quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Oscar Micheaux : o primeiro grande cineasta negro na luta contra o preconceito racial




 A primeira obra cinematográfica produzida pelo renomado cineasta afro – americano Spike Lee foi um pequeno curta metragem intitulado “The Answer” rodado no ano de 1980. Este curta com pouco mais de dez minutos se apresentava como uma resposta de Spike Lee a D.W.Griffith. Na verdade, o jovem cineasta de até então 23 anos,  procurou responder  ao clássico racista de Griffith, “O Nascimento de uma Nação” (1915).
Spike Lee “incomodou”. E continua a incomodar. Até hoje é considerado um dos cineastas mais “polêmicos” do mundo, rotulo que se deve em grande parte ao fato de que em suas películas procura sempre retratar o lado das minorias sociais e/ou o preconceito racial existente no seio norte – americano.
Se considerarmos Spike Lee um sujeito “ousado” porque nos anos 1980 levou a cabo películas sociais, o que diríamos do pouco conhecido Oscar Micheaux?!

Nascido em Metropollis, Illinois, em 1884, Oscar Micheaux é considerado o primeiro grande cineasta negro do mundo. Lá nos anos 1920, quando a segregação racial – e o preconceito prático sentido na pele por meio da violência da Klu Khux Klan -,  ainda era fortíssima nos Estados Unidos, Micheaux emerge destemidamente e de forma independente para defender e conferir voz aos negros americanos, por meio do Cinema.
Suas películas, que se enquadram no chamado racial films, se contrapunham a visão racista e caricata que os filmes de Griffith e outras mídias procuravam impregnar em torno do negro. Conferindo voz, atuação e papel aos atores negros – fugindo assim do horrendo artifício do blackface-, Mischeaux produziu uma serie de filmes que obviamente apresentaram um caracter underground frente a realidade da época.
Seu mais conhecido filme “Within our gates”(1920) se apresenta ainda hoje como um dos mais importantes relatos acerca do tratamento sofrido pelos negros americanos no nascer do século XX. De tão realista, o filme se torna bastante cru ao mostrar cenas de linchamento, ou qualquer outro tipo de violência efetuada pelos brancos sobre os negros. Este filme de quase 80 minutos surge de certa forma como uma resposta ao racismo assistido em “O Nascimento de uma nação” de Griffith, produzido cinco anos antes.
Nos demais filmes de sua carreira, Micheaux procurou retratar a vida do cidadão negro, retratando desde situações do dia a dia, até traços mais peculiares, como a cultura do jazz, tendo produzido mais de 30 películas, até que a morte rapidamente tenha lhe acometido em 1951, por conta de um problema no coração, morrendo então aos 67 anos de idade.

Passados quase oitenta anos de suas películas, fato é que Micheaux continua ainda pouco conhecido. Alguém de sua importância, de sua coragem e de seu talento precisa ser resgatado. Encarar de frente todos os preconceitos de uma época, se inserir em um nicho de “domínio branco”, foi uma das marcas deste grande cineasta político, deste grande homem a frente de seu tempo.
Assim, acredito eu que, quando Spike Lee resolveu iniciar sua carreira efetuando aquele curtinha de dez minutos, ele já tinha em mente que lá atrás, um grande homem negro já havia dado um enorme passo na luta pelo rompimento da segregação e do preconceito racial. Nenhum outro “incomodou” tanto quanto Oscar Micheaux.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe









terça-feira, 12 de novembro de 2013

"O Senhor das Moscas": uma distopia sobre os limites da racionalidade humana



Imaginem um grupo de crianças sobrevivendo, sem a supervisão e atuação dos adultos, em meio a uma floresta localizada em uma ilha deserta. A Premissa parece um clichê clássico e banal de algo do tipo “A Lagoa Azul”. Mas não é esse o caso do livro “O Senhor das Moscas”, escrito em 1954 por William Golding, e transposto para o Cinema logo em 1963.
Tanto o livro como o filme descrevem a trajetória de um grupo de crianças de um colégio interno que, após a queda de um avião, passam a viver por conta própria em uma ilha deserta, tendo estas mesmas que criarem suas próprias leis, seus métodos de convivência longe da dita sociedade racional.
O resultado é o esperado: não demora muito para que se crie um clima de extrema selvageria, na qual a violência e a imposição imperam na nova situação dominante. O próprio titulo da obra, “O Senhor das Moscas”, faz uma alusão a Belzebu, o espírito do mal contido na Bíblia. 

As crianças passam a se digladiar em torno de dois grupos: o de Ralph, que para alguns simboliza o sentido democrático, e o de Jack, que para outros simboliza o autoritarismo. É bom mencionar que a obra é escrita na sombra dos escombros da segunda guerra mundial, ou seja, em meio as dores do Holocausto, da destruição provocada por esse período nefasto.
A película produzida em 1963, ou seja, pouco menos de dez anos depois da escrita do livro, consegue levar as telas boa parte do conteúdo moral da obra de Golding. Vale a pena ler tanto a obra, como assistir ao respectivo filme!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe

domingo, 3 de novembro de 2013

Constantin Costa Gavras: um grande símbolo do Cinema Político

           
Nascido em 1933, o cineasta grego radicado na França, Costa – Gavras se tornou conhecido pela crítica, sendo muitas vezes por isso aclamado pela mesma e noutras rechaçado, pelo alto teor crítico e de denuncia que perfazem a quase totalidade de suas obras.  Aos 36 anos, em 1969, ganhou notoriedade com sua obra “Z”, onde narrava e discutia os horrores da ditadura militar na Grécia durante os anos 1960, evento pouco conhecido no Ocidente Europeu, mas que a partir dali então ganhara os holofotes para a sua visibilidade e posterior discussão. Com este filme, o jovem cineasta ganhara o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.
            Não obstante, desde este primeiro momento, a critica especializada passaria a se ambientar com a sua linha cinematográfica que o denota como um grande cineasta de tendência crítica, cujas obras em geral, denunciam alguma opressão ou barbárie perpetrada em algum momento histórico específico, seja no passado próximo ou no tempo presente. Esta característica cinematográfica intrínseca ao mesmo faz com que toda a sua extensa filmografia não deixe de ser compreendida como fruto de um “Cinema de Autor”.
Esta menção encontra raízes na sua formação como cineasta. Costa Gavras, grego de nascimento, mas radicado na França, estudou, durante os anos 1950, na IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos) em Paris, onde desde sempre, pode estar em contato, física e ideologicamente, atuando como assistente de direção de grandes diretores franceses, como René Clair e Marcel Ophuls, membros da cinemateca francesa à época.
Nesse mesmo período, Costa Gavras teria contato com todo o espírito revolucionário e/ou de contestação que germinava em solo francês, e que como consequência, se estenderia ao Cinema, atingindo também a Cinemateca, principal centro de difusão, estudo e divulgação do Cinema francês, até os dias de hoje.  
Sua primeira película de renome, “Z”, foi produzida em meio ao calor dos acontecimentos de rebeldia e contestação que caracterizam o março de 1968, e que começaram lá em Paris, o símbolo de toda a inquietação da época, de onde irradiava a energia, as propostas e a ideologia motora para as ações do restante do mundo.
Posteriormente, suas obras apenas o ratificariam como um cineasta político ativo aberto às feridas mundiais, não apenas europeias. Isso se torna visível com o sucesso alcançado por sua película “Missing”, do ano de 1982, que por aqui recebeu o titulo: “Desaparecidos, Um Grande Mistério”, na qual o diretor emerge por dentro da discussão em torno da ditadura militar chilena de Augusto Pinochet, refletindo sobre os bastidores políticos, e, sobretudo a opressão violentíssima, que marcou este evento tão nebuloso e importante na história da América Latina.
Não por menos, na década anterior, nos anos 1970, antes do sucesso de “Missing”, Costa Gavras havia lançado duas películas pouco conhecidas, mas também de especial caráter político e de denuncia: A Obra “L'aveu”, por aqui, “A Confissão”, rodada em 1970, um ano após “Missing”, conta a história de um político checoslovaco que é perseguido, torturado, e preso por membros de seu próprio partido, sem ao menos saber em que se baseia a premissa de sua culpa. Em tons kafkianos, a película procura discutir até que ponto a opressão e a violência perpetrada pelo Estado atingem uma sociedade, e entre outras questões, oferece uma visão sobre os eventos que permeiam Primavera de Praga.
Dois anos depois, em 1972, Costa Gavras lança “État de siège”, ou “Estado de Sítio”, obra que descreve o sequestro do agente americano e do cônsul brasileiro Aloisio Gomide, pelos Tupamaros, no Uruguai, em uma película procura justamente em seu fundo histórico, discutir a guerrilha urbana uruguaia e seus desdobramentos políticos.
Por conseguinte, fica visto como Costa Gravas se insere dentro desta perspectiva de cinema político, que não procura refletir apenas guerras, revoluções em geral pelo mundo, mas como também, a opressão diária sofrida pelas camadas populares, profissões sufocadas, em uma tomada de posição que muitas vezes lhe acarretou criticas, principalmente no cenário norte – americano, por apresentar um viés de análise de esquerda.
De fato, Costa Gravas também ampliou seu olhar critico para além das revoluções e guerras mundiais, passando também a refletir sobre os problemas causados pelo mundo globalizado e capitalista. Nesse sentido, suas ultimas obras são bastante paradigmáticas para compreender como se dá a moderna critica de Costa Gravas aos conflitos e desilusões do mundo contemporâneo. 
Seu filme, chamado “Le couperet” ou “O Corte”, de 2004, retrata através de uma assustadora e ao mesmo tempo cômica e surpreendente sátira moderna, o nível de impotência e de desequilíbrio a que podem ser acometidas instantaneamente, sem nenhuma forma de remediação, as sociedades contemporâneas frente ao caos social produzido pela emergência desenfreada e incontrolável do fenômeno do desemprego em todo o mundo. Penetrando na mente de um típico engenheiro de classe media alta francesa, Costa – Gavras consegue habilmente abordar de forma cruel e irônica, a impotência do Estado em controlar a desordem social ocasionada pela ruptura do aclamado “Estado do Bem Estar Social”, modelo político, econômico e social típico das nações europeias, quando o desemprego em massa acaba minando suas estruturas, e o Estado não possui mais forças para controlar as decisões das empresas privadas, e em último caso, tomar medidas de cunho social abrangente.
Uma outra recente obra produzida por Costa Gavras, chamada “Éden a L’Ouest”, ou o “O Édem no Oeste”, produzida no ano de 2009, também procura mexer em uma ferida bastante controversa em torno dos problemas contemporâneos encarados pela sociedade francesa, e porque não dizer, da Europa em geral. A Película descreve a situação de um emigrante de nação não revelada, justamente para denotar uma universal situação avassaladora, o qual deixa sua pátria em direção a Paris, descrita aos olhos daquele como o Paraiso terreno, através de uma narrativa em que o personagem, antes envolvido por uma utopia que o envolvia confortavelmente, passa cada vez mais a visualizar a real situação em que se encontra, abandonando assim gradualmente a utopia de um paraíso para adentrar na desilusão real, quando passa a sofrer o preconceito, as perseguições de um estrangeiro em uma terra estranha, enfim, a sentir na pele os efeitos nocivos de sua condição de “desterrado” em um país estranho e não receptivo.
Por fim, através destes inúmeros exemplos, é possível enxergar como Costa Gravas se apresenta como um grande cineasta político disposto a retratar, em suas tramas, os mais variados problemas e questões de nosso tempo.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela UFS.
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