sábado, 22 de novembro de 2014

O Pagador de Promessas (1962): o único filme brasileiro a ganhar a “Palma de Ouro” em Cannes

Primoroso. Um grandíssimo filme. Talvez o maior filme da história do cinema nacional. Muitas outras adjetivações poderiam ser oferecidas para esse grande clássico – um pouco esquecido e menosprezado até – do nosso cinema.
Passados mais de cinquenta anos de sua exibição, a película “O Pagador de Promessas” continua a ser o único filme brasileiro a ter conquistado a Palma de Ouro de Melhor Filme, o prêmio maior no aclamado Festival de Cannes, sendo reverenciado lá fora como uma das maiores películas já produzidas na história do cinema mundial. De igual maneira, a película concorreu ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do Óscar de 1963, mas não conseguiu a estatueta.
    De fato esta película dirigida e produzida por Anselmo Duarte, baseada na clássica peça teatral de Dias Gomes, se apresenta como uma grandíssima película dos seus primeiros minutos até o fim de sua exibição. Trata-se de uma obra dramática cuja crítica social aparece com profundidade no decorrer de toda a sua extensão.

A saga de Zé do Burro em direção a Catedral de Santa Barbara em Salvador


O Filme que conta a saga do humilde camponês Zé do Burro que ao tentar cumprir com a promessa de levar uma pesada cruz em seus ombros até a Igreja de Santa Barbara em Salvador, em agradecimento a cura de seu burro, acaba então por se ver embaraçado em uma série de querelas envolvendo a Igreja, a Imprensa, a Policia, o Estado, e etc.

Leonardo Villar como Zé do Burro e Gloria Menezes como Rosa: atuações fantásticas

   Com um arsenal incontável de memoráveis atuações, em destaque Leonardo Villar no papel de Zé do Burro e Gloria Menezes no papel da jovem Rosa, a película efetua uma série de críticas as mazelas da sociedade brasileira, indo desde a crítica ao estado geral de pobreza e negligência do Estado frente a situação do campesinato brasileiro, passando por questões de intolerância religiosa, de reforma agrária até a discussão em torno do tratamento sensacionalista e oportunista oferecido pela mídia aos fatos diários.
         Eis um grande clássico que não pode ser esquecido! 

Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

sábado, 1 de novembro de 2014

Uma tragédia que se tornou um “filão cinematográfico”: o Titanic nas telas do Cinema

Todo mundo hoje em dia conhece a trágica história do “maior navio do mundo” que, ao se chocar com um iceberg, acabou afundando no Atlântico Norte, na noite do dia 15 de abril de 1912. Esse fato real acabou se tornando mais conhecido ainda, graças principalmente a monumental película dirigida e produzida por James Cameron, em 1997, um sucesso absoluto de público e de crítica, tendo obtido o record em indicações e estatuetas obtidas.
Mas muito antes da aclamada película de James Cameron, outros tantos filmes deram a sua versão acerca do ocorrido, sendo o primeiro deles inclusive, filmado dias após a tragédia, demonstrando o quanto o evento chocou a todos, e de outra maneira, como de imediato se tornou um “enredo” apreciável pela industria do Cinema.

Assim foi então que 29 dias após o naufrágio, foi produzido o curta-metragem mudo “Salva do Titanic”(1912), do diretor Etienne Arnnaud, de apenas dez minutos, que conta a história de Dorothy Gibson, uma atriz que realmente estava no Titanic, mas conseguiu salvar-se, de modo que, em tal película, interpretou a si mesma.
No mesmo ano de 1912, outra película sobre a tragédia também foi produzida. O Filme “Na Noite e no Gelo”, dirigido por Mime Misu, também se apresentou como um curta-metragem com pouco mais de 30 minutos, destinado a descrever os minutos filmes da tragédia, em suma, o choque do Titanic com o iceberg e o seu afundamento.
30 anos se passaram então até que um novo filme fosse produzido sobre a tragédia do Titanic, quando no ano de 1943, foi produzido o primeiro longa-metragem falado, intitulado “Titanic”, de direção de Herbet Selpin. No entanto, a película acabou sendo proibida no pós-segunda guerra, pois, tal produção alemã acabava por fazer uma propaganda ao regime nazista e uma ácida crítica ao governo inglês no decorrer do desenvolvimento do filme.

Dez anos após, o “Titanic” desembarca em Hollywood. Foi apenas em 1953, que o tema foi apropriado pelo Cinema Norte- Americano com a produção da película “Titanic” do diretor Jean Negulesco, produção esta que contou com várias estrelas do cinema americano como Barbara Stanwyck e Thelma Ritter. No entanto, a película ficaria famosa também pela “enorme liberdade poética e histórica” na qual o filme foi produzido, em outras palavras, pela grande quantidade de erros históricos.
Em 1958, uma outra película foi levada as telas: “Somente Deus por Testemunha”, de direção de Roy Baker, também procurou dar a sua versão frente ao ocorrido. Outras tantas películas se seguiram, como “S.O.S Titanic” (1979), “O Resgate do Titanic” (1980), etc.
No entanto, não há duvidas de que a grande película sobre este trágico evento seja a película “Titanic”, dirigida e produzida por James Cameron em 1997, um grande sucesso de público e de críticas. Na película, o romanceado casal Jack Dawson, um rapaz pobre, e Rose deWitt, uma moça da aristocracia, vivem raros momentos de amor até a separação frente ao iceberg. A monstruosa película recebeu 14 indicações ao Óscar, tendo vencido em 11 categorias, uma delas, obviamente, a de “Melhores efeitos especiais” e “Melhor Fotografia”.

Titanic, dir.James Cameron, 1997.

Ainda hoje muitos filmes e series continuam a ser produzidos sobre a tragédia do Titanic. Muito em conta do seu “apelo trágico” e pela capacidade de se colocar como um “bom pano de fundo” de romances impossíveis.

Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Alfred Hithcock e os "maus-tratos" de suas louras: Uma verdade ou apenas um mito cinematográfico?

Alfred Hithcock(1899-1980) foi certamente um dos maiores cineastas de todos os tempos. Suas películas de suspense, thriller, drama, etc, fizeram deste cineasta britânico, um exemplo a ser seguido no que tange a perfeição cinematográfica. Aliás, perfeição é uma palavra que remete realmente diretamente a sua figura, pois, Hithcock era, no uso de um termo chulo, aquele cineasta “chato”, disposto sempre a somente terminar o dia de filmagens, quando tudo havia corrido como imaginado em sua mente perfeccionista.
No afã desse seu perfeccionismo, tem quem defenda, hoje em dia, que o cineasta tenha sido bastante “carrasco” no trato dos artistas, principalmente, em relação as atrizes. Conta-se que, quando indagado em relação a esse aspecto, Hithcock teria justificado que “era preciso torturar as mulheres” para se conseguir a produção de uma boa trama.
Hoje em dia, uma série de estudiosos e biógrafos do cineasta tem discutido a veracidade desse suposto tratamento obsessivo e até perverso de Hithcock em relação as suas “louras”, as protagonistas de boa parte de suas películas. Alguns tem defendido veementemente esse “modus operandi” de Hithcock, e outros tem matizado tal questão, postulando que se criou um mito cinematográfico exagerado em torno disso.

Nunca saberemos ao certo, mas o fato inegável é que Hithcock nutria uma espécie de predileção (obsessão?) por atrizes louras, sempre escolhidas como as protagonistas ideais para os seus mais diversos filmes. Durante os anos 1950-1960, e nos demais também, poderiamos listar uma série de grandes atrizes nesse rol; Ingrid Bergman, uma das maiores atrizes da história do Cinema, foi a preferida de Hithcock durante os anos 1940. Como protagonista, Ingrid participou das películas “Interlúdio” (1946), “Sob o Signo de Capricórnio” (1949) e “Quando fala o coração” (1949).
 Gracy Kelly, a futura Princesa de Mônaco, foi a preferida de Hithcock nos anos 1950. Trabalhou com ele em “Disque M para Matar”(1954), Janela Indiscreta(1954) e Ladrão de Casaca(1955), até que, para grande desgosto de Hithcock, a atriz abandona o Cinema para se casar com Rainier III, o príncipe de Mônaco.

Gracy Kelly e Hithcock

Kim Novak, que participou da película “Um corpo que cai” (1958) teria sido uma das “louras” que mais sofreram nas mãos do machismo de Hithcock. Nas gravações da película, Hithcock supostamente não abria espaços para a conversa com a atriz, outorgando sua vestimenta, a repetição cansativa de inúmeros takes,e etc. Outra loura imortalizada por uma participação em película de Hithcock foi Tippi Hedren, que ao protagonizar o clássico “Os Passaros” (1963) também teria sido vitima dos “excentrismos” do cineasta. Conta-se que, o cineasta, para que a atriz pudesse “assimilar” o horror e o sentido do filme, teria trancado-a em um quarto com uma grande quantidade de pássaros, sem espaço algum para a fuga. E por fim, outra das louras hithcockianas foi Janet Leigh, a qual protagonizou a clássica cena do chuveiro em “Psicose”(1960).


Tippi Hedren, a "loura" dos pássaros de Hithcock

Os estudiosos de Cinema e os biógrafos de Hithcock tem ainda divergido acerca da realidade dessa questão. Algumas dessas atrizes citadas, como a própria Kim Novak, ainda viva, tem confirmado esse “lado” de Hithcock. Ao que parece, o “mestre do suspense”, caso tal questão tenha sido mesmo verdadeira, agia com um forte machismo, e alguns biógrafos, tem apontado que tal postura seria fruto de uma espécie de amor e ódio que o cineasta nutria por suas protagonistas, resultado da impossibilidade de, no plano prático, possuí-las.
Hithcock era casado com Alma Reville, com a qual permaneceu durante toda a sua vida, tendo sido esta uma figura importantíssima durante toda a sua carreira cinematográfica. Recentemente a película “Hithcock”(2012), na qual Anthony Hopkins e Hellen Mirren interpretam ao casal, o cineasta Sasha Gervasi discute sobre essa suposta natureza machista de Hithcock em relação as suas louras, dentre outras questões.
Tal polêmica ainda se encontra em aberto, e dificilmente se chegará a um consenso, se há uma verdade crua e indesejável do mestre do suspense, ou um mito cinematográfico por demais reproduzido.

Att. Rafael Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

[Futebol e História] Francisco Carregal: o primeiro jogador negro do Brasil

Em tempos em que se tem discutido o racismo na sociedade brasileira, e também em todo o mundo, e sua “manifestação” dentro dos campos de futebol, quando uma série de jogadores tem sido alvo de horrendas manifestações racistas, como a ocorrida recentemente com o jogador Aranha, goleiro do Santos, por parte de uma torcedora gremista, convém destacar aquele que deve ter sobremaneira enfrentado com toda força, o peso de uma sociedade altamente racista: Francisco Carregal, o primeiro jogador negro do Brasil.
O Futebol, aos príncipios do século XX, era visto como “esporte de branco”, de uma elite aristocrática que passara a praticar o esporte importado por Charles Miller de terras britânicas. Assim, boa parte dos clubes amadores que passam a se formar, são compostos basicamente por homens brancos, filhos de uma elite, sendo praticamente vedada a participação de negros na composição dos times.
No entanto, consta-se que em 14 de maio de 1905, esse “tabu” foi quebrado, ao menos em uma partida. Foi quando o Fluminense, clube paradigmático da aristocracia carioca da época, enfrentou ao Bangu no jardim da Fábrica Bangu, tendo o primeiro vencido a partida por 5 a 3.

Francisco Carregal com a posse da bola

No meio dos jogadores do Bangu, estava o operário negro Francisco Carregal, atuando entre os brancos jogadores de ambos os times. O tecelão da Fábrica Bangu, se tornou, portanto, o primeiro jogador negro de nosso país.

Curiosamente, o Fluminense, o time adversário que protagonizou tal “quebra do tabu”, ficaria famoso posteriormente também por um caso envolvendo a um jogador negro, tendo inclusive obtido um certo apelido por conta do episódio. Tudo aconteceu em 1915, dez anos depois, quando o clube aristocrata aceitou em seu escrete a adesão de um jogador negro de nome Carlos Alberto. O jogador, em sua estreia, procurando “disfarçar” sua cor, por medo do preconceito, acabou se utilizando do artificio do “pó de arroz”, mas no decorrer do jogo, diante do suor, tudo se desmanchou, de modo que, a torcida adversária de imediato começou a gritar “pó de arroz”, expressão que de imediato viraria apelido da equipe.
Outro clube carioca, no entanto, ficaria famoso por conta de sua luta contra o preconceito: o Vasco da Gama. O Time da Colina foi o primeiro clube a se revoltar contra o preconceito existente no seio futebolístico, quando no ano de 1924, o Vasco, formado por uma grande quantidade de jogadores negros, foi alvo de uma tentativa de afastamento do campeonato carioca por ação dos demais clubes cariocas. Como reação, a equipe cruzmaltina publicou um manifesto direcionado a associação de atletas, apresentando seu repudio tanto ao preconceito quanto as tentativas de afastamento.

Os "desclassificados" seriam justamente os jogadores negros do elenco vascaino

Do começo do século XX para cá, a situação obviamente que mudou muito. No entanto, o racismo ainda é, infelizmente, uma parte presente da sociedade, não somente a brasileira, como também de outras nações do mundo. Uma chaga que se recusa a deixar de existir. No fundo, o Futebol se apresenta como mais um espelho da sociedade, que reflete todas as suas mazelas, seus preconceitos. Sonhemos com o dia em que não veremos mais essa triste série de acontecimentos envolvendo atletas, desde o aqueles ocorridos em nosso país – Aranha, Grafite, etc -, como também os ocorridos em solo europeu – Daniel Alves, Roberto Carlos, etc - , e que isso aconteça no âmbito geral de todas as sociedades, em outras palavras, lutemos para que o esperado dia em que o preconceito será extinguido, se torne cada vez mais próximo!
Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Um talento a serviço do mal: a cineasta Leni Riefenstahl (1902-2003) e os filmes de propaganda nazista


Nascida em Berlim no ano de 1902, a atriz e cineasta alemã Leni Riefenstahl, falecida desde 2003, imortalizou-se por conta de suas produções a serviço do regime nazista de Adolf Hitler. No entanto, mais do que uma mera cineasta “paga” pelo regime, Leni realmente se apresentava como uma cineasta de enorme talento, tendo revolucionado algumas das técnicas cinematográficas de então. Fora um verdadeiro talento a serviço do mal.
Conta-se que Leni, aos 30 anos de idade, tivera seu primeiro contato com Adolf Hitler, no ano de 1932, em um comício do partido nazista, quando a jovem teria ficado alucinada com o poder da oratória de Hitler. Quando o Partido Nazista assume o poder em 1933, Hitler então copta a jovem cineasta, que de imediato passa a trabalhar para o regime nazista em seus projetos de fortalecimento e legitimação por meio do Cinema.

Leni na companhia de Adolf Hitler

Leni produz e dirige seu primeiro documento no mesmo ano, chamado “A Vitória da Fé”, na qual reproduz o Quinto Congresso do Partido Nazista, com tomadas em foco da expressão do Fuhrer, numa espécie de ensaio para sua “grande obra” do ano seguinte. Assim foi então que em 1934, Leni lança sua “obra prima”, a película “O Triunfo da Vontade”, um documentário de quase duas horas de duração, cujas imagens impressionam pela natureza épica, pelas inovações no tipo da filmagem. Enfim, a obra não deixaria de ser um “louvor” a figura de Hitler e aos mecanismos do sistema nazista.

Cena de Triunfo da Vontade, de 1934.

Tal filme tornou-se o marco cinematográfico do regime nazista, servindo de modelo para outros regimes totalitários, como paradigma do potencial oferecido pelo Cinema na propagação de ideologias.
Leni, continuando sua “saga de louvor”, lança em 1935, a película “O Dia da liberdade: nossas forças armadas”, um curta de pouco mais de meia hora voltado a louvar as forças armadas alemãs, demonstrando seu dia a dia de treinamento, e reforçando sobretudo, o poder dos “arianos”. Em 1938, a documentárista lança um outro “clássico” de sua autoria, a película “Olympia”, na qual reproduz as cenas de suas filmagens dos Jogos Olímpicos de 1936, ambientados na Alemanha nazista.

Leni em seu processo de filmagem de Olympia, 1938.

Findada a guerra, Leni acabou sendo presa, quando ficou por 4 anos presta na França, e quando foi a julgamento, foi considerada apenas “simpatizante” do sistema. Em sua defesa, Leni costumava afirmar que era uma jovem ingênua e que desconhecia todos os fatos horrendos cometidos pelo regime durante a guerra.
No restante de sua vida, a cineasta procurou dar continuidade a sua carreira como cineasta, no entanto, não obteve  patrocínios obviamente por conta de seu passado, de modo que passou a desenvolver outras atividades próximas ao Cinema, como a Fotografia.
Em 2003, aos 101 anos de idade, Leni Riefenstahl falece em sua casa na Alemanha. Até hoje a sua imagem é de natureza extremamente ambígua: não há como negar seu enorme talento e suas contribuições para o Cinema, no entanto, deve-se pesar o destino de tal talento. Repito, um talento a serviço do mal.
  
Ass: Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

[História e Futebol] Os anos 1940: quando a “Segunda Guerra Mundial” bombardeou a realização da Copa do Mundo

Um sucesso. Três grandes Copas do Mundo haviam se passado, e cada vez mais, o evento futebolístico orquestrado pelo francês Jules Rimet com o intuito de congraçar os mais importantes países praticantes do Futebol crescia em sucesso. Em sua primeira realização, no ano de 1930, no Uruguai, participaram 13 equipes, tendo sido campeã o país sede, o Uruguai, em final frente à Argentina.
O evento pensado para ser realizado de quatro em quatro anos, foi realizada na Itália, patrocinada pelo regime fascista de Benito Mussolini. Naquele ano de 1934, 16 equipes participaram, três a mais do que no evento anterior, e ao fim, a seleção sede também se tornou campeã, para delírio de Mussolini. O Terceiro lugar fora conquistado pela Alemanha nazista de Adolf Hitler, formada por jogadores de inúmeras nacionalidades.

Em casa, a seleção uruguaia se sagra a primeira grande campeã do mundo, em 1930

Em 1938, coube ao país natal de Jules Rimet, a França, sediar ao evento, “na beira” da eclosão da Segunda Guerra Mundial. 18 seleções participaram, e mais uma vez a seleção italiana sagrou-se campeã. O Brasil, grande surpresa dessa Copa do Mundo, conquistou a terceira colocação graças ao talento de Leônidas da Silva, o artilheiro e inventor do gol de bicicleta.

Leônidas da Silva, o grande craque da surpresa brasileira, em 1938.

Todavia, eclodida a Segunda Guerra Mundial, o evento acabou por ser interrompido. Obviamente, pois toda a geografia mundial passara a se concentrar na realização desse famigerado evento que culminou com a destruição de boa parte da Europa e um número incontável de mortos. Assim, a Copa do Mundo de 1942, que seria realizada no Brasil, não foi realizada, assim como também a Copa de 1946, a primeira por estar situada no meio do evento, e a última por conta da impossibilidade material de se pensar em um evento de grande escala durante o pensamento de reconstrução do pós-guerra.

Curiosamente, alguns jogadores brasileiros acabam sendo convocados para formarem o exército brasileiro nas fileiras da Segunda Guerra Mundial. Foi o caso de Perácio, meio-campista brasileiro na copa de 1938, que acabou sendo convocado, atuando em combate pela FEB, a Força Expedicionária Brasileira.
Até hoje alguns estudiosos do Futebol tem conjecturado os possíveis resultados caso as duas copas do mundo tivessem sido realizadas, naqueles anos de 1942 e 1946. Boa parte deles sustenta que a grande favorita ao titulo seria a Argentina, que despontava como a maior força do futebol sul-americano, ao ganhar a “Copa América” de 1941, 1945, 1946, 1947.  Há quem defenda, no entanto, que o país sede, o Brasil, que realizaria o ato apenas em 1950, também estaria na briga, pelo peso de ser o pais sede, como também pelo crescimento do futebol visto no país.
No entanto, não podemos negligenciar também o peso das grandes potências futebolísticas da época: o Uruguai e a Itália. A primeira seleção, o Uruguai, a essa altura, havia sido campeã da copa de 1930, de uma quantidade de “Copa América”, e seria, por fim, a campeã da copa de 1950 no Brasil. E a segunda, a seleção italiana, inegavelmente mostraria a força de uma seleção bicampeã do mundo, na defesa de seus títulos.

A bicampeã Itália (1934-1938) e sua recepção por Benito Mussolini

Tudo é claro, suposições. Exercício de imaginação. Nunca saberemos ao fim qual o resultado esportivo prático. O que se torna evidente é que a “Copa do Mundo”, ao nascer no principio do século XX, acabou por crescer num conturbado cenário político mundial, marcado por regimes totalitários, conflitos e guerras que deixaram a sua marca também na história do maior evento futebolístico.

Ass: Rafael Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Anne Frank (1929-1945) nas telas do Cinema: as representações do “Diário” na TV e no Cinema

Seu relato de vida é até hoje uma das “obras” mais lidas do mundo, passados quase setenta anos do ocorrido. Certamente “O Diário de Anne Frank” é um dos livros mais paradigmáticos para se compreender o terror da primeira metade do século século XX.
Anne Frank, uma jovem menina judia alemã, escreve entre 12 de junho de 1942 e 1 de agosto de 1944, a “história” da fuga de sua familia das tropas nazistas, para se refugiarem no sotão de uma residência em Amsterdam. Por lá, Anne procura passar o seu tempo escrevendo, contando as agonias de sua vida, seus pensamentos de menina em crescimento.
     O primeiro filme produzido sobre a jovem Anne, chegou as telas do Cinema no ano de 1959, quinze anos após a morte de Anne, quando o diretor norte – americano George Stevens produz então a sua versão sobre a vida da pequena Anne Frank, no filme homônimo ao título da obra, “O Diário de Anne Frank”. No papel da pequena Anne, está a jovem atriz Millie Perkins, que consegue cumprir com perfeição o papel de interpretar a inteligente menina.

Anne Frank, 1959, dir. Georges Steven

     O Filme, que levou três Oscars, retrata muito bem o terror da perseguição, os horrores do holocausto, e a agonia do confinamento da familia de Anne, que viveram por praticamente dois anos sem sair do sotão.
     Em 1969, o primeiro filme para televisão foi feito em torno da figura de Anne. “O Diario de Anne Frank, dirigido por Alex Segal, teve como interprete da menina, a atriz Diana Davilla.

Cena do filme televisivo, dirigido por Alex Segal em 1969.

     Alias, uma série de filmes e miniseries televisivas foram produzidas. Em 1980, o diretor Boris Sagal levou a TV, a sua versão da história, com a atriz Melissa Gilbert no papel de Anne Frank.  Em 1987, “O Diário de Anne Frank” ganha mais uma versão nas mãos do diretor Gareth Davies. No papel de Annie, estava a atriz Katharine Schlesinger. Em 1988, mais um filme televisivo: “O Sotão: o esconderijo de Anne Frank”, dirigido por John Erman, tendo a atriz Lisa Jacobs no papel de Anne.
     Em 1995, uma animação japonesa de grande qualidade é produzida sobre a vida da menina, dirigida por Akinori Nagaoka. Em 1999, a França apresenta sua versão sobre a história com outra animação, chamada “A jornada de Anne Frank”, dirigida por Julian Wolf.
     Em 2001,o “diário” ganha mais uma versão televisiva na película intitulada “Anne Frank: Toda a História”, dirigida por Robert Dornhelm. No papel da menina, a atriz Hannah Taylor-Gordon. Em 2009, mais um filme televisivo: “O Diario de Anne Frank”, dirigido por Jon Jones. No papel da garota, a atriz Ellie Kendrick.

Anne Frank, 2001, dir. Robert Dornhelm

     Por fim, até o presente momento, a última película produzida sobre a jovem, é o filme italiano “Memorias de Anne Frank”, dirigido por Alberto Negrin em 2010, contando com a atriz Rosabel Laurenti no papel de Anne Frank.
     Uma série de documentários, filmes para Cinema e TV continuam sendo produzidos sobre Anne. Seria impossível listar todos. A lista, acredito, se atualizará sempre, haja vista que a triste história dessa jovem garotinha continuará sendo apropriada, pois tal história não deve ser nunca esquecida como símbolo do terror humano.

Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

X-men e os conturbados anos 1960 nos Estados Unidos: seriam Prof. Xavier e Magneto claras alusões a Martin Luther King e Malcom X?!

Assim como os filmes, os quadrinhos, e as demais produções de natureza artísticas, acabam por revelar, consciente e/ou inconscientemente, questões cruciais de natureza política, econômica e social de sua época de produção. Nesse sentido, ainda que seus criadores muitas vezes não notem essa “influência” do contexto no resultado da obra, ela aparece, as vezes de maneira um pouco confusa, as vezes bastante clara.
Acredito que o caso das histórias em quadrinhos dos X-men, podem até ser caracterizados no segundo caso em questão. Sim, por mais que a alusão a questões de sua época de produção, a série começou a ser produzida em 1963, muitas vezes apareçam subliminarmente, algumas outras parecem emergir como metáforas bem observáveis e claras.
É o caso da suposta e polêmica analogia entre as duas principais personagens da saga, e duas importantíssimas figuras históricas americanas. Em outras palavras, muitos estudiosos tem defendido que as personagens Prof.Xavier e Magneto seriam claras alusões as lideranças Martin Luther King e Malcom X.
Desenho que faz alusão a suposta analogia entre as personagens.

Os quadrinhos e até os filmes mais recentes na qual a “complementaridade” e ao mesmo tempo as “divergências” das personagens são expostas ajudariam na demonstração dessas alusões. Ambos as personagens são “mutantes” que a seu modo, lutam pela inserção e aceitação dos “mutantes” em sociedade: o primeiro a base da construção do respeito, da desconstrução do preconceito, e o segundo pela via mais brusca, a violência.
Tal construção das personagens denotaria claramente a atuação dessas lideranças no decorrer dos anos 1960, momento que, como dito, foram iniciados os quadrinhos dessa saga. Martin Luther King Jr, pastor de formação, liderou o movimento dos direitos civis para os negros nos Estados Unidos, durante todo os anos 1960, até ser assassinado em 1968. Em sua defesa, o ideal do “I Have a dream”: ou seja, a defesa de um mundo em que todas as pessoas pudessem viver pacificamente, sem qualquer discriminação. Seu artificio era a oratória, a paz.

Professor Xavier e Magneto: entre algumas concordâncias e várias discordâncias

Malcom X foi contemporâneo a Luther King, mas apesar de basicamente defenderem o mesmo ponto, divergiam em alguns aspectos cruciais: Malcom X defendia um fortalecimento da causa negra nos EUA por meio da força, haja vista que acreditava que o caminho da conversa não estava resultando em nada. Acabou sendo assassinado também, três anos antes de Luther King, em 1965.
Enfim, muitos críticos dos quadrinhos tem sustentado essa questão, mas também tem observado que tais personagens não podem ser reduzidas a apenas uma simbologia de luta. Em outras palavras, tanto nos quadrinhos como nos filmes, as personagens em questão acabam por representar outros grupos que historicamente tem sofrido com preconceitos, discriminações, e etc.
O próprio caso de Magneto é singular nesse sentido. Tal personagem é uma sobrevivente dos horrores do Holocausto. Sua personagem também simboliza a luta dos judeus que passaram pelo terror do nazismo e tiveram que sobreviver a posteriore na lembrança do  terror sofrido e muitas vezes do preconceito que continuou a existir.
Tal como os filmes, repito, as histórias em quadrinhos, são importantes meios para analisarmos o contexto histórico em questão. No caso de X-men, ainda que eu não tenha conhecimento tão profundo para analisá-los, pelo pouco que sei, muitas tematicas dos anos 1960 são partes fundamentais em suas histórias: o contexto da Guerra fria nos anos 1960 e sua corrida armamentista, o medo em relação aos mutantes como possíveis “outros”, ou seja, “comunistas”,  muito bem demonstrando na película “X-men: the first class” (2011), dentre várias questões.

Ass. Rafael Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O clássico do terror “Tubarão” (1975) e suas variadas “interpretações” : uma metáfora ao “perigo do invasor imigrante”, “ao grande capital” ou uma “apologia ao machismo”?

Um dos filmes de maior sucesso dos anos 1970, “Tubarão”, dirigido por Steven Spielberg, ainda hoje é aclamado, não somente pelos efeitos especiais e pela trilha sonora tão marcante e tocada ainda hoje, mas como também pelo grande potencial de interpretações que do filme pode-se retirar.
A história do grande tubarão que num dia calmo e comum do verão americano subitamente começa a atacar os banhistas, americanos comuns, assassinando-os em série, tem sido interpretado por muitos estudiosos a partir de vários pontos de vista, ou seja, interpretações de todo tipo tem surgido para explicar a suposta “metáfora” ou “simbolismo” do tubarão.
O psicanalista e crítico de Cinema Slavoj Zizek em seu documentário “O Guia perverso da Ideologia” procurou demonstrar algumas dessas interpretações. Conforme este, por exemplo, curiosamente “Tubarão” seria um dos filmes preferidos do líder cubano Fidel Castro, porque este procurava interpretá-lo como uma metáfora ao “potencial devastador/abocanhador do grande capital”. Mas essa é só uma interpretação de Fidel Castro.
Outras tantas pessoas, e outros tantos grupos sustentam outras. O crítico-psicanalista também apresenta uma outra interpretação bem comum frente a “Tubarão". Nesta, a figura do “Tubarão” remeteria a do “imigrante latino”, que ao chegar nos Estados Unidos, passa a “ameaçar” a vida do americano comum, “tomando seu emprego”, rompendo com o “status quo idílico do American way of life”. Tal metáfora, obviamente, se tiver sentido, não deixa de apresentar mais um preconceito/xenofobia a figura do imigrante.
Uma outra interpretação do “tubarão” sobressalta dos grupos feministas. Nessa interpretação, defende-se que o filme é recheado de “metáforas machistas”, desde o tubarão na agua, que simbolicamente representaria o “falo caçador”, até a natureza das vítimas, mulheres quase sempre sexualmente independentes. Não obstante, na película, são os homens “de carater forte” que acabam por “extinguir” esse mal, ou seja, restituem o poder do “patriarcado”.

Uma vítima do "Tubarão": uma jovem nua que procura se banhar.
Na interpretação feminista, essa e outras cenas, reproduzem o ideário machista
ao apresentar a "punição" para as moças mais independentes.

Enfim, uma série de outras interpretações poderiam ser indicadas. Ao que parece, a película “Tubarão” oferece essa “deixa” para ínumeras interpretações, justamente porque ao encarnar no Tubarão a metáfora do “medo” que irrompe sem explicações desestruturando a normalidade das coisas, deixa em aberto então o caminho para interpretações das mais variadas.

Att. Rafael Prata

Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

sábado, 16 de agosto de 2014

[Futebol e História] Euclides da Cunha e a “tragédia da piedade” (1909): quando um jogador do Botafogo se tornou vítima circunstancial de uma grande tragédia brasileira

A “tragédia da Piedade”. Nenhuma outra expressão poderia expressar melhor o significado daquele evento.  Uma verdadeira “tragédia” que acometeu até quem não tinha “culpa no cartório”. Naquele fatídico dia 15 de agosto de 1909, o jornalista e escritor Euclides da Cunha, sem suportar mais o peso das traições, parte em direção a casa do jovem tenente Dilermando de Moraes, e com uma arma na mão procura assassiná-lo, mas não consegue. O jovem ternente é mais rápido, pois hábil com o manejo das armas, consegue diferir rapidamente uma série de tiros que tiraria a vida de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Tal episódio foi o ponto final de uma história trágica que desde sempre se anunciava. 
       Euclides da Cunha casou-se com Anna Emilia em 1890. Quase sempre muito ocupado, envolto nas suas viagens e ocupações de jornalista atuante, o qual chegou a cobrir in loquo a chamada “Guerra de Canudos”, Euclides costumeiramente deixava sua esposa em casa, postada em sua solidão. Foi num desses momentos que então sua esposa Ana conhecera o jovem cadete Dilermando de Assis, de então 17 anos, dezesseis anos mais novo que ela, a qual possuía 33 anos de idade, e ali começara uma tórrida história de amor.
         Dilermando tornou-se seu amante. Teve dois filhos com ele, ambos batizados com o nome de Euclides da Cunha. Mas até que certo dia, a verdade veio a tona, e a fúria de Euclides da Cunha também. Euclides, que amava demais a sua esposa, ainda assim resolveu seguir com o casamento, pedindo para que esta não mais se encontrasse com seu amante, mas o pedindo não foi aceito.
         Ao descobrir que Anna Emillia continuava a se encontrar com Dilermando, Euclides da Cunha, portando uma arma que conseguira com um parente, entra na casa de Dilermando, na região da Piedade, e antes de atirar, solta a seguinte frase: “Vim para matar ou para morrer”.


Charge de Jornal da época, retratando o duelo entre Dilermando de Moraes e Euclides da Cunha

         Morreu. Mas antes, disfere dois tiros no amante de sua esposa, que atingido cai, mas com vida. O irmão de Dilermando era Dinorah, um jovem zagueiro que atuava no Botafogo F.R, que ao ver a situação, tenta retirar a arma das mãos de Euclides, mas também é atingido por dois tiros.
         Dilermando, embora ferido, consegue pegar a sua arma caída no chão, e disferir assim uma sequência de tiros em Euclides da Cunha, que baleado no pulmão, cai sem vida no chão.

No círculo, o meio campista Dinorah, irmão de Dilermando, a época em que atuava pelo Botafogo.

         Dilermando sobrevive, mas seu irmão Dinorah vê sua carreira como jogador do Botafogo encurtada,  pois após o ocorrido, passa a sofrer de Hemiplegia, tendo que largar a carreira, pois a doença paralisava parte de seu corpo. Dinorah não aguentado o sofrimento, acaba por se suicidar em 1921. Seu irmão Dilermando foi a julgamento, mas foi absolvido por legitima defesa, ainda que a pressão da imprensa tenha sido forte, em favor do falecido Euclides da Cunha.
         Triste fim para um final previsível. Dois mortos. Euclides da Cunha, e o pobre coitado do Dinorah, grande zagueiro do Botafogo, que não tinha nada a ver com a história. Em 12 de maio de 1911, quase dois anos após a “tragédia da Piedade”, Dilermando e Anna Emilia se casam, e vivem juntos até 1926, quando se separam.

Att. Rafael Prata

Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
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