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domingo, 21 de outubro de 2012

A Magia do Trem no Cinema: A história do sucesso começa nos trilhos de uma estação...


          50 segundos.  Menos do que 1 minuto. Foi o tempo exato do susto das pessoas, que aos gritos, procuravam a saída mais próxima daquele porão.  Era um porão de um salão de café em Paris, no remoto dia 28 de dezembro de 1895. E o susto tem como culpados os irmãos Lumiere, que naquela noite, demonstravam ao público que ali se apinhava, aquela que é considerada a primeira projeção cinematográfica da História.

         Custando um franco, as pessoas tiveram a oportunidade de conferir a filmagem de um trem chegando ao seu destino, sua estação, naquele pequeno curto intitulado “A Chegada do Trem na Estação”. E com isso, se assustaram, pois a impressão causada era a de que o trem estava disposto a invadir a sala de projeção.
         Após o susto, a admiração. O Cinema. O Trem. Eis uma relação antiga e aclamada em Hollywood. Desde suas origens, portanto, até os dias atuais, ainda que a “era de ouro” desse meio locomotivo já tenha passado.
         Quem teve a oportunidade de assistir a película “Hugo” (2011) do diretor Martin Scorsese, pode visualizar o dito “susto” e o fascínio que as pessoas no inicio do século XX nutriam pelos trens. Eram parte pratica da vida daquelas pessoas que, como afirma o historiador Jean Pierre Fichou, sempre tiveram como um de seus princípios o chamado “Fator movimento”, um dispositivo que fez com que, historicamente, dos colonos desbravadores até os modernos criadores dos carros, orientassem suas vidas no sentido do encurtamento do tempo e do espaço.
         Aquela altura, o principio do século XX, quando os carros ainda não eram acessíveis a todos, o trem era então o meio de locomoção mais popular, e por isso então o mais querido por todos.
         Coube ao Cinema então, popularizar ainda mais esse meio de locomoção, levando películas a tela com envolvimento direto com o mesmo. Poderíamos citar inúmeros filmes que se passam dentro de trens, ou cuja temática perpassa diretamente pelos mesmos, em alguns casos até, na qual os trens passam até a desempenhar praticamente um papel de protagonismo na película, mas a titulo de curiosidade, citaremos apenas alguns casos.

        Talvez o exemplo mais paradigmático que possa ser dito, é aquela oferecida pela película “A General” (1926) do grandioso comediante Buster Keaton, na qual, o trem exerce praticamente um protagonismo dentro da história. Buster Keaton, que interpreta o trapalhado maquinista Johny Gray, nos leva a uma peculiar versão em torno da guerra civil americana, na qual somos apresentados aos conflitos, através da perspectiva do movimento: percorremos Norte e Sul dos Estados Unidos por meio da “menina dos olhos” de Gray, o seu trem de nome “A General”, que é praticamente uma personagem importantíssima na película, sem a qual o filme não teria sentido.

         
    Voltando um pouco mais atrás, quase dez anos após a projeção dos irmãos Lumiere, encontramos também aquele que é considerado o primeiro grande “western” da história do Cinema, a película “O Grande roubo de Trem” (1903) dirigido por Edwin Potter, com duração de 12 minutos, na qual somos levados a uma breve historia de um assalto feito por ladrões de comboios. É talvez o primeiro grande filme de ação da história.

         Enfim, como dito, outros tantos sido citados, pois certamente a História do Cinema americano perpassa antes de tudo pelos trilhos de uma estação e pela locomoção de seus trens. 

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

As Mulheres na Comédia durante a era do Cinema Mudo: Coadjuvantes e Raridades dentro de um espaço predominantemente masculino


          Charles Chaplin. Buster Keaton. Harold Lloyd. Todos nós conhecemos a trajetória da comédia durante o Cinema Mudo, a partir da carreira destes, ou de alguns destes, comediantes. Poderíamos ter citado outros tantos como Laurel e Hardy (que aqui no Brasil ficaram conhecidos como o Gordo e o Magro), Roscoe “Fatty” Arbuckle, Harry Langdon, entre tantos outros que poderiam ser citados. De fato, não foram poucos os comediantes que, infelizmente por descaso do próprio público ou do destino, acabaram não sobrevivendo aos percalços do tempo, sendo esquecidos pela História.
         Como um avido admirador da Comédia em tempos do Cinema Mudo, essa questão é algo que tenho justamente observado no decorrer das minhas leituras, pesquisas, enfim, quando procuro investigar a comédia durante aquela época, e em todos os casos, acabo percebendo que a comédia foi muito mais do que algo reduzido a um pequeno número de grandes comediantes, tendo ficado outros tantos, de qualidade irretocável, a margem dos louros da História do Cinema.
         Dentro justamente dessa constatação, acabou por me sobressaltar outra questão mais surpreendente ainda: a “raridade” da participação feminina – como protagonistas – desse gênero fílmico. E de outra maneira, como as poucas comediantes que existiram, acabaram sendo esquecidas a posteriore.
         O primeiro ponto a ser destacado é a coragem destas mulheres. Há de se pensar que, por mais que o Cinema fosse galgando cada vez mais espaços no decorrer do começo do século XX, ainda havia certa resistência de um publico a aceitar a participação das mulheres dentro de vários gêneros, e na comédia, mais ainda.
         Em um mundo totalmente masculinizado, algumas delas procuraram vencer e quebrar essas barreiras, ingressando numa seara, cujos olhares de admiração e de repulsa se misturavam. Nesse espaço do sorriso masculino, algumas delas souberam pouco a pouco galgarem seus espaços, mas, o quadro que pudemos perceber ainda assim é ínfimo, pelo menos o que chegou a nós. Dessa forma, obviamente que de forma superficial, traço dois perfis da participação feminina no gênero “comédia”: ou elas participavam de filmes de grandes comediantes, como coadjuvantes, servindo como um par romântico para Chaplin, Keaton, entre outros - o que não as impedia de mostrar seu talento, sua graça – ou no mais raro dos casos, conseguiam até encontrar o protagonismo dentro do gênero.

         Comecemos pelo ultimo dos casos citados, pois é de ordem raríssima. De forma paradigmática, cito o caso da comediante Mabel Normand, que atuando durante a década de 1920, conseguiu o status que a leva a ser considerada até hoje a maior comediante da História. Seu talento era tão grande que, em um de seus filmes, chamado “A estranha aventura de Mabel”, a atriz contava com a participação do “coadjuvante” Carlitos, álter – ego de Charles Chaplin, no decorrer da execução da comédia.
         Trabalhando para a Keystone, Mabel não só encenava aos filmes, mas também escrevia e dirigia aos seus próprios filmes, o que demonstra o talento indiscutível dessa, não só para a Comédia, mas como para a toda extensão produtiva do Cinema. Tendo participado como protagonista de uma enormidade de filmes que vão do inicio da década de 1910 até o inicio dos anos 1930, infelizmente Mabel Normand teve um fim trágico de uma carreira que coincidira com o fim de sua própria vida: acabou falecendo por conta de uma tuberculose aos 34 anos de idade.
         Entretanto, Mabel foi realmente uma exceção. Em geral, o que se observou foi justamente o primeiro perfil apontado; moças engraçadíssimas atuando como coadjuvantes de comedias românticas de grandes atores da época, em destaque, aquelas que ficaram conhecidas por terem atuado com Charlie Chaplin. Foram às garotas dos “filmes de” e não propriamente os “filmes dela”. Há uma grande diferença entre essas duas expressões.
         Como dito, as atrizes que ficaram mais conhecidas nesse sentido foram justamente aquelas que ficaram conhecidas como “The Girls Chaplin”; aquelas que serviram como par romântico de Charles Chaplin em suas películas.

        
O Caso mais conhecido então é o da atriz Edna Purviance que atuara em mais de 30 produções de Charlie Chaplin, no decorrer da década de 1920 e 1930. Seu papel de maior destaque foi no filme “O Garoto” de 1922, quando ficou conhecida por suas caras engraçadas de surpresa e de susto, além de sua doçura característica.
         

             Um caso que foge ao caso por não estar situado dentro do gênero comedia, mas que deve ser citado é o da aclamadíssima atriz Lilian Gish. Considerada uma das maiores atrizes de todos os tempos, talvez a maior durante a década de 1910 a 1930, Lilian participara de inúmeros filmes do grande cineasta David Griffith, que em geral eram para serem dramas. Na verdade eram dramas, só que é inevitável não perceber como o talento cômico de Lilian Gish sobressaia nessas obras. Em filmes concebidos parem serem dramas, como os históricos “O Nascimento de uma Nação” de 1915 e “Intolerância” de 1916, Gish dá um show a parte, arrancando risos e gargalhadas ainda hoje em quem porventura procure assistir as películas. Em “Intolerância”, Gish dá um show ao interpretar uma jovem moça da antiga Babilônia, que procura de todas as formas, fugir dos casamentos impostos naquela sociedade eminentemente patriarcal.
         Enfim, se hoje temos inúmeras atrizes – comediantes há se de se mencionar que em outras épocas esse fenômeno foi mais reduzido. Que se citem as causas como machismo da sociedade, conservadorismo, etc. No fim, o que se deve ter, em primeiro e em último caso, é que o sorriso não tem sexo! 

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sábado, 18 de agosto de 2012

Escândalo no Mundo da Comédia: O Caso Roscoe “Fatty” Arbuckle


Pouca gente conhece hoje em dia a este gordinho sorridente da fotografia, que retirava justamente do sorriso, o seu sustento. Mas houve uma época em que Roscoe “Fatty” Arbuckle fora um dos mais populares atores (comediante) do Cinema Mudo. Fatty – apelido que não gostava de carregar fora das telas – geralmente interpretava um tipo de personagem que mesclava a astucia e o jeito desengonçado como traços fundamentais. Aqui no Brasil, o personagem ficou conhecido como “Chico Boia”.
Durante a década de 1910, as películas de Fatty Arbuckle faziam enorme sucesso nos Estados Unidos, a ponto daquele se tornar a maior estrela do momento, recebendo um cache inimaginável a época, que beirava os 1000 dólares por dia, pagos pela Paramount. Sua comédia pastelão, marcada pelas tortas na cara, pelas quedas e pela correria, também se tornaram marcantes por apresentar ao Mundo do Cinema, aquele que é talvez o maior comediante da História: Buster Keaton.

Foi com Fatty Arbuckle (centro da imagem), que Buster Keaton (esquerda) teve a primeira oportunidade no Cinema, após ter saído do circo de variedades. Na película “O Garoto Açougueiro” de 1917, Keaton estreou com Fatty Arbuckle, lançando as bases de uma amizade que se fortaleceria bastante, resistindo aos momentos mais difíceis e controversos da vida de Fatty Arbuckle. Aliás, Fatty Arbuckle não é responsável somente por apresentar Keaton a Comédia no Cinema, mas, ao que se conta, teria sido também responsável pela caracterização da personagem “Carlitos” de Charles Chaplin, quando aquele, ao ingressar nos estúdios Keystone em 1914, teria se inspirado na vestimenta clássica de Arbuckle.
Entretanto, a belíssima carreira artística de Arbuckle, seria indelevelmente manchada por aquele que talvez seja o maior escândalo da história do Cinema. No auge do sucesso, ganhando dividendos absurdos para a época, Arbuckle se viu diante de um ocorrido que ainda que não o tenha levado a prisão, o levou ao esquecimento, e por fim, a morte. 
Em 1921, aproveitando uma folga, Arbuckle segue com mais dois amigos até São Francisco, onde resolve empreender a uma pequena festinha fechada - segundo alguns, uma verdadeira orgia - em um Hotel.  Para tal, convidaram uma enormidade de mulheres, boa parte delas, jovens atrizes que procuravam ingressar no mundo do Cinema. Uma delas, a jovem e promissora Virginia Rappe de 30 anos, que entrara na "Mark Sennett Comedies Corporattion", onde inclusive conhecera e atuara com Arbucke, teria lhe atraído, de modo que resolveram seguir até um dos quartos do Hotel, a fim de se conhecerem melhor. 


Enfim,  o que ocorreu dentro daquele famigerado quarto, não se sabe distinguir o que são verdades ou hipóteses. O Fato em sua face mais crua apresenta uma Virginia Rappe saindo daquele quarto, em um estado de mal estar, tendo sido socorrida por um medico no próprio hotel.  A Atriz morreria três dias depois ao ocorrido, em conta de uma inflamação no peritônio – uma membrana que reveste a região do abdômen – que teria sido causada pela ruptura de algum órgão. 
Como se deu o fato?! Ate hoje não se sabe... O que se evidência é uma serie de versões apresentadas durante os julgamentos de Fatty Arbuckle...
Alguns chegaram a afirmar que o comediante teria introduzido violentamente uma garrafa de champanhe na vagina da jovem atriz, por conta de uma revolta iniciada ao não ter conseguido produzir uma ereção durante a relação sexual. Apontavam que Arbuckle era dado a praticar essas orgias, e constantemente se revoltava por um fraco desempenho sexual.

Por conseguinte, os Estados Unidos se viu envolto a uma serie de julgamentos centrados na figura de Fatty Arbuckle. Seus filmes passaram a ser proibidos de serem exibidos, a imprensa sensacionalista tratava de produzir por sua conta a realidade dos fatos, e ao fim, depois de tumultuados julgamentos, o júri decretou que Arbuckle era inocente de todas as acusações feitas sobre ele. Os julgamentos haviam sido marcados por uma serie de testemunhos falsos efetuados por supostas testemunhas do acontecido, por tentativas de extorsão sobre Arbuckle por pessoas mal intencionadas, e por uma tentativa frustrada do Magnata da Comunicação William Randolph Hearst - aquele que posteriormente inspiraria Orson Welles a produzir a pelicula "Cidadão Kane" em 1941 - de enterrar a carreira de Arbuckle, atraves de noticias plantadas em seus canais e meios midiaticos de teor sensacionalista. 
 Ao fim de tudo isso, Arbuckle estava livre, porém sua carreira estava no fim. Arbuckle só contava agora com o apoio de seus amigos, principalmente de Buster Keaton, que sempre acreditaria em sua inocência, que o convidava assiduamente a voltar a atuar. Arbuckle, cada vez mais renegado pela Indústria da Comédia, acabou se entregando de vez ao alcoolismo, tendo falecido aos 46 anos de idade, em 1933, após um ataque fulminante do coração.
Fato é que até hoje não sabemos a verdade. Virginia Rappe faleceu sem se pronunciar e Arbuckle se defenderia até o resto de sua vida das acusações. Com efeito, a unica certeza, é que o saldo ao fim desta emblematica história, é o choro, o pranto. Duas mortes prematuras. 
Como alguns costumam dizer: esta serie de acontecimentos, marcou a época em que Hollywood parou de sorrir. Foi-se o riso e ficou a dúvida.
Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Artista e a Invenção de Hugo Cabret: O Oscar se rende aos primórdios do Cinema.


          

             Em pleno alvorecer da Era 3D eis que o Cinema clássico mostra a sua cara. E da melhor forma possível. Estamos nos adaptando a uma nova era do Cinema: a dos filmes cada vez mais projetados na Terceira Dimensão. É claro que este fenômeno não é tão novo assim; Já desde os anos 1980, alguns filmes eram projetados para serem vistos com aqueles remotos óculos escuros feitos com base de plástico. Mas nada comparável ao fenômeno evidenciavel nos dias de hoje. A Explosão e, sobretudo a aceitação da constatação deste novo modus operandi de produção cinematográfica se deu com o filme “Avatar” de James Cameron, do ano de 2009, que surpreendeu o mundo com a beleza do que o espaço 3D poderia oferecer ao Cinema no campo da fotografia, e como também da percepção – interatividade – do público frente ao filme que está sendo exibido.

“Avatar” : o 3D ganha o público.

            Daí em diante o 3D ganhou o público. Muitos são os diretores e os filmes que procuram se adequar a esta nova exigência, a este novo chamariz de público. Cada um de nós quer se sentir cada vez mais parte do filme, do sonho produzido. Alguns filmes conseguem, outros não. Alguns diretores exageram na medida em que direcionam o filme totalmente ao 3D, tornando-o um verdadeiro escravo do mesmo.  Contudo, felizmente esta não é a realidade de boa parte dos filmes voltados ao 3D. Os Cineastas têm percebido cada vez mais que o 3D deve ser utilizado como parte complementar, artifício de qualidade, praticamente uma Cereja no Bolo que deve rodear o roteiro e a produção do filme. Deve ser um ampliador das qualidades expostas na obra.

           Sobre isso, o Oscar de 2012 nos brindou talvez com uma obra que tenha conseguido extrair o máximo – junto com Avatar suponho - desta relação do Cinema com o 3D: A Invenção de Hugo Cabret, de direção de Martin Scorsese, 2011.

A Invenção de Hugo Cabret; o 3D para os primórdios do Cinema.

            Scorsese realmente soube extrair do 3D o que ele poderia oferecer. Os artifícios visuais, a belíssima fotografia, e uma interação com um público que se apresentou bastante intensa em toda a obra. Há momentos do filme que você se encontra “frente a frente” com o personagem, tal é a aproximação deste com você.    Curiosamente, o filme também parece querer trazer a tona, um paralelo cada vez mais atual, entre uma remota era romântica do Cinema e o mundo atual do 3D. Se na película, Scorsese nos mostra como, naquele dia 28 de dezembro de 1895, os expectadores do salão café em Paris se encontravam estupefatos com aquele rolo de filme exibindo a chegada de um trem, assustando-se com a proximidade do mesmo com gritos; não é tão diferente, a surpresa e o regozijo do público frente a essa nova dimensão explorada: o 3D. Neste sentido, se sorrimos ao ver as pessoas se assustando com o Trem, também não é de se surpreender com pessoas na sala de Cinema, fugindo do próprio Trem de Cabret que ameaça sair da tela do Cinema.

           O tom é o mesmo. Dentro desse mesmo bojo, outro aspecto primordial aflora: a curiosa emergência de um retorno as origens. Sim, 2012 foi o ano da belle époque do cinema moderno. Causa-nos surpresa constatar que “A Invenção de Hugo Cabret” de Scorsese e também o “filme mudo” de nome “O Artista” do cineasta francês Michel Hazanavicius, tenham juntos, abocanhado 10 estatuetas, praticamente quase tudo que foi oferecido pela academia.
            O Artista levou os principais prêmios da noite, entre eles: Melhor Filme, Melhor Diretor para Hazanavicius, Melhor Ator para Jean Dujardin, Melhor figurino e Melhor Trilha Sonora Original. Quanto a Hugo, seu único e principal concorrente na noite, levou tudo que podia ganhar: Fotografia, Direção de Arte, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais. No critério de desempate, O Artista levou a melhor, pois das suas 10 indicações, levou 5, enquanto que Hugo que também levou 5, havia recebido 11 indicações.

Hugo e o Artista: 10 estatuetas para o Cinema Clássico

     Certa audácia me leva a pensar que por terem sido produzidos no mesmo ano, a produção de um evitou que a de outro abocanhasse quase tudo. Não porque neste ano não existissem paralelamente ótimas películas. Muito pelo contrário, junto com esses, competiam grandes filmes de monstros sagrados do Cinema, mas porque o tom de “novo”, de “inovação”, de reflexão que estas duas películas trouxeram, parece ter fascinado não somente aos velhinhos da academia, mas a todo um público em geral.
Este “cheiro de novo” é justamente o resgate do “velho”, de um romantismo, de um sabor de cinema produzido nos primórdios do Cinema. 2012 será lembrado justamente com este marcador: o Ano que Hollywood se rendeu as suas origens.
            A Invenção de Hugo Cabret, película baseada no livro de Brian Selznick, nos leva justamente as origens do Cinema. É um filme a que podemos rotular como uma película puramente metalingüística. É um filme sobre vários filmes. É um filme sobre vários gêneros filmes. É um filme sobre varias personalidades do Cinema no decorrer das décadas.  Sob o pano de fundo está à história do jovem órfão de pai e mãe, Hugo Cabret, um garoto que sobrevive de pequenos furtos, e que vive num grande relógio localizado numa estação de Trem em París.
            Não vou contar os detalhes do filme, para não estragar a oportunidade de quem ainda irá assistir. Quando a jovem Isabelle o conhece, afirma ela que nunca assistiu a um filme porque seu tio Georges nunca permitiu; No momento, ela está apaixonada pelas aventuras de David Copperfield. Ora, nesse ponto, também parece um aspecto de metalinguagem, pois, o personagem Hugo também remonta em muito as personagens órfãs e pobres do escritor inglês Charles Dickens. Não é, portanto só o Cinema quem é resgatado nesta película.
          

Hugo: O Cinema sobre o Cinema.
           
            Enfim, Hugo nos leva a uma fascinante aula sobre Cinema. Sobre suas origens, suas tendências e vertentes, e, sobretudo sobre seus grandes pais e como não devemos esquecê-los. A Metalinguagem da película nos leva a um garoto pendurado em um grande relógio, assim como o comediante Harold Lloyd em “Safety Last” de 1923, faz referencias claras a Charlie Chaplin – como a moça florista no centro da estação, clara alusão ao filme “Luzes da Cidade” de 1931 – e também a Buster Keaton – com as gags ou estripulias do proprio Hugo em suas fugas na estação -.

            A própria personagem do comediante Sacha Baron Cohen é uma homenagem aos caricatos policiais tão comuns nas comédias do Cinema Mudo, seja de Charlie Chaplin, Buster Keaton ou algum outro comediante.  Da metalinguagem, abre-se ainda um livro para se referir a Griffith com seu clássico “Intolerância” de 1916, a um dos primeiros filmes do Cinema chamado “O Grande Assalto de Trem” do ano de 1903, e outras tantas películas.
Safety Last de Harold Lloyd: Uma referência mais do que clara em Cabret.
          Hugo nos leva ao universo do esplendor de Hollywood; Uma fase áurea da maquina de sonhos, do fazer é permitido. Época das grandes películas com trens, grandes relógios e inovações da tecnologia. Também do estranhamento e da reflexão frente a um mundo cada vez mais autômato. Daí a sensacional referencia ao autômato recriado no filme, que também nos faz recordar ao “robô Maria” da película “Metropolis” de Fritz Lang, do ano de 1927.

Metrópolis: O Autômato sempre esteve no pensamento humano

            O Filme é, em suma e principalmente, uma ode a Georges Meliés, este grande visionário e mágico do Cinema. Pai dos efeitos especiais, Meliés é ainda hoje pouco reconhecido, talvez por, como o próprio filme retrata, grande parte de suas obras terem sido perdidas com o tempo. A Grande sacada da obra é justamente essa: nos leva ao universo romântico do Cinema se utilizando de toques de drama, do olhar de duas crianças estupefatas ao adentrar em um mundo ainda não percebido e compreendido.

Ben Kingsley como Georges Meliés: Homenagem sensacional.
 
          Hugo certamente atingiu seus objetivos. De igual maneira é a película “O Artista” de Michel Hazanavicius. É um Filme mudo. Conta a história de um grande ator dramático e de musicais, interpretado pela grande surpresa Jean Dujardin, que se encontra amedrontado pela recente chegada do Cinema Falado. Ora, esta foi uma realidade mais do que comum e assustadora para muitos dos artistas da era do Cinema Mudo. O Pertencimento ao gênero mudo fazia com que muitos deles não acreditassem ou suspeitassem do gênero falado; caso comum disso foi à difícil passagem de Buster Keaton para o gênero falado; Charles Chaplin também sofreu, mas soube reverter a situação. Algumas atrizes, como Mary Pickford, a queridinha do Cinema Mudo, também tinham medo da reação do público frente as suas vozes, algo que poderia lhes diminuir a receptividade.
          
 
O Artista: Os principais prêmios da noite para o Cinema Mudo
     
           Enfim, o Artista retrata sobre tudo isso. É também uma homenagem a todo este contexto romântico de Hollywood e também toda as dificuldades na fase de assimilação deste rompimento com o Cinema Mudo. O Artista se tornou o primeiro grande filme estrangeiro a se tornar protagonista das premiações da academia. Algo realmente bastante surpreendente. 
         Ambos os filmes são marcantes, e com certeza delineam um novo processo na história do Cinema. Nada mais justo então que as premiações... Vida Longa ao Cinema!


Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Les yeux sans visage.


          Desde pequeno sempre me acostumei a ouvir através de um provérbio popular que a expressão dos olhos revela as profundezas mais intimas da alma humana. Por assim dizer, sempre fui levado a procurar no artifício da compreensão e da observância do olhar uma infinidade de sentimentos que nos são escondidos, nublados pela carapuça humana.
         Talvez seja esta a faculdade mais incrível do olhar humano. Não é a toa que o simples ato do cobrir dos olhos esconde a face do sujeito que a possui. Ainda que os olhos sejam apenas uma pequena parte da nossa face ele assim se faz. Contudo, nunca deixará de ser o espelho da nossa alma.
         Se você almeja conhecer a natureza de alguém procure perscrutar sobre o que os seus olhos podem lhe revelar. Com grande margem de acerto, os olhos nunca lhes enganaram, mesmo que camuflados pelo mais experto ser humano.
         Os Olhos de Buster Keaton nunca enganaram a ninguém. Muito menos a ele mesmo. Keaton sabia da força da sua expressão facial, compreendia como a introspecção do seu olhar fazia emergir em seu público uma gama infindável de emoções, sentimentos diante de suas personagens.

Keaton parecia ter olhos de vidro.
         Mas os olhos de Keaton revelam muito além de suas personagens. Revelam o próprio Keaton. Nesse sentido não há diferenciação entre a personagem e/ou o ser humano. The Great Stone Face, ou o Homem que não sorria como era conhecido, é a metáfora viva dos seus olhos que revelam a tristeza e melancolia de uma vida atribulada desde a infância, de sofrimentos, vícios e tormentas que aparentemente perfazem o quadro geral da vida de todo gênio. Da minha parte, sempre acreditei que todo gênio sempre tem de ser atormentado. Se não for, não foi gênio.
         Keaton teve nos seus olhos seu maior artifício artístico. Até por isso chamou a atenção doutros gênios contemporâneos a sua época, que fascinados com a capacidade de reflexão acerca dos enigmas daquele olhar, se propuseram a estudá-lo, pensá-lo, refleti-lo.
         Se os olhos são o espelho dos sentimentos, esta faculdade chamaria a atenção dos grandíssimos surrealistas, o pintor Salvador Dalí e o escritor Federico Garcia Lorca, ambos espanhóis.
         O movimento surrealista desejava imprimir nas suas artes um rompimento com o racionalismo cada vez mais vigente na sociedade, procurando um estudo das emoções, o manifestar do inconsciente, enfim, o não – racionalizar é deixar-se sentir tudo o que é da esfera sentimental.
         Assim sendo, Lorca e Dalí que manifestavam especial interesse também em relação ao Cinema, a ponto de participarem ativamente do clássico curta metragem chamado O Cão Andaluz do também espanhol Luis Buñuel, se detiveram ao estudo do enigmático olhar de Buster Keaton.
         Com rara inteligência e singular beleza, jamais alguém conseguiria definir com tamanha eficiência o olhar de Keaton, como fora efetuado por Frederico Garcia Lorca.
         Para Lorca: “Os seus olhos infinitamente tristes... são como o fundo de um copo, como os de uma criança louca. Muito feios. Muito belos. Olhos de avestruz. Olhos humanos com a dose certa de melancolia."
         Desta obsessão de Lorca como também de seu amigo Salvador Dalí em perscrutar a essência absurdamente surreal que permeava os olhos de Keaton, nascia uma serie de escritos, poemas e cartas trocadas entre ambos os surrealistas.
         Nestes escritos, Lorca e Dalí se perguntavam sobre os limites da arte. Indagavam-se sobre o fato de ser possível realmente creditar à arte a capacidade de imitar a vida, como também a vida imitar a arte. Até que ponto Buster Keaton representava uma personagem? Até que ponto representava a si mesmo?

Keaton: Personagem ou Realidade?
      Num desses primeiros escritos, em 1926, Dalí escrevera para Lorca, um escrito denominado “El Casamiento de Buster Keaton”, onde para ele, ao contrário do que acreditava Lorca, era possível perceber o Keaton fora das telinhas em comparação as suas personagens. O Keaton que em vida pessoal manifestava inúmeros problemas, como o vicio no alcoolismo, casamentos com moças fúteis, para Dalí nada tinha a ver com o Keaton mostrado as telas.

El Casamiento de Buster Keaton, por Dalí.
         Contudo para Lorca isso não era verdade. Acreditava-o que todas as contradições e os problemas revelados na vida de Keaton emergiam em uma figura unitária portadora de um olhar único: triste e objetivo. Keaton, artista, ser humano e personagem, se revelava a partir de seu olhar, sendo impossível assim separar ambos os campos.
         Desta maneira, Lorca escreveria em resposta a Dalí, o poema chamado “El Paseo de Buster Keaton” para mostrar justamente o que acreditava: que só havia um Keaton, de olhos infinitamente tristes, reveladores de toda a sua dimensão.

El Paseo de Buster Keaton, por Lorca.
          O Fato é que ambos os amigos trocaram inúmeras correspondências no decorrer de certo tempo, analisando com toda vivência e profundidade o que para eles era a essência de Keaton. Talvez nenhuma outra personagem, ou artista, tenha chamado tanta atenção de grandes gênios da intelectualidade como conseguira Keaton. Justamente porque ele tinha este dom ou característica especial citada no decorrer de todo este comentário. Era difícil entender a melancolia de Keaton. Entender a tristeza nos olhos de alguém que porventura é apontado como o maior comediante da história do Cinema. Com certeza acredito que sua genialidade aparece deste ponto: Keaton é genial porque é humano. Recria sorrisos, mas é antítese pura. Não sorri. No intimo chora. Já disse, todo palhaço chora antes de dormir. Por ser tão profundamente real e humano que Keaton porta toda sua dimensão.
         Não tenho pretensão nenhuma com esta postagem. Aliás, não almejo até ter conseguido a proeza de ter conseguido me expressar ao menos bem, e ter assim ter tido a oportunidade de passar um pouco do que Lorca e Dalí discutiam.
         Enfim, não há o que discutir. A única certeza que temos realmente é que os olhos são o espelho da alma. 

Buster já idoso: Uma vida atormentada.
        Sendo assim:
Nunca houve um espelho tão revelador como os de Keaton.
Olhos sem face.
Les yeux sans visage.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

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