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domingo, 20 de setembro de 2015

[Futebol e História] A trajetória de Lily Parr: a primeira grande “craque” da história do futebol feminino


O futebol feminino vem seguramente crescendo a passos largos, uma vez que já podemos observar um substancial aumento das ligas femininas oficializadas ao redor do mundo. Infelizmente em nosso país a situação nem de longe é satisfatória, pois o futebol feminino aqui agoniza, ainda que as meninas sempre nos encham de orgulho em praticamente todas as competições que disputem. A opção é sair do país e tentar a vida na Suécia, na Alemanha ou nos Estados Unidos, lugares onde o futebol feminino é fortíssimo.
Desde 1991 que o futebol feminino passou a contar com a sua própria “Copa do Mundo” e de lá para cá foram disputadas 7 edições sendo os Estados Unidos os maiores vencedores, com 3 títulos, seguido da Alemanha com 2 taças e da Noruega e Japão com 1.
Todo o preconceito reinante sobre o futebol feminino – a ignominiosa ideia de que futebol se apresenta como um esporte que deve ser exclusivamente praticado por homens – tem sido combatido progressivamente em nossos dias, mas certamente esta luta começou a muito tempo atrás possivelmente nos pés de uma jovem moça inglesa de nome Lily Parr.


Lily começou a jogar futebol quando tinha apenas 14 anos de idade em uma equipe amadora de sua cidade chamado St.Hellen´s Ladies. Um ano depois, em 1920, passou a trabalhar em uma fábrica de munições em Preston, Inglaterra, onde formaria então a um time com as operárias daquela fábrica.
Rapidamente Lily se tornaria a grande craque da Dick, Kerr Ladies, o nome da equipe, muito em conta por causa de sua grande força física. Conta-se que Lily chutava tão forte que em uma ocasião ao bater um pênalti, acabou por provocar a fratura de um dos braços da goleira do time adversário.
Finalizada a Primeira Guerra Mundial, realizou-se aquele que é considerado o primeiro amistoso internacional entre times femininos: a Dick, Kerr Ladies enfrentou a uma equipe francesa em quatro partidas, com duas vitorias para o time inglês, um empate e uma vitoria para o time francês. Numa das vitórias, Lily Parr marcara todos os gols de sua equipe na goleada por 5 a 1 frente as francesas.

O Dick Kerr Ladies

No entanto, em 1921 seria proibido o futebol feminino na Inglaterra, de modo que restou como solução excursionarem pelo mundo. Ao jogar em uma série de amistosos nos Estados Unidos, os jornalistas locais ficaram tão impressionados com o talento daquela moça que estamparam as páginas dos jornais afirmando que aquela se tratava da mais brilhante jogadora de futebol do planeta.
Lily Parr se despediria do futebol aos 45 anos em 1950, em uma vitoria de sua equipe frente a um time de garotas escocesas, e faleceria em 1978 vitima de um câncer. Antes de falecer, todavia, tivera a felicidade de ver a Federação Inglesa de Futebol anular aquela lei de 1921, permitindo então que o esporte fosse praticado pelas mulheres como filiadas a entidade.
Lily é até hoje reverenciada como uma das maiores jogadoras de todos os tempos. Mais do que isso, certamente fora uma mulher que lutara, dentro e fora do campo, contra os preconceitos arraigados em sociedade em relação a figura feminina. Lily Parr, que golaço!!

Ass. Rafael Prata.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

[Futebol e História]: Teria sido o craque austríaco Matthias Sindelar uma vítima do Nazismo?

Ele era o melhor jogador da seleção austríaca de futebol na década de 1930, e seguramente um dos melhores jogadores de todo o mundo. Matthias Sindelar, conhecido como “The paper-man” por conta de sua magreza, encantava com a sua alta velocidade, capacidade de drible e faro de gol, ao público por onde passava.
No auge de sua carreira, aos 30 anos de idade, participa então da Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália sob o regime do fascista Benito Mussolini. Ajudando a sua equipe, Sindelar leva a Áustria a quarta colocação no torneio, até hoje a melhor desta seleção em copas do mundo. Após a Copa, Sindelar continuara a sua carreira defendendo o Áustria Viena, e como também, a sua seleção a obter a classificação para a copa seguinte, que seria realizada em 1938 na França.
Mas acontece que, no inicio daquele dito ano de 1938,  a Alemanha nazista anexaria a Áustria aos seus territórios. Como consequência, os craques daquela seleção austríaca de 1934 acabaram sendo “convocados” a integrarem o time alemão naquela dita copa. Grande parte dos jogadores austríacos aceitaram, no entanto, Sindelar se recusara afirmando que estava acometido por uma grave contusão.


O Curioso é que Hitler organizou uma partida para comemorar a anexação da Áustria a Alemanha, partida esta que ao fim seria a última de Sindelar por sua seleção. Sindelar barbarizou na partida, e ao marcar o primeiro gol, comemorou efusivamente diante da tribuna em que se encontrava Hitler, que ficou com enorme raiva daquele “ousado” jogador que além de zombar, estava se recusando a participar do escrete alemão.


No inicio de 1939,  Sindelar seria encontrado morto com a sua namorada Camilla Castagnola em seu apartamento em Viena. O Laudo realizado indicaria uma morte acidental por conta de uma asfixia causada pela inalação de monóxido de carbono, todavia, sua morte também levantaria uma série de suspeitas “alternativas”. Consta-se que Sindelar já estava sendo investigado pela GESTAPO, a policia secreta do Reich, tendo na sua ficha sido classificado como “pró-judeu”, e inclusive, sua suposta origem judia sido posteriormente apagada.


Sindelar morria assim aos 35 anos de idade, sendo enterrado então no mesmo cemitério em que se encontravam sepultados Beethoven, Straus e Schubert.

Ass. Rafael Prata

Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sábado, 28 de março de 2015

[Futebol e História] Real Madrid x Barcelona: uma rivalidade que vai muito além das linhas do campo


No último domingo, 22/03/2015, assistimos a mais um belo duelo entre os dois principais clubes da Espanha: o Real Madrid e o Barcelona. De um lado, a trupe sul americana de Messi, Neymar, Suarez e companhia, e do outro, o esquadrão de Cristiano Ronaldo, Benzema, Gareth Bale, dentre tantas outras estrelas que habitualmente engrandecem tal peleja. O Barcelona venceu por 2x1, com 2 gols de Suarez, tendo Cristiano Ronaldo anotado o gol dos madrilenhos.
Mais do que um grande clássico, o duelo envolvendo tais clubes comporta uma dimensão histórica e simbólica que ultrapassa os meros limites das linhas do campo. As origens desta que é talvez a maior rivalidade futebolística do planeta, pode – e deve – ser procurada também em um cenário que não é o da bola, mas sim o da conjuntura política de uma nação no decurso de sua trajetória histórica.
        Em outras palavras, a história política da Espanha no decorrer do século XX muitas vezes se confunde com a história da formação e da intensificação da rivalidade entre o Barça e o Real no decorrer de sua história. O Real Madrid, o clube da capital, ainda hoje tende a ser visto como o clube da elite, da realeza, agremiação esta que seria em muitos momentos intensamente auxiliada por forças políticas, como ocorrera, em especial, nas ações do ditador Francisco Franco. Já o Barça é tido como o clube da “dissidência”, é o símbolo da força e da determinação do “povo catalão”, sempre disposto a bater de frente ao poder centralizador das forças políticas espanholas quando necessário.

O Brasileiro Evaristo de Macedo atuou por ambos os clubes nos anos 1950/1960: no Barça(1957/1962) e no Real (1962/1965)


        Tal bipolaridade remete profundamente aos atos políticos que marcariam a primeira metade do século XX espanhol, quando estes acabavam influenciando também no cenário da bola. Acontece que quando o generalíssimo Francisco Franco assume ao poder espanhol, este passará a se utilizar do Real Madrid, seu clube de coração, como instrumento político, patrocinando-o intensamente. O Real Madrid que obviamente já era muito grande nas lides de 1940, se tornaria maior ainda, pois Franco passou a patrocinar a contratação de todos aqueles jogadores que fossem considerados os melhores do mundo no momento, atravessando inclusive as contratações que seriam do interesse do Barcelona. Foi deste modo, por exemplo, que Francisco Franco teria auxiliado na montagem daquele que é considerado o maior time da história do Real Madrid, quando o time passou a contar com Di Stefano, Puskas, Gento, e inclusive o brasileiro Didi, entre 1951-1960. Esta “seleção”acabou ganhando, durante o período, 5 taça dos campeões da Europa (o equivalente a atual Champions League) e 4 campeonatos espanhóis, praticamente dominando o cenário futebolístico ibérico.

O Brasileiro Didi: contratação de peso do Real Madrid em 1959

     A contratação do citado Di Stefano revela, inclusive, a natureza das ligações entre Francisco Franco e o Real Madrid, uma vez que o jogador estava praticamente acertado com o Barcelona, no entanto, o ditador Franco acabou cobrindo a oferta, trazendo-o para o time madrilenho, onde se tornaria o maior ídolo da história do clube.

Francisco Franco: um "patrocinador" do Real Madrid?

       E foi assim que a rivalidade entre ambos os clubes foi se intensificando por conta de questões políticas. No Camp Nou, o estádio do Barcelona, quando os clássicos eram realizados naquele, a torcida catalã aproveitava esse momento para vaiar intensamente ao general Franco, cantando e xingando inclusive na língua catalã, que havia sido proibida pelo mesmo Francisco Franco.
    Ainda assim nos anos 1950, o Barcelona conseguiu resistir ao poderio madrilenho, tendo obtido também, naquela década, o número de 4 troféus da liga local. Mas os anos 1960/1970 seria devastador, pois o Real Madrid ganharia 14 troféus dos 20 em disputa durante aquelas duas décadas, enquanto que o Barcelona apenas 2. Tudo isso, consta-se, com a égide do generalíssimo Franco. Há quem diga ainda que o Santiago Bernabeu, o estádio do Real Madrid, fundado em 1947, também teria sido construído com o dinheiro dos cofres espanhóis, a mando de Franco. O próprio Santiago Bernabeu, ex-jogador do clube e que passara a nomear o estádio, havia lutado no exército de Franco durante a guerra civil espanhola.
Não há duvidas que tal peleja coloca em jogo o maior duelo futebolístico do mundo. Um duelo que vai muito além de questões da bola, tendo sido “fortalecido” por questões históricas. O Real Madrid, o clube mais rico do mundo, continua a ser uma grande potência, montando verdadeiros esquadrões de “galáticos” ano após ano. O Barcelona, seu maior rival, após um longo período de crise, ressurgiu com bastante força a partir de 2003, tornando-se hoje, junto com o seu rival, a maior potência futebolística do planeta.
    
Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe.        

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

[Futebol e História] Francisco Carregal: o primeiro jogador negro do Brasil

Em tempos em que se tem discutido o racismo na sociedade brasileira, e também em todo o mundo, e sua “manifestação” dentro dos campos de futebol, quando uma série de jogadores tem sido alvo de horrendas manifestações racistas, como a ocorrida recentemente com o jogador Aranha, goleiro do Santos, por parte de uma torcedora gremista, convém destacar aquele que deve ter sobremaneira enfrentado com toda força, o peso de uma sociedade altamente racista: Francisco Carregal, o primeiro jogador negro do Brasil.
O Futebol, aos príncipios do século XX, era visto como “esporte de branco”, de uma elite aristocrática que passara a praticar o esporte importado por Charles Miller de terras britânicas. Assim, boa parte dos clubes amadores que passam a se formar, são compostos basicamente por homens brancos, filhos de uma elite, sendo praticamente vedada a participação de negros na composição dos times.
No entanto, consta-se que em 14 de maio de 1905, esse “tabu” foi quebrado, ao menos em uma partida. Foi quando o Fluminense, clube paradigmático da aristocracia carioca da época, enfrentou ao Bangu no jardim da Fábrica Bangu, tendo o primeiro vencido a partida por 5 a 3.

Francisco Carregal com a posse da bola

No meio dos jogadores do Bangu, estava o operário negro Francisco Carregal, atuando entre os brancos jogadores de ambos os times. O tecelão da Fábrica Bangu, se tornou, portanto, o primeiro jogador negro de nosso país.

Curiosamente, o Fluminense, o time adversário que protagonizou tal “quebra do tabu”, ficaria famoso posteriormente também por um caso envolvendo a um jogador negro, tendo inclusive obtido um certo apelido por conta do episódio. Tudo aconteceu em 1915, dez anos depois, quando o clube aristocrata aceitou em seu escrete a adesão de um jogador negro de nome Carlos Alberto. O jogador, em sua estreia, procurando “disfarçar” sua cor, por medo do preconceito, acabou se utilizando do artificio do “pó de arroz”, mas no decorrer do jogo, diante do suor, tudo se desmanchou, de modo que, a torcida adversária de imediato começou a gritar “pó de arroz”, expressão que de imediato viraria apelido da equipe.
Outro clube carioca, no entanto, ficaria famoso por conta de sua luta contra o preconceito: o Vasco da Gama. O Time da Colina foi o primeiro clube a se revoltar contra o preconceito existente no seio futebolístico, quando no ano de 1924, o Vasco, formado por uma grande quantidade de jogadores negros, foi alvo de uma tentativa de afastamento do campeonato carioca por ação dos demais clubes cariocas. Como reação, a equipe cruzmaltina publicou um manifesto direcionado a associação de atletas, apresentando seu repudio tanto ao preconceito quanto as tentativas de afastamento.

Os "desclassificados" seriam justamente os jogadores negros do elenco vascaino

Do começo do século XX para cá, a situação obviamente que mudou muito. No entanto, o racismo ainda é, infelizmente, uma parte presente da sociedade, não somente a brasileira, como também de outras nações do mundo. Uma chaga que se recusa a deixar de existir. No fundo, o Futebol se apresenta como mais um espelho da sociedade, que reflete todas as suas mazelas, seus preconceitos. Sonhemos com o dia em que não veremos mais essa triste série de acontecimentos envolvendo atletas, desde o aqueles ocorridos em nosso país – Aranha, Grafite, etc -, como também os ocorridos em solo europeu – Daniel Alves, Roberto Carlos, etc - , e que isso aconteça no âmbito geral de todas as sociedades, em outras palavras, lutemos para que o esperado dia em que o preconceito será extinguido, se torne cada vez mais próximo!
Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

[História e Futebol] Os anos 1940: quando a “Segunda Guerra Mundial” bombardeou a realização da Copa do Mundo

Um sucesso. Três grandes Copas do Mundo haviam se passado, e cada vez mais, o evento futebolístico orquestrado pelo francês Jules Rimet com o intuito de congraçar os mais importantes países praticantes do Futebol crescia em sucesso. Em sua primeira realização, no ano de 1930, no Uruguai, participaram 13 equipes, tendo sido campeã o país sede, o Uruguai, em final frente à Argentina.
O evento pensado para ser realizado de quatro em quatro anos, foi realizada na Itália, patrocinada pelo regime fascista de Benito Mussolini. Naquele ano de 1934, 16 equipes participaram, três a mais do que no evento anterior, e ao fim, a seleção sede também se tornou campeã, para delírio de Mussolini. O Terceiro lugar fora conquistado pela Alemanha nazista de Adolf Hitler, formada por jogadores de inúmeras nacionalidades.

Em casa, a seleção uruguaia se sagra a primeira grande campeã do mundo, em 1930

Em 1938, coube ao país natal de Jules Rimet, a França, sediar ao evento, “na beira” da eclosão da Segunda Guerra Mundial. 18 seleções participaram, e mais uma vez a seleção italiana sagrou-se campeã. O Brasil, grande surpresa dessa Copa do Mundo, conquistou a terceira colocação graças ao talento de Leônidas da Silva, o artilheiro e inventor do gol de bicicleta.

Leônidas da Silva, o grande craque da surpresa brasileira, em 1938.

Todavia, eclodida a Segunda Guerra Mundial, o evento acabou por ser interrompido. Obviamente, pois toda a geografia mundial passara a se concentrar na realização desse famigerado evento que culminou com a destruição de boa parte da Europa e um número incontável de mortos. Assim, a Copa do Mundo de 1942, que seria realizada no Brasil, não foi realizada, assim como também a Copa de 1946, a primeira por estar situada no meio do evento, e a última por conta da impossibilidade material de se pensar em um evento de grande escala durante o pensamento de reconstrução do pós-guerra.

Curiosamente, alguns jogadores brasileiros acabam sendo convocados para formarem o exército brasileiro nas fileiras da Segunda Guerra Mundial. Foi o caso de Perácio, meio-campista brasileiro na copa de 1938, que acabou sendo convocado, atuando em combate pela FEB, a Força Expedicionária Brasileira.
Até hoje alguns estudiosos do Futebol tem conjecturado os possíveis resultados caso as duas copas do mundo tivessem sido realizadas, naqueles anos de 1942 e 1946. Boa parte deles sustenta que a grande favorita ao titulo seria a Argentina, que despontava como a maior força do futebol sul-americano, ao ganhar a “Copa América” de 1941, 1945, 1946, 1947.  Há quem defenda, no entanto, que o país sede, o Brasil, que realizaria o ato apenas em 1950, também estaria na briga, pelo peso de ser o pais sede, como também pelo crescimento do futebol visto no país.
No entanto, não podemos negligenciar também o peso das grandes potências futebolísticas da época: o Uruguai e a Itália. A primeira seleção, o Uruguai, a essa altura, havia sido campeã da copa de 1930, de uma quantidade de “Copa América”, e seria, por fim, a campeã da copa de 1950 no Brasil. E a segunda, a seleção italiana, inegavelmente mostraria a força de uma seleção bicampeã do mundo, na defesa de seus títulos.

A bicampeã Itália (1934-1938) e sua recepção por Benito Mussolini

Tudo é claro, suposições. Exercício de imaginação. Nunca saberemos ao fim qual o resultado esportivo prático. O que se torna evidente é que a “Copa do Mundo”, ao nascer no principio do século XX, acabou por crescer num conturbado cenário político mundial, marcado por regimes totalitários, conflitos e guerras que deixaram a sua marca também na história do maior evento futebolístico.

Ass: Rafael Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sábado, 16 de agosto de 2014

[Futebol e História] Euclides da Cunha e a “tragédia da piedade” (1909): quando um jogador do Botafogo se tornou vítima circunstancial de uma grande tragédia brasileira

A “tragédia da Piedade”. Nenhuma outra expressão poderia expressar melhor o significado daquele evento.  Uma verdadeira “tragédia” que acometeu até quem não tinha “culpa no cartório”. Naquele fatídico dia 15 de agosto de 1909, o jornalista e escritor Euclides da Cunha, sem suportar mais o peso das traições, parte em direção a casa do jovem tenente Dilermando de Moraes, e com uma arma na mão procura assassiná-lo, mas não consegue. O jovem ternente é mais rápido, pois hábil com o manejo das armas, consegue diferir rapidamente uma série de tiros que tiraria a vida de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Tal episódio foi o ponto final de uma história trágica que desde sempre se anunciava. 
       Euclides da Cunha casou-se com Anna Emilia em 1890. Quase sempre muito ocupado, envolto nas suas viagens e ocupações de jornalista atuante, o qual chegou a cobrir in loquo a chamada “Guerra de Canudos”, Euclides costumeiramente deixava sua esposa em casa, postada em sua solidão. Foi num desses momentos que então sua esposa Ana conhecera o jovem cadete Dilermando de Assis, de então 17 anos, dezesseis anos mais novo que ela, a qual possuía 33 anos de idade, e ali começara uma tórrida história de amor.
         Dilermando tornou-se seu amante. Teve dois filhos com ele, ambos batizados com o nome de Euclides da Cunha. Mas até que certo dia, a verdade veio a tona, e a fúria de Euclides da Cunha também. Euclides, que amava demais a sua esposa, ainda assim resolveu seguir com o casamento, pedindo para que esta não mais se encontrasse com seu amante, mas o pedindo não foi aceito.
         Ao descobrir que Anna Emillia continuava a se encontrar com Dilermando, Euclides da Cunha, portando uma arma que conseguira com um parente, entra na casa de Dilermando, na região da Piedade, e antes de atirar, solta a seguinte frase: “Vim para matar ou para morrer”.


Charge de Jornal da época, retratando o duelo entre Dilermando de Moraes e Euclides da Cunha

         Morreu. Mas antes, disfere dois tiros no amante de sua esposa, que atingido cai, mas com vida. O irmão de Dilermando era Dinorah, um jovem zagueiro que atuava no Botafogo F.R, que ao ver a situação, tenta retirar a arma das mãos de Euclides, mas também é atingido por dois tiros.
         Dilermando, embora ferido, consegue pegar a sua arma caída no chão, e disferir assim uma sequência de tiros em Euclides da Cunha, que baleado no pulmão, cai sem vida no chão.

No círculo, o meio campista Dinorah, irmão de Dilermando, a época em que atuava pelo Botafogo.

         Dilermando sobrevive, mas seu irmão Dinorah vê sua carreira como jogador do Botafogo encurtada,  pois após o ocorrido, passa a sofrer de Hemiplegia, tendo que largar a carreira, pois a doença paralisava parte de seu corpo. Dinorah não aguentado o sofrimento, acaba por se suicidar em 1921. Seu irmão Dilermando foi a julgamento, mas foi absolvido por legitima defesa, ainda que a pressão da imprensa tenha sido forte, em favor do falecido Euclides da Cunha.
         Triste fim para um final previsível. Dois mortos. Euclides da Cunha, e o pobre coitado do Dinorah, grande zagueiro do Botafogo, que não tinha nada a ver com a história. Em 12 de maio de 1911, quase dois anos após a “tragédia da Piedade”, Dilermando e Anna Emilia se casam, e vivem juntos até 1926, quando se separam.

Att. Rafael Prata

Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
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