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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Perseguições, delações, prisões e a histeria coletiva da “caça às bruxas” em Hollywood: o inimigo comunista encarnado em Orson Welles.


“Alguém devia ter caluniado Josef K, visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal”.

(Franz Kafka - “O Processo”, 1920.)

Introdução
                É com esta enigmática afirmação que o escritor tcheco Franz Kafka inicia sua mais profunda obra chamada “O Processo”. Escrita em 1920, em linhas gerais, a obra nos conta a história e o triste destino de um sujeito comum chamado Josef K, que repentinamente é acordado às 6 da manhã por forças policiais, sendo acusado por um crime que nunca havia imaginado ter cometido.
                Em seu leito, atordoado e surpreendido, Josef K, ouvia das vozes brutas daqueles robustos homens de preto, sua sentença: “Não pode sair; o senhor está preso”.  Estava preso por um crime que não havia cometido, e de pior maneira, não sabia do que estava sendo acusado, de forma que o seu maior crime, como veremos adiante, foi ter existido durante aquele contexto histórico especifico.
                Franz Kafka, que foi um judeu nascido em Praga, parecia com aquela obra aterrorizante ter anunciado os fúnebres destinos de seus familiares e de sua nação, quando em 1920, parecia narrar o triste fim dos judeus, ciganos, negros, e outros grupos, nos campos de concentração nazistas poucas décadas depois, condenados e executados sob acusação primaria simplesmente por terem nascidos da forma como haviam nascidos, ou seja, foram mortos pelo simples fato de terem existido.
                Não obstante, pode parecer muito estranho retomar a uma aclamada obra da literatura mundial escrita nos anos 1920, possivelmente anunciadora destes eventos apocalípticos e catastróficos, quando aqui desejamos ensejar um breve comentário sobre uma realidade e contexto histórico que aparentemente se apresenta divergente a estes fatos: A Caça as Bruxas, ou aos comunistas, durante os anos 1950 nos Estados Unidos, levada a cabo pela política do Macarthismo.
              Contudo, por mais estranha que esta analogia possa aparentar ser, suas similitudes, como veremos adiante, são bastante visíveis e correlatas, haja vista que em ambas as situações, ocorre a criação pragmática e “necessária” de um inimigo comum, que será devidamente caçado e aniquilado sob acusação e pena de algo que não cometera, e muito pior, sem a permissão de defender-se da acusação, sendo queimado e exorcizado pela histeria geral que habitava tais momentos, na santa fogueira da acusação, do medo do outro, que é julgado antes de ser conhecido. Uma Histéria que era geral, atingindo todos os setores da sociedade: do chefe de sindicato industrial ao cineasta.

Joseph McCarthy: Estamos hoje a travar a batalha final entre o ateísmo comunista e a cristandade. As fichas estão na mesa – vamos derrotá-los”.

Esta citação proferida pelo senador republicano Joe McCarthy em conferência dada em Virginia no ano de 1950, simboliza com perfeição o apogeu de toda a histeria coletiva iniciada pelo mesmo, e que não menos era o espírito da época, contra uma possível “febre comunista” que ameaçava atingir os lares americanos daquela época.
            De certo, o pensamento do senador Joe McCarthy apenas figura como a representação mais funcional deste pensamento que corria a época, haja vista que este conseguira alcançar representação política para assim então vociferar este medo. Fato é que terminada a Segunda Guerra Mundial, o mundo encontrou-se diante de uma guerra dicotômica entre os Estados Unidos, recém-saídos vitoriosos desta guerra, cujo capitalismo também se apresentava em intermitente expansão por meio do Plano Marshal, para com os soviéticos, ou seja, a União soviética, também fortalecida e cada vez mais disposta a encarar os Estados Unidos frente a frente nesta corrida armamentista, política, econômica, e de fronteiras, que ficou conhecida na história e/ou no imaginário político-bélico como “Guerra Fria”.
                Resumidamente, é neste cenário complicado do pós- guerra e de completa alienação psicológica onde o outro podia sempre ser visto como o inimigo real, que a política de Joe McCarthy vai encontrar campo propicio para objetivar sua perseguição desenfreada a supostos comunistas dentro da esfera pública americana, seja dentre os políticos até os meios midiáticos em geral, entre eles jornalistas, e cineastas, estes últimos, os que nos interessam aqui, quando tomaremos em analise, o caso especial do grande cineasta americano Orson Welles, acusado por este mesmo McCarthy de estar trazendo os ventos do Comunismo soviético para os Estados Unidos, ameaçando assim o bem estar social dos americanos. Orson Welles, de grande cineasta, passava a ser Persona non grata dentro do imaginário yankee da época, impulsionado é claro por uma construção pragmática feita com grande eficácia por esta ala amedrontada macarthista, que procurava cada vez mais recriar uma culpabilidade nesta como forma de justificar suas ações.

Joe McCarthy: Prendam-nos!


                O Perfil psicológico era de vivência de extrema suspeita, sendo todos aparentes sujeitos de suspeita. A Delação era então um artificio muito comum neste expediente, sendo acusados desde vizinhos mais acanhados, até grandes personalidades aclamadas pelo público em geral. A busca por uma verdade que só era vista por aqueles que a criavam, fazia, segundo as palavras de Robert Darnton, a enxergar e encontrar práticas de feitiçaria muito mais visíveis pelo olhar do inquisidor que já se dirigia a este fim do que propriamente a essência do fato.
O Inquisidor naquele caso, o século XV ao XVII, ao se reportar ao ato suspeito de Bruxaria, já determinava por meio do pragmatismo aquele fim, ou seja, o crime era pré-determinado e consolado por sua visão; já em nosso tempo, o século XX, o Inquisidor Macarthista também pragmático antes de julgar o acusado já o entendia como culpado, residindo no seu olhar um crime que em muitos casos somente ele conseguia enxergar. Em ambos os casos, nascem inúmeros Josef K, utilizado no inicio desta resenha, personagem injustiçado de Kafka, acusado e morto por um pragmatismo desconhecido, e sendo assim, ambos os fatos ainda que em contextos diferenciados, apresentam inúmeras semelhanças, dado então a apelidar o fenômeno de Caça as Bruxas as perseguições aos ditos suspeitos comunistas, por seu parentesco de expediente e, sobretudo de condenação sumaria, sem provas e sem culpabilidade.

 Orson Welles: Codinome "K" na lista negra dos comunistas.

Nascido em 1915 no condado de Wiscosin, Orson Welles desde muito cedo já demonstrara seus dotes artísticos, quando em um evento curiosíssimo e que lhe dera toda a sua fama quando jovem, narrara em uma radio local, uma suposta invasão alienígena aquela localidade, com grande eloquência de narrativa, dramaticidade na voz, baseando-se para isso na obra literária “A Guerra dos Mundos”, do escritor britânico George Wells.
Este curioso fato ocorreu no ano de 1938, quando o jovem Welles tinha apenas 23 anos, e causou enorme rebuliço e pânico naquela pequena e pacata cidade do interior. Ademais, o interessante a observar é que inconscientemente Welles já previa como este pragmatismo, como a criação de um inimigo invisível causava desordem social e alienação frente aos americanos. Ainda que os cidadãos daquela cidade não vissem alienígena algum, houve uma comoção popular onde portas eram fechadas, pessoas escondiam-se nos porões, e acreditavam piamente que aquele inimigo era real. Se não era visível para ele, para outro podia ser. Fato é que ele existia, era necessário esconder-se ou combate-lo.


O Jovem Welles "enganou" o país inteiro.

No outro dia deste ocorrido, a população assustada queria saber quem tinha sido o sujeito traquinas inventor deste rebuliço na radio local. Daí em diante, Orson Welles ficaria famoso por todo o seu talento dramático e artístico, destacando-se como um fantástico diretor e ator no Cinema, tendo nunca abandonado em suas obras, o caráter reflexivo de suas películas, onde a denuncia e a crítica a realidade, apareciam sempre de forma veladas, fazendo o que Ferro perfeitamente denominava de “Contra Analise da sociedade”, revelando muito mais do que propriamente esperava com o enredo e o roteiro escrito para aqueles filmes.
Sua primeira e grande aparição polêmica aconteceu com a filmagem de talvez a maior obra cinematográfica de todos os tempos, Cidadão Kane, do ano de 1941, quando este ainda era um jovem cineasta, ator, e roteirista de 26 anos. Audacioso, Welles ocupou todos estes cargos, e magnânimo como era, desempenhou com total genialidade cada uma destas funções, dirigindo e protagonizando a história de um magnata das comunicações baseado na vida do milionário William Hearst. Mostrando todas as contradições da vida deste Magnata, Welles acabou então entrando em desagrado frente ao mesmo, que após a tentar travar a exibição do filme, passaria a perseguir o mesmo, acusando-o de inúmeras prerrogativas, a principal era a de ser comunista, tendo aproveitado então e disseminado essa informação, que acabou fechando em muito, as portas do Cinema para o próprio Welles.


Cidadão Kane, 1941: Com esta película, Welles desafiou a grande mídia e atraiu a etiqueta de possível comunista.

Não obstante estas acusações e atritos com Hearst, Welles não tivera mais tranquilidade. Passaria a ser investigado e procurado diariamente pela policia americana, e seu nome se tornaria o alvo principal da lista negra criada anos depois pela política macarthista. Durante os anos de 1940 – 1950, o senador Joe McCarthy e toda a sua trupe de espionagem criaram a chamada “Lista Negra de Hollywood” onde uma gama de artistas em geral, entre eles, cantores, músicos, cineastas, pintores, roteiristas e etc., apareciam como suspeitos de serem agentes comunistas americanos, traidores da pátria a serviço da União soviética.
Estas listas causaram também enorme rebuliço no meio cinematográfico, quando este imaginário de perseguição a este inimigo indesejável, causaram inúmeras delações dentre pessoas do mesmo circulo artístico. Talvez um caso clássico tenha sido o do também grande cineasta Elia Kazan, que figurando entre estes “inquisidores”, denunciou uma enormidade de roteiristas e produtores próximos a ele que aparentemente figuravam entre estes de atitude suspeita. As delações de Elia Kazan eram levadas muito a sério haja vista que este havia sido filiado ao Partido Comunista americano, sendo assim, suas fontes e suas acusações plausíveis de serem levadas em diante, pelo menos para o Comitê de Joe McCarthy. O próprio Orson Welles, decepcionado com a atitude do colega de profissão teria dito que “Kazan trocou a alma por uma piscina".

Elia Kazan: Grande cineasta, contudo, X-9.

Dentre esta enorme de lista de acusados, apareciam o próprio Welles e também outro grande gênio, talvez o caso mais conhecido de perseguição, Charles Chaplin, que perseguido também por um delegado macarthista acabou sendo expulso dos Estados Unidos, tendo retornado a Inglaterra, só conseguindo retornar aos Estados Unidos no ano de 1972 para receber um Oscar Honorário. Chaplin diante desta conjuntura de perseguições, antes de seu exilio forçado, teria dito então que:

“Desde o fim da última guerra mundial, eu tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual indivíduos de mente liberal possam ser apontados e perseguidos. Nestas condições, acho que é praticamente impossível continuar meu trabalho do ramo do cinema e, portanto, me desfiz de minha residência nos Estados Unidos.”

Em 1948, o destemido Welles lança então outra grande obra que traria para si grande polêmica: Welles leva as telas do cinema, a clássica história de William Shakespeare chamada “MacBeth”, fazendo uma releitura do conto com novos fins modernos. Utilizando-se de seus dotes teatrais para recriar todo o ambiente dramático desta obra shakespeariana, Welles, sobretudo leva adiante uma releitura por meio deste conto, do cenário americano de sua época, retratando todo o ambiente pragmático em que vivia, onde acusações, perseguições e prisões desenfreadas ocorriam por meio desta política Macarthista que impunha um medo constante e um inimigo comum a ser batido.
Nesta releitura, Welles também em sua “contra analise” se utiliza do palco contado por Shakespeare, que vivera o embrião do pragmatismo na Inglaterra de Elisabeth, onde os fins justificavam os meios, para anunciar o que estava acontecendo nos Estados Unidos àquela época.
Na obra de Shakespeare, MacBeth é um soberano que motivado por sua pragmática esposa Lady Macbeth mata o soberano Rei Duncan, para em linhas gerais, assumirem o posto de soberania na Escócia. Sua ambição não tem freios em sua execução, ouvindo conselhos de temidas bruxas, e utilizando-se dos mais vis expedientes políticos para assumir aquele posto. Ao escrever aquela obra, Shakespeare, como já dito, sabia o que estava escrevendo, pois em sua época, ele observará este emergente pragmatismo nas atitudes de Elisabeth, quando esta cada vez mais ciente de seu papel de soberana inglesa, não media esforços para instaurar a Igreja anglicana de seu pai, e como também, as guerras que levava a cabo.

MacBeth: A própria coroa é uma clara alusão a estátua da liberdade.

  Não ter escrúpulos é justamente um dos fundamentos bases da verdade a ser alcançada, criada por este pragmatismo, atitude levada com grande eficácia tanto por MacBeth, quanto por McCarthy na vida real. Esta denuncia proferida por Welles de forma perfeita nesta sátira criada por meio de “MacBeth” ajuda como dito a nos revelar justamente aspectos que não aparecem diretamente na obra cinematográfica. Marc Ferro justamente ponderava tais questões, chamando a isso de conteúdo latente.
Enfim, indo cada vez mais longe e por métodos cada vez mais subliminares, Welles se utilizava muito bem de sua inteligência frente a adaptações de grandes obras da Literatura Mundial, de forma que ainda discutindo esta problemática, produziu então a adaptação da obra “O Processo”, do escritor Franz Kafka do ano de 1920, o qual justamente procurei iniciar propositadamente esta resenha.
O Processo foi filmado em 1962 e justamente porque o próprio Welles já estava marcado frente aos conteúdos velados de suas obras, os países que patrocinaram tal obra foram à França, a Alemanha e a Itália. Utilizando-se do mesmo argumento kafkiano, Welles recria a vida de Josef K, que ao acordar, vê-se diante de dois oficiais do estado, sendo acusado de um crime que não havia cometido, mas que seria preso por isso. 

O Processo, 1962: Welles retoma Kafka para satirizar o absurdo das acusações e delações durante o MacCarthismo.

                 Ademais, em todo o filme, fica visível o teor latente que Wells sempre deseja: o clima sombrio que permeia o filme é justamente de acusações, de delações e de um risco eminente de captura e prisão por algo que se sabe ter cometido. Josef K, um funcionário público comum como qualquer outro, tenta por meio dos meandros da burocracia estatal descobrir os motivos de sua aparente culpabilidade. Na verdade não há arquivos contra ele, não há nada que o incrimine. Seu crime é justamente ser Josef K. Talvez um comunista. Talvez um judeu. Enfim, ao final do filme, Welles com toques apocalípticos dar fim as angustias do acusado sob suspeita Josef K, que é então subitamente apagado por dinamites, sem ter o direito de saber qual crime teria cometido.
Este final assombroso não é uma expressão de exagero, quando nos indagamos quantas pessoas acusadas injustamente por esta conduta, foram assassinadas e jogadas em valas afastadas, sendo definitivamente e convenientemente para aqueles, apagados da história. Welles ao escolher este final, talvez tenha se inspirado num caso polêmico que estarreceu a sociedade americana da época quando um casal Ethel e Julius Rosenberg foi acusado e preso por suspeita de serem agentes internacionais comunistas a mando da União soviética para tentarem em terras americanas, uma intentona comunista. Ambos acabaram sendo executados sumariamente sem que provas legais e suficientes ao menos comprovassem essa suspeita. Muito pior, alguns meses depois da execução, a acusação feita sobre eles de venderem segredos militares americanos para a União soviética mostrou-se inteiramente infundada. Mas o estrago já havia sido feito e fazia parte do sistema. 
Dentro daquela verdade necessária, eram menos dois comunistas que podiam preocupar o Estado... Uma Verdadeira Histéria... Eles estão a solta! Fujam para as colinas! O Comunista pode ser você!.. Ou Eu!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Real Madrid x Barcelona: O Futebol no meio de campo das batalhas da História.

  
Mais do que um grande clássico, o duelo futebolístico envolvendo o Real Madrid e o Barcelona comporta uma dimensão histórica e simbólica que ultrapassa os meros limites das quatro linhas do campo. Sua importância e seu significado remontam todavia as origens da nação espanhola e por assim dizer, aos conflitos e embates que historicamente marcaram a formação territorial e principalmente política e ideológica da Espanha desde a sua formação como Estado Nacional, até principalmente os duelos ideológicos e separatistas que a caracterizam no decorrer do conturbado século XX.
Analisando as raízes históricas de cada clube podemos assim evidenciar e delinear muitos fatores que ensejam o equilíbrio de forças que fomentam historicamente esta disputa. Fundado em 1899, o mais do que centenário Futbal Club Barcelona já nasceu em suas entranhas fortemente relacionado ao mais puro sentimento de pertencimento da chamada região basca, cuja vontade de autonomia desta dita região da Catalunha frente à nação espanhola nos faz remontar aos primórdios do sentido da Espanha, ainda no século VIII, quando a mesma ainda era um Império cristão visigótico, este separatismo basco já se mostrava evidente, obviamente que dada as devidas proporções históricas, para com isso não cair em um anacronismo comparativo. Recentemente, em 1999, quando das comemorações do Centenário do Club, um torcedor ilustre, o grande tenor Josep Carreras, pronunciara que:"Ser torcedor do Barça vai além do puramente esportivo. É o sentimento de raízes, de valores e de uma identidade de país: a Catalunha"
Bandeira da Catalunha : Uma Nação a parte.


Mas enfim, não nos cabe aprofundar neste tão conhecido sentimento de pertencimento a causa basca que tão enlaça aquela particular região da Espanha. Aliás, a Espanha é talvez uma das nações cuja formação histórica se apresenta como de maior particularidade possível. Do século IX até o século XII, e mais adiante ainda, aquela região se mostrava singular ao restante do Ocidente Europeu Medieval, por apresentar uma estrutura territorial e de relações sócio-políticas muito singular e diferenciada. Apresentava-se formada por alguns fortes reinos cristãos localizados no norte da mesma, e principalmente por inúmeros reinos muçulmanos, ou reinos taifas, localizados no sul e no neste da referida localizada. Lá no norte da Espanha, dentro daqueles reinos cristãos, já se encontrava a região da Catalunha e seus condes de Barcelona, e ainda naquela época, o forte sentimento de pertencimento a uma cultura ou uma nacionalidade que é distante do restante da nação já se mostrava forte.
Enfim, voltemos a um tempo mais presente. Não obstante, em seus primeiros anos de fundação, o Barcelona disputava e rivalizava com o Valencia ao chamado Campeonato da Catalunha, ainda nos lidos de 1920, ou seja, ainda nesse momento a rivalidade contra o grande Real Madrid não era tão iminente.
Contudo a História do Barcelona e do clube da capital espanhola, o Real Madrid, se cruzariam com muita força a partir da metade dos anos 1920, quando a partir de combates políticos, o simbolismo da nascente rivalidade viria à tona. Em 1925, a Espanha vivia sobre o julgo da ditadura de Miguel Primo de Rivera que dentre outras coisas deu um golpe de Estado, dissolvendo o parlamento, e consequentemente ao assumir o Poder, passou a perseguir com veemência aos movimentos separatistas bascos.

Cartaz atual onde se lê: Catalunha não é Espanha.

Assim sendo, em um jogo do Barcelona em 1925, a torcida do clube acabou por vaiar ao hino espanhol, em repudio a repressão iniciada por este ditador, e como resultado o clube acabou sendo forçado a fechar suas portas, permanecendo nesse estado por mais de seis meses. 
Outro caso bastante interessante recorre também sobre sobre outro time de origem basca chamado Atlético de Bilbao. Ainda que o Barcelona mantenha suas raizes, este não impossibilita a entrada de qualquer jogador da mais váriada nacionalidade. Contudo, o Atlético de Bilbao talvez represente o mais fechado sentimento separatista haja vista que ainda hoje, neste mercado movimentado dos valores do futebol, não permite a entrada de jogadores de outras localidades, apenas jogadores da Catalunha, enfim, bascos.

Torcida do Atlético de Bilbao em ação separatista.

Desta maneira, com o passar do tempo, o enfrentamento do Barcelona contra as forças estatais espanholas ganhariam seu significado máximo pouco tempo depois destes ocorridos. Seria no governo de outro grande ditador que as disputas entre o Barcelona e o Real Madrid se tornariam palco ideológico que ultrapassavam o mero sentido esportivo.
Este ditador se chamava Francisco Franco. Fascista reconhecido mantinha contatos com Mussolini e Adolf Hitler que o ajudariam a desenhar o quadro politico de seu governo. Fato é que ao assumir o governo, Franco já instaurou o sistema da repressão e do terror, proibindo o uso da língua catalã, e mandando assassinar através de suas forças repressivas da extrema direita, ao presidente do Barcelona, que por ter sido considerado comunista, acabara sendo então aniquilado.

Franco: "Blanco" convicto, usou-se do time como instrumento propagandistico.
Do outro lado do embate, na capital espanhola, o Real Madrid, principal clube de origem nobre, daí seu titulo real, passaria a ser utilizado como canal de divulgação do Franquismo. O próprio Franco era fanático torcedor do clube, e por isso mesmo, iniciou um projeto de fortalecimento do mesmo, patrocinando e contratando os principais jogadores da época para tornar cada vez mais forte o clube, e assim aumentar o poderio qualitativo de sua imagem. Fato é que foi na chamada Guerra Civil Espanhola que o Real Madrid, ou “Los Blancos”, acabam despontando como o grande clube da Espanha, persistindo assim até os dias atuais. Seu presidente a época, durante os anos 1920 e 1930, chamado Santiago Bernabeu, que dá nome inclusive ao seu estádio, mantinha uma forte aproximação ideológica com Franco, evidenciando-se assim todos os usos e desusos ideológicos do clube pelo Franquismo.

Antigo Simbolo do Real Madrid entre os anos 1920 e 1930.
Em Madrid, enquanto o Real Madrid formava-se como o clube da extrema direita franquista, na Catalunha, o Barcelona se mostrava como o clube mais popular, formado e idolatrado  não somente pelo povão daquela região basca, mas também pelos inimigos do sistema franquista. No seu estádio o chamado "Camp Nou", a torcida enfurecida gritava e berrava aos montes, xingando com toda força ao general Franco, aproveitando aquela oportunidade para descarregar toda a energia e toda a raiva possível.

Camp Nou : Casa do Barcelona

 Não se trata de taxar ou rotular ambos os clubes. Seria um erro incomensuravel da minha parte. Contudo ao observarmos a História podemos perceber como grandes fenômenos sempre vão acabar sendo influenciados por questões de ordem política e ideologica. O Real Madrid não é mais um clube franquista, contudo não se pode esquecer muito de seu crescimento ligado ao passado proximo. Tampouco todo torcedor blanco seria de extrema direita e muito menos todo torcedor do Barcelona seria um nacionalista separatista convicto. Enfim, nada de generalizações descabidas. Esta postagem é somente um mero comentário a luz da ótica da história recente e em pró dos recentes clássicos ocorridos nesse ano de 2011 que tanto chamaram atenção.

Madrid x Barça: O Mundo para ao assistir o confronto.

Por conseguinte, diante disso tudo, a história do clássico aumenta a cada dia, desde este passado não tão remoto. Seu sentido ainda é hoje percebido embarcando todas estas rivalidades mencionadas, ainda que diminutas em algumas questões nunca hão de deixar de existir. Grandes idolos de ambos clubes trocaram de manto e com isso foram hostilizados: Figo e Ronaldo podem ser citados sobre isso. 
É por isso mesmo que toda vez que você leitor, se aventurar a ligar a telinha da TV para assistir a esse grande clássico futebolístico, nunca deverá se esquecer, que por detrás deste jogo, há muito mais do que uma pelada onde corre a bola, mais sim um fortíssimo simbolismo histórico e ideológico que permeia toda a nação espanhola.
Nunca! Nunca que um dia qualquer onde degladiariam Real Madrid x Barcelona será um dia comum. Um Clássico! Um combate!  Na marca da cal dos domínios da história para os limites do campo. Há de ser sempre um grande jogo!

domingo, 11 de julho de 2010

A Recuperação em American History X


Estava conversando com alguns amigos de faculdade sobre criminalidade, quando a conversa acabou recaindo sobre este filme em questão. Fato é que havia muito tempo que eu tinha assistido ao filme, contudo algumas lembranças sobre este ainda me corriam pela mente. Assim, correu-me então o súbito interesse em assistir novamente ao filme “American History X”.

O Filme “American History X” é conhecido aqui no Brasil como “A Outra história americana”, sendo rodado em 1998, pelo diretor Tony Kaye, que na mesma película terá um papel primordial como diretor de fotografia.

Acho que muita gente já assistiu a este filme. Meu objetivo não é fazer somente um resumo ou soltar um spoiler sobre o que se passa na película, mas de certa forma trazer a tona alguns questionamentos que podem ser rotineiros a aqueles que tenham assistido a obra, e se possível ainda, fazer alguma ligação com fatos históricos. Também é necessário dizer que o filme é muito complexo, a ponto da execução de sua posterior resenha ser praticamente uma atividade impossível. O que me empenho tem o intuito apenas de ser uma mera observação e uma indagação final sobre o filme.

Anteriormente eu havia dito que a minha intenção não era estragar o divertimento de quem ainda porventura não assistiu ao filme, ou também trazer aqui algo que sirva somente como um spoiler dos acontecimentos do filme. Contudo de forma a resumir toda a enumeração dos fatos do filme, seguirei postando um breve resumo do filme extraído da Wikipédia, para que então eu possa entrar diretamente, e sem mais rodeios, a algumas observações sobre o filme.

Mas enfim vamos ao que interessa.

“O Filme conta a história de Derek Vinyard (Edward Norton), jovem pertencente a uma família abalada pela perda precoce do pai, um bombeiro, que ao tentar apagar um incêndio num bairro negro acabou por ser baleado por marginais.
Incitado pelo seu ódio aos negros e às minorias, Derek torna-se líder de um grupo violento Neo-nazi e numa referência para os jovens brancos e excluídos do seu bairro, que o idolatram e seguem o seu pensamento. É preso após matar brutalmente dois negros que tentavam roubar a sua camionete em frente à sua própria casa, na presença de Danny Vinyard (Edward Furlong), o seu irmão mais novo.
Na prisão, onde passou três anos, Derek integra-se num grupo também nazi, mas discorda do chefe do seu grupo, que trafica drogas, porque vai contra os seus ideais nazis. Ao longo da sua pena vai percebendo que discorda com uso da ideologia que estes nacionalistas fazem, pois este tem como único propósito o "dinheiro sujo", fruto do narco-tráfico.
Afasta-se do grupo, mas seus companheiros nazistas por vingança o estupram, quando ele se encontra sozinho no chuveiro da prisão. Depois disso,ele passa a reconsiderar seu conceito de raça superior e torna-se amigo de um negro, com quem trabalha na lavandeira da prisão e descobre que a única diferença entre ambos é o seu tom de pele.
Quando sai, sem preconceitos, cheio de novos ideias pacifistas e liberais, vê que seu irmão mais jovem está trilhando o mesmo caminho que ele seguia antes, e Derek vai fazer de tudo para impedir que ele cometa esse terrível erro.
Infelizmente, quando Danny, começa a mudar a sua consciência e maneira de agir na sociedade, este é morto por um negro com quem já tinha tido um confronto no passado.
Para Derek, toda a experiência que ele viveu, fez com que ele mudasse a sua personalidade completamente.”

É esta a breve sinopse, sim é um spoiler, encontrada no site wikipedia. Contudo inumeros questionamentos sobre o estatuto desta obra podem se desenrolar com o decorrer do filme, e algumas informações tambem devem ser apontadas.

Antes de tudo, é necessario apontar a sensacional atuação do ator Edward Norton durante a pelicula, de forma que consegue absurdamente bem, realizar as duas intepretações da personagem durante o filme, inicialmente um jovem neonazista e depois um adulto recuperado. Sua atuação lhe garantiu concorrer ao Oscar de Melhor ator no mesmo ano de 1998 e praticamente o projetou para o mundo do Cinema. Tambem é louvavel a atuação do ator Edward Furlong que interpreta o seu irmão no filme.

O Filme é satisfatorio justamente porque procura demonstrar com muita consciencia a existência de atividades neonazistas dentro do estado americano, procurando então se aprofundar nos chamados conflitos sociais e raciais que durante séculos fazem parte da história americana. Desde a Ku Klux Klan até inumeros movimentos racistas da atualidade são problemas ainda a serem resolvidos no bojo da sociedade americana. Esta Ku Klux Khan que remonta aos fins da Guerra civil Americana,durante 1861-65, pregava a supremacia branca e do protestantismo frente aos demais diferentes de sua crença. Por isso que é necessario apontar como uma crença no arianismo dentro destes grupos perpassa o tempo, e vai muito alem do arianismo pregado por Hitler em sua doutrina nazista. Existe assim, uma raiz histórica muito antiga e que precisa ser bem estudada. É claro que, como vemos durante o filme, estes grupos acabam enxergando na doutrina nazista, e em Hitler, um simbolo clássico e paradigmatico para as suas ações, mas a História deixa claro então como este racismo, preconceito e intolerancia vem de há muito tempo na história americana.


“O Nascimento de uma nação” é um filme mudo de 1915 que alimenta todas estas questões. A pelicula, segundo estudiosos do cinema, glorifica a escravatura e procura justificar a segregação racial através do mito da supremacia branca americana, servindo assim aos interesses ideologicos da Ku Klux Klan. Este filme de certa forma ainda é aclamado por alguns, e rechaçado por outros, contudo o que fica é o teor bastante polêmico de suas origens.


Em “American History X” cita-se rapidamente um caso mundialmente conhecido sobre violencia e preconceito racial : o caso Rodney King. Este, um taxista afro-americano, fora brutalmente violentado por alguns policiais brancos que o acusavam de dirigir em alta velocidade. Os Policiais foram então julgados por uma corte formada em grande maioria por brancos que livram estes policiais da culpa. O Resultado foi uma onda de conflitos e atribulações nunca vistas na história da California. Durante o filme, Derek ainda na fase nazista, defende veementemente a posição dos policiais e profere ofensas fortissimas sobre Rodney King. O caso até hoje suscita bastante polêmica.


Uma grande observação tambem deve ser feita acerca do diretor da obra. Como havia dito, Tony Kaye tambem é o diretor de fotografia do filme, por isso que as imagens, a grande maioria em closes, são tão bem construidas. Uma cena em especial do filme é muito chocante, e que por sinal eu não consigo ver: a cena em que Derek assassina brutalmente um dos ladrões que assaltavam o seu carro. É uma cena fortissima e que causa nauseas a quem quer que a observe.Posteriormente outra sequencia de imagens tambem é digna de menção. É quando Derek é então preso, e os policiais pedem para abrir os braços, e então seu olhar orgulhoso por seus atos é demonstrado em foco pela imagem. Fica visto tambem que possue tatuagens como uma grande suastica tatuada no seu peito e outras tatuagens glorificando a ideologia nazista.


Enfim Derek é preso. Entra aqui então o momento principal e que considero ser o mais polêmico do filme. Derek acaba por conhecer um jovem negro, que aos poucos consegue tornar-se amigo dele. Faz-o rir, conversa com ele sobre basquete, fato inimaginavel até o fim da primeira parte do filme. Este jovem consegue quebrar o gelo amargo do odio que impregnava Derek, onde podemos perceber perfeitamente na cena muito bem construida quando estes dois amarram e guardam lençois trocando sorrisos e uma amizade sincera um para com o outro, como tambem na despedida de Derek da cadeia quando este agradece ao seu amigo por tudo que fizera por ele na prisão.



Menção interessante e sutil: Derek indaga ao jovem sobre o porque dele estar ali preso. Este então diz que roubou um televisão, e acabou sendo preso injustamente por ser acusado de agredir ao policial que o prendera. 6 anos de prisão. Derek que matou duas pessoas, mantem uma gangue nazista, e que cometera crimes absurdos, consegue a condicional e vai para as ruas. Derek não chegou a ficar tres anos dentro da cadeia, mesmo tendo cometido dois assassinatos. Mas o jovem negro terá que continuar na cadeia por durante seis anos.

Durante o desfecho do filme ainda é muito interessante mencionar sobre o hipotetico motivo da revolta de Derek. Sempre apontou-se a morte de seu pai, um senhor responsavel, honesto e adorado por ele. Contudo durante a primeira parte do filme, intencionalmente o diretor nos passa a impressão de que o seu pai era alguem perfeito, um primor de gente, mas durante a segunda parte, percebemos justamente o contrario: A Raiz e o fogo aceso do racismo dentro de Derek está justamente nas palavras de seu pai. O Diretor então quer mostrar como alguns fatores que aparentemente podem ser insignificantes na verdade possuem um grande valor e devem assim ser bastante analizados para se entender a essencia de um ser, de atos ou de ideologias.

Mas a grande questão do filme é uma, e que por sinal, eu não pretendo elucidar, apenas reparti-las com todos aqueles que assistiram ao filme: É possivel a recuperação completa de alguem? Derek recupera-se devido ao medo e as torturas fisicas e psicologicas provacadas pela prisão e justamente por não mais querer voltar para lá tenta reprimir seus pensamentos e ideologias, ou realmente recuperou-se completamente?

Será que Derek e seu irmão posteriormente recuperado por ele “ mudam” porque temem a morte, a prisão ou qualquer posterior destino nefasto, ou mudaram realmente porque entenderam a natureza absurda dos seus atos e de suas vidas até aquele momento?

É esse o grande questionamento que o filme faz questão de deixar em aberto, ainda que se diga e que torne-se possivel acreditar que eles realmente se recuperaram no final de suas trajetorias.


É Possivel mesmo a Recuperação total de individuos até em casos mais hediondos ou é apenas utopia de um filme?

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
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