Mostrando postagens com marcador Terror. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Terror. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de maio de 2015

Cannibal Holocaust (1980): o filme de terror mais polêmico de todos os tempos

Imaginem um diretor de cinema sendo preso logo após a produção de um filme sob a acusação de assassinato de sua trupe de atores... Pois é, foi o que aconteceu com o cineasta italiano Ruggero Deodato logo após o lançamento de sua famigerada película Cannibal Holocaust nas lides de 1980. Deodato foi preso ao ser acusado de ter produzido a morte de seus atores e de uma centena de animais nessa película.
De fato, o conteúdo da película permite estas suspeitas, pois realmente é tudo muito real neste snuff movie.  O filme descreve a história de quatro documentaristas de tribos indígenas que partem em direção a Amazônia para filmar as tribos daquela localidade. Ali chegando acabam sendo vítimas do canibalismo dos índios. Um antropólogo se encaminha então para saber do paradeiro daqueles, conseguindo recuperar a filmagem efetuada por aqueles documentaristas desaparecidos.



Bom, tem que ter pulso pra assistir ao filme todo sem pular as cenas de atrocidades (eu não consegui). São 95 minutos de toda ordem de trucidamentos humanos e animais que, como mencionei, parecem muito reais. Daí então a necessidade de Deodato de se justificar perante a justiça, provando cena a cena que tratavam-se de efeitos especiais. No dia da audiência, os atores tiveram, inclusive, que adentrar na corte italiana para demonstrar assim que encontravam-se vivos. O curioso é que esta “suspeita” foi planejada pelo próprio diretor, o qual havia ordenado contratualmente aos atores da película que aqueles “sumissem” após a produção da película, para reforçar esta impressão. Infelizmente o cineasta italiano, no afã de sua maluquice, efetuou mesmo uma série de barbaridades com animais durante a produção do filme, tendo dito, anos após ao filme, que se arrependera desta questão.
A película acabou sendo proibida na própria Itália, no Reino Unido, e em 33 outros países do mundo, se tornando, por consequência, um dos filmes mais “cultuados” por amantes do terror extremo.

Ps. O trailer da película: 



Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

sábado, 28 de fevereiro de 2015

José Mojica Marins, o Zé do Caixão: um verdadeiro “monstro” do Terror Nacional

Lá fora, seu personagem mais conhecido é traduzido como “Coffin Joe”, sendo seu criador uma figura bastante reverenciada em solos americanos pelos amantes do gênero terror. Sim, é o nosso clássico Zé do Caixão, alter-ego cinematográfico de José Mojica Marins, um abnegado ator, roteirista e cineasta brasileiro que passou a produzir películas de terror nos nossos anos 1960, algo bastante raro a época.
Nascido em São Paulo no dia 13 de março de 1936, desde cedo Mojica mostraria o seu interesse pelo cinema: seu pai havia trabalhado como projetor em uma sala de Cinema, e logo após um certo tempo, acabou sendo premiado, se tornando o gerente do Cinema local. Mojica sempre o acompanharia em seu ofício, travando assim os primeiros contatos com o cinema.
Aos 12 anos de idade, ganharia de seu pai uma câmera V-8. Ali ensaiaria os seus primeiros curtas, suas primeiras ideias já na infância. Com 17 anos, fundara com seus amigos uma amadora companhia de interpretação para atores, intitulada Companhia Cinematográfica Atlas, voltada sobretudo para a composição de personagens de terror, haja vista o seu fanatismo pelo gênero, testando inclusive a coragem dos atores amadores na lide com insetos, algo que inclusive se tornaria sua marca em seus mais conhecidos filmes.
Todavia, antes de entrar no mundo do terror, Mojica participaria de uma série de películas de outros gêneros. Em 1958, produzira a película “A Sina do Aventureiro”, um verdadeiro western nacional, e em 1962 a película “Meu destino em suas mãos”, dentre outros filmes. Mas, não tardaria que Mojica definitivamente iniciasse sua carreira naquele gênero que o tornaria um mito.

Em 1963, colocando em prática tudo aquilo que havia sonhado, todo aquele treinamento com insetos, e toda a sua influência, seu fanatismo frente a figura de Drácula, produziu então a película “À meia noite levarei sua alma”, apresentando assim o seu clássico personagem, o nosso Josefel Zanatas, ou melhor, o Zé do Caixão.
A história do famigerado e sádico Zé do Caixão que obcecado na busca pela “Mulher perfeita” com a qual teria seu herdeiro marcou o Cinema nacional nos anos 1960, tendo tido por conta de seu sucesso, uma série de continuações. Três anos depois, em 1966, viria “Esta Noite encarnarei no teu cadáver”, em 1974 a película “Exorcismo Negro” e em 1981 ao filme “A Encarnação do demônio” que teria um remake produzido em 2008 com o mesmo título.

O sádico Josefel Zanatas, o Zé do Caixão

No entanto, Mojica produziria outras películas de terror que não contaram com a participação de Zé do Caixão. São os casos de “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1967), “Trilogia do Terror” (1968), “O Despertar da Besta”(1969), “Inferno carnal” (1976), “Delírios de um anormal” (1977), dentre outros tantos. Mojica também participaria da produção de uma série de películas de pornochanchada no decorrer dos anos 1970, um gênero de enorme sucesso a época no cinema nacional.

Aranhas, uma das marcas de Zé do Caixão

Mas foi a sua figura como Josefel Zanatas, o Zé do Caixão, que o projetaria como ícone do nosso cinema. Mojica foi – e continua a ser- um dos sujeitos mais ousados da história do nosso cinema. Pensar um filme de terror nos anos 1960 no Brasil traduz todo o teor dessa sua ousadia. Pensar e por em prática. Aranhas caminhando por pessoas amarradas, cemitérios, personagens sádicos, erotismo velado, todas estas questões marcam o cinema de autoria de José Mojica Marins, um grandíssimo cineasta que talvez seja mais reverenciado em solo estrangeiro do que em nosso país.

Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O clássico do terror “Tubarão” (1975) e suas variadas “interpretações” : uma metáfora ao “perigo do invasor imigrante”, “ao grande capital” ou uma “apologia ao machismo”?

Um dos filmes de maior sucesso dos anos 1970, “Tubarão”, dirigido por Steven Spielberg, ainda hoje é aclamado, não somente pelos efeitos especiais e pela trilha sonora tão marcante e tocada ainda hoje, mas como também pelo grande potencial de interpretações que do filme pode-se retirar.
A história do grande tubarão que num dia calmo e comum do verão americano subitamente começa a atacar os banhistas, americanos comuns, assassinando-os em série, tem sido interpretado por muitos estudiosos a partir de vários pontos de vista, ou seja, interpretações de todo tipo tem surgido para explicar a suposta “metáfora” ou “simbolismo” do tubarão.
O psicanalista e crítico de Cinema Slavoj Zizek em seu documentário “O Guia perverso da Ideologia” procurou demonstrar algumas dessas interpretações. Conforme este, por exemplo, curiosamente “Tubarão” seria um dos filmes preferidos do líder cubano Fidel Castro, porque este procurava interpretá-lo como uma metáfora ao “potencial devastador/abocanhador do grande capital”. Mas essa é só uma interpretação de Fidel Castro.
Outras tantas pessoas, e outros tantos grupos sustentam outras. O crítico-psicanalista também apresenta uma outra interpretação bem comum frente a “Tubarão". Nesta, a figura do “Tubarão” remeteria a do “imigrante latino”, que ao chegar nos Estados Unidos, passa a “ameaçar” a vida do americano comum, “tomando seu emprego”, rompendo com o “status quo idílico do American way of life”. Tal metáfora, obviamente, se tiver sentido, não deixa de apresentar mais um preconceito/xenofobia a figura do imigrante.
Uma outra interpretação do “tubarão” sobressalta dos grupos feministas. Nessa interpretação, defende-se que o filme é recheado de “metáforas machistas”, desde o tubarão na agua, que simbolicamente representaria o “falo caçador”, até a natureza das vítimas, mulheres quase sempre sexualmente independentes. Não obstante, na película, são os homens “de carater forte” que acabam por “extinguir” esse mal, ou seja, restituem o poder do “patriarcado”.

Uma vítima do "Tubarão": uma jovem nua que procura se banhar.
Na interpretação feminista, essa e outras cenas, reproduzem o ideário machista
ao apresentar a "punição" para as moças mais independentes.

Enfim, uma série de outras interpretações poderiam ser indicadas. Ao que parece, a película “Tubarão” oferece essa “deixa” para ínumeras interpretações, justamente porque ao encarnar no Tubarão a metáfora do “medo” que irrompe sem explicações desestruturando a normalidade das coisas, deixa em aberto então o caminho para interpretações das mais variadas.

Att. Rafael Prata

Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 7 de março de 2014

O gênero “Slasher”: quando o “terror” se reveste de moralismo

Certa vez assisti a um documentário, cujo nome infelizmente não me recordo, sobre as características do gênero “slasher”, tão comum a partir dos finais dos anos 1970. O “Slasher” é um subgênero do Terror caracterizado pela presença típica de um serial killer que sai assassinando jovens sem algum “suposto motivo aparente”.

Clássicos como “Halloween” (1978), “Dia dos namorados macabro” (1981) e mais ainda a serie de filmes “Sexta – feira 13” (1980-1993) são exemplos mais que perfeitos desse gênero. No entanto, o que é interessante em taís películas, tão comuns e de grande sucesso no decorrer dos anos 1980, é justamente o que se pode dizer, teor moralista de seus enredos.
Sim, soa muito estranho acreditar que esses filmes regados a sangue e carnificina possam conter um certo tom de moralismo em suas estruturas. Mas se observamos minunciosamente, ou nem tanto, seu estilo, suas características, seus clichês, isso pode ser de imediato notado: em grande parte desses filmes o serial killer em questão é um sujeito que persegue “padrões” não aceitos por uma sociedade conservadora. Em suma, em 99% desses filmes, as vitimas são jovens que se refugiam em alguma colonia afastada para fazerem sexo, usarem drogas, e outras tantas atividades.

E é nessa hora então que um “Jason” entra pra “limpar” tudo isso. Jason é o “recado”, o “aviso” de que, se vai cometer “algo errado” é melhor “arcar com as consequências”. Se vai fazer orgias é melhor pensar antes.
 E sim, ao fim, sobreviverá quem se refugia de todos esses atos. A menina pura, o rapaz respeitador.. Esses são os que sobrevivem e derrotam o vilão em questão.
Desta maneira, o que antes soava estranho, assim não parece mais. Atrás do sangue e da carnificina do “slasher” está todo um moralismo embutido, mensagem passada por uma serie de filmes do gênero, no decorrer de todo os anos 1980.

Ass: Rafael Costa Prata

Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe 

sábado, 25 de janeiro de 2014

A Mansão do Diabo (1896): o primeiro filme de terror da história do Cinema

Georges Méliès foi com certeza um dos grandes gênios da história do Cinema. Ilusionista de “profissão”, Méliès levou então para a recém criada arte de sua época, uma série de artifícios que fizeram-no ser conhecido a posteriore como “o pai dos efeitos especiais”.
Tendo dirigido, produzido e atuado em pouco mais de 500 curtas, Méliés possui o merito de ter produzido aquele que pode ser considerado o primeiro filme – ainda que tenha pouco mais de três minutos – de terror do Cinema: a Mansão do Diabo.

Assim, a película “A Mansão do Diabo”, dirigida por Méliès em 1896, em seus 3 minutos de duração nos leva a história de um cavaleiro que, ao entrar na mansão do diabo, acaba sendo atormentado por uma serie de ilusões, pesadelos e tormentos produzidos pelo patrono da casa.
Assim como em suas demais produções, é o próprio Méliés quem interpreta a personagem principal, nesse caso, a figura de Memphistopheles, ou o diabo. Nesse curta paradigmático, Méliés mais uma vez demonstra a sua arte do “cortar e colar”, que consistia no recorte de uma cena que será transposta sobre outra afim de configurar uma nova cena. Desse modo, por exemplo, é que se constroi a ilusão do morcego transformando-se no diabo subitamente no decorrer de todo o curta.
Deste modo, o pequeno curta produzido por Méliés abriu as portas para um campo que ganharia mais força ainda no decorrer da década de 1920, quando o cinema expressionista alicerçou o estilo, através de clássicos filmes como “O Gabinete do Dr.Caligari” (1920), Nosferatu (1921), dentre tantos outros.




Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe

domingo, 20 de outubro de 2013

Quando o terror invadiu os lares americanos: Orson Welles e a transmissão radiofonica da “Guerra dos Mundos”



Ele tinha 23 anos. Mas já exibia seu talento extraordinário para a dramatização. E foi assim que Orson Welles arrancou gritos e provocou um medo intenso nos lares americanos por meio do rádio. O Motivo: uma encenação dramática. A CBS, radio na qual Orson trabalhava, havia lhe pedido um programa semanal voltado a narração de histórias. E foi ai que o grande Orson soltou sua cartada: a transmissão da “Guerra dos Mundos”, obra de H.G.Well, a qual descreve uma desastrosa invasão alienígena para os terráqueos.
Antes de contar o fato, pensemos no poder que o rádio possuía numa época em que, além deste ser o principal meio de comunicação, a verificação e a velocidade de informações não corria tão rápido como nos dias atuais. Para “desmascararmos” um evento fictício hoje em dia, é rapidíssimo, basta olharmos na Internet. Na época, não era.
Enfim, foi ai então que Welles orquestrou seu drama; Ao invés de narrar a obra, demonstrando que aquela seria uma pura e simples narração, preferiu não mais que repentinamente, iniciar a transmissão como se fosse um “furo de noticia” da rádio: uma invasão alienígena.



No meio da transmissão, os atores se transformaram em supostos repórteres que estavam no meio da invasão. Detalhes dos ets eram ditos com emoção, e a população norte – americana, da incredulidade inicial foi realmente entrando no jogo da história.
Ao fim de tudo, o estrago foi enorme: a população realmente acreditou na história. O Medo se espalhou e a CBS teve de pagar uma multa altíssima pela encenação. Porém, Welles, desse caso em diante, se tornou o gênio que se veria adiante. E isso nunca foi encenação. 



Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Crítica ao Aborto no gênero Terror: O Caso dos filmes "It´s Alive"


             Numa época – os anos 1960 e 1970 - em que abundavam películas em torno de bebês malditos – como os clássicos “O Bebê de Rosemary” de 1968 e “A Profecia” de 1976 -, a película “It´s Alive” do ano de 1974, dirigida por Larry Cohen, figura como uma peculiar produção de Terror, sobre a qual a moral da historia repousa em uma critica a algo que ainda hoje é bastante discutido em sociedade: o aborto.
      De fato, esta questão se torna bastante visível, quando temos em mente que, no ano de 1973, após intensos debates, o aborto passou a ser legalizado em todos os estados da nação norte – americana. O Filme, como dito, é do ano de 1974, sendo um espelho imediato de uma ala que de forma resoluta, procurava recusar esse direito civil. 

         Através do gênero “Terror” este posicionamento social ganha força, haja vista que a película em questão procura justamente aterrorizar, amedrontar, e, sobretudo cristalizar em torno desta prática, a áurea de algo que é maldito, de algo que carrega por si só, consequências nefastas a quem as pratica.
         Como isso é feito?! Através da explicação, que é implícita, dada em torno daquilo que é o mal a ser combatido no filme. Enfim, a película narra a história de um casal que procura interromper prematuramente a gestação de uma criança já em desenvolvimento através da ingestão de inúmeros remédios anticonceptivos, mas que ao desistirem dessa medida, acabam arcando com as consequências de uma “mutação genética” sofrida pelo feto.


      O Bebê que antes era rejeitado nasce como um “monstro” altamente deformado, com garras e uma personalidade movida pela dor, sangue e vontade insaciável de se alimentar de carne humana. A Motivação desta “mutação” ainda que não citada de forma diretamente, pode ser perfeitamente percebida numa crítica subliminar a recém-chegada do direito do aborto. Numa das cenas, um dos médicos chega a perguntar a mãe da criança se ela havia tido alguma experiência com tentativas de aborto...

      Essa questão pode ser reforçada quando verificamos que um remake homônimo produzido no ano de 2008, reforça mais ainda esta critica ao aborto, ao narrar a historia de uma jovem universitária que ao engravidar, não planeja travar seus estudos, procurando através da Internet, remédios que pudessem interromper aquela gestação indesejada. Mais uma vez, o resultado é a criação de um “bebê mutante” insaciável e sedento por sangue.
          
       Enfim, a legalização do aborto ainda hoje se apresenta como um assunto bastante polêmico em todo o mundo. Há quem defenda, há quem se recuse a aceitar esta questão. Como vimos, ambos os filmes souberam ratificar seu posicionamento anti – aborto, através da utilização do “terror” para massificar no público uma ideia sobre algo que, para eles, devia ser combatido.
         O Cinema, como um espelho refletor de uma sociedade, demonstra mais uma vez, que até nos mais obscuros filmes de terror, devemos estar atentos para perceber ideologias, criticas, posicionamentos morais, e tantas outras questões.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Por detrás dos olhos de Christiane...

    ...Encontramos a mais bela e perfeita demonstração do que o gênero fílmico conhecido como “Terror” deve nos proporcionar. Christiane, seus olhos e sua mascara, como também sua camisola branca e comprida, fazem parte de uma película chamada “Les Yeux sans visage”, que em bom e claro português pode ser traduzido como “Os Olhos sem Face”.
Poster do filme à época (1959).
       Estranho. Um Filme etiquetado como pertencente ao mundo do Terror originário da França. Foi a minha primeira impressão preconceituosa, como se o grande Cinema francês, a qual, que fique claro, sou fã, não pudesse ter criado suas películas com o fio condutor do medo e do horror.  Causando-me mais surpresa ainda, tratava-se de uma obra de 1959, dirigida por um cineasta de nome Georges Franju, que havia fundado a Cinemateca francesa, com seu amigo Henry Langlois e Jean Mitry em 1936.

O Jovem Georges Franju na direção de " Olhos sem Face".
        A Cinemateca francesa se tornaria primordialmente o grande palco dos debates cinematográficos de Paris, onde convergiam as grandes expressões do cinema francês de outrora, e aprendizes dispostos a aprender com aqueles mestres; todos juntos com um proposito claro de restauração e preservação de filmes mudos ou tidos como perdidos, em grande parte dos Irmãos Lumiere e de Georges Melies, grandes patronos do Cinema Mundial.
        Só por isso a Cinemateca já justificava o seu culto. A Questão é que esta conseguiu se superar em seu estatuto existencial. Mais tarde, ao fim dos anos 1950, e inicio do acalorado anos 1960, ela se tornaria o grande palco de debates e de efervescência cultural de todo o país, quando a França se via revolucionada pela ação juvenil, pelas forças estudantis, e, sobretudo, por um novo paradigma cultural e porque não filosófico, que seria refletido na aclamada Nouvelle Vague, ou Nova Onda Francesa.
        Com a Nova Onda, os diretores, roteiristas e cineastas franceses em geral que pertenciam a esta tendência, subvertiam toda a ordem social, refletiam nas telas o que a efervescência juvenil carregava em estandarte nas ruas de Paris. Toda a estrutura clássica do filme passava a ser rompida; o fluxo linear era substituído pelo campo dos sonhos, o real era invadido pela ilusão, e a Poesia podia ser alimentada pelo Terror. Não havia dimensões impossíveis para esse movimento.


A Agitação popular e intelectual era comum diante da Cinemateca.

         É daí então que a nossa película em destaque acaba ganhando toda a sua carga fantástica. Se a poesia podia se alimentar do Terror, e o Terror podia ser descrito em linhas poéticas, talvez nunca na história do Cinema, houve uma obra poética tão surreal e fabulosa como “Olhos sem Face”.
      Georges Franju é um poeta da beleza escondida nas sombras do Horror. Isso é tudo que vemos em sua película.  Nesta, Franju, executa toda a sua genialidade de anos no meio cinematográfico, para levar à cena a adaptação fílmica de um aclamado romance francês de mesmo nome, escrito por Jean Redon. Não é um filme de terror como nos acostumamos hoje em dia. Não há sangue correndo em demasia, muito menos tripas escorrendo. A Obra recorre ao estatuto do Terror em sua essência máxima, quando assustar significa atrair o expectador e pegá-lo de surpresa na hora mais improvável: a Hora do Susto.
        O Medo se incrusta em cada quadro do filme, cada caminhar de seus personagens, cada dialogo traçado, em todo o delinear da trama. Esta é a grande sacada do filme. É uma Poesia do Terror vivo, do horror sublimado. Para assustar não é necessário sangue, tripas, ou todo tipo de nojeira em geral como nos acostumamos a ver no gênero slasher; mas sim basta deixar o dito falar pelo não dito. Ou o não dito, expressar o dito. Enfim, o terror está no que está para acontecer, e no que está em suas entrelinhas.
        Particularmente, eu nunca vi nada igual. Alguns podem considerar exagero da minha parte. Garanto o meu respeito às opiniões adversas; mas minha aclamada postagem se baseia no que considero um primor de resgate do terror e/ou suspense como forma de expressão das agruras da humanidade, ou como face até do real, do passível de se tornar vivo, como bem era retratado, por exemplo, nas obras de Edgar Allan Poe.

Edgar Allan Poe era o Poeta da Morte e do Terror.
         Por isso tudo é que Christiane me assusta muito mais do que Jason ou Freddy Krueger. Aquela magrela menina, de media estatura, de pernas finas, de olhar doce, chorosa e de caminhar adolescente, é o terror vivo da existência humana. Sobre estas considerações é que a película irá se justificar.

Christiane: Como esta jovem poderia assustar?

        Enfim, se a curiosidade deve se centrar no filme a este momento, eis então que rapidamente, ainda que com toda dificuldade possível, tentarei então abordar alguns pontos importantes da obra. Em primeiro lugar, a fotográfica e os quadros do filme por durante todos os seus noventa minutos de execução, são fantásticos. A Trilha sonora de do francês Maurice Jarre é sensacional, causando a cada minuto, a partir de uma balada de horror, um tormento incomensurável.

Maurice Jarre e sua música atormentadora.
         Não quero me alongar muito mais, vou direto ao centro da história. Esta, narra a triste história da família Genessier, que após um acidente de carro, acabam tendo toda a sua trajetória transmutada. Christiane, filha do aclamado cirurgião plástico Dr. Genessier, acaba tendo sua face desfigurada neste infeliz acidente do destino. Bela jovem era ela. Agora sua face não era mais do que uma carne crua e queimada.
O Cirurgião e Pai de Christiane: Dr. Genessier.
         Não, isso não nos aparece no filme. Somos poupados. E por este artificio é que o filme se torna cada vez mais acabrunhante. A Cada minuto queremos ver o rosto da bela Christiane. Deparamo-nos então com, talvez, o maior efeito de terror de todo o filme: Uma mascara, aparentemente de silicone, ou qualquer material cirúrgico. Ora, uma mascara incolor poderia assustar?! Sim, e muito!

Uma Mascara sem expressão.

       Na película há sempre um jogo entre a escuridão da casa dos Genessier e o andar fantasmagórico de Christiane com sua mascara protetora que muito lembra os efeitos obscuros do Expressionismo Alemão, com obras como " O Gabinete do Dr.Caligari", de Robert Wiene, rodado em 1920, que certamente inspirou o jovem Georges Franjou nos tempos de Cinemateca . 

O Jogo da Escuridão no " Gabinete do Dr. Caligari": Traço fortíssimo do Expressionismo Alemão.
Christiane na escuridão de sua mansão: A Claridade estava somente no seu rosto e na sua manta fantasmagórica.

            Mas eu sei que devem estar me perguntando: Qual o fio condutor da obra?! Sim, acontece que o Dr. Genessier, inconformado com a atual situação da filha, uma jovem agora sem futuro, desolada naquela Paris onde pululava a beleza e o ardor da juventude, aquela sua menina confinada dentro de sua enorme mansão, vai então elaborar uma maneira cirúrgica, obviamente antiética, para retirar a pele facial do rosto alheio e transportá-lo para sua filha, sem que este corpo novo a recuse.
      Obviamente que esta “transferência de pele facial” não se daria de forma pacifica. Para isto, o Dr. Genessier se utiliza dos dotes de sua fiel enfermeira, a belíssima Louise que vai até Paris para aliciar jovens e belas garotas cujo tipo físico facial se assemelha ao de Christiane. Aqui há outra grande sacada do cineasta Franju: Nestas situações, há sempre uma situação de lesbianismo sempre dissimulada. Louise vai até os cafés de Paris, até os cinemas, e sempre através de uma palavra doce, consegue atrair a todas as jovens para seu nefasto fim. Apesar disto, como em todo o movimento da Nouvelle Vague, Franju também em sua obra dá a mulher um papel crucial e de destaque em toda a película. Aliás, elas são o centro de tudo. 
Louise: A Sedução e a Morte em um dissimulado lesbianismo.

          Louise é uma mulher decidida, e todas as jovens que por ela são aliciadas, são jovens garotas com dezoito anos, sozinhas em Paris, assistindo filmes no Cinema – Uma Metalinguagem assumida – curtindo a vida e a liberdade sexual a todo ardor comum na Paris à época. Em outros momentos, também veremos como a mulher será retratada em toda a sua liberdade possível, ainda que em situações complicadas.
         Após aprisionar estas jovens, o Dr. Genessier começa as suas experiências, que sempre acabam mal fadadas. Nenhum daqueles rostos, ou daqueles tecidos, consegue se adaptar ao rosto de Christiane, que sempre acaba necrosando, e fazendo com que aquela volte a usar sua mascara tão simples, e ao mesmo tempo, tão metaforicamente horrenda. E à medida que os insucessos ocorrem, o cirurgião cada vez mais se desespera. Na mesma proporção são os cadáveres acumulados e enterrados em um tumulo onde supostamente estaria enterrada a sua filha Christine. Sim, isto porque após o acidente, o cirurgião fingira que sua filha havia morrido, para em sua paz, tentar reconstruir, sem tormentos, a vida daquela.

O Rosto perfeito da bela Chistiane após uma das muitas cirurgias...

Contudo a Necrose vem logo em semanas...
E com isso também a decepção de seu pai e sua mascara novamente..
       Paralelamente a esta vida particular, Genessier é um médico aclamado, palestrante, e um ótimo cirurgião. Em algumas cenas vemos como ele é atencioso aos pacientes do Hospital em que trabalhar. É um sujeito frio, mas correto. Este também é um ponto fortíssimo da obra. Genessier é humano, não é um personagem estereotipado, sem caráter e com a maldade aflorando a alma. É um homem atormentado pelo amor a sua filha, e cada vez mais pragmático em seus objetivos. Difícil de aceitar e justificar eu sei, mas enfim, é o que Genessier acaba se tornando.

Genessier: Um otimo pai e um excepcional médico. Um ser humano.
           Seus planos passam a se encontrar em dificuldade, quando a jovem Christiane não aguentando mais o enclausuramento naquela mansão escura, fria e doentia, acaba ligando para seu antigo namorado, também médico e auxiliar de seu pai, e a duras palavras assobiadas de fundo de suas cordas vocais, pronuncia: “Jacques...”. 

Ao telefone, o suspiro: "Jacques.."
           Cena fabulosa e agoniante esta, de forma que o filme então entra em sua fase final, quando a polícia começa a investigar indícios sobre a vida particular do cirurgião e o sumiço das moças de Paris; enfim, o que poderia haver de comum. 
         Neste momento uma jovem também belíssima chamada Paulette entra em ação. Esta é uma libertina jovem, que em sua cena inicial é demonstrada em apelos na cadeia para ser libertada. Para então o ser, o investigador arma um esquema para ela se colocar dentro do Hospital do Dr. Genessier visando descobrir algo. 
         Nenhum resultado para a Policia, mas ela acaba sendo também aliciada sem perceber por Louise na saída do hospital. Enfim, em uma das cenas mais fabulosas do filme, ela se acorda em uma maca de operação na casa do Dr. Genessier, e caminhando como um fantasma alucinado caminha a jovem Christiane atormentada. Aos gritos, Paulette lhe suplica a vida, pensando que encontraria a morte. 
       Mas a surpresa acontece: Christiane a solta, e ainda por cima assassina Louise e solta uma enormidade de cachorros – que eram utilizados por seu pai em larga escala para experimentos científicos – que acabam atacando seu pai o Dr. Genessier, e em um final belíssimo e absurdamente poético, Christiane com sua mascara, caminha nos jardins de sua mansão, e em seus ombros, pombos também libertos por ela, a seguem para um caminho que não se sabe qual destino.

Os cachorros experimentais são soltos: O Dr. Genessier pagará por seus pecados.
E os pombos apesar de libertos, não querem largar Christiane: Ela também desejou voar dalí.
Foi então que ela voou, mais sozinha do que nunca: Com sua face branca e vestidos brancos compridos.
            Enfim, como se pode perceber, o enredo não é nada fora do comum, mas, o absurdo e fantástico é justamente o modo como isto tudo é levado a cabo, cena a cena, dialogo a dialogo, respiração a respiração. Os diálogos são altamente significativos, as explosões de sentimentos, os rompantes de agonia de Christiane, a anunciação da violência por parte de Dr. Genessier sempre se anunciando, são algumas características que irrompem da obra para estas simples e descomedida postagem.
        Não há mais nada o que dizer. Até porque não consigo ultrapassar mais.
Dos Olhos mascarados de Christiane se anuncia a menção de que você deve assistir a película para entender, concordar, ou refutar tudo o que foi dito acima. Só não deixe de assistir, e tirar suas próprias conclusões sobre este filme surreal e fantástico filme de terror cujo enredo pode ser tão próximo a nossa realidade, ou sobre um filme de terror que não causa muito medo.
Christianne: Grandes olhos em destaque em meio a escuridão e a brancura.
        
         De uma coisa eu sei, esta película me agradou demais. Agora, pode ser que ao ver uma pessoa com mascara de silicone eu sinta ou não medo, mas, pensarei sempre, que por trás da mascara, os olhos agonizantes de Christiane podem estar à espreita. Espero, que por detrás da fantasia e de frente a realidade, nunca que me apareça na vida, verdadeiros olhos sem face – Les Yeux sans visage. 

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...