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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O dia em que Chapolin Colorado enfrentou Adolf Hitler: Roberto Gomez Bolaños e a sua representação de Adolf Hitler


Já abordei em outras postagens desse blog o quanto considero o multifacetado artista mexicano Roberto Gomes Bolaños, um gênio de primeira grandeza.  Ator, comediante, roteirista, dramaturgo, Bolaños foi – é, pois continua vivo – daqueles que contribuíram enormemente em todo o processo criativo de suas obras.
Em um de seus mais famosos seriados televisivos, Chapolin Colorado, Bolaños costumeiramente satirizava a figuras históricas, como Julio Cesar e Cleópatra. Desse modo, Bolaños, no distante ano de 1975, em um episódio, perdido e raro hoje em dia, vai satirizar a figura de Adolf Hitler.

Com isso, Bolaños certamente respondia a um desejo pessoal de homenagear um ídolo de sua formação: Charlie Chaplin. Sim, porque durante o episódio, a influência da representação de Chaplin em “O Grande Ditador” (1940) é mais do que clara.
Percebemos então um dos episódios mais complexos e demorados de Chapolin, com uma duração de 45 minutos, com boa caracterização histórica e vestimentas bem personalizadas, e obviamente com uma série de situações cômicas envolvendo o frágil herói Chapolin em sua luta contra os nazistas.
Para os amantes da História e do comediante Roberto Gomes Bolaños vale muito à pena assistir ao episódio... Fica a dica!

Ps. Segue o episodio na integra para ser conferido no youtube:



Att. Rafael Prata

Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

100 anos do “Vagabundo Carlitos” : o centenário de Charles Chaplin no Cinema

Quase passa despercebido, no entanto, alguns sites recordaram o ano especial que é 2014: neste, comemora-se os 100 anos da entrada de Charles Chaplin no mundo cinematográfico. Lá atrás, no distante mês de fevereiro de 1914, Chaplin participava de seu primeiro curta – metragem intitulado “Making a Living”, na qual interpreta um repórter vigarista que tenta se passar por aristocrata.
No entanto, seria seu próximo curta - metragem que daria inicio a imortalização daquele que é o personagem mais conhecido da história do Cinema: o vagabundo Carlitos. Em “Kid auto races in Venice”, Chaplin apresentava ao mundo seu alter – ego Carlitos, o vagabundo, um homem puro, de bom coração, que muitas vezes acaba se metendo em confusão por puro desleixo ou acaso do destino. Neste curta, o vagabundo Carlitos ganha destaque ao interromper seguidamente a filmagem de uma corrida de carros para crianças.
No mesmo mês de fevereiro de 2014, o vagabundo Carlitos ainda aparece em mais um curta intitulado “Mabel´s Strange Predicament”, na qual se apresenta como um vagabundo bêbado que causa enorme confusão em um Hotel, quando ali entra para efetuar uma ligação telefónica.
No ano de 2014, Charles Chaplin participara assim de 35 curtas – metragens produzidos pela Keystone Studios, na maioria deles interpretando sempre um personagem desastrado, causador de todo tipo de confusão. Dali em diante, Chaplin só reforçaria e enriqueceria mais ainda a figura de Carlitos, um dos símbolos maiores do Cinema.


O Sujeito de calças longas, casaco mirrado, bengala e de bigodinho, além do caminhar engraçado, é com certeza o personagem mais reverenciado da história do Cinema em todas as suas épocas. Carlitos foi uma forma que Chaplin encarou para abordar com delicadeza todos os seus traumas de infância, da pobreza ao alcoolismo, questões que havia encontrado no seio familiar desde sua infância.
 


Ass: Rafael Costa Prata

Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

As Mulheres na Comédia durante a era do Cinema Mudo: Coadjuvantes e Raridades dentro de um espaço predominantemente masculino


          Charles Chaplin. Buster Keaton. Harold Lloyd. Todos nós conhecemos a trajetória da comédia durante o Cinema Mudo, a partir da carreira destes, ou de alguns destes, comediantes. Poderíamos ter citado outros tantos como Laurel e Hardy (que aqui no Brasil ficaram conhecidos como o Gordo e o Magro), Roscoe “Fatty” Arbuckle, Harry Langdon, entre tantos outros que poderiam ser citados. De fato, não foram poucos os comediantes que, infelizmente por descaso do próprio público ou do destino, acabaram não sobrevivendo aos percalços do tempo, sendo esquecidos pela História.
         Como um avido admirador da Comédia em tempos do Cinema Mudo, essa questão é algo que tenho justamente observado no decorrer das minhas leituras, pesquisas, enfim, quando procuro investigar a comédia durante aquela época, e em todos os casos, acabo percebendo que a comédia foi muito mais do que algo reduzido a um pequeno número de grandes comediantes, tendo ficado outros tantos, de qualidade irretocável, a margem dos louros da História do Cinema.
         Dentro justamente dessa constatação, acabou por me sobressaltar outra questão mais surpreendente ainda: a “raridade” da participação feminina – como protagonistas – desse gênero fílmico. E de outra maneira, como as poucas comediantes que existiram, acabaram sendo esquecidas a posteriore.
         O primeiro ponto a ser destacado é a coragem destas mulheres. Há de se pensar que, por mais que o Cinema fosse galgando cada vez mais espaços no decorrer do começo do século XX, ainda havia certa resistência de um publico a aceitar a participação das mulheres dentro de vários gêneros, e na comédia, mais ainda.
         Em um mundo totalmente masculinizado, algumas delas procuraram vencer e quebrar essas barreiras, ingressando numa seara, cujos olhares de admiração e de repulsa se misturavam. Nesse espaço do sorriso masculino, algumas delas souberam pouco a pouco galgarem seus espaços, mas, o quadro que pudemos perceber ainda assim é ínfimo, pelo menos o que chegou a nós. Dessa forma, obviamente que de forma superficial, traço dois perfis da participação feminina no gênero “comédia”: ou elas participavam de filmes de grandes comediantes, como coadjuvantes, servindo como um par romântico para Chaplin, Keaton, entre outros - o que não as impedia de mostrar seu talento, sua graça – ou no mais raro dos casos, conseguiam até encontrar o protagonismo dentro do gênero.

         Comecemos pelo ultimo dos casos citados, pois é de ordem raríssima. De forma paradigmática, cito o caso da comediante Mabel Normand, que atuando durante a década de 1920, conseguiu o status que a leva a ser considerada até hoje a maior comediante da História. Seu talento era tão grande que, em um de seus filmes, chamado “A estranha aventura de Mabel”, a atriz contava com a participação do “coadjuvante” Carlitos, álter – ego de Charles Chaplin, no decorrer da execução da comédia.
         Trabalhando para a Keystone, Mabel não só encenava aos filmes, mas também escrevia e dirigia aos seus próprios filmes, o que demonstra o talento indiscutível dessa, não só para a Comédia, mas como para a toda extensão produtiva do Cinema. Tendo participado como protagonista de uma enormidade de filmes que vão do inicio da década de 1910 até o inicio dos anos 1930, infelizmente Mabel Normand teve um fim trágico de uma carreira que coincidira com o fim de sua própria vida: acabou falecendo por conta de uma tuberculose aos 34 anos de idade.
         Entretanto, Mabel foi realmente uma exceção. Em geral, o que se observou foi justamente o primeiro perfil apontado; moças engraçadíssimas atuando como coadjuvantes de comedias românticas de grandes atores da época, em destaque, aquelas que ficaram conhecidas por terem atuado com Charlie Chaplin. Foram às garotas dos “filmes de” e não propriamente os “filmes dela”. Há uma grande diferença entre essas duas expressões.
         Como dito, as atrizes que ficaram mais conhecidas nesse sentido foram justamente aquelas que ficaram conhecidas como “The Girls Chaplin”; aquelas que serviram como par romântico de Charles Chaplin em suas películas.

        
O Caso mais conhecido então é o da atriz Edna Purviance que atuara em mais de 30 produções de Charlie Chaplin, no decorrer da década de 1920 e 1930. Seu papel de maior destaque foi no filme “O Garoto” de 1922, quando ficou conhecida por suas caras engraçadas de surpresa e de susto, além de sua doçura característica.
         

             Um caso que foge ao caso por não estar situado dentro do gênero comedia, mas que deve ser citado é o da aclamadíssima atriz Lilian Gish. Considerada uma das maiores atrizes de todos os tempos, talvez a maior durante a década de 1910 a 1930, Lilian participara de inúmeros filmes do grande cineasta David Griffith, que em geral eram para serem dramas. Na verdade eram dramas, só que é inevitável não perceber como o talento cômico de Lilian Gish sobressaia nessas obras. Em filmes concebidos parem serem dramas, como os históricos “O Nascimento de uma Nação” de 1915 e “Intolerância” de 1916, Gish dá um show a parte, arrancando risos e gargalhadas ainda hoje em quem porventura procure assistir as películas. Em “Intolerância”, Gish dá um show ao interpretar uma jovem moça da antiga Babilônia, que procura de todas as formas, fugir dos casamentos impostos naquela sociedade eminentemente patriarcal.
         Enfim, se hoje temos inúmeras atrizes – comediantes há se de se mencionar que em outras épocas esse fenômeno foi mais reduzido. Que se citem as causas como machismo da sociedade, conservadorismo, etc. No fim, o que se deve ter, em primeiro e em último caso, é que o sorriso não tem sexo! 

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sábado, 18 de agosto de 2012

Escândalo no Mundo da Comédia: O Caso Roscoe “Fatty” Arbuckle


Pouca gente conhece hoje em dia a este gordinho sorridente da fotografia, que retirava justamente do sorriso, o seu sustento. Mas houve uma época em que Roscoe “Fatty” Arbuckle fora um dos mais populares atores (comediante) do Cinema Mudo. Fatty – apelido que não gostava de carregar fora das telas – geralmente interpretava um tipo de personagem que mesclava a astucia e o jeito desengonçado como traços fundamentais. Aqui no Brasil, o personagem ficou conhecido como “Chico Boia”.
Durante a década de 1910, as películas de Fatty Arbuckle faziam enorme sucesso nos Estados Unidos, a ponto daquele se tornar a maior estrela do momento, recebendo um cache inimaginável a época, que beirava os 1000 dólares por dia, pagos pela Paramount. Sua comédia pastelão, marcada pelas tortas na cara, pelas quedas e pela correria, também se tornaram marcantes por apresentar ao Mundo do Cinema, aquele que é talvez o maior comediante da História: Buster Keaton.

Foi com Fatty Arbuckle (centro da imagem), que Buster Keaton (esquerda) teve a primeira oportunidade no Cinema, após ter saído do circo de variedades. Na película “O Garoto Açougueiro” de 1917, Keaton estreou com Fatty Arbuckle, lançando as bases de uma amizade que se fortaleceria bastante, resistindo aos momentos mais difíceis e controversos da vida de Fatty Arbuckle. Aliás, Fatty Arbuckle não é responsável somente por apresentar Keaton a Comédia no Cinema, mas, ao que se conta, teria sido também responsável pela caracterização da personagem “Carlitos” de Charles Chaplin, quando aquele, ao ingressar nos estúdios Keystone em 1914, teria se inspirado na vestimenta clássica de Arbuckle.
Entretanto, a belíssima carreira artística de Arbuckle, seria indelevelmente manchada por aquele que talvez seja o maior escândalo da história do Cinema. No auge do sucesso, ganhando dividendos absurdos para a época, Arbuckle se viu diante de um ocorrido que ainda que não o tenha levado a prisão, o levou ao esquecimento, e por fim, a morte. 
Em 1921, aproveitando uma folga, Arbuckle segue com mais dois amigos até São Francisco, onde resolve empreender a uma pequena festinha fechada - segundo alguns, uma verdadeira orgia - em um Hotel.  Para tal, convidaram uma enormidade de mulheres, boa parte delas, jovens atrizes que procuravam ingressar no mundo do Cinema. Uma delas, a jovem e promissora Virginia Rappe de 30 anos, que entrara na "Mark Sennett Comedies Corporattion", onde inclusive conhecera e atuara com Arbucke, teria lhe atraído, de modo que resolveram seguir até um dos quartos do Hotel, a fim de se conhecerem melhor. 


Enfim,  o que ocorreu dentro daquele famigerado quarto, não se sabe distinguir o que são verdades ou hipóteses. O Fato em sua face mais crua apresenta uma Virginia Rappe saindo daquele quarto, em um estado de mal estar, tendo sido socorrida por um medico no próprio hotel.  A Atriz morreria três dias depois ao ocorrido, em conta de uma inflamação no peritônio – uma membrana que reveste a região do abdômen – que teria sido causada pela ruptura de algum órgão. 
Como se deu o fato?! Ate hoje não se sabe... O que se evidência é uma serie de versões apresentadas durante os julgamentos de Fatty Arbuckle...
Alguns chegaram a afirmar que o comediante teria introduzido violentamente uma garrafa de champanhe na vagina da jovem atriz, por conta de uma revolta iniciada ao não ter conseguido produzir uma ereção durante a relação sexual. Apontavam que Arbuckle era dado a praticar essas orgias, e constantemente se revoltava por um fraco desempenho sexual.

Por conseguinte, os Estados Unidos se viu envolto a uma serie de julgamentos centrados na figura de Fatty Arbuckle. Seus filmes passaram a ser proibidos de serem exibidos, a imprensa sensacionalista tratava de produzir por sua conta a realidade dos fatos, e ao fim, depois de tumultuados julgamentos, o júri decretou que Arbuckle era inocente de todas as acusações feitas sobre ele. Os julgamentos haviam sido marcados por uma serie de testemunhos falsos efetuados por supostas testemunhas do acontecido, por tentativas de extorsão sobre Arbuckle por pessoas mal intencionadas, e por uma tentativa frustrada do Magnata da Comunicação William Randolph Hearst - aquele que posteriormente inspiraria Orson Welles a produzir a pelicula "Cidadão Kane" em 1941 - de enterrar a carreira de Arbuckle, atraves de noticias plantadas em seus canais e meios midiaticos de teor sensacionalista. 
 Ao fim de tudo isso, Arbuckle estava livre, porém sua carreira estava no fim. Arbuckle só contava agora com o apoio de seus amigos, principalmente de Buster Keaton, que sempre acreditaria em sua inocência, que o convidava assiduamente a voltar a atuar. Arbuckle, cada vez mais renegado pela Indústria da Comédia, acabou se entregando de vez ao alcoolismo, tendo falecido aos 46 anos de idade, em 1933, após um ataque fulminante do coração.
Fato é que até hoje não sabemos a verdade. Virginia Rappe faleceu sem se pronunciar e Arbuckle se defenderia até o resto de sua vida das acusações. Com efeito, a unica certeza, é que o saldo ao fim desta emblematica história, é o choro, o pranto. Duas mortes prematuras. 
Como alguns costumam dizer: esta serie de acontecimentos, marcou a época em que Hollywood parou de sorrir. Foi-se o riso e ficou a dúvida.
Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Artista e a Invenção de Hugo Cabret: O Oscar se rende aos primórdios do Cinema.


          

             Em pleno alvorecer da Era 3D eis que o Cinema clássico mostra a sua cara. E da melhor forma possível. Estamos nos adaptando a uma nova era do Cinema: a dos filmes cada vez mais projetados na Terceira Dimensão. É claro que este fenômeno não é tão novo assim; Já desde os anos 1980, alguns filmes eram projetados para serem vistos com aqueles remotos óculos escuros feitos com base de plástico. Mas nada comparável ao fenômeno evidenciavel nos dias de hoje. A Explosão e, sobretudo a aceitação da constatação deste novo modus operandi de produção cinematográfica se deu com o filme “Avatar” de James Cameron, do ano de 2009, que surpreendeu o mundo com a beleza do que o espaço 3D poderia oferecer ao Cinema no campo da fotografia, e como também da percepção – interatividade – do público frente ao filme que está sendo exibido.

“Avatar” : o 3D ganha o público.

            Daí em diante o 3D ganhou o público. Muitos são os diretores e os filmes que procuram se adequar a esta nova exigência, a este novo chamariz de público. Cada um de nós quer se sentir cada vez mais parte do filme, do sonho produzido. Alguns filmes conseguem, outros não. Alguns diretores exageram na medida em que direcionam o filme totalmente ao 3D, tornando-o um verdadeiro escravo do mesmo.  Contudo, felizmente esta não é a realidade de boa parte dos filmes voltados ao 3D. Os Cineastas têm percebido cada vez mais que o 3D deve ser utilizado como parte complementar, artifício de qualidade, praticamente uma Cereja no Bolo que deve rodear o roteiro e a produção do filme. Deve ser um ampliador das qualidades expostas na obra.

           Sobre isso, o Oscar de 2012 nos brindou talvez com uma obra que tenha conseguido extrair o máximo – junto com Avatar suponho - desta relação do Cinema com o 3D: A Invenção de Hugo Cabret, de direção de Martin Scorsese, 2011.

A Invenção de Hugo Cabret; o 3D para os primórdios do Cinema.

            Scorsese realmente soube extrair do 3D o que ele poderia oferecer. Os artifícios visuais, a belíssima fotografia, e uma interação com um público que se apresentou bastante intensa em toda a obra. Há momentos do filme que você se encontra “frente a frente” com o personagem, tal é a aproximação deste com você.    Curiosamente, o filme também parece querer trazer a tona, um paralelo cada vez mais atual, entre uma remota era romântica do Cinema e o mundo atual do 3D. Se na película, Scorsese nos mostra como, naquele dia 28 de dezembro de 1895, os expectadores do salão café em Paris se encontravam estupefatos com aquele rolo de filme exibindo a chegada de um trem, assustando-se com a proximidade do mesmo com gritos; não é tão diferente, a surpresa e o regozijo do público frente a essa nova dimensão explorada: o 3D. Neste sentido, se sorrimos ao ver as pessoas se assustando com o Trem, também não é de se surpreender com pessoas na sala de Cinema, fugindo do próprio Trem de Cabret que ameaça sair da tela do Cinema.

           O tom é o mesmo. Dentro desse mesmo bojo, outro aspecto primordial aflora: a curiosa emergência de um retorno as origens. Sim, 2012 foi o ano da belle époque do cinema moderno. Causa-nos surpresa constatar que “A Invenção de Hugo Cabret” de Scorsese e também o “filme mudo” de nome “O Artista” do cineasta francês Michel Hazanavicius, tenham juntos, abocanhado 10 estatuetas, praticamente quase tudo que foi oferecido pela academia.
            O Artista levou os principais prêmios da noite, entre eles: Melhor Filme, Melhor Diretor para Hazanavicius, Melhor Ator para Jean Dujardin, Melhor figurino e Melhor Trilha Sonora Original. Quanto a Hugo, seu único e principal concorrente na noite, levou tudo que podia ganhar: Fotografia, Direção de Arte, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais. No critério de desempate, O Artista levou a melhor, pois das suas 10 indicações, levou 5, enquanto que Hugo que também levou 5, havia recebido 11 indicações.

Hugo e o Artista: 10 estatuetas para o Cinema Clássico

     Certa audácia me leva a pensar que por terem sido produzidos no mesmo ano, a produção de um evitou que a de outro abocanhasse quase tudo. Não porque neste ano não existissem paralelamente ótimas películas. Muito pelo contrário, junto com esses, competiam grandes filmes de monstros sagrados do Cinema, mas porque o tom de “novo”, de “inovação”, de reflexão que estas duas películas trouxeram, parece ter fascinado não somente aos velhinhos da academia, mas a todo um público em geral.
Este “cheiro de novo” é justamente o resgate do “velho”, de um romantismo, de um sabor de cinema produzido nos primórdios do Cinema. 2012 será lembrado justamente com este marcador: o Ano que Hollywood se rendeu as suas origens.
            A Invenção de Hugo Cabret, película baseada no livro de Brian Selznick, nos leva justamente as origens do Cinema. É um filme a que podemos rotular como uma película puramente metalingüística. É um filme sobre vários filmes. É um filme sobre vários gêneros filmes. É um filme sobre varias personalidades do Cinema no decorrer das décadas.  Sob o pano de fundo está à história do jovem órfão de pai e mãe, Hugo Cabret, um garoto que sobrevive de pequenos furtos, e que vive num grande relógio localizado numa estação de Trem em París.
            Não vou contar os detalhes do filme, para não estragar a oportunidade de quem ainda irá assistir. Quando a jovem Isabelle o conhece, afirma ela que nunca assistiu a um filme porque seu tio Georges nunca permitiu; No momento, ela está apaixonada pelas aventuras de David Copperfield. Ora, nesse ponto, também parece um aspecto de metalinguagem, pois, o personagem Hugo também remonta em muito as personagens órfãs e pobres do escritor inglês Charles Dickens. Não é, portanto só o Cinema quem é resgatado nesta película.
          

Hugo: O Cinema sobre o Cinema.
           
            Enfim, Hugo nos leva a uma fascinante aula sobre Cinema. Sobre suas origens, suas tendências e vertentes, e, sobretudo sobre seus grandes pais e como não devemos esquecê-los. A Metalinguagem da película nos leva a um garoto pendurado em um grande relógio, assim como o comediante Harold Lloyd em “Safety Last” de 1923, faz referencias claras a Charlie Chaplin – como a moça florista no centro da estação, clara alusão ao filme “Luzes da Cidade” de 1931 – e também a Buster Keaton – com as gags ou estripulias do proprio Hugo em suas fugas na estação -.

            A própria personagem do comediante Sacha Baron Cohen é uma homenagem aos caricatos policiais tão comuns nas comédias do Cinema Mudo, seja de Charlie Chaplin, Buster Keaton ou algum outro comediante.  Da metalinguagem, abre-se ainda um livro para se referir a Griffith com seu clássico “Intolerância” de 1916, a um dos primeiros filmes do Cinema chamado “O Grande Assalto de Trem” do ano de 1903, e outras tantas películas.
Safety Last de Harold Lloyd: Uma referência mais do que clara em Cabret.
          Hugo nos leva ao universo do esplendor de Hollywood; Uma fase áurea da maquina de sonhos, do fazer é permitido. Época das grandes películas com trens, grandes relógios e inovações da tecnologia. Também do estranhamento e da reflexão frente a um mundo cada vez mais autômato. Daí a sensacional referencia ao autômato recriado no filme, que também nos faz recordar ao “robô Maria” da película “Metropolis” de Fritz Lang, do ano de 1927.

Metrópolis: O Autômato sempre esteve no pensamento humano

            O Filme é, em suma e principalmente, uma ode a Georges Meliés, este grande visionário e mágico do Cinema. Pai dos efeitos especiais, Meliés é ainda hoje pouco reconhecido, talvez por, como o próprio filme retrata, grande parte de suas obras terem sido perdidas com o tempo. A Grande sacada da obra é justamente essa: nos leva ao universo romântico do Cinema se utilizando de toques de drama, do olhar de duas crianças estupefatas ao adentrar em um mundo ainda não percebido e compreendido.

Ben Kingsley como Georges Meliés: Homenagem sensacional.
 
          Hugo certamente atingiu seus objetivos. De igual maneira é a película “O Artista” de Michel Hazanavicius. É um Filme mudo. Conta a história de um grande ator dramático e de musicais, interpretado pela grande surpresa Jean Dujardin, que se encontra amedrontado pela recente chegada do Cinema Falado. Ora, esta foi uma realidade mais do que comum e assustadora para muitos dos artistas da era do Cinema Mudo. O Pertencimento ao gênero mudo fazia com que muitos deles não acreditassem ou suspeitassem do gênero falado; caso comum disso foi à difícil passagem de Buster Keaton para o gênero falado; Charles Chaplin também sofreu, mas soube reverter a situação. Algumas atrizes, como Mary Pickford, a queridinha do Cinema Mudo, também tinham medo da reação do público frente as suas vozes, algo que poderia lhes diminuir a receptividade.
          
 
O Artista: Os principais prêmios da noite para o Cinema Mudo
     
           Enfim, o Artista retrata sobre tudo isso. É também uma homenagem a todo este contexto romântico de Hollywood e também toda as dificuldades na fase de assimilação deste rompimento com o Cinema Mudo. O Artista se tornou o primeiro grande filme estrangeiro a se tornar protagonista das premiações da academia. Algo realmente bastante surpreendente. 
         Ambos os filmes são marcantes, e com certeza delineam um novo processo na história do Cinema. Nada mais justo então que as premiações... Vida Longa ao Cinema!


Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

[TOP10] Filmes de Charles Chaplin

Eis uma tarefa árdua e dificílima: tentar listar os 10 melhores filmes do gênio irretocável Charles Chaplin; Da minha parte não farei uma lista levando-se em conta apenas aspectos técnicos e a importância histórica das películas em questão; obviamente o gosto pessoal também conta como critério, ou seja, alguns desníveis de opção serão evidentes e fazem parte de qualquer lista – que por sinal, estou fazendo, mas só a efeito de curiosidade mesmo. 




Vou tentar justificar o injustificável, pois todas as obras são absurdamente geniais, estando a ordem da colocação apenas a efeito pessoal mesmo, ou seja, a distância de qualidade entre o primeiro colocado e o décimo é mínima, para não dizer ilusória, haja vista que é só compará-la com outras listas já montadas, nas quais o décimo colocado pode ser justamente o primeiro da minha lista em questão. Obviamente outros tantos filmes faltarão nesta lista!

 Segue a Lista:

1. O GRANDE DITADOR (1940)


         Talvez a maior obra produzida por Chaplin. A sua sátira corrosiva a Hitler já prenunciava – o filme é rodado em 1940 – os horrores do holocausto e da segunda guerra mundial como todo. Chaplin em sua genialidade artística se personifica como Hitler em Hynkell, e em um barbeiro judeu, numa capacidade de atuação que só ele conseguia engendrar. O Discurso final do filme é clássico, estando talvez entre os grandes momentos da história do Cinema, quando o autor se sobrepõe ao personagem, se apresentando como figura direta da História. 

2. LUZES DA CIDADE (1931)
    Belíssimo filme. Como descrever o indescritível? Foi o grande questionamento que me fiz após o termino da película. Rara beleza em um filme simples, porém com uma temática estonteante. Primeiro filme com toques de som – apenas no inicio do filme – Chaplin consegue guardar todo o romantismo do Cinema Mudo, e a partir daí, contar a triste e bela história do vagabundo Carlitos e da jovem florista cega. Com certeza, um grande clássico da Comédia Romântica. Carlitos é a doçura e a obstinação em movimento; a poesia da mentira de alguém que ama e passa por cima de tudo que irrompe como impedimento. 


3. TEMPOS MODERNOS (1936)
          Outro grande clássico que não precisa de muitos comentários; Com esta película, Chaplin mais uma vez abria a sua sátira a alienação e a selvageria do mundo moderno da industrialização, retratando também as mazelas e os problemas sociais oriundos desta industrialização em massa, que ocorre em detrimento da situação das classes mais pobres. É o tempo da fabrica quem rege toda a película. Clássico marcante; praticamente um item indispensável nas salas de aula, quando se quer discutir as consequências da Revolução industrial. Afinal, quem não assistiu a cena clássica de Chaplin sendo engolido pelas engrenagens na fabrica?!

4. O GAROTO (1921)

      Mais uma vez o vagabundo Carlitos passa por uma situação calamitosa que põe a prova todo o seu humanismo. A Cartela inicial do filme consegue captar com perfeição, toda a áurea fantástica do filme: “Um filme de sorrisos... mas de algumas lagrimas também.”.
          Belo drama que apresenta à atuação excepcional do jovem ator de seis anos, Jackie Coogan, a primeira criança a atuar em um papel representativo na história do Cinema; Coogan é um órfão que abandonado passa a ser cuidado pelo vagabundo, e com ele, vai aprender todas as artimanhas para sobreviver, se tornando quase quê uma copia irretocável do próprio Chaplin em todo filme. Fantástico. Um filme, como nos diz a cartela, é um misto de risos e lagrimas.

5. LUZES DA RIBALTA (1952)
        Penúltimo filme produzido por Chaplin se trata de um drama fortíssimo, onde Chaplin coloca toda a sua genialidade dramática a serviço do Cinema, ao interpretar um clown velho e decadente, que ao apaixonar-se por uma jovem bailarina, vê todos os seus derradeiros projetos de vida mudados.
             O Filme é também, com toda a certeza, um daqueles que apresenta um dos momentos mais mágicos da história do Cinema em toda a sua história: ter a oportunidade de ver contracenarem em um ato, os maiores gênios da comédia mundial em toda a sua história, o próprio Chaplin e Buster Keaton. A Cena é antológica, e para aqueles que são fãs disparados de ambos, é de arrepiar e não cansar de assistir; Chaplin e Keaton, ambos idosos, e já no termino de sua carreira, neste ato, procuram homenagear todos os palhaços do vaudeville – gênero que ambos foram formados – em uma estonteante passagem do filme. Indescritível. Chaplin e Keaton.


6. O CIRCO (1928)
        Praticamente um thriller policial; filme engraçadíssimo onde Chaplin homenageia novamente toda a uma gama de artistas circenses; nesta película, ao ser confundido com um ladrão, Carlitos se aventura ao se disfarçar de palhaço para esconder-se dos policiais que o perseguem. O Filme todo é uma correria de Carlitos para que não seja perseguido e preso por uma injustiça cometida.


7. O IMIGRANTE (1918)



Não é um filme; mas um excepcional e acido curta produzido por Chaplin logo durante a sua chegada aos Estados Unidos. Daí é que logo de cara Chaplin sempre se mostrou incomodado com as ilusões produzidas pelo “American Way of Life”. Neste pequeno curta de não mais que 20 minutos de duração, Chaplin mostra um sujeito sonhador que parte de sua terra natal na Europa, mas que ao chegar aos Estados Unidos, se depara com os maus tratos locais.
               Seria o cartão de visitas de Chaplin, que ao longo de sua carreira, acabou sendo vigiado e fichado de perto por entidades policiais – principalmente e com mais rigidez durante o Macarthismo nos anos 1950 – quando era acusado de ser comunista, por conta de suas obras críticas, tendo como ápice, seu exilio forçado no ano de 1952, retornando apenas nos anos 1970 para os Estados Unidos para receber um Oscar honorário por toda a sua obra produzida, que na verdade simboliza um pedido de Desculpas; A Plateia do Oscar ao ver o idoso e debilitado Chaplin levantou-se e por mais de cinco minutos o aplaudiram. 


8. EM BUSCA DO OURO (1925)


        Um dos filmes mais engraçados de Chaplin se passa no Alaska, na chamada “Corrida do Ouro” ocorrida aos fins do século XIX. Lá Carlitos se envolve em muitas confusões como sempre; Talvez o filme seja mais conhecido por uma cena antológica, talvez aquela que mais remonte a doçura artística de Chaplin que é a Table Ballet, ou a dança com os pães enfiados nos garfos, encima da mesa. Antológica cena da História do Cinema. Não canso de assistir e de tentar copiar!


9. MONSIEUR VERDOUX (1947)

        Com certeza o filme mais diferente de Chaplin; em todos os aspectos: na atuação e principalmente na composição de seu personagem; ao contrário dos antigos filmes de Chaplin, não temos mais um doce vagabundo, mas, agora, nesta película, temos um sedutor viajante de caráter duvidoso que empreende tudo que é possível para atingir seus fins, não por meios positivos.
        Grande comédia de humor negro, sátira ao capitalismo deste American Way of Life, onde o mundo das aparências se sobrepõe a realidade da condição humana. Com certeza, outra grande película que “contribuiu” para que Chaplin fosse mal visto pelas lentes do poder nos EUA. Chaplin como um dissimulado assassino, notável filme!

10. O PASTOR DE ALMAS (1923)


        Outra grande comédia de Chaplin; sátira critica do mesmo aos fanatismos religiosos; Neste filme, Chaplin é um ex-prisioneiro que ao fugir da cadeia passa a se tornar um pastor de uma pequena cidade do interior americano. Obviamente que esta causou choque em muitas cidades americanas, sendo proibidas em muitas delas por sinal. Vale demais assistir! É uma sátira, e muito bem divertida!

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