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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Perseguições, delações, prisões e a histeria coletiva da “caça às bruxas” em Hollywood: o inimigo comunista encarnado em Orson Welles.


“Alguém devia ter caluniado Josef K, visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal”.

(Franz Kafka - “O Processo”, 1920.)

Introdução
                É com esta enigmática afirmação que o escritor tcheco Franz Kafka inicia sua mais profunda obra chamada “O Processo”. Escrita em 1920, em linhas gerais, a obra nos conta a história e o triste destino de um sujeito comum chamado Josef K, que repentinamente é acordado às 6 da manhã por forças policiais, sendo acusado por um crime que nunca havia imaginado ter cometido.
                Em seu leito, atordoado e surpreendido, Josef K, ouvia das vozes brutas daqueles robustos homens de preto, sua sentença: “Não pode sair; o senhor está preso”.  Estava preso por um crime que não havia cometido, e de pior maneira, não sabia do que estava sendo acusado, de forma que o seu maior crime, como veremos adiante, foi ter existido durante aquele contexto histórico especifico.
                Franz Kafka, que foi um judeu nascido em Praga, parecia com aquela obra aterrorizante ter anunciado os fúnebres destinos de seus familiares e de sua nação, quando em 1920, parecia narrar o triste fim dos judeus, ciganos, negros, e outros grupos, nos campos de concentração nazistas poucas décadas depois, condenados e executados sob acusação primaria simplesmente por terem nascidos da forma como haviam nascidos, ou seja, foram mortos pelo simples fato de terem existido.
                Não obstante, pode parecer muito estranho retomar a uma aclamada obra da literatura mundial escrita nos anos 1920, possivelmente anunciadora destes eventos apocalípticos e catastróficos, quando aqui desejamos ensejar um breve comentário sobre uma realidade e contexto histórico que aparentemente se apresenta divergente a estes fatos: A Caça as Bruxas, ou aos comunistas, durante os anos 1950 nos Estados Unidos, levada a cabo pela política do Macarthismo.
              Contudo, por mais estranha que esta analogia possa aparentar ser, suas similitudes, como veremos adiante, são bastante visíveis e correlatas, haja vista que em ambas as situações, ocorre a criação pragmática e “necessária” de um inimigo comum, que será devidamente caçado e aniquilado sob acusação e pena de algo que não cometera, e muito pior, sem a permissão de defender-se da acusação, sendo queimado e exorcizado pela histeria geral que habitava tais momentos, na santa fogueira da acusação, do medo do outro, que é julgado antes de ser conhecido. Uma Histéria que era geral, atingindo todos os setores da sociedade: do chefe de sindicato industrial ao cineasta.

Joseph McCarthy: Estamos hoje a travar a batalha final entre o ateísmo comunista e a cristandade. As fichas estão na mesa – vamos derrotá-los”.

Esta citação proferida pelo senador republicano Joe McCarthy em conferência dada em Virginia no ano de 1950, simboliza com perfeição o apogeu de toda a histeria coletiva iniciada pelo mesmo, e que não menos era o espírito da época, contra uma possível “febre comunista” que ameaçava atingir os lares americanos daquela época.
            De certo, o pensamento do senador Joe McCarthy apenas figura como a representação mais funcional deste pensamento que corria a época, haja vista que este conseguira alcançar representação política para assim então vociferar este medo. Fato é que terminada a Segunda Guerra Mundial, o mundo encontrou-se diante de uma guerra dicotômica entre os Estados Unidos, recém-saídos vitoriosos desta guerra, cujo capitalismo também se apresentava em intermitente expansão por meio do Plano Marshal, para com os soviéticos, ou seja, a União soviética, também fortalecida e cada vez mais disposta a encarar os Estados Unidos frente a frente nesta corrida armamentista, política, econômica, e de fronteiras, que ficou conhecida na história e/ou no imaginário político-bélico como “Guerra Fria”.
                Resumidamente, é neste cenário complicado do pós- guerra e de completa alienação psicológica onde o outro podia sempre ser visto como o inimigo real, que a política de Joe McCarthy vai encontrar campo propicio para objetivar sua perseguição desenfreada a supostos comunistas dentro da esfera pública americana, seja dentre os políticos até os meios midiáticos em geral, entre eles jornalistas, e cineastas, estes últimos, os que nos interessam aqui, quando tomaremos em analise, o caso especial do grande cineasta americano Orson Welles, acusado por este mesmo McCarthy de estar trazendo os ventos do Comunismo soviético para os Estados Unidos, ameaçando assim o bem estar social dos americanos. Orson Welles, de grande cineasta, passava a ser Persona non grata dentro do imaginário yankee da época, impulsionado é claro por uma construção pragmática feita com grande eficácia por esta ala amedrontada macarthista, que procurava cada vez mais recriar uma culpabilidade nesta como forma de justificar suas ações.

Joe McCarthy: Prendam-nos!


                O Perfil psicológico era de vivência de extrema suspeita, sendo todos aparentes sujeitos de suspeita. A Delação era então um artificio muito comum neste expediente, sendo acusados desde vizinhos mais acanhados, até grandes personalidades aclamadas pelo público em geral. A busca por uma verdade que só era vista por aqueles que a criavam, fazia, segundo as palavras de Robert Darnton, a enxergar e encontrar práticas de feitiçaria muito mais visíveis pelo olhar do inquisidor que já se dirigia a este fim do que propriamente a essência do fato.
O Inquisidor naquele caso, o século XV ao XVII, ao se reportar ao ato suspeito de Bruxaria, já determinava por meio do pragmatismo aquele fim, ou seja, o crime era pré-determinado e consolado por sua visão; já em nosso tempo, o século XX, o Inquisidor Macarthista também pragmático antes de julgar o acusado já o entendia como culpado, residindo no seu olhar um crime que em muitos casos somente ele conseguia enxergar. Em ambos os casos, nascem inúmeros Josef K, utilizado no inicio desta resenha, personagem injustiçado de Kafka, acusado e morto por um pragmatismo desconhecido, e sendo assim, ambos os fatos ainda que em contextos diferenciados, apresentam inúmeras semelhanças, dado então a apelidar o fenômeno de Caça as Bruxas as perseguições aos ditos suspeitos comunistas, por seu parentesco de expediente e, sobretudo de condenação sumaria, sem provas e sem culpabilidade.

 Orson Welles: Codinome "K" na lista negra dos comunistas.

Nascido em 1915 no condado de Wiscosin, Orson Welles desde muito cedo já demonstrara seus dotes artísticos, quando em um evento curiosíssimo e que lhe dera toda a sua fama quando jovem, narrara em uma radio local, uma suposta invasão alienígena aquela localidade, com grande eloquência de narrativa, dramaticidade na voz, baseando-se para isso na obra literária “A Guerra dos Mundos”, do escritor britânico George Wells.
Este curioso fato ocorreu no ano de 1938, quando o jovem Welles tinha apenas 23 anos, e causou enorme rebuliço e pânico naquela pequena e pacata cidade do interior. Ademais, o interessante a observar é que inconscientemente Welles já previa como este pragmatismo, como a criação de um inimigo invisível causava desordem social e alienação frente aos americanos. Ainda que os cidadãos daquela cidade não vissem alienígena algum, houve uma comoção popular onde portas eram fechadas, pessoas escondiam-se nos porões, e acreditavam piamente que aquele inimigo era real. Se não era visível para ele, para outro podia ser. Fato é que ele existia, era necessário esconder-se ou combate-lo.


O Jovem Welles "enganou" o país inteiro.

No outro dia deste ocorrido, a população assustada queria saber quem tinha sido o sujeito traquinas inventor deste rebuliço na radio local. Daí em diante, Orson Welles ficaria famoso por todo o seu talento dramático e artístico, destacando-se como um fantástico diretor e ator no Cinema, tendo nunca abandonado em suas obras, o caráter reflexivo de suas películas, onde a denuncia e a crítica a realidade, apareciam sempre de forma veladas, fazendo o que Ferro perfeitamente denominava de “Contra Analise da sociedade”, revelando muito mais do que propriamente esperava com o enredo e o roteiro escrito para aqueles filmes.
Sua primeira e grande aparição polêmica aconteceu com a filmagem de talvez a maior obra cinematográfica de todos os tempos, Cidadão Kane, do ano de 1941, quando este ainda era um jovem cineasta, ator, e roteirista de 26 anos. Audacioso, Welles ocupou todos estes cargos, e magnânimo como era, desempenhou com total genialidade cada uma destas funções, dirigindo e protagonizando a história de um magnata das comunicações baseado na vida do milionário William Hearst. Mostrando todas as contradições da vida deste Magnata, Welles acabou então entrando em desagrado frente ao mesmo, que após a tentar travar a exibição do filme, passaria a perseguir o mesmo, acusando-o de inúmeras prerrogativas, a principal era a de ser comunista, tendo aproveitado então e disseminado essa informação, que acabou fechando em muito, as portas do Cinema para o próprio Welles.


Cidadão Kane, 1941: Com esta película, Welles desafiou a grande mídia e atraiu a etiqueta de possível comunista.

Não obstante estas acusações e atritos com Hearst, Welles não tivera mais tranquilidade. Passaria a ser investigado e procurado diariamente pela policia americana, e seu nome se tornaria o alvo principal da lista negra criada anos depois pela política macarthista. Durante os anos de 1940 – 1950, o senador Joe McCarthy e toda a sua trupe de espionagem criaram a chamada “Lista Negra de Hollywood” onde uma gama de artistas em geral, entre eles, cantores, músicos, cineastas, pintores, roteiristas e etc., apareciam como suspeitos de serem agentes comunistas americanos, traidores da pátria a serviço da União soviética.
Estas listas causaram também enorme rebuliço no meio cinematográfico, quando este imaginário de perseguição a este inimigo indesejável, causaram inúmeras delações dentre pessoas do mesmo circulo artístico. Talvez um caso clássico tenha sido o do também grande cineasta Elia Kazan, que figurando entre estes “inquisidores”, denunciou uma enormidade de roteiristas e produtores próximos a ele que aparentemente figuravam entre estes de atitude suspeita. As delações de Elia Kazan eram levadas muito a sério haja vista que este havia sido filiado ao Partido Comunista americano, sendo assim, suas fontes e suas acusações plausíveis de serem levadas em diante, pelo menos para o Comitê de Joe McCarthy. O próprio Orson Welles, decepcionado com a atitude do colega de profissão teria dito que “Kazan trocou a alma por uma piscina".

Elia Kazan: Grande cineasta, contudo, X-9.

Dentre esta enorme de lista de acusados, apareciam o próprio Welles e também outro grande gênio, talvez o caso mais conhecido de perseguição, Charles Chaplin, que perseguido também por um delegado macarthista acabou sendo expulso dos Estados Unidos, tendo retornado a Inglaterra, só conseguindo retornar aos Estados Unidos no ano de 1972 para receber um Oscar Honorário. Chaplin diante desta conjuntura de perseguições, antes de seu exilio forçado, teria dito então que:

“Desde o fim da última guerra mundial, eu tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual indivíduos de mente liberal possam ser apontados e perseguidos. Nestas condições, acho que é praticamente impossível continuar meu trabalho do ramo do cinema e, portanto, me desfiz de minha residência nos Estados Unidos.”

Em 1948, o destemido Welles lança então outra grande obra que traria para si grande polêmica: Welles leva as telas do cinema, a clássica história de William Shakespeare chamada “MacBeth”, fazendo uma releitura do conto com novos fins modernos. Utilizando-se de seus dotes teatrais para recriar todo o ambiente dramático desta obra shakespeariana, Welles, sobretudo leva adiante uma releitura por meio deste conto, do cenário americano de sua época, retratando todo o ambiente pragmático em que vivia, onde acusações, perseguições e prisões desenfreadas ocorriam por meio desta política Macarthista que impunha um medo constante e um inimigo comum a ser batido.
Nesta releitura, Welles também em sua “contra analise” se utiliza do palco contado por Shakespeare, que vivera o embrião do pragmatismo na Inglaterra de Elisabeth, onde os fins justificavam os meios, para anunciar o que estava acontecendo nos Estados Unidos àquela época.
Na obra de Shakespeare, MacBeth é um soberano que motivado por sua pragmática esposa Lady Macbeth mata o soberano Rei Duncan, para em linhas gerais, assumirem o posto de soberania na Escócia. Sua ambição não tem freios em sua execução, ouvindo conselhos de temidas bruxas, e utilizando-se dos mais vis expedientes políticos para assumir aquele posto. Ao escrever aquela obra, Shakespeare, como já dito, sabia o que estava escrevendo, pois em sua época, ele observará este emergente pragmatismo nas atitudes de Elisabeth, quando esta cada vez mais ciente de seu papel de soberana inglesa, não media esforços para instaurar a Igreja anglicana de seu pai, e como também, as guerras que levava a cabo.

MacBeth: A própria coroa é uma clara alusão a estátua da liberdade.

  Não ter escrúpulos é justamente um dos fundamentos bases da verdade a ser alcançada, criada por este pragmatismo, atitude levada com grande eficácia tanto por MacBeth, quanto por McCarthy na vida real. Esta denuncia proferida por Welles de forma perfeita nesta sátira criada por meio de “MacBeth” ajuda como dito a nos revelar justamente aspectos que não aparecem diretamente na obra cinematográfica. Marc Ferro justamente ponderava tais questões, chamando a isso de conteúdo latente.
Enfim, indo cada vez mais longe e por métodos cada vez mais subliminares, Welles se utilizava muito bem de sua inteligência frente a adaptações de grandes obras da Literatura Mundial, de forma que ainda discutindo esta problemática, produziu então a adaptação da obra “O Processo”, do escritor Franz Kafka do ano de 1920, o qual justamente procurei iniciar propositadamente esta resenha.
O Processo foi filmado em 1962 e justamente porque o próprio Welles já estava marcado frente aos conteúdos velados de suas obras, os países que patrocinaram tal obra foram à França, a Alemanha e a Itália. Utilizando-se do mesmo argumento kafkiano, Welles recria a vida de Josef K, que ao acordar, vê-se diante de dois oficiais do estado, sendo acusado de um crime que não havia cometido, mas que seria preso por isso. 

O Processo, 1962: Welles retoma Kafka para satirizar o absurdo das acusações e delações durante o MacCarthismo.

                 Ademais, em todo o filme, fica visível o teor latente que Wells sempre deseja: o clima sombrio que permeia o filme é justamente de acusações, de delações e de um risco eminente de captura e prisão por algo que se sabe ter cometido. Josef K, um funcionário público comum como qualquer outro, tenta por meio dos meandros da burocracia estatal descobrir os motivos de sua aparente culpabilidade. Na verdade não há arquivos contra ele, não há nada que o incrimine. Seu crime é justamente ser Josef K. Talvez um comunista. Talvez um judeu. Enfim, ao final do filme, Welles com toques apocalípticos dar fim as angustias do acusado sob suspeita Josef K, que é então subitamente apagado por dinamites, sem ter o direito de saber qual crime teria cometido.
Este final assombroso não é uma expressão de exagero, quando nos indagamos quantas pessoas acusadas injustamente por esta conduta, foram assassinadas e jogadas em valas afastadas, sendo definitivamente e convenientemente para aqueles, apagados da história. Welles ao escolher este final, talvez tenha se inspirado num caso polêmico que estarreceu a sociedade americana da época quando um casal Ethel e Julius Rosenberg foi acusado e preso por suspeita de serem agentes internacionais comunistas a mando da União soviética para tentarem em terras americanas, uma intentona comunista. Ambos acabaram sendo executados sumariamente sem que provas legais e suficientes ao menos comprovassem essa suspeita. Muito pior, alguns meses depois da execução, a acusação feita sobre eles de venderem segredos militares americanos para a União soviética mostrou-se inteiramente infundada. Mas o estrago já havia sido feito e fazia parte do sistema. 
Dentro daquela verdade necessária, eram menos dois comunistas que podiam preocupar o Estado... Uma Verdadeira Histéria... Eles estão a solta! Fujam para as colinas! O Comunista pode ser você!.. Ou Eu!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe


domingo, 6 de junho de 2010

" Os Anos JK" e o " Jango" de S.Tendler.


As obras “Os Anos JK, Uma Trajetória Política” e “Jango”, respectivamente 1980 e 1984, são de autoria do aclamado cineasta e diretor Silvio Tendler. Nascido no Rio de Janeiro em 1950, o carioca traçou seu caminho até a França onde iniciou sua formação e voltou com uma bagagem intelectual que inclui Licenciatura em História pela Universidade de Paris, mestrado em Cinema e História pela École des Hautes-Études da Sorbonne e especialização em Cinema Documental aplicado às Ciências Sociais no Musée Guimet, na mesma universidade. Decidido em direcionar sua carreira para a criação de biografias históricas de cunho nacional e social, em 1981 criou a Caliban Produções Cinematográficas onde em 20 anos a frente da produtora, dirigiu mais de 30 filmes em formato documental. Além das duas obras em análise, podemos destacar tantos outros filmes como “Marighela, Retrato falado do guerrilheiro” e “Castro Alves” datados de 1999, “Dr. Getúlio, últimos momentos”, de 2002 e “Glauber o Filme, Labirinto do Brasil”, de 2003, entre tantos outros documentários de destaque. Reconhecido pela crítica, foi premiado em muitos festivais destacando-se o prêmio de melhor montagem no Festival de Gramado e o troféu Margarida de Prata da CNBB para o documentário “Os anos JK, Uma trajetória Política” como também o reconhecimento para “Jango” nos festivais de Gramado e Havana.
De formação esquerdista, Tendler ao decorrer de sua carreira produziu propagandas para partidos da esquerda e em seus documentários vai geralmente se aproximar da visão comunista, em especial do PCB e do PTB. Desta forma, o diretor reconstrói a história de duas importantes personagens políticas visando criticar o período militar em que vivia, haja vista que ambos os documentários em análise são situados na década de 80, período de intensas mobilizações e efervescência política acarretada pelo processo de abertura política que vivia o país e das intensas lutas em torno da redemocratização como, por exemplo, as chamadas “Diretas Já!”.


Por conseguinte, tanto na obra sobre JK como em Jango, adota-se uma visão historicista, que apresenta os objetos de estudo a partir de suas origens e de seu desenvolvimento vinculando-os as condições concretas que os acompanham, assim o cineasta não aparece na narrativa deixando a cargo dos filmes a tarefa de transmitir a sua proposta na totalidade. Percebemos uma visão cronológica, onde os fatos seguem uma linha do tempo a fim de que se tenha uma fidelidade à história, assim como é evidente o interesse de criar a imagem dos dois lideres políticos como herdeiros do Varguismo, logo JK é recriado como filho político de Vargas e sua trajetória política é demonstrada paralelamente ao governo varguista, e igualmente Jango é reconstruído como herdeiro de Vargas desde sua ligação e iniciação política dentro da cidade natal de ambos que é São Borja tanto nos processos políticos posteriores que ligam os dois dentro do PTB.


Individualmente tratando, enxergamos a criação de JK como o ideal democrático, mentor dos anos dourados brasileiro onde o país cresceu e se desenvolveu como nunca, mostrando que é possível se modernizar dentro de um sistema democrático. Assim é o democrata reformador que tirou o Brasil do sistema agrário arcaico e atrasado e levou ao mundo industrial, da modernidade e do progresso, como o próprio narrador faz questão de explicitar. Através de imagens, vídeos e entrevistas com participantes do período, cria-se a imagem do JK sorridente, pacificador e que vai sempre atender a defesa da democracia e da constituição para contrapor os militares e mostrar que a democracia ainda é viável mesmo que o ambiente repressivo nos tenha tomado por muito tempo. Em relação ainda a composição das imagens e das entrevistas é visível a clara preocupação com a estética das obras quando percebemos, por exemplo, a escolha por ambientes intelectuais como bibliotecas, escritórios, gabinetes políticos e etc., visando uma formalidade e uma credibilidade ainda mais acentuada para a obra e a conseqüente aceitação que uma bela imagem pode criar e assim beneficiar a obra.


Porém, contraditoriamente podemos enxergar por parte do cineasta um “esquecimento” ao somente relembrar os lados e fatos bons atribuídos a JK astuciosamente ocultando aspectos desagradáveis e contradições referentes a este e a sua gestão como ao não se aprofundar nas questões sociais primordiais do país na época como o problema da seca que se agravou no Nordeste, omitindo também o desleixo do governo em aumentar os fundos do orçamento para a saúde e educação no país, preceitos básicos que são garantidos pela constituição. Todavia, o miserável é retratado parecendo satisfeito com aquela nova situação de progresso e assim o filme procura sempre reforçar o desenvolvimentismo progressista metaforizado na construção do estado símbolo que foi Brasília, a capital candango do Brasil. É assim notório o interesse de não responder a certas perguntas, lacunas em aberto, especialmente de interesse popular, esquecendo tais contradições, com o claro interesse de elevar os louros, as glorias de JK.


De igual forma é criado o filme “Jango”, com imagens e entrevistas da época seguindo a mesma preocupação estética do diretor para reescrever esta personagem histórica. O que torna este documentário diferente em relação ao anterior deve-se pelo momento conturbado em que vivia o nosso país que vai ser retratado no filme, criando um aspecto pesado e de forte teor emocional para os espectadores. Se em JK, assistimos com um grandioso e radiante sorriso estampado nos lábios, feliz e orgulhoso pelo belo período de anos dourados e de democracia com progresso que reinava no país, em Jango por muitos momentos recorremos as lagrimas para manifestar a reação que o filme acaba nos provocando. São lagrimas resultantes da emoção que o filme traz a tona, tanto pela composição iconográfica e filmagetica que emociona em muitos momentos ao trazer imagens onde enxergamos a tristeza na face de Jango, a dor do exílio e o momento da volta deste mesmo exílio somente conseguido por meio da morte, como também pela composição sonora, deveras primor da obra,esta que desde o inicio da película nos envolve, busca comover a ponto do telespectador por toda essa composição se vê subitamente envolvido e assim acaba por torcer pelo melhor final possível para Jango porque se sente como quem está andando ao lado dele. É intencional a forma desta criação que pode ser justificada pela claríssima simpatia do diretor com Jango e para com suas idéias e propostas, e fazendo-se desse meio ele também, alem de como já dito inserir o telespectador na emoção do momento e fazendo-o se identificar com Jango, consegue criar uma raiva ainda maior para com os militares devido a suas condutas e ao presente que eles acabariam por levar ao país.


Dessa forma, é inevitável a aproximação de Jango com o telespectador, possibilitando a concretização do anseio da obra que é criar uma imagem positiva de Jango e também a partir desta mesma imagem criticar o golpe e a ditadura em questão. Jango, como reformador social, de tendência esquerdista, é recriado como populista defensor das causas sociais, criador das reformas de base profundas como a reforma agrária, e que por isso teve de lutar até o instante final de sua gestão pelos seus ideais, e que até esse final não se entregou, porém mais uma vez foi deposto por forças conservadoras que não desejavam as medidas que ele estava adotando em viés popular. Assim mais uma vez um líder populista, como Getulio Vargas, foi deposto por tais forças e que da mesma forma caiu sem aderir à luta armada, talvez por enxergar as conseqüências sangrentas que poderia acarretar ao povo caso ele conclamasse ajuda popular, e ele teria força para tal como afirmou muito bem Leonel Brizola, ou por que decidiu renunciar pacificamente optando pelo ato da pura covardia.


Enfim, em ambos os filmes existe o claro propósito de confrontar a memória da esquerda frente à memória militar. Ambos caracterizam o chamado cinema da abertura democrática aonde vai se buscar uma identidade democrática no passado para se exemplificar e projetar um futuro democrático que em breve estaria por vir.


Silvio Tendler.

São dois clássicos documentários que contribuem muito para o estudo do Brasil Repúblicano em um período politicamente conturbado onde emergem estas duas importantes figuras : Juscelino Kubitschek e João Goulart, JK e Jango respectivamente.

Ass : Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
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