terça-feira, 13 de novembro de 2012

Meia Noite em Paris (2011): um filme sobre o tempo, a nostalgia... e sobre a História!


             Poucos cineastas conseguem se apropriar do Passado de uma forma tão inteligente e poética como Woody Allen. Não é de agora que este aclamadíssimo cineasta se apropria de fatos, eventos e personagens de nosso passado para dar corpo as suas películas. Em “Zelig” (1983), o cineasta “brinca” com fatos do passado ao contar a historia de um descontrolado e sem identidade homem de nome homônimo ao titulo do filme, que se vê passando por inúmeros eventos de nossa história, influenciando a tudo e a todos.
            O Efeito de realidade que insere Zelig nos mais inimagináveis eventos históricos possíveis seria consagrado praticamente dez anos após este filme, com o sucesso de público “Forrest Gump: o contador de histórias” (1994), na qual seu diretor, Robert Zemeckis, se utiliza do mesmo instrumento, para contar a história da sociedade norte – americana pelo ponto de vista da personagem de Gump.

            Mas é com “Meia Noite em Paris” que Woody Allen atinge seu ponto máximo no que tange a esse jogo entre ficção, realidade e história. O grande charme e ponto alto da película é justamente o modo como o romântico cineasta se transpõe, praticamente se metafigura – característica de quase todos os seus filmes – na personagem Gil, interpretado por Owen Wilson, para discutir a chamada “Síndrome da Era do Ouro”, uma faculdade, ou melhor, um defeito comum aos seres humanos seja qual for à época.
            E o principio dessa “síndrome” é a nostalgia por aquilo que não se viveu, mas se queria viver, ou seja, a História que foge das nossas mãos. O Cineasta procura assim discutir a limitação humana em se satisfazer com seu presente em curso, refletindo justamente sobre como os seres humanos, seja qual for à época, será, como diria aquele outro, “um eterno insatisfeito”.
            Nas palavras do próprio Allen em forma de Gil (Owen Wilson): O presente é isso mesmo. É insatisfatório. Porque a vida é insatisfatória.
         Aliás, a interpretação do fenômeno também é dada por um curioso personagem do filme, um pseudo-intelectual.  Este afirma que: Nostalgia é negação. Negação do presente penoso (...) a noção de que uma outra época é melhor que aquela em que vivemos é uma falha na imaginação romântica daqueles que têm dificuldade em lidar com o presente.
            É partindo desta questão que o cineasta vai procurar demonstrar que o ser humano não conseguirá encontrar a felicidade nem quando atingir sua utopia, sua era de ouro. A inconstância, a desilusão, e a incapacidade de ser feliz por completo, por ser uma capacidade de todos os seres humanos, acabar por impedir a concretude de uma felicidade plena, coletiva. 
            Isso é tão fato para Woody Allen que, quando a personagem Gil magicamente retorna a Paris dos anos 1920, sua era de ouro, local onde habitam pessoas como S.Fritzgerald, Hemingway, Picasso e outros, não consegue concretizar o seu amor pela jovem cortesã pela qual se apaixona, pois esta irrompe para aquilo que é a sua era de ouro, a Paris oitocentista, ou seja, a Paris antes de chegar ao século XX.
            Não há, portanto uma era de ouro. Existem várias eras, individuais; cada um por tentar corresponder, pelo artificio do sonho e da fantasia, os anseios do vazio humano.
            Enquanto que Gil está plenamente feliz naquela Paris sonhada dos anos 1920, a jovem Adriana, nascida naquele momento, só deseja retornar a Paris de 1890 para ali ser feliz. Desencontram-se, portanto.
            Ao fim de tudo, a mensagem que Allen quer nos passar é que o ser humano deve tentar ser feliz da melhor forma possível onde ele sempre vai estar: no seu presente em curso, com suas limitações.
            O ser humano, avido pela nostalgia do que passou e foi bom, e até do que não passou, mas que acredita ter sido bom, vai sempre se segurar no Passado, nos eventos apresentados pela História, para buscar um refugio, a imagem de um tempo perfeito que não volta mais, para se sentir mais infeliz ou limitado em sua contemporaneidade.
Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe
           

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