quarta-feira, 6 de abril de 2011

Les yeux sans visage.


          Desde pequeno sempre me acostumei a ouvir através de um provérbio popular que a expressão dos olhos revela as profundezas mais intimas da alma humana. Por assim dizer, sempre fui levado a procurar no artifício da compreensão e da observância do olhar uma infinidade de sentimentos que nos são escondidos, nublados pela carapuça humana.
         Talvez seja esta a faculdade mais incrível do olhar humano. Não é a toa que o simples ato do cobrir dos olhos esconde a face do sujeito que a possui. Ainda que os olhos sejam apenas uma pequena parte da nossa face ele assim se faz. Contudo, nunca deixará de ser o espelho da nossa alma.
         Se você almeja conhecer a natureza de alguém procure perscrutar sobre o que os seus olhos podem lhe revelar. Com grande margem de acerto, os olhos nunca lhes enganaram, mesmo que camuflados pelo mais experto ser humano.
         Os Olhos de Buster Keaton nunca enganaram a ninguém. Muito menos a ele mesmo. Keaton sabia da força da sua expressão facial, compreendia como a introspecção do seu olhar fazia emergir em seu público uma gama infindável de emoções, sentimentos diante de suas personagens.

Keaton parecia ter olhos de vidro.
         Mas os olhos de Keaton revelam muito além de suas personagens. Revelam o próprio Keaton. Nesse sentido não há diferenciação entre a personagem e/ou o ser humano. The Great Stone Face, ou o Homem que não sorria como era conhecido, é a metáfora viva dos seus olhos que revelam a tristeza e melancolia de uma vida atribulada desde a infância, de sofrimentos, vícios e tormentas que aparentemente perfazem o quadro geral da vida de todo gênio. Da minha parte, sempre acreditei que todo gênio sempre tem de ser atormentado. Se não for, não foi gênio.
         Keaton teve nos seus olhos seu maior artifício artístico. Até por isso chamou a atenção doutros gênios contemporâneos a sua época, que fascinados com a capacidade de reflexão acerca dos enigmas daquele olhar, se propuseram a estudá-lo, pensá-lo, refleti-lo.
         Se os olhos são o espelho dos sentimentos, esta faculdade chamaria a atenção dos grandíssimos surrealistas, o pintor Salvador Dalí e o escritor Federico Garcia Lorca, ambos espanhóis.
         O movimento surrealista desejava imprimir nas suas artes um rompimento com o racionalismo cada vez mais vigente na sociedade, procurando um estudo das emoções, o manifestar do inconsciente, enfim, o não – racionalizar é deixar-se sentir tudo o que é da esfera sentimental.
         Assim sendo, Lorca e Dalí que manifestavam especial interesse também em relação ao Cinema, a ponto de participarem ativamente do clássico curta metragem chamado O Cão Andaluz do também espanhol Luis Buñuel, se detiveram ao estudo do enigmático olhar de Buster Keaton.
         Com rara inteligência e singular beleza, jamais alguém conseguiria definir com tamanha eficiência o olhar de Keaton, como fora efetuado por Frederico Garcia Lorca.
         Para Lorca: “Os seus olhos infinitamente tristes... são como o fundo de um copo, como os de uma criança louca. Muito feios. Muito belos. Olhos de avestruz. Olhos humanos com a dose certa de melancolia."
         Desta obsessão de Lorca como também de seu amigo Salvador Dalí em perscrutar a essência absurdamente surreal que permeava os olhos de Keaton, nascia uma serie de escritos, poemas e cartas trocadas entre ambos os surrealistas.
         Nestes escritos, Lorca e Dalí se perguntavam sobre os limites da arte. Indagavam-se sobre o fato de ser possível realmente creditar à arte a capacidade de imitar a vida, como também a vida imitar a arte. Até que ponto Buster Keaton representava uma personagem? Até que ponto representava a si mesmo?

Keaton: Personagem ou Realidade?
      Num desses primeiros escritos, em 1926, Dalí escrevera para Lorca, um escrito denominado “El Casamiento de Buster Keaton”, onde para ele, ao contrário do que acreditava Lorca, era possível perceber o Keaton fora das telinhas em comparação as suas personagens. O Keaton que em vida pessoal manifestava inúmeros problemas, como o vicio no alcoolismo, casamentos com moças fúteis, para Dalí nada tinha a ver com o Keaton mostrado as telas.

El Casamiento de Buster Keaton, por Dalí.
         Contudo para Lorca isso não era verdade. Acreditava-o que todas as contradições e os problemas revelados na vida de Keaton emergiam em uma figura unitária portadora de um olhar único: triste e objetivo. Keaton, artista, ser humano e personagem, se revelava a partir de seu olhar, sendo impossível assim separar ambos os campos.
         Desta maneira, Lorca escreveria em resposta a Dalí, o poema chamado “El Paseo de Buster Keaton” para mostrar justamente o que acreditava: que só havia um Keaton, de olhos infinitamente tristes, reveladores de toda a sua dimensão.

El Paseo de Buster Keaton, por Lorca.
          O Fato é que ambos os amigos trocaram inúmeras correspondências no decorrer de certo tempo, analisando com toda vivência e profundidade o que para eles era a essência de Keaton. Talvez nenhuma outra personagem, ou artista, tenha chamado tanta atenção de grandes gênios da intelectualidade como conseguira Keaton. Justamente porque ele tinha este dom ou característica especial citada no decorrer de todo este comentário. Era difícil entender a melancolia de Keaton. Entender a tristeza nos olhos de alguém que porventura é apontado como o maior comediante da história do Cinema. Com certeza acredito que sua genialidade aparece deste ponto: Keaton é genial porque é humano. Recria sorrisos, mas é antítese pura. Não sorri. No intimo chora. Já disse, todo palhaço chora antes de dormir. Por ser tão profundamente real e humano que Keaton porta toda sua dimensão.
         Não tenho pretensão nenhuma com esta postagem. Aliás, não almejo até ter conseguido a proeza de ter conseguido me expressar ao menos bem, e ter assim ter tido a oportunidade de passar um pouco do que Lorca e Dalí discutiam.
         Enfim, não há o que discutir. A única certeza que temos realmente é que os olhos são o espelho da alma. 

Buster já idoso: Uma vida atormentada.
        Sendo assim:
Nunca houve um espelho tão revelador como os de Keaton.
Olhos sem face.
Les yeux sans visage.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

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