sábado, 29 de setembro de 2012

Fahrenheit 451: Quando os livros se tornam "subversivos inimigos" do Estado


          Em 1933, quando o Partido Nazista assumiu o poder do Estado Alemão, ocorreu em praça pública, diante de toda a população alemã, um evento de grande teor ideológico chamado Bücherverbrennung”.  Esta longa expressão expressa em sua tradução, uma prática que de certo é até bastante comum no decorrer da história: a chamada “queima de livros”.
         
 A Inquisição, durante o seu apogeu, no limiar da Idade dita “Moderna”, procurava não somente queimar aqueles considerados desviadores de conduta – os hereges – mas como também, enxergava nos livros, os símbolos potenciais daqueles desvios; dai que foi uma prática bastante comum, principalmente na América espanhola, a queima desses livros.
         Em ambos os casos, é a vontade inata de aniquilar qualquer conteúdo que seja considerado subversivo as ideias dominantes que se deseja efetuar; Logo, os livros, obras literárias de todo o gênero, se tornam verdadeiros inimigos do Estado, da Igreja, ou qual for a Instituição de Controle que se verifique a época. 

        
        É com esta premissa histórica que o escritor Ray Bradbury escreve em 1953, um dos maiores clássicos distopicos do século XX: Fahrenheit 451, a temperatura que um livro se arde e se consome.  
         A Obra retrata um futuro não tão distante, em que os livros passam a ser considerados prejudiciais a vida moderna, pois levariam a pensamentos obscuros e desviadores de uma conduta pragmática para se viver em sociedade. Nesse mundo, os bombeiros, cuja profissão exige justamente apagar a manifestação do fogo, assumem paradoxalmente a função de queima-los em praça pública, extirpando-os da população, e em todo caso, prendendo as pessoas que possuem livros escondidos em suas casas.
         



            Essa grande obra literária, foi então transpassada as telas do Cinema no ano de 1966, pelo cineasta francês François Truffaut, de forma excepcional. Na película, assim como no livro, somos levados à ruptura na vida do bombeiro Guy Montag, que passa a se questionar sobre a ordem vigente, sobre a sua profissão, a essência da mesma. Questionando-se sobre isso e outras questões, Guy percebe a inversão dos valores contemporâneos; As pessoas, como a sua própria esposa, satisfazem-se apenas com coisas fúteis, em destaque, uma alienação promovida pela mídia, através dos subterfúgios oferecidos pelos grandes conglomerados televisivos, através de reality shows e etc.
          O Vazio é tão frequente nessa sociedade, que a personagem Mildred Montag, esposa da personagem principal Guy Montag, procura esconder seus medos, só conseguindo dormir através da ingestão de pílulas em grande quantidade, fato que em determinado dia quase a leva ao suicídio. O Curioso é que nesta ocasião, existe um órgão do Estado destinado a remediar tal função: restabelecer a vida física destas pessoas, trocando seu sangue. A esposa de Guy é salva de maneira tão fria, tão burocrática e usual, que demonstra como aquela função era necessária em sociedade, tão comum, era apenas mais uma pessoa a entrar nas estatísticas.

         Enfim, tanto a obra como o filme são de natureza riquíssima, de forma que outras questões poderiam ser aqui citadas, mas para evitar o “maldito spoiler” assim não o farei.            
          Essa postagem vale apenas como uma indicação, uma sugestão para aqueles que se interessem, entre outras tantas coisas que ambos discutem, a refletir sobre o esvaziamento da sociedade contemporânea, e sobretudo o modo como os livros nunca deixarão de ser os verdadeiros recantos da inteligência humana, ainda que vez ou outra, são elevadas ao status de “inimigo outro” das instituições que dominam as esferas do poder em nosso tempo.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

As Mulheres na Comédia durante a era do Cinema Mudo: Coadjuvantes e Raridades dentro de um espaço predominantemente masculino


          Charles Chaplin. Buster Keaton. Harold Lloyd. Todos nós conhecemos a trajetória da comédia durante o Cinema Mudo, a partir da carreira destes, ou de alguns destes, comediantes. Poderíamos ter citado outros tantos como Laurel e Hardy (que aqui no Brasil ficaram conhecidos como o Gordo e o Magro), Roscoe “Fatty” Arbuckle, Harry Langdon, entre tantos outros que poderiam ser citados. De fato, não foram poucos os comediantes que, infelizmente por descaso do próprio público ou do destino, acabaram não sobrevivendo aos percalços do tempo, sendo esquecidos pela História.
         Como um avido admirador da Comédia em tempos do Cinema Mudo, essa questão é algo que tenho justamente observado no decorrer das minhas leituras, pesquisas, enfim, quando procuro investigar a comédia durante aquela época, e em todos os casos, acabo percebendo que a comédia foi muito mais do que algo reduzido a um pequeno número de grandes comediantes, tendo ficado outros tantos, de qualidade irretocável, a margem dos louros da História do Cinema.
         Dentro justamente dessa constatação, acabou por me sobressaltar outra questão mais surpreendente ainda: a “raridade” da participação feminina – como protagonistas – desse gênero fílmico. E de outra maneira, como as poucas comediantes que existiram, acabaram sendo esquecidas a posteriore.
         O primeiro ponto a ser destacado é a coragem destas mulheres. Há de se pensar que, por mais que o Cinema fosse galgando cada vez mais espaços no decorrer do começo do século XX, ainda havia certa resistência de um publico a aceitar a participação das mulheres dentro de vários gêneros, e na comédia, mais ainda.
         Em um mundo totalmente masculinizado, algumas delas procuraram vencer e quebrar essas barreiras, ingressando numa seara, cujos olhares de admiração e de repulsa se misturavam. Nesse espaço do sorriso masculino, algumas delas souberam pouco a pouco galgarem seus espaços, mas, o quadro que pudemos perceber ainda assim é ínfimo, pelo menos o que chegou a nós. Dessa forma, obviamente que de forma superficial, traço dois perfis da participação feminina no gênero “comédia”: ou elas participavam de filmes de grandes comediantes, como coadjuvantes, servindo como um par romântico para Chaplin, Keaton, entre outros - o que não as impedia de mostrar seu talento, sua graça – ou no mais raro dos casos, conseguiam até encontrar o protagonismo dentro do gênero.

         Comecemos pelo ultimo dos casos citados, pois é de ordem raríssima. De forma paradigmática, cito o caso da comediante Mabel Normand, que atuando durante a década de 1920, conseguiu o status que a leva a ser considerada até hoje a maior comediante da História. Seu talento era tão grande que, em um de seus filmes, chamado “A estranha aventura de Mabel”, a atriz contava com a participação do “coadjuvante” Carlitos, álter – ego de Charles Chaplin, no decorrer da execução da comédia.
         Trabalhando para a Keystone, Mabel não só encenava aos filmes, mas também escrevia e dirigia aos seus próprios filmes, o que demonstra o talento indiscutível dessa, não só para a Comédia, mas como para a toda extensão produtiva do Cinema. Tendo participado como protagonista de uma enormidade de filmes que vão do inicio da década de 1910 até o inicio dos anos 1930, infelizmente Mabel Normand teve um fim trágico de uma carreira que coincidira com o fim de sua própria vida: acabou falecendo por conta de uma tuberculose aos 34 anos de idade.
         Entretanto, Mabel foi realmente uma exceção. Em geral, o que se observou foi justamente o primeiro perfil apontado; moças engraçadíssimas atuando como coadjuvantes de comedias românticas de grandes atores da época, em destaque, aquelas que ficaram conhecidas por terem atuado com Charlie Chaplin. Foram às garotas dos “filmes de” e não propriamente os “filmes dela”. Há uma grande diferença entre essas duas expressões.
         Como dito, as atrizes que ficaram mais conhecidas nesse sentido foram justamente aquelas que ficaram conhecidas como “The Girls Chaplin”; aquelas que serviram como par romântico de Charles Chaplin em suas películas.

        
O Caso mais conhecido então é o da atriz Edna Purviance que atuara em mais de 30 produções de Charlie Chaplin, no decorrer da década de 1920 e 1930. Seu papel de maior destaque foi no filme “O Garoto” de 1922, quando ficou conhecida por suas caras engraçadas de surpresa e de susto, além de sua doçura característica.
         

             Um caso que foge ao caso por não estar situado dentro do gênero comedia, mas que deve ser citado é o da aclamadíssima atriz Lilian Gish. Considerada uma das maiores atrizes de todos os tempos, talvez a maior durante a década de 1910 a 1930, Lilian participara de inúmeros filmes do grande cineasta David Griffith, que em geral eram para serem dramas. Na verdade eram dramas, só que é inevitável não perceber como o talento cômico de Lilian Gish sobressaia nessas obras. Em filmes concebidos parem serem dramas, como os históricos “O Nascimento de uma Nação” de 1915 e “Intolerância” de 1916, Gish dá um show a parte, arrancando risos e gargalhadas ainda hoje em quem porventura procure assistir as películas. Em “Intolerância”, Gish dá um show ao interpretar uma jovem moça da antiga Babilônia, que procura de todas as formas, fugir dos casamentos impostos naquela sociedade eminentemente patriarcal.
         Enfim, se hoje temos inúmeras atrizes – comediantes há se de se mencionar que em outras épocas esse fenômeno foi mais reduzido. Que se citem as causas como machismo da sociedade, conservadorismo, etc. No fim, o que se deve ter, em primeiro e em último caso, é que o sorriso não tem sexo! 

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Charlton Heston: Porque interpretar Moises e El Cid é para poucos...



       É mais do que natural que de tempos em tempos, a indústria do Cinema encontre em um ou outro ator o modelo arquetípico de herói que se encaixa com perfeição nos padrões estéticos da época.
       Nos anos 1950 – 1960 não foi diferente, muito pelo contrário, esse fenômeno foi mais acentuado. Numa época em que o chamado “gênero épico” teve seu apogeu, encontrar atores/atrizes que se adequassem perfeitamente ao modelo dramático/heroico que as películas exigiam era algo mais do que necessário.

       Nesse sentido, nenhum outro ator na História de Hollywood conseguiu personificar com tanta perfeição esta procura, como o ator Charlton Heston. Encenando seu primeiro épico, a adaptação do drama histórico de Shakespeare de nome “Júlio Cesar”, dirigida no ano de 1950 por David Bradley, na qual Heston interpreta a Marco Antônio, o jovem ator de 27 anos entraria em definitivo no hall dos grandes interpretes de heróis bíblico-históricos daquele momento em diante.
       Obviamente que a sua vastíssima carreira marcada por filmes de temáticas diversas não se restringe somente a este modelo épico, contudo, sua carreira não deixa de ser marcada hoje em dia, justamente por esses filmes que cortaram como uma espécie de marcador temporal, toda a sua carreira.


       Logo, em 1956, quatro anos após “Júlio Cesar”, Heston voltaria a participar de um grande épico, nesse momento, não como um personagem coadjuvante, mas sim como personagem principal ao interpretar a figura bíblica de Moises na película “Os Dez Mandamentos” de 1955, do grande gênio dos épicos, Cecil B. De Mille.
       Foi seu momento de sagração como ator dramático dentro desse gênero épico. Heston conseguia reunir em torno de sua figura, todas as virtudes que chamavam a atenção do público norte – americano e, por conseguinte, dos produtores que o contratavam: era um ótimo ator, sabia encarar um drama com extrema facilidade, e fisicamente mantinha uma aparência de galã, aspecto que também ajudava na concretização do lado romântico de tais películas. Sem contar é claro o seu físico forte, que o ajudava a com naturalidade, interpretar seus personagens em cenas de luta, conflitos, guerras e etc.

       Dentre pouco tempo, Heston seria convidado a participar daquela que é com certeza a sua consagração maior no Cinema; A película bíblica Ben Hur, do ano de 1959, dirigida por William Wyler, até hoje uma das películas com o maior numero de estatuetas ganhas – foram 11 em 12 indicações ao Oscar – levou a sua aclamação pela critica ao interpretar o personagem homônimo ao filme, o príncipe judeu Ben Hur. Heston levou o premio de melhor ator nesse ano, de maneira incontestável.

     Dois anos depois, Heston é “convidado” a participar da película “El Cid” do ano de 1961, na qual interpreta a lendária figura do herói espanhol, Rodrigo Diaz de Vivar, o El Cid, naquela película excepcionalmente patrocinada pelo generalíssimo espanhol, Francisco Franco. Nada melhor que contratar o mais conhecido ator de épicos dramáticos e históricos da época para interpretar a maior figura histórica nacional.




Seguindo o ritmo incessante de interpretações históricas, Heston interpreta ao pintor italiano Michelangelo na película “Agonia e Êxtase” do diretor Carol Reed no ano de 1965. 

 No mesmo ano, sem cansar, Heston retorna aos tempos de Jesus para interpretar seu primo, João Batista, na película “A Maior História de todos os tempos” de direção de George Stevens.
     

 De forma peculiar, no ano de 1968, Heston de tão importante como era, interpreta certamente a própria Humanidade no clássico distopico “O Planeta dos Macacos” de Franklin Shaffner, onde atua como um cientista perdido em um futuro dominado por símios.

       Heston parou para respirar, mas em 1970, voltou a interpretar Marco Antônio no remake do filme “Júlio Cesar”, dessa vez dirigida por Stuart Burg. Em 1973, volta a dirigir uma figura histórica, dessa vez, o cardeal francês Armand Richalieu (foto)  na película “Os Três Mosquiteiros” dirigida por Richard Lester.
       Como se pode perceber, obviamente que com o passar do tempo, Heston tornava se mais velho, e em alguns casos, inapto para continuar interpretando personagens que exigissem o esforço físico de sua juventude. Entretanto, Heston continua inserido nos filmes, atuando como personagens mais velhas, sábios, etc.
       Enfim, dos anos 1950 até os 1970, encontramos o período de apogeu de um ator que soube muito bem se encaixar nos mais variados rótulos e personagens diversos a que era convidado a interpretar. De Michelangelo a El Cid, de João Batista a Marco Antônio, talvez nenhum outro ator tenha conseguido se inserir dentro de uma dimensão histórica como Heston conseguiu.

        
A titulo de curiosidade, já em sua velhice, Heston ainda interpretara o medico alemão Josef Mengele em uma película homônima produzida no ano de 2003, e dirigida por Egídio Eronico.

       Heston que em vida fora uma figura politicamente polemica, engajada em questões complicadas, como a defesa do direito de porte livre de armas aos americanos, no Cinema, após seu falecimento em 2008 aos 84 anos, só deixou o rastro de uma belíssima obra a altura de um grandíssimo ator. Afinal, é pra poucos ir de Moises a El Cid!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe
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