domingo, 5 de junho de 2011

O Cinema - Denuncia de C.Gravas em Amém: O Reich e suas relações com o Vaticano.

       As produções cinematográficas incidentes sobre a Segunda Guerra Mundial sempre irromperam como um grande gênero fílmico há muito tempo explorado pelo Cinema, graças ao seu teor provocativo e histórico, o qual reconstruindo um assunto ainda do tempo presente, cujas feridas e chagas ainda perduram nos nossos dias, continuam ocasionando altas doses de emoção no público consumidor de tais películas.
             Ademais, alguns filmes dentro desse gênero conseguem fugir, no entanto a certo clichê que rodeia a produção destes filmes do gênero bélico: Grande maioria costuma em muito apenas se aventurar por narrativas épicas, dotadas de grandes heróis, com recriações que muitas vezes apenas servem como um divertimento fugaz, negligenciando fatores de ordem psicológica que podem ser inteiramente incluídos na obra, enriquecendo-a até como ponte para todo este contexto histórico absurdamente complexo e traumatizante que se apresenta a guerra.
            A Película “Amém” é uma destas obras que conseguem distinguir-se desse gênero clichê. Não é atoa que sua separação esteja diretamente ligada aos autores de sua produção, em especial, seu diretor, o grego Constantin Costa – Gravas. 
Costa - Gravas : Uma Câmera e uma Denuncia.

               Nascido em 1933, o cineasta grego, mas radicado na França, Costa – Gravas ficou conhecido pela crítica, sendo muitas vezes por isso aclamado pela mesma, pelo alto teor crítico e de denuncia que perfazem as suas obras.  Aos 36 anos, em 1969, ganhou notoriedade com sua obra “Z” onde narrava os horrores da ditadura militar na Grécia durante os anos 1960, pouco conhecida no Ocidente Europeu, e a partir dali então esta ganhara holofotes para a sua visibilidade. Com este filme, o jovem cineasta ganhara o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.
Z: A realidade da ditadura militar grega pelos olhos de um grego.
            Não obstante, sua linha cinematográfica o apresenta como um grande cineasta de tendência crítica, cujas obras em geral, denuncia alguma opressão ou violência sentida em algum momento histórico específico. Outra de suas grandes obras, - ratificando como Costa – Gravas se apresenta como um sujeito aberto às feridas mundiais, não apenas europeias – se chama “Missing”, do ano de 1982, que por aqui recebeu a tradução: “Desaparecidos, Um Grande Mistério”, a qual atenta para a ditadura militar chilena de Augusto Pinochet, na nossa América Latina.
Missing: Os Olhos vivos de Gravas se voltaram ao Chile.
           Logo, vistas todas estas considerações, não nos surpreende que a obra “Amém”, rodada em 2002, tenha recebido tantos elogios positivos, como também, ao mesmo tempo tenha suscitado revoltas em parte do público que a consumiu. Na França e na Alemanha, principais localidades onde se deu a sua rodagem em inicial, a reação do público ao mesmo tempo foram ambíguas: parte das críticas aclamou a obra pelo seu grande potencial psicológico e de denuncia, mas uma ala considerável, por fatores que demonstrarei adiante, recepcionou tanto a película como o seu diretor, portando as mais pesadas pedras nas mãos.
            A Origem destas pedras críticas é o que evidenciaremos agora.

Amém: Um filme extremamente corajoso.
          A película traz a tona, em linhas gerais, uma problemática ainda muito polêmica e porque não dizer ainda não satisfatoriamente respondida, que é justamente a participação da Igreja Católica, de sua cúpula maior do Vaticano, nos eventos que caracterizam a Segunda Guerra Mundial. Em suma, Costa – Gravas procurar perscrutar psicologicamente de qual forma o Nazismo e seus eventos já conhecidos por todos, foram recepcionados pelo Vaticano, e de que forma este pode ter se omitido ou contribuído na resolução de tais fatos. Por si só, esta breve sinopse, já explicaria o porquê das pedras que voam, pois por assim dizer, não menos que uma grande parcela da fervorosa população católica francesa da época, e toda a Cristandade, repudiou o filme, considerando indigna a fé católica, caluniador por certo.
            Mais obviamente que se tratando de um cineasta como Costa – Gravas sua intenção não seria causar reboliços com a Igreja e seus fieis, para obter público através de um mercado fomentado pelas polêmicas religiosas, mas, sobretudo, sua denuncia está decididamente calcada em raízes e indagações de teor histórico. Ainda hoje nos perguntamos e vemos o quão é complicado entender a participação do Vaticano, em especial do Papa Pio XII, em relação aos eventos daquela dita guerra, procurando entender quais tipos de relações sociais e econômicas poderiam ter ocorrido entre a cúpula eclesiástica romana e os nazistas.

Papa Pio XII e Hitler: Muiitos possíveis acordos firmados.
            Não pretendo trazer aqui um resumo da película, o maldito conhecido como spoiler que tanto causa raiva aos amantes do Cinema, pois tiraria toda a graça daqueles que porventura irão assistir a esta obra, motivados ou não por esta postagem. Em comentários gerais, abordarei apenas algumas questões cruciais, mormente ao eixo central do filme, que são personificadas e vivificadas nas falas das personagens principais, um soldado SS e um jesuíta italiano.
            O Filme conta a história de um soldado SS chamado Gerstein que trabalhando em pró da erradicação da febre tifoide e da proliferação dos vermes em geral, acaba tendo o resultado de seus estudos desviado na utilização errônea do chamado Zicklon B, como gás letal para as recém-criadas câmeras de gás nos campos de concentração do Reich.

Zyklon B: Morte imediata!
        Sim, leia-se recém – criadas, pois este é outro fator interessantíssimo do filme, pois ao contrário de outros que procuram abordar somente a Guerra em movimento e a Alemanha como um produto acabado como se até o iniciar da guerra em 1939 não tivesse ocorrido transformações internas levadas a cabo por anos, esta então tem sua temporalidade iniciada em 1936, quando o Reich ainda transformava os professores universitários em químicos eugenistas, e os hospícios alemães passavam a ser veladamente transformados em mini – campos de concentração, tendo seus pacientes, deficientes e loucos em geral, sido mortos naquelas localidades, porque se apresentavam como de altos custos e desnecessários a política ariana alemã. 
        Aliás, uma das mais dramáticas cenas do filme reside justamente neste ponto: Logo no inicio do filme, uma enormidade de pacientes de hospícios alegres saudavam aqueles que seriam seus carrascos, aos gritos de Sieg Heil. Pouco tempo depois, seriam colocados em um banheiro, e por meio da fumaça de um caminhão, foram mortos por asfixia. O Genocídio e/ou matança começara muito antes dos holofotes da Guerra, e isso é um dos elogios a serem feitos por esta película de Costa – Gravas, pois ele traz isso à tona.
       Ainda dentro desta premissa, outra cena choca e demonstra como toda a operacionalidade nazista atingia, e, sobretudo se justificava e fazia funcionar, através da educação de seus infantes alemães. Em uma cena, a jovem garotinha filha do SS Gerstein, está resolvendo suas tarefas da escola. Uma das indagações é justamente um problema de matemática que perguntava quantas casas para os arianos poderiam ser feitas com a economia obtida pela destruição dos hospícios de toda a Alemanha? Obviamente levando-se em consideração o Fator X determinante que seria a eliminação de seus componentes.
            Enfim, inconformado com esta situação, o obstinado soldado Gerstein inicia uma luta para acabar com este massacre de judeus, deficientes, e pessoas em geral, procurando anunciar a todas as fontes possíveis, o mal que tem sido feito na Alemanha. Seu canal fiel será o jesuíta italiano Ricardo Fontana, que filho de um conde próximo ao Papa Pio XII, tentará de tudo para acabar com esta situação, agindo dentro das redes sociais do Vaticano.
Ricardo Fontana e o SS Geirstein: Um Jesuita e um SS cristão.
            Neste momento é que a problemática central e mais complexa do filme se apresenta, pois durante mais de 120 minutos do filme somos levados aos questionamentos do jesuíta, a sua luta para que o Papa Pio XII e os cardeais romanos evoquem seu poderio da Cristandade para anunciar todos aqueles crimes, podendo assim tentar salvar os judeus, os deficientes, os negros e ciganos, todos aqueles que estavam sendo aniquilados pelas forças nazistas.
Somos arrastados até um embate moral onde ora pensamos que a Igreja procura auxiliar os oprimidos, e ora temos a mais certa certeza que a Igreja se omite e até contribui na consecução daqueles eventos. 
Pio XII:  De mãos dadas com a culpa?
          Em todos os momentos do filme, o jesuíta Ricardo Montana, que é fictício, representa uma luta ínfima dentro da Igreja para abrir os olhos e ouvidos dos poderosos do Vaticano, mas sua luta é cega, é ineficiente, pois os interesses papais e eclesiásticos se sobressaem a qualquer outro fator que possa aparecer. E é esta questão que justamente nos aterroriza: Em muitos momentos as rusgas existentes entre o Vaticano e o Nazismo são frutos apenas de querelas oriundas por impostos ou questões de ordem monetária, enquanto que a situação judaica e todos os levados aos campos são decididamente esquecidos e deixados à revelia.  A Igreja se defende, jurando que procura assim se “manter neutra”, e apenas abre sua boca quando são os “convertidos” que passam a ser levados aos campos.
            Quando se espera que o Papa Pio XII, as vésperas do Natal de 1942, exercite sua fala em pró daquelas vitimas, ele apenas recita as seguintes palavras:A humanidade deve esse voto às centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa pessoal, às vezes apenas por razão de sua nacionalidade ou raça, estão marcadas para a morte ou extinção gradativa.”.
 
Omissão do Papa Pio XII?!
        Este foi o seu maior revérbero durante a guerra, e percebemos que em nenhum momento foge de um comentário abstrato, quase um clichê camuflado em uma benevolência ocultada por interesses diversos. Não há indignação em nome dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, negros e etc. Aliás, nenhum desses nomes é citado em todos os seus discursos durante aquela época. Uma cena bastante bela e não menos pesada acontece quando indignado após este discurso, o jesuíta Ricardo Fontana, imprime sobre sua bata de jesuíta, uma estrela de Davi para desespero e indignação daquele clero romano, mais preocupado com outras questões.
            Enfim, daqui para frente, eu não prossigo mais, pois seria adiantar fatos e questões que anunciariam todo o restante do enredo do filme. Ademais, para concluir, apenas reafirmo a indicação desta película, para aqueles que desejam fugir um pouco do clichê bélico, perscrutando as inúmeras perguntas que ainda esperam respostas que possam explicar as raízes daquele evento, e, sobretudo, dos participantes da mesma.  
            Se o Cinema pode ser um eficiente canal de denuncias e reflexões, com “Amém”, Costa – Gravas consegue levar esta prerrogativa com total eficácia, legando a todos aqueles que sempre se inquietaram com estas questões, a obrigação de assistir a este filme, e refletir sobre os ocasos, omissões e culpas que a humanidade deve carregar, quando aqueles lavam as suas mãos, e gritam “Amém” para estes atos horrendos.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.

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