está postulando/estudando – a fim de se evitar qualquer tipo de preconceito -  nos remonta desde sempre a incapacidade humana de conceber sentido a vida alheia; a cristalizar seu sistema cultural como o único modo civilizado possível na completude mundial;
            É claro que hoje em dia o conceito de alteridade ainda esbarra em alguns choques culturais bastante aguçados, quando o que está em jogo, são questões que envolvem os direitos humanos. Para compreendermos o germe deste tipo de polêmica, é só remontarmos como têm sido atuais as discussões em torno ao respeito das práticas culturais indígenas em algumas regiões, e até que ponto o Estado deve manifestar a sua ação nestas querelas.
            Entretanto, a ausência da alteridade sempre estará mais presente quando o que está em cheque são os interesses econômicos patrocinados justamente por uma Ideologia segregatícia, preconceituosa, num tipo de visão que se assemelha ao “fardo do homem branco”, aquela ideologia imperialista levada a cabo pelas potencias imperialistas do século XIX, de essência puramente econômica, mas falseada numa Ideologia que é por si só altamente racista.


O Fardo do Homem Branco: Da "Moral civilizatoria" que por si só era preconceituosa, sobressaia os verdadeiros intentos: exploração economica.

            Nesse sentido é que o Cinema recente tem até procurado refletir estas questões, talvez porque estejamos vivendo um momento conturbado mundialmente, sobretudo graças a pouca aceitação das múltiplas formas de manifestação cultural, religiosa, étnica, manifestadas nos inúmeros conflitos mundiais a que temos tido a oportunidade de observar.
            A grande sacada por detrás destas películas é justamente apresentar a inserção na alteridade através de sujeitos que praticamente são “corrompidos” dentro do sistema. Através da escolha de personagens que são retratados desde sempre agindo em favor da Ideologia em questão, partícipes ativos do processo, as películas transmitem um sentido de “renascimento” dos mesmos, uma imersão cultural, uma viagem nos meandros da assimilação cultural, e, por conseguinte, do entendimento do outro, vivida na pele por estes personagens.
         Este é o ponto central: uma alteridade sentida cruamente na pele. Em alguns casos, o processo que ocasiona a alteridade se apresenta ativada por uma virtude romântica, que como veremos, vai do amor platônico – um amor que se não for feito dentro da assimilação será impossível – emergido dentro do “campo antropológico”, ou noutros casos, e nesse num sentido mais moral, mais cru, bastante aterrador, diante de praticamente uma “lição” oferecida pela vida, uma purgação, um castigo penitencial.
            Por conseguinte, duas películas de bastante sucesso recente que se encaixam justamente, cada uma em particular, nestas temáticas são: Avatar, 2009, de James Cameron e o pouco badalado, contudo sensacional, Distrito 9, também do ano de 2009, do diretor Neil Blomkamp.


Avatar e Distrito 9: A Mesma discussão em tons diferentes.

            Grande sucesso de bilheteria e de critica do ano, o blockbuster 3D de James Cameron tem como principal qualidade, a capacidade de aliar todas as necessidades impostas pelo mercado hollywoodiano – o romance, a aventura, o drama, os grandes efeitos visuais agora com o novo chamariz 3D – com uma discussão que se é subliminar, velada, deve ter sido percebida ao menos por algumas mentes nas salas de Cinema.
            Em tempos de imperialismo norte-americano, Cameron ousou, ainda que se utilizando do paradigma cinematográfico romântico, discutir até que ponto a compreensão que temos do outro não está inteiramente falseada por interesses econômicos. Em Avatar, somos levados a um “faroeste” moderno, numa clara alusão a expansão território adentro tomada pelos colonos americanos frente as populações indígenas nativas durante o século XIX: Em um quadro moderno, somos levados a vida dos povos Na ‘vi, através da chegada de uma expedição cientifica – e de exploração e conquista – ao território de Pandora.
            Os Povos Na ‘vi possuem uma vida inteiramente ligada a natureza, sendo aliás, parte fundamental destas. Todas as ramificações de arvores, todos os mares, todos os seres vivos, fazem parte de uma cadeia única, sentida por todos os habitantes daquele “mundo”. Em dias de desrespeito ecológico, de ruptura constante das cadeias alimentares – e sobretudo do desequilíbrio que causa a extinção de varias espécies – Avatar também vai fundo na ferida do desrespeito a natureza, incidindo sobre como todos nós somos parte de uma mesma esfera, ou seja, somos nós mesmos os agentes e as vítimas de nossos atos nessa nossa Biosfera.
            Esse respeito e sentido de pertencimento, que é ancestral e passado de geração em geração, assumido pelos Na´vi é o eixo central do filme, aspecto que perpassa o sentido econômico e o clímax da película, haja vista que os novos “exploradores” não conseguem admitir tal conduta, tanto pelo aspecto cultural, e sobretudo pelo choque que isto representa frente ao seu intento econômico.
            Nesse futuro “distante” em que é retratado Avatar – o ano é de 2154 – uma empresa bioquímica de sigla RDA, procura através de viagens intergalácticas, encontrar minerais do tipo Unobtainium”, um mineral que em seu significado denota justamente algo impossível de ser encontrado na própria Terra.
            Este minério tão especial que só pode ser encontrado naquela caixinha de Pandora com suas surpresas, é metaforicamente a própria alteridade nas mãos, ou melhor nos pés, paradoxalmente, de sua personagem principal: o ex- fuzileiro paraplégico Jack Sully.

Jack Sully: Humano e em forma Avatar.

            Sully é o agente “explorador” da companhia. Seu corpo ganha um novo molde naquele mundo: um Avatar, uma forma artificial de vida adaptada àquela realidade. Gradualmente Sully aprende os conceitos ancestrais, de respeito a natureza e ao próximo que rege aquela sociedade, se encontrando cada vez mais fascinado e tentado a permanecer naquela nova realidade. Um novo aspecto o prende por definitivo: o Amor que nutre por Neytiri, uma jovem e corajosa princesa. Em todos os caminhos românticos de inserção cultural – e amorosa – vivenciada por Sully na película, perpassam o caminho da mentira, pois este, apresenta uma historia falseada para adentrar naquela nova trajetória, sendo seu passado, os motivos e os meios para estar ali, por ele omitidos frente aos povos Na´vi. 

A Inserção ativada pelo principio do amor


            Todo este quadro de inserção e de amor nativista entre o explorador que cada vez mais se deixa corromper dentro do sistema e uma bela moça que o faz “renascer” por completo, dá a deixa para o clímax da película, que é justamente o choque de interesses: Sully é descoberto, ao mesmo passo, que a empresa começa o processo de devastação, ou seja, de destruição do ecossistema que mantem a vida do reino de Pandora.
            Sully se torna o anti-herói da película. Sua transformação parcial encontra a concretude ao fim da película, quando o seu amor a jovem Neytiri - os nomes avatares curiosamente remontam a mesma linguística dos povos indígenas de outrora - é concretizado e por vias cientificas, ao que parece, este consegue se manter dentro do sistema Avatar. Sully renasce no reino de Pandora, em um novo subterfugio encontrado frente a vida desgastante e desarmoniosa do mundo terrestre: de uma paraplegia causada por suas atividades militares, sobressaem uma vida de altos voos nos belos cavalos de Pandora, de saltos em grandes arvores. 

Em Pandora, cada arvore, cada flor é a extensão viva da vida de cada um.


            A Película assim, consegue ensejar interesses discussões, sem precisar abandonar é claro as exigências românticas de um mercado consumidor. O Outro, o respeito a natureza como parte constituinte e fundamental de nossas vidas, o falseamento de ideologias, e a crueza da vida moderna, são temáticas subliminares bastante interessantes que perpassam este sucesso de bilheteria em questão. Apesar de extremamente romântico, aspecto que não é nenhum demérito, o filme consegue assim aprofundar algumas reflexões, tomando parte ativamente em algumas feridas ainda bastante modernas.
            Contudo, nem toda película procura abordar estas questões, optando por um final acalentador, romântico, positivo. Esta vontade de acalmar o público, de apresentar um final feliz, acaba sendo deixada de lado, em preferencia a tomada por um lado frio, cru, talvez mais realista.
            A Película Distrito 9 se apresenta desta maneira: numa montagem sensacional que mescla a ficção com o documentário, este filme que não é tão conhecido, apesar dos inúmeros prêmios ganhos, retrata passo a passo, a história do cinismo que envolve a exploração da desgraça alheia, noutro tom mais objetivo, o esvaziamento que perpassa até as chamadas grandes corporações humanísticas modernas, hoje muito mais envolvidas em questões econômicas do que ao que deveria atentar em seus princípios fundadores.
            Também lançado em 2009, esta película acabou causando assombro na crítica, além das críticas feitas, por conta do cenário da rodagem do filme: a África do Sul. Por se tratar de um filme “negativo” acabou sofrendo muitas críticas, haja vista que a sua propaganda poderia prejudicar os caminhos da Copa do Mundo que seria realizada no ano de 2010 naquele país. Contudo, a realidade retratada no filme é por demais sul-africanas. É a sua inspiração. O Termo Distrito 9 é uma referencia direta ao Distrito Six - percebam que o Nove é um Seis de cabeça para baixo -, uma “comunidade” criada durante os anos 1970 na Africa do Sul, para abrigar a população negra, removida a força das áreas de suposta ocupação branca. A Película em questão é um filme então sobre o apartheid, a segregação racial, étnica, de toda ordem: inspirado diretamente sobre a África do Sul, o filme procura transgredir espaços, procurando então discutir este conceito de forma mundial, e como também, outras questões diretamente envolvidas no processo, como os interesses econômicos e militares de grandes companhias, e etc.

Placa racista dos tempos do Distrito Six


            É nesse tom que o filme se segue: somos levados ao cinismo documental proposto pelo “bom marido e pai de família” Wikus Van der Mewe, que trabalhando para a MNU (Multinacional United) – numa clara referencia ideológica ao que deveria se constituir a ONU, e seu controle pelos EUA – acaba sendo indicado por seu sogro, para executar as remoções dos habitantes das periferias de Johanesburgo.
            Uma das grandes qualidades da película está justamente na escolha do “outro” em questão: são aliens. Esta qualidade imensa reside no fato de que, desde cedo, o filme consegue suscitar a repulsa, o estranhamento, o nojo mesmo, no próprio público, num artificio de interação que tem o proposito de demonstrar a forma como o pré – conceito, pode ser danosa nas relações humanas. Esta é a grande capacidade do filme: fazer o próprio público inserido na querela, e em certo ponto, sentir-se mal por conta de alguma repulsa sentida aos aliens. 

Nas palavras do próprio Alien: " Nós só queremos retornar para casa"

            Mas é esta repulsa tem sentido, e de modo algum objetiva demonstrar que a segregação deve ser vista como comum se não entendemos o outro lado. Muito pelo contrário, a construção do enredo da película nos leva a entender gradualmente que a vida daquelas pessoas é muito parecida com a nossa, que se alimentam da mesma maneira – o que mudam são os alimentos – que manifestam os mesmos sentimentos, e que em ultimo caso, podem ser diferentes de nós em algum aspecto, mas que somos todos iguais em essência.
            Desta maneira, a película conta a história de uma grande nave alienígena que no ano de 1982, acaba pairando no ar de Johanesburgo; as grandes companhias humanitárias falseando um interesse humanista, acabam resgatando os tripulantes, colocando-os em uma região periférica, a base da miséria, e sobre forte segregação “racial”. É neste meio que o executivo der Mewe se insere: o cinismo deste personagem chega a ser repulsivo.
            Ele documenta o decorrer de todo o processo. E esse é um dos pontos mais interessantes: a transformação de seu discurso nojento, discriminatório, diante do que seria posteriormente a sua realidade.  Van der Mewe trabalha a serviço da MNU deslocando os “outros” de forma arbitraria, matando muitos, levando outros para regiões de pesquisa, para áreas de dissecação, e em maior caso, para áreas da própria MNU que é descrita como uma suposta empresa humanista, mas que em ultimo caso, é a segunda maior empresa do mundo em produção de armamentos – seria os Estados Unidos? -.  Lá, os aliens são estudados porque seus armamentos também estão inteiramente ligados ao seu corpo, a sua natureza, sendo o “fluido” corporal daqueles que fazem funcionar seus armamentos potentes. É a isto que interessa a MNU.
            Enfim, neste tom ficcional, documental de representação do processo de deslocamento violento destes, o filme retrata com crueza a violência perpetrada pelos militares de der Mewe: numa cena horripilante, der Mewe atira fogo em uma casa alienígena, que servia de casulo para inúmeros ovos. Alegre e num tom assustador, o próprio sorri frente aos “pipocos” daqueles casulos estourados pelo fogo. Tudo normal, afinal são animais.

O Ambiente enclausulado onde vivem os "camarões"


            A Grande sacada do filme reside justamente na “redenção”, ou melhor, no sofrimento do próprio cínico Van der Mewe: numa de suas inspeções, este acaba sendo “infeccionado” se transformando lentamente numa daquelas figuras segregadas em sociedade. A Inserção, o principio de alteridade aqui é doloroso, forçado, e não por menos, o final teria de corresponder a esta questão.
            “Transformado” em um daqueles, der Mewe peregrina em busca de um antidoto que poderia solucionar a sua questão. Perseguido pela própria empresa que trabalhava, afinal ele era um humano alien, o primeiro deste naipe, abandonara forçosamente a sua família, e vivendo como aqueles, passaria a lentamente compreender a dimensão sofrida dos chamados “camarões”, termo usado por ele mesmo em todo filme para se referir aos aliens. Acaba percebendo, através da amizade com um alien de nome “Christopher Johnson”, que os aliens possuem nome. Essa menção aos nomes também deve causar arrepio no público, numa tomada de atitude que demonstra como estamos diante de pessoas como nós, com o mesmo nome. É a discriminação quem começa a enxergar coisas.

Der Mewe: A Inserção pela DOR.


            Enfim, o final do filme é uma mescla de poesia com visão apocalíptica. Final belíssimo e ao mesmo tempo aterrador. Difícil é não derramar lágrimas e ficar contrariado sem saber se está triste ou feliz com a situação de der Mewe . O Filme é desconfortante, não possuía linha única, quer mexer, e isso consegue com eficácia. Suas críticas profundas, vão desde esta difícil incapacidade de entender a dimensão múltipla do outro, como mais uma vez os aspectos falsos de uma Ideologia, de movimentos humanitários que em ultimo caso possuem um intento militar, econômico em primeiro lugar. Percorrendo os caminhos de Johanesburgo, der Mewe sente na pele o que é segregado, o que é ser atirado as latas, o que é ser procurado como um cachorro na periferia.
            Películas como Avatar e Distrito 9, ainda que em tons bastante diferentes, podem nos ajudar assim, a pensar como a alteridade é um conceito ainda raro nas ações da humanidade em um âmbito bem mais complexo do que imaginamos. Do romantismo a dor da vivencia crua, a imagem que fica é que o ser humano parece odiar a si mesmo, ao não compreender o outro como parte de sua própria dimensão. Estranhos somos nós mesmos.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
           

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Mr.Hyde que reside em nós: O Cinema para debater o Homem e a Ciência


         A Ciência nem sempre impulsionou nos homens, a certeza do progresso e consequentemente da felicidade obtida por meio de seus derivados. Ainda que esta produza inúmeras benesses na vida de todos nós – e isso é inegável – a Ciência em alguns casos acabou trazendo algumas consequências nefastas para a humanidade. Talvez a escrita do paragrafo acima esteja incorreta. Joguei a culpa em quem não devia. Não foi a ciência quem trouxe efeitos nocivos, mas sim, o modo como o homem tem se apropriado de suas próprias descobertas. Enfim, seu mau uso.
         Os anos 1930 – 1940 marcaram significativamente os tempos nefastos da pesquisa cientifica. No meio da Segunda Guerra, em 1941, em plena competividade militar, os Estados Unidos desenvolve o Projeto Manhattan, unindo seus principais cientistas, paralisando suas pesquisas, no sentido da construção da horrenda bomba atômica. A própria Segunda Guerra foi palco com certeza da maior indústria da morte conhecida. 
         O Nazismo erigiu em solo alemão, austríaco, polonês, inúmeros campos de concentração, dotados de uma grande eficácia mortífera, obtida através de burocráticos estudos desenvolvidos nesse sentido. O Gás letal Zicklon B surge para assassinar mais rápido, e em maior quantidade, aos judeus nas casas de banho, nestes campos de concentração. Nessa linha de montagem da morte, os corpos são pilhados e queimados em verdadeiras piras, que funcionam a ritmo industrial. No lado mais “glamoroso” do sistema, os cientistas eugenistas lotam os laboratórios alemães na promoção de pesquisas que ajudem a melhorar a raça, a obter o suprassumo do que seria o homem alemão. As cobaias são claro  as crianças – gêmeas como queria Josef Mengele -, os velhos, os deficientes, enfim, todos os que não eram considerados arianos, e que dai em diante, podiam ser transformados da condição de humanos, para simples objetos de pesquisa.
       Esses dois exemplos obviamente que são exemplificações de casos exagerados da relação nefasta que se pode produzir entre o homem e a ciência. Contudo, em uma escala mais reduzida, esta questão também pode ser retratada. Lá atrás, no final do século XIX, a literatura já apresentava seus anseios sobre os rumos que a ciência poderia obter em mãos erradas.
         Paradigmática é a obra “O Estranho caso de Dr.Jekyll e Mr.Hyde” do escritor britânico Robert Louis Stevenson, lançada em 1886. Na obra, somos levados ao universo glamoroso de homens da fina flor inglesa, na figura do aclamado e respeitadíssimo médico, o Dr. Jekyll, um verdadeiro sir, bastante conhecido por seus atos de filantropia. O Outro extremo da obra nos leva a aterradora revelação do lado mais obscuro do mesmo, simbolizado na emergência do pavoroso e frio Mr.Hyde, obtido através de uma experiência realizada pelo mesmo. Cada vez mais dominado por essa descoberta, Jekyll é lentamente dominado por Hyde, que acaba assumindo a esfera total de sua vida.

A Ciência pondo em vista o lado mais sombrio: Mr.Hyde.


         Jekyll sucumbe com sua própria descoberta. Stevenson além de obviamente querer demonstrar o lado mais sombrio humano – escondido até nas almas tidas como puras – procurou fazer sua crítica a esta inconstante natureza humana e ao possível efeito pavoroso que pode manifestar frente à ciência.
         Às vezes é muito poder, muita inteligência, para um animal racional com muita capacidade de fazer o mal, e em alguns casos, queiramos crer que não sejam poucos, de fazer o bem.
       Neste sentido, o Cinema tem refletido também, numa esfera mais introspectiva, a relação homem – ciência. Não quero tratar nesta postagem sobre filmes futuristas, megalomaníacos, com grandes civilizações, transportes voadores, robôs e etc. Não, a ciência desta postagem está muito mais ligada a uma micro – dimensão, uma esfera mais pessoal do individuo.
         Alguns filmes tem procurado refletir em especial sobre a possibilidade que a ciência oferece de obter “uma nova vida”. Grande parte destas películas parte de um inicio aterrador, da apresentação de um presente triste e da possibilidade de ao final, com o auxilio da ciência, chegar a um caminho feliz. Mas isto está apenas na teoria, porque tais obras sempre trazem uma ideia apocalíptica, trágica.
         Obter uma nova vida através da ciência muitas vezes no Cinema é obter um “novo rosto”, símbolo desta nova etapa. É nesse sentido que se segue a postagem: a reflexão sobre a humanidade que fazem os filmes sobre cirurgias plásticas, pelo menos, os filmes mais reflexivos do gênero que eu tive contato.

Os Olhos sem Face (1960) de Franjou: um dos precursores da discussão


         Talvez o primeiro grande filme a emergir nesta discussão, e que com certeza serviu de modelo ideológico para os posteriores, foi o filme francês “Olhos sem Rosto” de Georges Franjou, lançado em 1960. Neste filme de terror – ou suspense clássico – fantástico, Franjou nos leva a agonizante situação do Prof.Genessier e de sua filha Christiane. Esta, após uma acidente de carro, acaba sobrevivendo com a face desconfigurada. Acometido pela culpa do acidente, seu pai, o Prof.Genessier desenvolve uma cirurgia para mudança de pele. 
        Determinado a recuperar a beleza e a vida de sua filha – que vive enclausurada dentro de casa e portando uma aterrorizante mascara sem expressão feita de silicone – procura por vitimas em Paris, que apresentam a mesma consistência de pele da sua filha, ou seja, maior probabilidade de êxito na cirurgia. 

Christiane e sua mascara sem expressão


       O Enredo da película é simples, mas o final é surpreendente, e os caminhos atormentados seguidos pelo pobre Professor Genessier – que em alguns momentos da trama temos pena – demonstra a que nível de degradação pode chegar à mente humana quando acometido pela culpa, e nesse sentido, quem porta a ciência, o mal que pode acometer usando tal instrumento.
         Pouco tempo depois, nos mesmos anos 1960, foi lançada a película americana “O Segundo Rosto”.  Trata-se de um filme bastante atormentador. Sufocante. Narra à história de um comum idoso que, insatisfeito com a sua fase final de vida –a inercia, os mesmos lazeres – é convidado por um amigo para “renascer”. Através de uma cirurgia feita em uma empresa médica clandestina, ele renasce com um novo corpo, nova face, enfim, uma cirurgia que o faz renascer por fora, voltando praticamente para maturidade da vida, é claro, com uma nova identidade, uma nova face. 

O Segundo Rosto (1966): Final Reciclativo da especie humana


        Tudo feito é claro sem ninguém saber. Como? A própria empresa trata de simular a sua morte, de forma que, sua esposa acaba então sabendo de seu “óbito”. Um corpo comprado acaba assumindo seu lugar na hora da morte. Revitalizado, com uma nova face, e sem ninguém a prestar contas, o “renascido” parte novamente para curtir o mundo, mas acaba não se adaptando. É tudo muito artificial, pois possui um corpo novo, mas a mente é a mesma, continua ligado ao estágio mental indicador de sua idade. O Experimento então não dá certo. O Final desta película também é assustadora, apresentando um final bastante que eu definiria aterrador por se apresentar "reciclativo" sobre a especie humana.

A Face de um Outro: Duas histórias com uma mesma proposta.


         No mesmo ano de 1966, o cinema japonês se aventurou na perspectiva. O Filme “A Face de um Outro” aborda a questão a partir de duas historietas: na primeira, um homem com o rosto deformado acaba sendo rejeitado por sua esposa, encontrando a solução para seus problemas numa cirurgia. O Resultado é nefasto, porque seu caráter acaba sendo alterado pela cirurgia... Noutra historia, uma jovem desconfigurada por conta daquela bomba atômica, a de Nagasaki, sofre os traumas de sua triste situação. Filme bastante reflexivo e que vale muito ser assistido.

A Pele que Habito: a retomada de uma antiga discussão.


         Recentemente, uma outra película ganhou bastante destaque. Trata-se do filme “A Pele que Habito” (2011) do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Seguindo a mesma tendência de Franjou, com seu Olhos sem Rosto, Almodóvar conta a história de um medico interpretado por Antônio Bandeiras que após perder a esposa em um acidente de carro, acaba bitolado em suas pesquisas para desenvolver um tipo de pele especial que poderia ter salvado sua esposa. A Trama se segue, e os delírios do medico o fazem transgredir qualquer tipo de ética possível. Mais uma vez o final apresentado é aterrador.
         Enfim, a partir destes filmes aparentemente diferentes por conta de suas nacionalidades – um americano, um francês, um espanhol e um japonês – podemos ver como a temática em questão tem sido tão abordada pelo Cinema, principalmente para retratar a incapacidade humana de respeitar seus limites, e noutro caso, a vazão do seu lado sombrio acelerado dentro de suas ações na ciência. Em todos os casos, se segue a mesma metáfora: uma mascara, uma pele, uma renovação, mas o que está em jogo, é a chaga interna, irrecuperável, que não recuperada, alimenta mais ainda o descontrole humano em concertar o irremediável.
         O Lado sombrio acaba vencendo tudo. Domina o Homem e faz uso da ciência.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
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