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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Planeta dos Macacos: A Origem (2011): Uma incisiva crítica ao Capitalismo e a barbárie humana sobre os animais


Confesso que nutro certo preconceito frente aos chamados “remakes” de clássicos do Cinema. Muito deste preconceito, se é que pode ser justificado, se dá por conta de muitas refilmagens que pouco acrescentavam – tecnicamente e mais ainda no aprofundamento da temática - frente ao que já havia sido produzido anteriormente, aproveitando-se apenas do sucesso da franquia em questão, para obter mais dividendos.

Entretanto, obviamente que muitos são os casos de exceção. Neste sentido, surpreendeu-me bastante a produção da película “Planeta dos Macacos: A Origem” (2011), pois, se tratando de um remake de uma franquia de enorme sucesso dos anos 1960 e 1970 (quando se produziu cinco filmes sobre a questão, e uma serie televisiva de enorme sucesso), surge àquela dúvida: Qual inovação temática pode ser oferecida por esta película?! Há algo mais a acrescentar? Estaremos diante de mais um “reboot” mercadológico desnecessário?
Grandíssima surpresa foi então a minha percepção sobre o conteúdo apresentado por este remake dirigido por um até então desconhecido diretor de nome Rupert Wyatt. A Película apresenta nos 100 minutos de sua exibição, um fortíssimo conteúdo de caráter contestatório, calcado em um posicionamento politico de base ambientalista. Isto porque, as principais criticas empreendidas pelo filme, são feitas sobre o Capitalismo e suas vilanias, e noutro ponto, numa raiz central, as barbáries cometidas pelos seres humanos frente aos animais. E são críticas bem incisivas e muito bem fundamentadas.
Levemente inspirado no clássico literário homônimo, de autoria do escritor francês Pierre Boulle, a película inova ao reciclar esta história já bem ambientada no Cinema, trazendo novos caracteres atualíssimos ao filme, em especial, como dito, questões que se referem ao tratamento dos animais, e em um âmago mais profundo, a falta de percepção humana sobre os seus próprios métodos, sua ligação com tudo àquilo que compõe seu ecossistema.

O Filme conta a história de um cientista, interpretado por James Franco, que procura desenvolver uma cura para o Mal de Alzheimer, motivado pela degeneração a que passa seu próprio pai.  Portanto, na empresa em que trabalha, os testes genéticos são feitos sobre chipanzés. Após uma serie de testes em uma símia de nome “Olhos Brilhantes”, a empresa considera que a droga pode ser um risco aos humanos, procedendo então a uma matança indiscriminada dos chipanzés que estão ali para testarem os produtos. Apenas sobrevive, um pequeno símio, filho desta macaca de nome “Olhos Brilhantes” ,que é resgatado pelo cientista, e criado em sua casa até os oito anos de idade.
Com uma inteligência absurda, logo se vê que os experimentos feitos sobre sua mãe surtem efeito hereditariamente neste. Cesar cresce nutrindo um forte amor pelo seu dono, a quem considera um pai, sendo criado como uma criança. Enfim, o filme se segue, e daí em diante, encontramos a reviravolta do filme que nos direciona a todas as questões polemizadas pelo mesmo.
Ao demonstrar o doce e carinhoso Cesar transformado em um desiludido macaco por conta das atrocidades que percebe contra seus iguais no decorrer de sua breve vida, o filme nos leva a pensar até que ponto somos nós os vilões desta história. Na verdade, é este o ponto que guia toda a trajetória do filme: a certeza que somos nós os culpados por tudo.
Torna-se praticamente impossível não “torcer” pelos macacos em seus objetivos, na medida em que, o filme apresenta todas as justificativas para tal – a descrição dos abusos sofridos, os descasos nos testes com os animais, etc. - , criando uma triste e acachapante situação de desconforto em nós – o público -, pois teoricamente estaríamos torcendo contra a nossa espécie.

Quando os macacos começam a demonstrar sentimentos e características biológicas – como consciência de vida, habilidades motoras como a fala – passamos a acreditar que encontramos o tão desejado elo perdido que nos leva até a diferença entre as espécies: os humanos aprenderam a arte do mal.
Por mais maniqueísta que possa aparentar esta visão, este é o motor certo da história. Comprovamos isso a partir da própria atuação do líder símio, o macaco Cesar. Em nenhum momento este ordena a aniquilação da raça humana, não profere insultos a nós. Muito pelo contrário, quando este empreende a sua luta, muitos são os gritos de “Não” para seus comandados, para que aqueles não atinjam aos civis, as pessoas, os soldados, etc. Eles são fortes, possuem uma musculatura privilegiadíssima, possuem motivos para fazer o mal – a vingança – mas assim não o fazem. Por quê?! 

É a bondade, a pureza, e a simples vontade de retornar as suas “casas” que guiam os macacos em todo o filme. Quando os símios conseguem irromper a horda de policiais altamente armados, conseguindo atingir uma floresta bem afastada de Nova York, o cientista ao encontrar Cesar nesta floresta, ouve da boca do mesmo esta própria questão: Cesar está em casa.
É o reencontro tão sonhado daqueles com seu habitat natural, a natureza com suas arvores e troncos, muito longe das jaulas dos laboratórios e das macas onde repousam nas horas de experimentos. Desta feita, a liderança e a Ideologia pacifista frente aos humanos e libertadora frente aos seus irmãos, de Cesar, empreende a uma forte crítica ao capitalismo, que é de forma subliminar, apontado como a raiz de todos estes problemas.

Cesar ao proibir a matança indiscriminada de civis, soldados, pessoas que aparentemente não possuem culpa por tudo isto – mas de outro modo, são beneficiados de forma indireta por tudo aquilo que é feito – demonstra uma justiça quase que utópica. Eles são justos acima de tudo. Não querem nada mais que a liberdade. A Vingança, o ódio somente é direcionado aqueles que tanto fizeram mal, de forma direta, aos símios. Uma cena é paradigmática neste sentido: É o dono da grande corporação genética que acaba morrendo, ao confrontar um velho macaco, marcado por anos e anos de experiências sofridas, a que este mesmo empresário definiria como “alguém que sabe como demais se comportar nas macas de experimentos”. O Macaco não o mata violentamente. Apenas não presta ajuda, quando este está por cair em um precipício.
De certa maneira, podemos até, de forma ousada, acreditar que a película se aproxima – ainda que de forma bem leve – de uma visão marxista. Ao possuir em si, o germe de sua própria destruição, o Capitalismo – simbolizado na indústria genética – produziu os meios – a inteligência que impulsiona a libertação símia – para conferir a liberdade de seu proletariados – os símios, alvos dos experimentos; importantíssimos para a maximização dos lucros da empresa -.
Aqui não há futurismo, não há uma amanhã dominado por macacos. Há só um Presente real e cru: a dominação dos símios pelos humanos. Não há um “planeta dos macacos”. Há uma vontade inata de apenas atravessar uma ponte que separa Nova York de uma floresta que desejam retornar, para se livrarem de tudo aquilo. É esta a conjuntura apresentada pelo filme.
Ainda neste mesmo bojo, a película também empreende a outra grande polêmica: Até que ponto deve ser permitida estas experiências genéticas? Quais são ou deveriam ser os limites das mesmas? Até que ponto os animais devem pagar por algo que visa o beneficio da raça humana?!

Obviamente isto tudo é muito polêmico, pois não podemos negar que, boa parte dos medicamentos e cirurgias que permitiram aumentar a melhoria de vida da raça humana perpassa por questões do tipo. Temos visto hoje em dia, uma gama de discussões acerca justamente destas questões. O Abuso acometido sobre os animais no que tange não somente, em alguns casos, a experimentos feitos de forma violenta, e até em questões mais supérfluas, como o uso de roupas de pele por companhias de moda.
Enfim, é por essas e outras questões, que o remake produzido traz consigo algumas boas e coerentes reflexões. Ao pensar sobre a “descartabilidade” dos animais nestes experimentos, calcada por uma atitude humana, que certamente vela uma atitude que em alguns casos beira a barbárie, o filme nos faz refletir sobre os próprios rumos da humanidade. Será que o ser humano pensa em si mesmo? Ou pensa somente no vil metal?! Na película, a cura para a Alzheimer é apenas um pretexto para a maximização dos lucros da empresa biogenética.
Há de se pensar então, quem é humano e quem é animal neste mundo.

Ass.: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Mr.Hyde que reside em nós: O Cinema para debater o Homem e a Ciência


         A Ciência nem sempre impulsionou nos homens, a certeza do progresso e consequentemente da felicidade obtida por meio de seus derivados. Ainda que esta produza inúmeras benesses na vida de todos nós – e isso é inegável – a Ciência em alguns casos acabou trazendo algumas consequências nefastas para a humanidade. Talvez a escrita do paragrafo acima esteja incorreta. Joguei a culpa em quem não devia. Não foi a ciência quem trouxe efeitos nocivos, mas sim, o modo como o homem tem se apropriado de suas próprias descobertas. Enfim, seu mau uso.
         Os anos 1930 – 1940 marcaram significativamente os tempos nefastos da pesquisa cientifica. No meio da Segunda Guerra, em 1941, em plena competividade militar, os Estados Unidos desenvolve o Projeto Manhattan, unindo seus principais cientistas, paralisando suas pesquisas, no sentido da construção da horrenda bomba atômica. A própria Segunda Guerra foi palco com certeza da maior indústria da morte conhecida. 
         O Nazismo erigiu em solo alemão, austríaco, polonês, inúmeros campos de concentração, dotados de uma grande eficácia mortífera, obtida através de burocráticos estudos desenvolvidos nesse sentido. O Gás letal Zicklon B surge para assassinar mais rápido, e em maior quantidade, aos judeus nas casas de banho, nestes campos de concentração. Nessa linha de montagem da morte, os corpos são pilhados e queimados em verdadeiras piras, que funcionam a ritmo industrial. No lado mais “glamoroso” do sistema, os cientistas eugenistas lotam os laboratórios alemães na promoção de pesquisas que ajudem a melhorar a raça, a obter o suprassumo do que seria o homem alemão. As cobaias são claro  as crianças – gêmeas como queria Josef Mengele -, os velhos, os deficientes, enfim, todos os que não eram considerados arianos, e que dai em diante, podiam ser transformados da condição de humanos, para simples objetos de pesquisa.
       Esses dois exemplos obviamente que são exemplificações de casos exagerados da relação nefasta que se pode produzir entre o homem e a ciência. Contudo, em uma escala mais reduzida, esta questão também pode ser retratada. Lá atrás, no final do século XIX, a literatura já apresentava seus anseios sobre os rumos que a ciência poderia obter em mãos erradas.
         Paradigmática é a obra “O Estranho caso de Dr.Jekyll e Mr.Hyde” do escritor britânico Robert Louis Stevenson, lançada em 1886. Na obra, somos levados ao universo glamoroso de homens da fina flor inglesa, na figura do aclamado e respeitadíssimo médico, o Dr. Jekyll, um verdadeiro sir, bastante conhecido por seus atos de filantropia. O Outro extremo da obra nos leva a aterradora revelação do lado mais obscuro do mesmo, simbolizado na emergência do pavoroso e frio Mr.Hyde, obtido através de uma experiência realizada pelo mesmo. Cada vez mais dominado por essa descoberta, Jekyll é lentamente dominado por Hyde, que acaba assumindo a esfera total de sua vida.

A Ciência pondo em vista o lado mais sombrio: Mr.Hyde.


         Jekyll sucumbe com sua própria descoberta. Stevenson além de obviamente querer demonstrar o lado mais sombrio humano – escondido até nas almas tidas como puras – procurou fazer sua crítica a esta inconstante natureza humana e ao possível efeito pavoroso que pode manifestar frente à ciência.
         Às vezes é muito poder, muita inteligência, para um animal racional com muita capacidade de fazer o mal, e em alguns casos, queiramos crer que não sejam poucos, de fazer o bem.
       Neste sentido, o Cinema tem refletido também, numa esfera mais introspectiva, a relação homem – ciência. Não quero tratar nesta postagem sobre filmes futuristas, megalomaníacos, com grandes civilizações, transportes voadores, robôs e etc. Não, a ciência desta postagem está muito mais ligada a uma micro – dimensão, uma esfera mais pessoal do individuo.
         Alguns filmes tem procurado refletir em especial sobre a possibilidade que a ciência oferece de obter “uma nova vida”. Grande parte destas películas parte de um inicio aterrador, da apresentação de um presente triste e da possibilidade de ao final, com o auxilio da ciência, chegar a um caminho feliz. Mas isto está apenas na teoria, porque tais obras sempre trazem uma ideia apocalíptica, trágica.
         Obter uma nova vida através da ciência muitas vezes no Cinema é obter um “novo rosto”, símbolo desta nova etapa. É nesse sentido que se segue a postagem: a reflexão sobre a humanidade que fazem os filmes sobre cirurgias plásticas, pelo menos, os filmes mais reflexivos do gênero que eu tive contato.

Os Olhos sem Face (1960) de Franjou: um dos precursores da discussão


         Talvez o primeiro grande filme a emergir nesta discussão, e que com certeza serviu de modelo ideológico para os posteriores, foi o filme francês “Olhos sem Rosto” de Georges Franjou, lançado em 1960. Neste filme de terror – ou suspense clássico – fantástico, Franjou nos leva a agonizante situação do Prof.Genessier e de sua filha Christiane. Esta, após uma acidente de carro, acaba sobrevivendo com a face desconfigurada. Acometido pela culpa do acidente, seu pai, o Prof.Genessier desenvolve uma cirurgia para mudança de pele. 
        Determinado a recuperar a beleza e a vida de sua filha – que vive enclausurada dentro de casa e portando uma aterrorizante mascara sem expressão feita de silicone – procura por vitimas em Paris, que apresentam a mesma consistência de pele da sua filha, ou seja, maior probabilidade de êxito na cirurgia. 

Christiane e sua mascara sem expressão


       O Enredo da película é simples, mas o final é surpreendente, e os caminhos atormentados seguidos pelo pobre Professor Genessier – que em alguns momentos da trama temos pena – demonstra a que nível de degradação pode chegar à mente humana quando acometido pela culpa, e nesse sentido, quem porta a ciência, o mal que pode acometer usando tal instrumento.
         Pouco tempo depois, nos mesmos anos 1960, foi lançada a película americana “O Segundo Rosto”.  Trata-se de um filme bastante atormentador. Sufocante. Narra à história de um comum idoso que, insatisfeito com a sua fase final de vida –a inercia, os mesmos lazeres – é convidado por um amigo para “renascer”. Através de uma cirurgia feita em uma empresa médica clandestina, ele renasce com um novo corpo, nova face, enfim, uma cirurgia que o faz renascer por fora, voltando praticamente para maturidade da vida, é claro, com uma nova identidade, uma nova face. 

O Segundo Rosto (1966): Final Reciclativo da especie humana


        Tudo feito é claro sem ninguém saber. Como? A própria empresa trata de simular a sua morte, de forma que, sua esposa acaba então sabendo de seu “óbito”. Um corpo comprado acaba assumindo seu lugar na hora da morte. Revitalizado, com uma nova face, e sem ninguém a prestar contas, o “renascido” parte novamente para curtir o mundo, mas acaba não se adaptando. É tudo muito artificial, pois possui um corpo novo, mas a mente é a mesma, continua ligado ao estágio mental indicador de sua idade. O Experimento então não dá certo. O Final desta película também é assustadora, apresentando um final bastante que eu definiria aterrador por se apresentar "reciclativo" sobre a especie humana.

A Face de um Outro: Duas histórias com uma mesma proposta.


         No mesmo ano de 1966, o cinema japonês se aventurou na perspectiva. O Filme “A Face de um Outro” aborda a questão a partir de duas historietas: na primeira, um homem com o rosto deformado acaba sendo rejeitado por sua esposa, encontrando a solução para seus problemas numa cirurgia. O Resultado é nefasto, porque seu caráter acaba sendo alterado pela cirurgia... Noutra historia, uma jovem desconfigurada por conta daquela bomba atômica, a de Nagasaki, sofre os traumas de sua triste situação. Filme bastante reflexivo e que vale muito ser assistido.

A Pele que Habito: a retomada de uma antiga discussão.


         Recentemente, uma outra película ganhou bastante destaque. Trata-se do filme “A Pele que Habito” (2011) do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Seguindo a mesma tendência de Franjou, com seu Olhos sem Rosto, Almodóvar conta a história de um medico interpretado por Antônio Bandeiras que após perder a esposa em um acidente de carro, acaba bitolado em suas pesquisas para desenvolver um tipo de pele especial que poderia ter salvado sua esposa. A Trama se segue, e os delírios do medico o fazem transgredir qualquer tipo de ética possível. Mais uma vez o final apresentado é aterrador.
         Enfim, a partir destes filmes aparentemente diferentes por conta de suas nacionalidades – um americano, um francês, um espanhol e um japonês – podemos ver como a temática em questão tem sido tão abordada pelo Cinema, principalmente para retratar a incapacidade humana de respeitar seus limites, e noutro caso, a vazão do seu lado sombrio acelerado dentro de suas ações na ciência. Em todos os casos, se segue a mesma metáfora: uma mascara, uma pele, uma renovação, mas o que está em jogo, é a chaga interna, irrecuperável, que não recuperada, alimenta mais ainda o descontrole humano em concertar o irremediável.
         O Lado sombrio acaba vencendo tudo. Domina o Homem e faz uso da ciência.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Freaks: Quando os monstros somos nós mesmos.


1. Introdução

       Freak: Aberração, Monstro. Ao consultarmos algum dicionário que apresente traduções do inglês para o português, certamente encontraremos tais designações para esta palavra.  Contudo, o que em especial deve nos assustar e chamar bastante a nossa atenção ocorre quando paramos para compreender a utilização desta palavra em algum momento especifico em destaque; em qual ocasião foi utilizada, em qual pano de fundo histórico, quem dita e rege a ofensa, e quem sofre a pungência da rotulação.
         Termos como este ganham especial força quando se inserem dentro de um quadro ideológico, cuja sua utilização praticamente se torna parte de uma cartilha segregadora, discriminatória, definidora dos direitos de inserção - ou não – dos sujeitos em sociedade.
         Daí que eu direciono o olhar de análise para um filme de titulo homônimo ao termo inicial deste texto: “Freaks”. Lançado no ano de 1932, esta película não nos chamaria atenção se não abordasse alguma temática em especial; A começar, o título poderia muito bem estar associado a filmes de terror com temáticas vampirescas e/ou monstruosas, como Drácula e Frankenstein, bem comuns no Cinema, durante o apogeu do gênero “Terror” nos anos 1930 – 1940.

Drácula e Frankenstein: Dois "Freaks" característicos do Terror dos anos 1930 - 1940; Vários filmes do gênero sobre as personagens em questão, marcaram época.
         Mas não era essa a questão. Muito pelo contrário, a temática adotada neste filme, surge como um contraponto, ou uma resposta de Mercado, a emergência e ao sucesso destes filmes de terror naquele momento. Na verdade, os anos 1930, foi o momento do auge da rivalidade entre as produtoras Universal Pictures e a MGM, que digladiavam ferozmente pela hegemonia das salas de Cinema, utilizando-se para tal, além dos clássicos românticos de sucesso, de filmes com grande apelo emocional – e de mercado – como eram aqueles pertencentes ao gênero Terror.
         A Universal Studios havia lançado em 1931, o grande sucesso “Frankenstein”, cuja “criação” foi interpretada pelo imortal astro do gênero, o ator Boris Karloff. O Filme foi um sucesso imediato, fazendo com que no mesmo ano, a Universal também levasse as telas, a história de “Drácula”, também marco do gênero, esta dirigida por Tod Browning, interpretado por outra lenda do gênero, Bela Lugosi, ator que certamente acabou ditando os transmites de interpretação da figura vampiresca aos demais atores que se aventuraram a interpretá-lo.
         A Alta cúpula da MGM ficou estupefata e ao mesmo tempo furiosa com o sucesso atingido por tais filmes, de forma que deveria encontrar em pouco espaço de tempo, uma resposta satisfatória e que alavancasse novamente a disputa pelo terreno. Segundo consta, os chefões da MGM – Irving Thalberg e Louis B. Mayer – encomendaram ao roteirista Willis Goldberg "qualquer coisa ainda mais horrível que Frankenstein".
Na foto: a esquerda, Irving Thalberg, e a direita Louis B. Mayer: Entrariam em choque durante os bastidores de produção do filme "Freaks" em 1932.

         O Resultado teria sido o Roteiro de “Freaks”. Ao ler o roteiro da película, se conta que Louis B. Mayer teria ficado horrorizado com a proposta apresentada pelo filme. Não somente pelo que seria levado as telas, mas, principalmente, pela necessidade da existência do chamado “Bastidores” para o filme.
         Em suma, Louis B. Mayer tentou vetar a execução da produção, entrando em atrito com o proprio Thalberg, na medida em que não desejava conviver com os atores e atrizes que participariam do casting do filme. Louis B. Mayer não era anti – social, costumava observar a produção dos filmes de sua produtora, mas, dentro do que apresentava aquela especial película, algo parecia incomodá-lo.
         Não obstante, enxergamos justamente nesse “Algo”, o espírito de uma época, e porque não dizer, algo que parece permanecer forte até os dias de hoje: O Preconceito. Nesse caso em destaque, o preconceito as pessoas com necessidades especiais, sejam estas deficientes físicos ou pessoas portadores de alguma síndrome genética.
          Contudo, o projeto não foi engavetado. Por conta de seu alto potencial de arrecadação, Louis B. Mayer saiu de cena, e então o filme pode então ser levado às telas, diga-se de passagem, com um pequeno patrocínio, haja vista que boa parte do casting era composto por atores desconhecidos e outra parte por amadores. Na escolha da direção, nada melhor que “puxar o tapete” da concorrência: a MGM seduziu a Tod Browning – aquele que no anterior havia dirigido Drácula pela Universal – que aceitou a proposta, e que de certa maneira, como explicaremos, tal escolha refletiu muitos traços de sua infância.

Tod Browning: Grande diretor dos filmes de Terror da Universal, foi atraido para a MGM, para dirigir um filme "diferente".
         O Filme foi rodado em 1932, e imediatamente causou furor e aversão por todas as salas de Cinema em que fora reproduzido. Pessoas abandonavam ao filme no meio de sua execução, a crítica especializada não poupava esforços em negativizar aquele filme, sendo assim, em pouco espaço de tempo, curiosamente, o filme foi engavetado, tendo sido apenas resgatado trinta anos depois de sua produção, durante os anos 1960, quando o filme se tornou um filme “Cult” para amantes do gênero e também objeto de análise para estudiosos do Cinema, como também da História, justamente por, na suas entrelinhas - pelo já dito clima de bastidores, o enredo e a recepção – apresentar um quadro fiel ao espelho do contexto histórico em que está inserido.

      Esta análise também objetiva tal proposta. Mas está longe de encerrar as discussões e os enfoques subjetivos que são dados ao filme. Na verdade, reiteramos o nosso intuito de, muito além de analisar os aspectos técnicos e artísticos da obra, entende-la frente ao contexto histórico em que foi produzido, reforçando cada vez mais, a velha máxima de Marc Ferro, na sua defesa da chamada “Leitura histórica do Filme”.
         É certo que todo tipo de preconceito ainda hoje insiste em existir, no tocante a várias questões possíveis. Mas devemos aqui nos transportar aos conturbados anos 1930 em que o filme foi produzido. 

2. O Contexto histórico mundial [1]

         É certo que todo tipo de preconceito ainda hoje insiste em existir, no tocante a várias questões possíveis. Mas devemos aqui nos transportar aos conturbados anos 1930 em que o filme foi produzido.
         O principiar do século XX foi marcado pelo fortalecimento de ideais cientificas preconceituosas, que concebidas ainda durante o ultimo quarto do século XIX, ganharam dimensões catastróficas no decorrer do século XX.  Já em 1884, Francis Galton procurou denominar uma nova ciência que ganhava força nos círculos científicos europeus, como eugenia. Tal ciência de destaque passaria dali à diante, a estudar o sangue humano, a procurar em certo “germe – plasma” os motivos da hereditariedade – e principalmente, do que consideravam uma “hereditariedade doentia”.

Francis Galton (1822 - 1911) : Em 1884, cria um nova ciência, a Eugênia.

         Logo, a ciência eugênica se espalhou por todo o mundo, chegando entre 1904 a 1910, entre vários países, como a Alemanha e os Estados Unidos. Rapidamente os “Centros de excelência cientifica” se converteram em verdadeiros balcões eugênicos, e o foco das universidades do ramo, passaria a ser, o estudo das chamadas “raças humanas”,partindo de uma viés tosco de analise da Teoria da Seleção Natural de Darwin, promovida tanto por Galton como também por Mendel, que espalharia a utilização deste conceito mundialmente, a partir da decada de 1910.
         Entendiam que certas “raças” possuíam predisposição a algumas características, que lhes eram inatas, independente de qualquer tentativa de inculcar-lhes nova tendência e/ou retirar-lhes algo que lhe fosse proprio: Assim fortaleceu-se em cadeia, a idéia dos judeus como avarentos e hábeis negociadores, os negros e asiáticos como sujeitos inferiores, e obviamente, a elevação, a gloria do homem branco, de origem nórdica, como a perfeição dentre as raças humanas.
        Dentro deste “critério selecionador”, que era amplamente difundido e visto como inovação cientifica a ser respeitada não somente em meios acadêmicos, como em expressões culturais diversas – dai o fato de termos aqui em nosso país, figuras como o aclamado Monteiro Lobato, defensor ferrenho da Eugenia, acusando ao misticismo nacional a culpa pelos “problemas do Brasil” -, também apareciam aqueles que geneticamente acabaram sofrendo as “conseqüências” desta “mistura e/ou choque de raças”, os quais eram justamente, as pessoas que nasciam com necessidades especiais e/ou síndromes genéticas.

Monteiro Lobato (1882 - 1948) : aclamado escritor brasileiro, entre obras de cunho nacionalista, Lobato deixava claro a sua visão "particular" sobre o país: No Sítio do Picapau amarelo, ofendia claramente a figura da Tia Anástacia, personagem negra da obra. Ainda no mesmo bojo, em sua única novela internacional, conhecida como "O Choque das Raças ou O Presidente Negro", Lobato apresenta um fim apocaliptico para uma obra inteiramente polêmica.

         Cientistas de todo o mundo procuravam, muito menos na analise genética do que no dito preconceituoso, responder a “origem” das síndromes genéticas; e muito longe de apontar tratamentos e vias de melhorias de condições da vida para as pessoas, entendiam que só havia uma única solução: a purificação da raça, do sangue. O Meio? A Castração, e em uma hipótese não tão distante, o extermínio.
         O Palco da execução destas idéias, todos nós sabemos. Começou com os experimentos nos centros americanos, na separação entre os sujeitos considerados de “raças diferentes” quando casais de negros e brancos eram separados a força, e culminou nas assombrosas fabricas de morte, constituídas pelo regime nazista, ainda no decorrer da década de 1930, quando o regime assumiu o país. Ao contrário do que se pensa, os campos de concentração não “surgiram imediatamente” no nascer da segunda guerra, em 1939, mas, eram em verdade, edificados lentamente em concreto, e na alienação mental de todo um povo construída gradualmente, nas lides iniciais desta dita década, após a ascensão do Nazismo ao Poder em 1933.
           O Filme “Amém” do diretor grego Costa Gravas, do ano de 2002, demonstra muito bem como o regime nazista importou esse “conceito eugênico” das experiências americanas – tendo inclusive Hitler em uma de suas cartas, dito que devia muito aos Estados Unidos por isso – edificando lentamente a partir de 1933, na mente da população alemã, tais idéias, para dar-lhes as “soluções e a resposta do motivo da crise econômica e social em que viviam”.


“Amém”, dir. Costa Gravas, 2002: O Filme mostra bem como se deu a alienação da população, e a edificação de uma industria da morte, bem antes da eclosão da Segunda guerra mundial. Os Campos de Exterminio realmente tiveram seus fetos antes da Guerra.
          Dos Programe, ocorridos em massa durante o ano de 1934, veio à delação e a perseguição brutal aos judeus.  Dentro do proprio seio familiar, pessoas levavam seus entes queridos para “manicômios” acreditando estarem perpetrando uma medida de cura. Na verdade, como bem mostra Costa – Gravas, eram estes manicômios ou casas de recuperação, proto – fabricas da morte. Locais da experimentação em micro escala, do que se constituiria em Auschiwtz e outros tantos campos poucos anos em frente.
         Enfim, foi esse o contexto histórico em que se enquadrou o filme “Freaks”. A pergunta em questão é: Como pensar um filme cujas personagens em grande maioria são portadoras de necessidades especiais e/ou síndromes genéticas?

3. Os Bastidores, a produção e a recepção da obra:

Freaks", dir. Tod Browning, 1932: Combates e Embates em torno da película.
         Não só a recepção da obra fala muito, como também o ponto inicial de sua produção. Ora, quando Louis B. Mayer pede aos roteiristas que escrevam algo demasiado assustador, nos aparece como “curioso”, para não dizer amedrontador, que a solução encontrada, e que para eles era horripilante, era empreender a um filme com essas características.
         O Preconceito esta no cerne de todo o filme; dos seus bastidores até a sua recepção dentro das salas do Cinema. Contudo, coube a uma pessoa, parece que exceção a regra, o diretor Tod Browning, a conduzir um filme que se apresenta como extremamente atemporal e contraposto as essas questões. Podia ele abusar dessa ojeriza popular e conduzir o filme a uma exibição atormentada daquilo que era mal visto e mal desejado pela sociedade.
         Sua atitude, entretanto, foi completamente contrária a isso. Talvez por sua experiência na vida real, dentro do que seria o enfoque central do filme. Tod Browning havia sido criado em um ambiente de circo; Não um circo comum, mas o chamado “Circo de Horrores” que era tão comum nos Estados Unidos do fim do século XIX e inicio do século XX, como qualquer outra coisa. Neste tipo de circo, pessoas com deficiências físicas e mentais de todos os gêneros eram recrutadas, muitas delas ali trabalhavam como conseqüência de um abandono familiar, para se tornaram “estrelas” de encenações circenses, que iam desde a “Mulher – Barbuda” até o “Homem – Cobra”.
       Pessoas portadoras de síndromes mentais eram recrutadas com o simples intuito de andarem no tablado do circo e desta “participação” provocarem risos ensurdecedores de todo o público. Browning soube muito bem demonstrar isso no filme a partir da participação de três personagens em especial: três irmãs portadoras de uma síndrome, cujo nome desconheço. Ambas possuem uma aparência juvenil por conta da síndrome. Daí era comum vestir-lhes com roupas de criança; O Resultado: a alegria de um público. É o Fetiche do deboche, do preconceito.
         Dessa infância circense, veio à idéia do roteiro para Browning. Após a aceitação do roteiro pela MGM, durante sua produção, alguns “fatos curiosos” podem ser indicados. Conta-se que durante uma reunião em um restaurante, para a apresentação do casting de elenco, Browning levou seu casting de atores. Na mesa, além de Louis B. Mayer, estava uma gama de grandes atores da época, que para evitar a decepção dos leitores, não irei citar. Todos ficaram horrorizados com o “casting”. Como resultado, foi construída na sede da MGM, uma sala de alimentação separada para os mesmos. Digamos que um Apartheid alimentar dentro dos estúdios da MGM.
             O Filme foi produzido com um pequeno custo de produção, alcançou o furor dito, e como conseqüência Browning acabou sendo rechaçado pelo proprio Louis B. Mayer - que já havia “desconfiado” inicialmente da proposta do filme – e do proprio Tallbert que lhe havia depositado “confiança” no enredo. Durante a sua produção, Browning contou com uma censura implacavel do proprio Louis B. Mayer que de tão pesada, acabou diminuindo o tempo de duração do filme, para pouco mais que 1 hora de duração. 
            Isso tudo porque o "ousado" Tod Browning havia escrito um roteiro que permitisse a participação efetiva de boa parte dos personagens "freaks", incluindo muitas cenas com "Zoom" nas expressões, atos e ações das personagens, as quais foram incisivamente "cortadas" do filme, sobrando apenas algumas boas cenas deste tipo. 

O Sorriso no rosto: uma marca em todo o filme.

               O Filme que é bastante reflexivo, poderia assim, ter sido mais ainda, se não tivesse contado com esta censura imposta. Como consequência, o filme ganha um rítmo eletrizante do ínicio ao seu fim, e de certa maneira, feito sob esta forma, o filme nos permite entender em poucas imagens, o universo de preconceito em que aquelas pessoas eram obrigadas a conviver, mas que curiosamente, conseguiam recriar o amor perdido, muitas vezes desde o berço do abandono, nos braços de seus "semelhantes"; Daí a curiosa menção feita pelo filme, dos costumeiros casamentos ocorridos entre os "freaks" no circo, entre pessoas com sindromes diferentes até, atropelando qualquer adversidade que poderia ser apontada. Tudo isso com uma particular ironia que não esconde a beleza de sentimentos naturais e a natureza de eventos comuns a vida de todos nós.

Na cena: O Pedido de Casamento de um "gago" a uma das irmãs siamesas.

         Enfim, como consequência "disso tudo", Browning foi exilado dos estúdios da MGM; aquele que era o grande diretor de filmes de terror do gênero, com grandes sucessos em ambas as produtoras rivais, nunca mais voltaria a produzir algo em Hollywood. Morreu em 1962, esquecido por todos. Todos os “normais”. Com certeza, não pelos seus amigos do Circo.
         Browning havia demonstrando nas telas, certas verdades que a “Era de Ouro de Hollywood” não desejava enxergar. A Década da beleza das grandes atrizes loiras, e dos galãs de colarinho, não entendia como alguém teria tido coragem de empreender a um filme “horrendo” como aquele.
         Como alguém havia tido coragem de contratar como parte central de todo um casting, um elenco de pessoas que viviam no circo de horrores mais famoso do mundo a época – o chamado Circo dos Horrores do empresário Barnum – e retratar-lhes nas telas como seres humanos, com sentimentos e expressões como qualquer outra pessoa?

Circo dos Horrores de Barnum: Todo o casting do filme foi contratado do Circo deste "Showman".

         Que ousadia! Mais do que isso! Eram eles personagens principais da obra! Mais ainda! A Mensagem moral do filme mostra os seres tido como “normais” como “por dentro” sendo de uma natureza pérfida, fria, dissimulada, arrogante, e cheia de maldade. Quanto aos “Freaks” são pessoas comuns, são doces, vivem em harmonia, apresentam sentimentos, choram, sorriem, sentem e trocam carinho... e são abusadas pelas pessoas “normais”. 

Os “Freaks” em comunhão: O Bem estar de um, é o de todos!

         Os Freaks, aliás, são motivo de chacotas, de enganações, e outros males. Possuem um senso de união fora do comum, o sofrimento de um é o de todos. Algo que falta no modus operandi do homem “normal” capitalista, reduzido a esfera do seu ego sujo que reside em seu proprio umbigo.
         Enfim, vale demais assistir ao filme. Freaks é um soco no estomago com uma beleza inigualável. Não há nada de assustador no filme. Pelo contrário, é uma poesia da simplicidade, onde o horror está do lado de cá! Não de lá!
         Atemporal. Freaks meche em uma ferida que não pode ser encerrada dentro de um curto espaço de tempo. É a ferida do preconceito diário, ainda tão rotineiro nos dias de hoje.
         Freaks, em especial, de maneira sutil e direta, nos ajuda a compreender, como na maioria das vezes, os monstros na verdade somos nós mesmos.

Ass.: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.



[1] Cf.: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. O século XX: entre luzes e sombras. In: O século sombrio: uma história geral do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.p.1-25.

domingo, 5 de junho de 2011

O Cinema - Denuncia de C.Gravas em Amém: O Reich e suas relações com o Vaticano.

       As produções cinematográficas incidentes sobre a Segunda Guerra Mundial sempre irromperam como um grande gênero fílmico há muito tempo explorado pelo Cinema, graças ao seu teor provocativo e histórico, o qual reconstruindo um assunto ainda do tempo presente, cujas feridas e chagas ainda perduram nos nossos dias, continuam ocasionando altas doses de emoção no público consumidor de tais películas.
             Ademais, alguns filmes dentro desse gênero conseguem fugir, no entanto a certo clichê que rodeia a produção destes filmes do gênero bélico: Grande maioria costuma em muito apenas se aventurar por narrativas épicas, dotadas de grandes heróis, com recriações que muitas vezes apenas servem como um divertimento fugaz, negligenciando fatores de ordem psicológica que podem ser inteiramente incluídos na obra, enriquecendo-a até como ponte para todo este contexto histórico absurdamente complexo e traumatizante que se apresenta a guerra.
            A Película “Amém” é uma destas obras que conseguem distinguir-se desse gênero clichê. Não é atoa que sua separação esteja diretamente ligada aos autores de sua produção, em especial, seu diretor, o grego Constantin Costa – Gravas. 
Costa - Gravas : Uma Câmera e uma Denuncia.

               Nascido em 1933, o cineasta grego, mas radicado na França, Costa – Gravas ficou conhecido pela crítica, sendo muitas vezes por isso aclamado pela mesma, pelo alto teor crítico e de denuncia que perfazem as suas obras.  Aos 36 anos, em 1969, ganhou notoriedade com sua obra “Z” onde narrava os horrores da ditadura militar na Grécia durante os anos 1960, pouco conhecida no Ocidente Europeu, e a partir dali então esta ganhara holofotes para a sua visibilidade. Com este filme, o jovem cineasta ganhara o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.
Z: A realidade da ditadura militar grega pelos olhos de um grego.
            Não obstante, sua linha cinematográfica o apresenta como um grande cineasta de tendência crítica, cujas obras em geral, denuncia alguma opressão ou violência sentida em algum momento histórico específico. Outra de suas grandes obras, - ratificando como Costa – Gravas se apresenta como um sujeito aberto às feridas mundiais, não apenas europeias – se chama “Missing”, do ano de 1982, que por aqui recebeu a tradução: “Desaparecidos, Um Grande Mistério”, a qual atenta para a ditadura militar chilena de Augusto Pinochet, na nossa América Latina.
Missing: Os Olhos vivos de Gravas se voltaram ao Chile.
           Logo, vistas todas estas considerações, não nos surpreende que a obra “Amém”, rodada em 2002, tenha recebido tantos elogios positivos, como também, ao mesmo tempo tenha suscitado revoltas em parte do público que a consumiu. Na França e na Alemanha, principais localidades onde se deu a sua rodagem em inicial, a reação do público ao mesmo tempo foram ambíguas: parte das críticas aclamou a obra pelo seu grande potencial psicológico e de denuncia, mas uma ala considerável, por fatores que demonstrarei adiante, recepcionou tanto a película como o seu diretor, portando as mais pesadas pedras nas mãos.
            A Origem destas pedras críticas é o que evidenciaremos agora.

Amém: Um filme extremamente corajoso.
          A película traz a tona, em linhas gerais, uma problemática ainda muito polêmica e porque não dizer ainda não satisfatoriamente respondida, que é justamente a participação da Igreja Católica, de sua cúpula maior do Vaticano, nos eventos que caracterizam a Segunda Guerra Mundial. Em suma, Costa – Gravas procurar perscrutar psicologicamente de qual forma o Nazismo e seus eventos já conhecidos por todos, foram recepcionados pelo Vaticano, e de que forma este pode ter se omitido ou contribuído na resolução de tais fatos. Por si só, esta breve sinopse, já explicaria o porquê das pedras que voam, pois por assim dizer, não menos que uma grande parcela da fervorosa população católica francesa da época, e toda a Cristandade, repudiou o filme, considerando indigna a fé católica, caluniador por certo.
            Mais obviamente que se tratando de um cineasta como Costa – Gravas sua intenção não seria causar reboliços com a Igreja e seus fieis, para obter público através de um mercado fomentado pelas polêmicas religiosas, mas, sobretudo, sua denuncia está decididamente calcada em raízes e indagações de teor histórico. Ainda hoje nos perguntamos e vemos o quão é complicado entender a participação do Vaticano, em especial do Papa Pio XII, em relação aos eventos daquela dita guerra, procurando entender quais tipos de relações sociais e econômicas poderiam ter ocorrido entre a cúpula eclesiástica romana e os nazistas.

Papa Pio XII e Hitler: Muiitos possíveis acordos firmados.
            Não pretendo trazer aqui um resumo da película, o maldito conhecido como spoiler que tanto causa raiva aos amantes do Cinema, pois tiraria toda a graça daqueles que porventura irão assistir a esta obra, motivados ou não por esta postagem. Em comentários gerais, abordarei apenas algumas questões cruciais, mormente ao eixo central do filme, que são personificadas e vivificadas nas falas das personagens principais, um soldado SS e um jesuíta italiano.
            O Filme conta a história de um soldado SS chamado Gerstein que trabalhando em pró da erradicação da febre tifoide e da proliferação dos vermes em geral, acaba tendo o resultado de seus estudos desviado na utilização errônea do chamado Zicklon B, como gás letal para as recém-criadas câmeras de gás nos campos de concentração do Reich.

Zyklon B: Morte imediata!
        Sim, leia-se recém – criadas, pois este é outro fator interessantíssimo do filme, pois ao contrário de outros que procuram abordar somente a Guerra em movimento e a Alemanha como um produto acabado como se até o iniciar da guerra em 1939 não tivesse ocorrido transformações internas levadas a cabo por anos, esta então tem sua temporalidade iniciada em 1936, quando o Reich ainda transformava os professores universitários em químicos eugenistas, e os hospícios alemães passavam a ser veladamente transformados em mini – campos de concentração, tendo seus pacientes, deficientes e loucos em geral, sido mortos naquelas localidades, porque se apresentavam como de altos custos e desnecessários a política ariana alemã. 
        Aliás, uma das mais dramáticas cenas do filme reside justamente neste ponto: Logo no inicio do filme, uma enormidade de pacientes de hospícios alegres saudavam aqueles que seriam seus carrascos, aos gritos de Sieg Heil. Pouco tempo depois, seriam colocados em um banheiro, e por meio da fumaça de um caminhão, foram mortos por asfixia. O Genocídio e/ou matança começara muito antes dos holofotes da Guerra, e isso é um dos elogios a serem feitos por esta película de Costa – Gravas, pois ele traz isso à tona.
       Ainda dentro desta premissa, outra cena choca e demonstra como toda a operacionalidade nazista atingia, e, sobretudo se justificava e fazia funcionar, através da educação de seus infantes alemães. Em uma cena, a jovem garotinha filha do SS Gerstein, está resolvendo suas tarefas da escola. Uma das indagações é justamente um problema de matemática que perguntava quantas casas para os arianos poderiam ser feitas com a economia obtida pela destruição dos hospícios de toda a Alemanha? Obviamente levando-se em consideração o Fator X determinante que seria a eliminação de seus componentes.
            Enfim, inconformado com esta situação, o obstinado soldado Gerstein inicia uma luta para acabar com este massacre de judeus, deficientes, e pessoas em geral, procurando anunciar a todas as fontes possíveis, o mal que tem sido feito na Alemanha. Seu canal fiel será o jesuíta italiano Ricardo Fontana, que filho de um conde próximo ao Papa Pio XII, tentará de tudo para acabar com esta situação, agindo dentro das redes sociais do Vaticano.
Ricardo Fontana e o SS Geirstein: Um Jesuita e um SS cristão.
            Neste momento é que a problemática central e mais complexa do filme se apresenta, pois durante mais de 120 minutos do filme somos levados aos questionamentos do jesuíta, a sua luta para que o Papa Pio XII e os cardeais romanos evoquem seu poderio da Cristandade para anunciar todos aqueles crimes, podendo assim tentar salvar os judeus, os deficientes, os negros e ciganos, todos aqueles que estavam sendo aniquilados pelas forças nazistas.
Somos arrastados até um embate moral onde ora pensamos que a Igreja procura auxiliar os oprimidos, e ora temos a mais certa certeza que a Igreja se omite e até contribui na consecução daqueles eventos. 
Pio XII:  De mãos dadas com a culpa?
          Em todos os momentos do filme, o jesuíta Ricardo Montana, que é fictício, representa uma luta ínfima dentro da Igreja para abrir os olhos e ouvidos dos poderosos do Vaticano, mas sua luta é cega, é ineficiente, pois os interesses papais e eclesiásticos se sobressaem a qualquer outro fator que possa aparecer. E é esta questão que justamente nos aterroriza: Em muitos momentos as rusgas existentes entre o Vaticano e o Nazismo são frutos apenas de querelas oriundas por impostos ou questões de ordem monetária, enquanto que a situação judaica e todos os levados aos campos são decididamente esquecidos e deixados à revelia.  A Igreja se defende, jurando que procura assim se “manter neutra”, e apenas abre sua boca quando são os “convertidos” que passam a ser levados aos campos.
            Quando se espera que o Papa Pio XII, as vésperas do Natal de 1942, exercite sua fala em pró daquelas vitimas, ele apenas recita as seguintes palavras:“A humanidade deve esse voto às centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa pessoal, às vezes apenas por razão de sua nacionalidade ou raça, estão marcadas para a morte ou extinção gradativa.”.
 
Omissão do Papa Pio XII?!
        Este foi o seu maior revérbero durante a guerra, e percebemos que em nenhum momento foge de um comentário abstrato, quase um clichê camuflado em uma benevolência ocultada por interesses diversos. Não há indignação em nome dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, negros e etc. Aliás, nenhum desses nomes é citado em todos os seus discursos durante aquela época. Uma cena bastante bela e não menos pesada acontece quando indignado após este discurso, o jesuíta Ricardo Fontana, imprime sobre sua bata de jesuíta, uma estrela de Davi para desespero e indignação daquele clero romano, mais preocupado com outras questões.
            Enfim, daqui para frente, eu não prossigo mais, pois seria adiantar fatos e questões que anunciariam todo o restante do enredo do filme. Ademais, para concluir, apenas reafirmo a indicação desta película, para aqueles que desejam fugir um pouco do clichê bélico, perscrutando as inúmeras perguntas que ainda esperam respostas que possam explicar as raízes daquele evento, e, sobretudo, dos participantes da mesma.  
            Se o Cinema pode ser um eficiente canal de denuncias e reflexões, com “Amém”, Costa – Gravas consegue levar esta prerrogativa com total eficácia, legando a todos aqueles que sempre se inquietaram com estas questões, a obrigação de assistir a este filme, e refletir sobre os ocasos, omissões e culpas que a humanidade deve carregar, quando aqueles lavam as suas mãos, e gritam “Amém” para estes atos horrendos.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.

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