segunda-feira, 19 de agosto de 2013

"O Trem da Vida" (1998): Segunda Guerra Mundial e Genocídio sob o prisma da "Comédia"


Certamente poucos são os filmes que conseguem tratar com tamanha sutileza, temáticas tão complexas e  dificilmente cicatrizáveis como são aquelas que envolvem os eventos catastróficos ocorridos durante a segunda guerra mundial, em especial, o genocídio judaico. A película “O Trem da Vida”  (1998) do diretor romeno Radu Mihaileanu consegue se apresentar como um desses filmes que ao abordar a temática em questão, assim o faz partindo de uma abordagem pouco usual: a comédia.
Utilizar-se da comédia para retratar um período tão triste da história da humanidade não deixa de se apresentar como um ato arriscado, de certa forma, de bastante ousadia, mas o diretor em questão sabe utiliza-se como o fio condutor de uma obra que preza pela “suavização” do trágico pelo comico, sem retirar é claro toda a carga dramática em questão.
 “O Trem da Vida”,  filme pouco conhecido aliás, descreve a saga de uma pequena vila judaica localizada no interior da França, que ao saber da possível chegada dos nazistas a localidades próximas – e com isso a chegada dos famigerados trens de deportação – simulam a própria deportação a fim de enganarem os nazistas quando de suas chegadas, e assim atingirem a Palestina como meta de conclusão de suas fugas.

Toda a película é narrada sob o olhar do “louco da aldeia” Schlomo, personagem comico que acaba por guiar todos os judeus de sua aldeia, através desse delírio de fuga. Assim, os judeus acabam criando todo um ardil de fuga, na qual cada um passa a representar segmentos do corpo inimigo em questão, de forma bastante cômica. O antigo padeiro torna-se o membro da gestapo, os jovens da localidade tornam-se soldados, tudo para recriar um verdadeiro trem de deportação nazista.
Um fato curioso que envolve a produção da película, conta que  o  aclamado “A Vida é Bela”, dirigida por Roberto Benigni, teria “bebido diretamente” do roteiro de Radu Mihaileanu, o qual teria convidado o próprio Benigni para interpretar Schlomo, mas este recusara, e dentro em pouco tempo, acabaria por apresentar “A  Vida é Bela” com traços bastante similares a película em questão.
Para não acabar descrevendo fatos do filme, e assim retirar a graça de quem porventura for assisti-lo, termino por aqui a minha indicação, mas reafirmo que assistir “O Trem da Vida” se apresenta como uma verdadeira aula de história sobre um assunto tão complicado por meio de uma abordagem bastante sútil, emocionante.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A Cabana do Pai Tomás: quando o tiro saiu pela culatra



O Tiro saiu pela culatra. Podemos resumir com este clássico ditado, o nefasto resultado obtido com a produção da telenovela “ A Cabana do Pai Tomás”, pela Rede Globo no ano de 1969. A Ideia era produzir um grande épico anti – escravagista, baseado diretamente na obra homônima da escritora norte – americana Harriet Stowie, entretanto, o que se observou foi justamente a ocorrência de um nefasto mecanismo de preconceito na construção da narrativa: o famigerado blackface.
Acontece que, ao procurar descrever as intensas lutas entre latifundiários e escravos americanos no contexto da Guerra da Secessão, a Rede Globo “optou” por se utiliza do dito blackface como um suposto instrumento artístico. Em linhas diretas, convidou um ator branco para interpretar a personagem negra em questão.
O ator convidado foi Sergio Cardoso, um dos grandes atores da época, que teve a incumbência de, além de interpretar o escravo Pai Tomás, também interpretava o abolicionista Dimitrius, e o aclamado presidente americano Abraham Lincoln.
Logo de imediato, a mídia acabou “caindo em cima” da produção da novela, justamente porque o uso do blackface – a pintura de rosto – além de exprimir um preconceito, acabava por  renegar a oportunidade de conferir o papel a grandes atores negros da época, em destaque, Milton Gonçalves.
Desta maneira, o repúdio do público a novela foi enorme, fato que poderia ter sido evitado se a utilização deste mecanismo de preconceito não tivesse sido conjecturado. Como disse, o tiro saiu pela culatra.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe
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