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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O Index “cinematográfico”: Um Top3 de filmes “banidos” pelo Vaticano


    Em 1559 a Igreja criou o Index Librorum Prohibitorum, uma lista de obras literárias consideradas de conteúdo herético constantemente “atualizadas” pelo Papa, e sob a administração direta do Santo Ofício, da Inquisição. O “costume” persistiu até 1948, ou seja, por quase quatrocentos anos, quando foi publicada a sua última lista, tendo sida extinta em 1966, em definitivo, pelo Papa Paulo VI.
    Curiosamente, apesar de “extinto”, o Index vez ou outra mostra a sua face em outro ramo de produção cultural: o Cinema. Não obstante, tem sido uma prática bastante corriqueira por parte do Vaticano a de oferecer um “admonitum”, ou seja, uma advertência ao fiel em relação a alguns filmes que por conta do conteúdo herético, deveriam se manter afastados.
     Desse modo, uma série de filmes tem sido contestados e censurados pela Igreja que, dependendo do país, consegue até travar a sua circulação. Olha lá, é o Index cinematográfico! Só para ilustrar tal questão, vou listar três dos filmes mais “odiados” pela Igreja, e que por isso deram a maior confusão na época de sua exibição. 
     Certamente um dos casos mais famosos se refere a película “A Vida de Brian” produzido e realizado em 1978 pelo grupo de comédia britânico Monty Python. A película que descreve em tons absurdamente cômicos, a confusão que se torna a vida de um sujeito comum de nome Brian que acaba sendo confundido com o Messias e por isso vira objeto de adoração, causou um estardalhaço absurdo por parte de lideranças religiosas. Manifestações religiosas eram efetuadas pedindo a banição do filme em localidades dos Estados Unidos, e lideranças religiosas reforçavam a “blasfêmia” que era o filme contra a figura de Jesus Cristo. Em suas defesas, os comediantes negavam a acusação, afirmando que em nenhum momento haviam satirizado a figura de Jesus, mas sim, apenas haviam discutido, em tons cômicos, aspectos da fé, e inclusive, questões bem transversais como o sindicalismo, a política, e etc.

Cena de "A Vida de Brian" (1978)

    Um outro caso bastante conhecido foi o da película “Eu vos saúdo Maria", produzido e dirigido por Jean-Luc Godard em 1985. A película “reconstrói” a história da jovem Maria e de seu marido José num cenário localizado no século XXI. Bastante humanizado, contando inclusive com cenas de nudez, a película causaria uma polêmica enorme em todo mundo, sendo inclusive proibida aqui no Brasil pelo Presidente a época, José Sarney.

"Eu vos saúdo Maria" (1985)

Por fim, talvez o caso mais polêmico tenha sido o da película “A Última tentação de Cristo”, dirigida por Martin Scorsese em 1988, baseada no homônimo literário do grego Nikos Kazantzakis. Apesar do filme incluir em seus letreiros iniciais um aviso de que a obra não se baseava em nenhum dos evangelhos, não houve como não causar polêmica. Ao narrar a vida de um Jesus arrependido por suas escolhas e bastante humanizado, inclusive com uma vida de casado frente a Maria Madalena, a película acabou por gerar uma série de protestos e de ataques enfurecidos por parte de setores fundamentalistas cristãos, como o que aconteceu no Teatro Parisiense Saint Michel no mesmo ano, quando uma série de coqueteis molotovs foram arremessados em meio a exibição do filme, ferindo treze pessoas. O Vaticano, como era de se esperar, condenou a película considerando-o blasfemo, herético, incluindo-o no Index Librorum Prohibitorum. 

"A Última tentação de Cristo" (1988)

Outros tantos filmes poderiam ser citados. A lista não é de forma alguma pequena! Ainda hoje inúmeros filmes são condenados nessa listinha herética... O Index que tudo vê, e excomunga é claro!

Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Quando o seu maior fã é Adolf Hitler: Fritz Lang e a sua fuga da Alemanha Nazista


       Década de 1920. O movimento expressionista chegava ao seu auge artístico com, dentre outros tantos, aquele que seria um de seus maiores expoentes no campo cinematográfico: o cineasta austríaco Fritz Lang.
        Grande cineasta que era, Fritz Lang conseguia captar as agruras e as incertezas de seu tempo, transpondo-as para a ambientação sombria e reflexiva típica da composição expressionista. Foi desta maneira, por exemplo, que se tornou conhecido com sua pelicula “Dr. Mabuse” (1922) na qual procura refletir sobre os riscos do condicionamento psicológico de massa, entre outras questões.

        Entretanto, seu maior sucesso viria cinco anos depois. Sua grande obra prima: Metropolis (1927). Até hoje considerado um dos maiores filmes de todos os tempos seja qual for o quesito de análise, essa pelicula sem sombra de duvidas foi a que projetou Fritz Lang inclusive aos olhos do Estado, o qual, ao enxergar o talento daquele, procurou coopta-lo.
        Nesse sentido, é que se costuma mencionar que, seu compatriota, o ditador de origem austríaca Adolf Hitler, mas radicado na Alemanha, ao assistir a pelicula teria saído da sala de Cinema bufando maravilhas. De fato, Hitler, assim como qualquer pessoa, ficou maravilhado com esta que é uma das películas mais bonitas e fascinantes da historia da sétima arte, de teor verdadeiramente atemporal.

        Percebendo como aquele grande cineasta poderia ser útil para o sistema propagandístico do Estado, Hitler então convida Fritz Lang e sua esposa, Thea von Harbou (a roteirista do filme) para servirem ao Estado. O Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, reitera então o desejo expresso de contar com eles para dar prosseguimento às películas produzidas anualmente a serviço da legitimação do mesmo.
        Lang, que além de ser judeu, percebia lentamente a verdadeira essência do Estado em questão, não aceita o convite, optando por fugir da Alemanha em direção a Paris, por meio de uma arriscada empreitada. Sua esposa Thea von Harbou, entretanto, que se mostrara afeita aos preceitos do Nazismo, ficou por ali servindo ao Estado alemão.

        Isso tudo se deu as vésperas da subida do Partido Nazista ao Poder em 1933. Lang que recentemente havia produzido a pelicula “M – O Vampiro de Dusseldorf”, na qual faz por meio de metáforas, uma serie de criticas ao partido, foge então da Alemanha, tendo sido esse filme proibido pelos nazistas quando da tomada do poder em 1933.
        Em Paris, passa a produzir filmes com orientação antinazista, quando também em 1934, emigra para os Estados Unidos onde irá produzir mais ainda, filmes com essa vertente, como o clássico “Os Carrascos também morrem” do ano de 1943. Com a derrocada do Nazismo aos fins de 1945, Fritz Lang foi lentamente pensando seu retorno à Alemanha, fato que se concretizou aos finais dos anos 1950, quando o cineasta retorna a Berlin, de onde havia saído fugido quase vinte anos antes.

         
      Lang falece em Los Angeles em 1976. Quanto a sua esposa Thea von Harbou, ao final da guerra, foi detida pelos britânicos, quando foi obrigada a limpar os entulhos de guerra. Pouco depois foi solta pelas autoridades.
      O Cineasta, além de deixar um grande legado de belíssimas obras, nos ajuda também a demonstrar como a resistência e a luta contra um sistema opressor que se é contrario é possível, não corroborando assim com qualquer tipo de posicionamento cumplice perante a estas questões.



Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Nudez no Cinema: As Primeiras aparições... e o famigerado Código Hays


      
         Em 1992, a atriz Sharon Stone, “escandalizaria” os espectadores do Cinema ao mostrar, de forma velada, através de uma "cruzada de pernas fatal" sua parte mais íntima em uma cena do filme “Instinto Selvagem”, do diretor Paul Verhoeven. O Filme que não é dos melhores, ao menos acabou se tornando um blockbuster, muito em parte por conta desta cena que é até hoje é cultuada, como um dos mais ousados marcos do cinema hoolywoodiano.
         Contudo, nem sempre foi tão fácil inserir cenas sensuais, com ou sem nudez, nas telas do Cinema. Houve épocas em que essa inserção foi praticamente nula, graças ao intenso controle de censura que regia as produções cinematográficas, ao menos no que tange o cinema norte – americano e suas produções. Obviamente que filmes underground, já se procuravam burlar estas questões, mas não é este o ponto que nos interessa.
         Interessa-nos os filmes de primeiro plano, produzidos em Hollywood.

         Curiosamente, as primeiras cenas de nudez são bastante precoces.  Já em 1916, nos primórdios do cinema americano, duas atrizes em especial, transgrediram nesse sentido. O Filme Mudo “Daughter of the Gods” chocou o público da época – e ao mesmo tempo chamou o mesmo que compareceu em massa – ao trazer a bela atriz Annette Kellerman que no papel de uma bela jovem, aparece em uma das cenas de forma desnuda. A nudez é poética e em momento algum é possível enxergar de forma mais intensa, o corpo da atriz, haja vista que com um truque natural utilizado, suas partes foram inteiramente cobertas por seu longo cabelo.

         
 No mesmo ano, a também bela atriz June Caprice mostraria seus dotes corporais na película “The ragged princess”. Curiosamente esta atriz faleceria prematuramente de câncer pouco depois que um código de leis poria a censura na “nudez” no cinema. Em 1934, nasceu o famigerado Código Hays que além de censurar a nudez no Cinema, se tornaria bastante famoso por regular a linguagem, o conteúdo, e todo tipo de questão das películas americanas.
         

      Criado por uma ala da associação americana de produtores, a MPAA, o código Hays leva o nome de seu “patrono”, um dos lideres do partido republicano da época, o político William Hays. De forma geral, este conjunto de leis passava um pente fino sobre praticamente todas as películas produzidas. O Alvo não era somente a nudez direta, mas também a dissimulada, e num grau mais geral, tudo aquilo que para eles correspondia o risco de corromper a ética, a boa moral da sociedade norte – americana.
         Desta maneira, procuravam combater ao máximo, o uso de álcool, armas, vestidos curtos por mulheres, palavras de baixo calão, temas e diálogos sensuais, e etc, nas películas.

      De forma bastante hábil, alguns cineastas se consagraram ao conseguirem desviar dessas imposições. Frank Capra, um grande diretor da época, lançaria no mesmo ano de outorgada o Código Hays, o grande clássico transgressor romântico “Aconteceu naquela noite”, com Clark Gable e Claudette Coubert. O Filme que por si só, transgride por apresentar a saga de uma mulher independente, que foge do casamento importo por seu pai, e vai viver perigosamente com um  jornalista free lance, foi imortalizado graças a uma cena em especial, na qual a personagem de Coubert, para atrair uma carona a beira da estrada, exibe uma de suas pernas, ao levantar seu saiote.

          
       Contudo foi o ousado diretor Ernst Lubitsch quem mais soube desafiar o bendito Código Hays. Aclamado Rei das comédias “sensuais”, Lubitsch se consagraria por, através dos seus filmes, impor nos diálogos, uma sofisticada malicia que de forma subliminar, contrariava e criticava as imposições do código Hays.

 
Outro cineasta que soube subliminarmente contrariar aos interesses do Código Hays foi o mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Com o seu clássico “Festim Diabólico”, de 1948, Hitchcock leva a tela um suspense psicológico marcado por uma velada situação de homo afetividade manifestada entre as personagens principais da película, os dois estudantes de direito que cometem o assassinato ao inicio do mesmo.
         Enfim, após tantas criticas e luta por parte do Cinema Hoolywoodiano, este código acaba sendo extinto em 1967, quando passa a dar lugar a uma mais sensata e justa classificação por faixas etárias, modelo utilizado até hoje no Cinema e como também na Televisão.
         Eis um período de censura que Hollywood procura esquecer... E eram só pernas e cabelos escondendo o corpo!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Perseguições, delações, prisões e a histeria coletiva da “caça às bruxas” em Hollywood: o inimigo comunista encarnado em Orson Welles.


“Alguém devia ter caluniado Josef K, visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal”.

(Franz Kafka - “O Processo”, 1920.)

Introdução
                É com esta enigmática afirmação que o escritor tcheco Franz Kafka inicia sua mais profunda obra chamada “O Processo”. Escrita em 1920, em linhas gerais, a obra nos conta a história e o triste destino de um sujeito comum chamado Josef K, que repentinamente é acordado às 6 da manhã por forças policiais, sendo acusado por um crime que nunca havia imaginado ter cometido.
                Em seu leito, atordoado e surpreendido, Josef K, ouvia das vozes brutas daqueles robustos homens de preto, sua sentença: “Não pode sair; o senhor está preso”.  Estava preso por um crime que não havia cometido, e de pior maneira, não sabia do que estava sendo acusado, de forma que o seu maior crime, como veremos adiante, foi ter existido durante aquele contexto histórico especifico.
                Franz Kafka, que foi um judeu nascido em Praga, parecia com aquela obra aterrorizante ter anunciado os fúnebres destinos de seus familiares e de sua nação, quando em 1920, parecia narrar o triste fim dos judeus, ciganos, negros, e outros grupos, nos campos de concentração nazistas poucas décadas depois, condenados e executados sob acusação primaria simplesmente por terem nascidos da forma como haviam nascidos, ou seja, foram mortos pelo simples fato de terem existido.
                Não obstante, pode parecer muito estranho retomar a uma aclamada obra da literatura mundial escrita nos anos 1920, possivelmente anunciadora destes eventos apocalípticos e catastróficos, quando aqui desejamos ensejar um breve comentário sobre uma realidade e contexto histórico que aparentemente se apresenta divergente a estes fatos: A Caça as Bruxas, ou aos comunistas, durante os anos 1950 nos Estados Unidos, levada a cabo pela política do Macarthismo.
              Contudo, por mais estranha que esta analogia possa aparentar ser, suas similitudes, como veremos adiante, são bastante visíveis e correlatas, haja vista que em ambas as situações, ocorre a criação pragmática e “necessária” de um inimigo comum, que será devidamente caçado e aniquilado sob acusação e pena de algo que não cometera, e muito pior, sem a permissão de defender-se da acusação, sendo queimado e exorcizado pela histeria geral que habitava tais momentos, na santa fogueira da acusação, do medo do outro, que é julgado antes de ser conhecido. Uma Histéria que era geral, atingindo todos os setores da sociedade: do chefe de sindicato industrial ao cineasta.

Joseph McCarthy: Estamos hoje a travar a batalha final entre o ateísmo comunista e a cristandade. As fichas estão na mesa – vamos derrotá-los”.

Esta citação proferida pelo senador republicano Joe McCarthy em conferência dada em Virginia no ano de 1950, simboliza com perfeição o apogeu de toda a histeria coletiva iniciada pelo mesmo, e que não menos era o espírito da época, contra uma possível “febre comunista” que ameaçava atingir os lares americanos daquela época.
            De certo, o pensamento do senador Joe McCarthy apenas figura como a representação mais funcional deste pensamento que corria a época, haja vista que este conseguira alcançar representação política para assim então vociferar este medo. Fato é que terminada a Segunda Guerra Mundial, o mundo encontrou-se diante de uma guerra dicotômica entre os Estados Unidos, recém-saídos vitoriosos desta guerra, cujo capitalismo também se apresentava em intermitente expansão por meio do Plano Marshal, para com os soviéticos, ou seja, a União soviética, também fortalecida e cada vez mais disposta a encarar os Estados Unidos frente a frente nesta corrida armamentista, política, econômica, e de fronteiras, que ficou conhecida na história e/ou no imaginário político-bélico como “Guerra Fria”.
                Resumidamente, é neste cenário complicado do pós- guerra e de completa alienação psicológica onde o outro podia sempre ser visto como o inimigo real, que a política de Joe McCarthy vai encontrar campo propicio para objetivar sua perseguição desenfreada a supostos comunistas dentro da esfera pública americana, seja dentre os políticos até os meios midiáticos em geral, entre eles jornalistas, e cineastas, estes últimos, os que nos interessam aqui, quando tomaremos em analise, o caso especial do grande cineasta americano Orson Welles, acusado por este mesmo McCarthy de estar trazendo os ventos do Comunismo soviético para os Estados Unidos, ameaçando assim o bem estar social dos americanos. Orson Welles, de grande cineasta, passava a ser Persona non grata dentro do imaginário yankee da época, impulsionado é claro por uma construção pragmática feita com grande eficácia por esta ala amedrontada macarthista, que procurava cada vez mais recriar uma culpabilidade nesta como forma de justificar suas ações.

Joe McCarthy: Prendam-nos!


                O Perfil psicológico era de vivência de extrema suspeita, sendo todos aparentes sujeitos de suspeita. A Delação era então um artificio muito comum neste expediente, sendo acusados desde vizinhos mais acanhados, até grandes personalidades aclamadas pelo público em geral. A busca por uma verdade que só era vista por aqueles que a criavam, fazia, segundo as palavras de Robert Darnton, a enxergar e encontrar práticas de feitiçaria muito mais visíveis pelo olhar do inquisidor que já se dirigia a este fim do que propriamente a essência do fato.
O Inquisidor naquele caso, o século XV ao XVII, ao se reportar ao ato suspeito de Bruxaria, já determinava por meio do pragmatismo aquele fim, ou seja, o crime era pré-determinado e consolado por sua visão; já em nosso tempo, o século XX, o Inquisidor Macarthista também pragmático antes de julgar o acusado já o entendia como culpado, residindo no seu olhar um crime que em muitos casos somente ele conseguia enxergar. Em ambos os casos, nascem inúmeros Josef K, utilizado no inicio desta resenha, personagem injustiçado de Kafka, acusado e morto por um pragmatismo desconhecido, e sendo assim, ambos os fatos ainda que em contextos diferenciados, apresentam inúmeras semelhanças, dado então a apelidar o fenômeno de Caça as Bruxas as perseguições aos ditos suspeitos comunistas, por seu parentesco de expediente e, sobretudo de condenação sumaria, sem provas e sem culpabilidade.

 Orson Welles: Codinome "K" na lista negra dos comunistas.

Nascido em 1915 no condado de Wiscosin, Orson Welles desde muito cedo já demonstrara seus dotes artísticos, quando em um evento curiosíssimo e que lhe dera toda a sua fama quando jovem, narrara em uma radio local, uma suposta invasão alienígena aquela localidade, com grande eloquência de narrativa, dramaticidade na voz, baseando-se para isso na obra literária “A Guerra dos Mundos”, do escritor britânico George Wells.
Este curioso fato ocorreu no ano de 1938, quando o jovem Welles tinha apenas 23 anos, e causou enorme rebuliço e pânico naquela pequena e pacata cidade do interior. Ademais, o interessante a observar é que inconscientemente Welles já previa como este pragmatismo, como a criação de um inimigo invisível causava desordem social e alienação frente aos americanos. Ainda que os cidadãos daquela cidade não vissem alienígena algum, houve uma comoção popular onde portas eram fechadas, pessoas escondiam-se nos porões, e acreditavam piamente que aquele inimigo era real. Se não era visível para ele, para outro podia ser. Fato é que ele existia, era necessário esconder-se ou combate-lo.


O Jovem Welles "enganou" o país inteiro.

No outro dia deste ocorrido, a população assustada queria saber quem tinha sido o sujeito traquinas inventor deste rebuliço na radio local. Daí em diante, Orson Welles ficaria famoso por todo o seu talento dramático e artístico, destacando-se como um fantástico diretor e ator no Cinema, tendo nunca abandonado em suas obras, o caráter reflexivo de suas películas, onde a denuncia e a crítica a realidade, apareciam sempre de forma veladas, fazendo o que Ferro perfeitamente denominava de “Contra Analise da sociedade”, revelando muito mais do que propriamente esperava com o enredo e o roteiro escrito para aqueles filmes.
Sua primeira e grande aparição polêmica aconteceu com a filmagem de talvez a maior obra cinematográfica de todos os tempos, Cidadão Kane, do ano de 1941, quando este ainda era um jovem cineasta, ator, e roteirista de 26 anos. Audacioso, Welles ocupou todos estes cargos, e magnânimo como era, desempenhou com total genialidade cada uma destas funções, dirigindo e protagonizando a história de um magnata das comunicações baseado na vida do milionário William Hearst. Mostrando todas as contradições da vida deste Magnata, Welles acabou então entrando em desagrado frente ao mesmo, que após a tentar travar a exibição do filme, passaria a perseguir o mesmo, acusando-o de inúmeras prerrogativas, a principal era a de ser comunista, tendo aproveitado então e disseminado essa informação, que acabou fechando em muito, as portas do Cinema para o próprio Welles.


Cidadão Kane, 1941: Com esta película, Welles desafiou a grande mídia e atraiu a etiqueta de possível comunista.

Não obstante estas acusações e atritos com Hearst, Welles não tivera mais tranquilidade. Passaria a ser investigado e procurado diariamente pela policia americana, e seu nome se tornaria o alvo principal da lista negra criada anos depois pela política macarthista. Durante os anos de 1940 – 1950, o senador Joe McCarthy e toda a sua trupe de espionagem criaram a chamada “Lista Negra de Hollywood” onde uma gama de artistas em geral, entre eles, cantores, músicos, cineastas, pintores, roteiristas e etc., apareciam como suspeitos de serem agentes comunistas americanos, traidores da pátria a serviço da União soviética.
Estas listas causaram também enorme rebuliço no meio cinematográfico, quando este imaginário de perseguição a este inimigo indesejável, causaram inúmeras delações dentre pessoas do mesmo circulo artístico. Talvez um caso clássico tenha sido o do também grande cineasta Elia Kazan, que figurando entre estes “inquisidores”, denunciou uma enormidade de roteiristas e produtores próximos a ele que aparentemente figuravam entre estes de atitude suspeita. As delações de Elia Kazan eram levadas muito a sério haja vista que este havia sido filiado ao Partido Comunista americano, sendo assim, suas fontes e suas acusações plausíveis de serem levadas em diante, pelo menos para o Comitê de Joe McCarthy. O próprio Orson Welles, decepcionado com a atitude do colega de profissão teria dito que “Kazan trocou a alma por uma piscina".

Elia Kazan: Grande cineasta, contudo, X-9.

Dentre esta enorme de lista de acusados, apareciam o próprio Welles e também outro grande gênio, talvez o caso mais conhecido de perseguição, Charles Chaplin, que perseguido também por um delegado macarthista acabou sendo expulso dos Estados Unidos, tendo retornado a Inglaterra, só conseguindo retornar aos Estados Unidos no ano de 1972 para receber um Oscar Honorário. Chaplin diante desta conjuntura de perseguições, antes de seu exilio forçado, teria dito então que:

“Desde o fim da última guerra mundial, eu tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual indivíduos de mente liberal possam ser apontados e perseguidos. Nestas condições, acho que é praticamente impossível continuar meu trabalho do ramo do cinema e, portanto, me desfiz de minha residência nos Estados Unidos.”

Em 1948, o destemido Welles lança então outra grande obra que traria para si grande polêmica: Welles leva as telas do cinema, a clássica história de William Shakespeare chamada “MacBeth”, fazendo uma releitura do conto com novos fins modernos. Utilizando-se de seus dotes teatrais para recriar todo o ambiente dramático desta obra shakespeariana, Welles, sobretudo leva adiante uma releitura por meio deste conto, do cenário americano de sua época, retratando todo o ambiente pragmático em que vivia, onde acusações, perseguições e prisões desenfreadas ocorriam por meio desta política Macarthista que impunha um medo constante e um inimigo comum a ser batido.
Nesta releitura, Welles também em sua “contra analise” se utiliza do palco contado por Shakespeare, que vivera o embrião do pragmatismo na Inglaterra de Elisabeth, onde os fins justificavam os meios, para anunciar o que estava acontecendo nos Estados Unidos àquela época.
Na obra de Shakespeare, MacBeth é um soberano que motivado por sua pragmática esposa Lady Macbeth mata o soberano Rei Duncan, para em linhas gerais, assumirem o posto de soberania na Escócia. Sua ambição não tem freios em sua execução, ouvindo conselhos de temidas bruxas, e utilizando-se dos mais vis expedientes políticos para assumir aquele posto. Ao escrever aquela obra, Shakespeare, como já dito, sabia o que estava escrevendo, pois em sua época, ele observará este emergente pragmatismo nas atitudes de Elisabeth, quando esta cada vez mais ciente de seu papel de soberana inglesa, não media esforços para instaurar a Igreja anglicana de seu pai, e como também, as guerras que levava a cabo.

MacBeth: A própria coroa é uma clara alusão a estátua da liberdade.

  Não ter escrúpulos é justamente um dos fundamentos bases da verdade a ser alcançada, criada por este pragmatismo, atitude levada com grande eficácia tanto por MacBeth, quanto por McCarthy na vida real. Esta denuncia proferida por Welles de forma perfeita nesta sátira criada por meio de “MacBeth” ajuda como dito a nos revelar justamente aspectos que não aparecem diretamente na obra cinematográfica. Marc Ferro justamente ponderava tais questões, chamando a isso de conteúdo latente.
Enfim, indo cada vez mais longe e por métodos cada vez mais subliminares, Welles se utilizava muito bem de sua inteligência frente a adaptações de grandes obras da Literatura Mundial, de forma que ainda discutindo esta problemática, produziu então a adaptação da obra “O Processo”, do escritor Franz Kafka do ano de 1920, o qual justamente procurei iniciar propositadamente esta resenha.
O Processo foi filmado em 1962 e justamente porque o próprio Welles já estava marcado frente aos conteúdos velados de suas obras, os países que patrocinaram tal obra foram à França, a Alemanha e a Itália. Utilizando-se do mesmo argumento kafkiano, Welles recria a vida de Josef K, que ao acordar, vê-se diante de dois oficiais do estado, sendo acusado de um crime que não havia cometido, mas que seria preso por isso. 

O Processo, 1962: Welles retoma Kafka para satirizar o absurdo das acusações e delações durante o MacCarthismo.

                 Ademais, em todo o filme, fica visível o teor latente que Wells sempre deseja: o clima sombrio que permeia o filme é justamente de acusações, de delações e de um risco eminente de captura e prisão por algo que se sabe ter cometido. Josef K, um funcionário público comum como qualquer outro, tenta por meio dos meandros da burocracia estatal descobrir os motivos de sua aparente culpabilidade. Na verdade não há arquivos contra ele, não há nada que o incrimine. Seu crime é justamente ser Josef K. Talvez um comunista. Talvez um judeu. Enfim, ao final do filme, Welles com toques apocalípticos dar fim as angustias do acusado sob suspeita Josef K, que é então subitamente apagado por dinamites, sem ter o direito de saber qual crime teria cometido.
Este final assombroso não é uma expressão de exagero, quando nos indagamos quantas pessoas acusadas injustamente por esta conduta, foram assassinadas e jogadas em valas afastadas, sendo definitivamente e convenientemente para aqueles, apagados da história. Welles ao escolher este final, talvez tenha se inspirado num caso polêmico que estarreceu a sociedade americana da época quando um casal Ethel e Julius Rosenberg foi acusado e preso por suspeita de serem agentes internacionais comunistas a mando da União soviética para tentarem em terras americanas, uma intentona comunista. Ambos acabaram sendo executados sumariamente sem que provas legais e suficientes ao menos comprovassem essa suspeita. Muito pior, alguns meses depois da execução, a acusação feita sobre eles de venderem segredos militares americanos para a União soviética mostrou-se inteiramente infundada. Mas o estrago já havia sido feito e fazia parte do sistema. 
Dentro daquela verdade necessária, eram menos dois comunistas que podiam preocupar o Estado... Uma Verdadeira Histéria... Eles estão a solta! Fujam para as colinas! O Comunista pode ser você!.. Ou Eu!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe


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