sexta-feira, 6 de junho de 2014

[Músicas Históricas] A canção “Apesar de você” (1970) de Chico Buarque nos ares de ditadura militar brasileira


Fora um censor quem havia perguntado o sentido da mesma. Censor da ditadura militar brasileira iniciada em 1964, e que só se extinguiria por completo em 1989. Pois é, mas na prática, a “mulher” que Chico Buarque menciona na letra da canção nunca foi uma companheira de seu passado, mas sim o terror do presente: ela, a ditadura, essa mulher autoritária e mandona, censora, punitiva, assassina.

O Lp do Single "Apesar de você" do ano de 1970.

Justamente para burlar os olhares ávidos desses censores é que Buarque escreve essa canção metafórica e subliminar com claro conteúdo de crítica ao regime. No entanto, o sentido da música inicialmente passou despercebido pelos próprios censores do sistema.
Foi em 1971 que os censores realmente compreenderam o sentido da canção, e após isso, obviamente que de imediato mandaram parar a sua execução nas rádios, e mandaram quebrar todas as cópias do disco single de Buarque na sede da Phillips, sua gravadora.
Foi justamente após essa “percepção” dos censores que Chico teve de se explicar, como citei no inicio do texto, acerca da natureza da “Mulher” da canção. Explicou mas não adiantou muito. Chico ficaria marcado pela ditadura, todos os seus passos seguidos, sendo suas músicas, até aquelas que realmente não possuíam sentido político, passam a agora a serem lidas, relidas com atenção, e censuradas pra evitar o “erro” de outrora.
Ao analisarmos com calma o conteúdo da letra, podemos perceber de certa forma até de forma clara, a forte crítica residente na mesma. Na primeira estrofe, Chico afirma:

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O Perdão


Ora, a música já se inicia afirmando o autoritarismo da dita “mulher” pois “hoje é você quem manda”. “Não tem discussão”. Mas nessa estrofe também podemos notar uma centelha de esperança quando este coloca o “hoje”. “Hoje é você quem manda”. Amanhã, pode ser que não mais.
 O compositor continua nas estrofes seguintes:

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florecer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. E tal

Apesar de você ditadura, amanhã alcançaremos uma nova fase, te superaremos. Uma nova fase chegará... E nas estrofes seguintes, Chico Buarque continua a cantar, a sua alegria ao ver chegada a hora de um novo momento, o tempo em que a ditadura “vai se dar mal”, quando as pessoas passaram a puder exprimir, com juros, todo o amor reprimido, proibido a tempos. 

A Canção se tornou um Hino na luta contra a ditadura


Enfim, são estrofes de um conteúdo crítico bastante alto, uma verdadeira “afronta” a ditadura militar. Praticamente uma “ameaça”.. Uma letra bastante subversiva que soube bater de frente ao sistema!

Ass: Rafael Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quinta-feira, 29 de maio de 2014

“Che: causa perdida” (1969): a primeira “biografia” cinematográfica da Revolução Cubana nasceu em solo americano...

Passados mais de cinquenta anos do ocorrido, a Revolução Cubana, uma série de filmes e documentários, de tempos em tempos, procuram reconstituir suas visões sobre os acontecimentos que engendraram este evento marcante da metade do século XX. A história do grupo de guerrilheiros, comandada por Fidel Castro e Che Guevara, na luta pela libertação de Cuba frente aos Estados Unidos, simbolizada na dependência de seu presidente Fulgêncio Batista, continua assim, a ser levada cotidianamente as telas do Cinema por produções de vários países.
Pois é, lá no distante ano de 1969, portanto, no “aniversário” de dez anos da revolução, e também dois anos após a morte de Che, foi produzida a primeira película sobre o evento. A película “Che: causa perdida” foi produzida ainda no calor das “consequências” da revolução, num momento de interpretação de suas causas, consequências.
Curiosamente, a película foi produzida nos Estados Unidos, o “país algoz” do evento. Sim, a película conta com um grande elenco cinematográfico, a começar pelo grandíssimo cineasta Richard Fleischer, e pelos grandíssimos atores Omar Sharif (Che Guevara) e Jack Palance (Fidel Castro), além da composição sonora de um dos maiores gênios da história do cinema, o músico húngaro Lalo Shiffrin.

A esquerda, Jack Palance como Fidel Castro, e a direita, Omar Shariff como Che Guevara. 

Uma verdadeira epopeia hollywoodiana. A película se inicia descrevendo os últimos momentos de vida de Ernesto Che Guevara, partindo então para um flashback onde passa a se descrever sua inserção no grupo de Fidel e a posterior participação na revolução cubana.
Bom, o resto da história já conhecemos. O que não podemos deixar de perceber é o caráter “ousado” da obra. Ora, produzir uma película “enaltecendo” o rival recente de seu próprio país, passados pouco mais de dez anos do ocorrido não deixa de ser uma atitude ousada, ainda se tratando de um ambiente tão conservador e alinhado a ideologia norte-americana como sempre foi a industria cinematográfica.

Polêmicas a parte, a caracterização física das personagens beira a perfeição no filme.

Obviamente que, para tal, além da dita “ousadia” havia um posicionamento político claro: o diretor Richard Fleischer havia pensado o projeto, a partir do roteiro de Michael Wilson, um homem de esquerda que figurava inclusive como um dos cabeças da lista negra do Macarthismo.
No entanto, o aspecto mais curioso em torno desse filme é a sua recepção pela própria esquerda; ao que se consta o filme foi um “fiasco” em seus propósitos. A esquerda ficou furiosa frente, principalmente, a uma cena em que um camponês entrega Che aos militares porque o movimento das tropas atrapalharia a atividade de suas cabras, cena esta que daria a entender uma falta de adesão popular ao movimento. Além do que a própria representação do Che, e mais ainda de Fidel Castro, este bastante apático no filme, foi altamente criticada pela esquerda latina.

Omar Shariff como Che Guevara: o filme foi produzido apenas dois anos após a morte do guerrilheiro

Enfim, a película merece ser vista. O próprio fato de ser uma primeira representação construída ainda no calor dos acontecimentos, e por “americanos”, já chama a atenção. Ademais, a película segue uma tradicional enunciação dos fatos descritos a posteriore em outros filmes. É a saga do utópico médico asmático argentino na ilha de Cuba, tema este que até hoje reacende os mais intensos debates. No cinema começou lá, em 1969, com esse tão polêmico filme de Fleischer, que não agradou nem aos “imperialistas” e muito menos aos esquerdistas.

Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe


domingo, 11 de maio de 2014

O “SuperSam” de Chapolin: uma engraçada e inteligente crítica ao histórico intervencionismo norte-americano

Com certeza, o mexicano Roberto Gomez Bolaños foi – e continua a ser – um dos maiores comediantes de todos os tempos. Seu talento ia muito além da interpretação cômica, passando principalmente pela construção de personagens que muitas vezes traziam consigo uma verdadeira crítica social, política, ou de outra ordem.
Em Chapolin, um de seus mais famosos seriados televisivos, na qual interpreta um desastrado e frágil herói que na ausência do necessário dote físico ou de “poderes mágicos” oferece apenas a boa vontade e a solidariedade como instrumento de ajuda, Bolaños nos apresentou um outro personagem caricato de natureza crítica bastante interessante: o SuperSam, interpretado pelo magistral Ramon Valdez.
O SuperSam se apresenta, visível por sua vestimenta, como uma clara mistura entre a figura do Tio Sam, o símbolo histórico dos Estados Unidos, e o Superman, o herói clássico dos quadrinhos que não deixa de ser uma outra personificação do país.

O SuperSam: uma clara mescla entre o TioSam e o Superman

Mas o que se torna mais interessante nessa sátira é o seu conteúdo. O SuperSam que não é uma figura constante nos episódios, aparece em poucos episódios, sempre dotado de uma clara crítica a política externa norte-americana.
Isso porque, nos poucos episódios em que ele aparece, isso se dá quando alguém em perigo ao convocar o Chapolin com os dizeres clássicos de chamamento “Ohh, e agora quem poderá nos defender?!”, quem aparece é o SuperSam, de maneira “intrometida”, sem ter sido chamado, ou seja, perpassa claramente uma crítica ao típico intervencionismo americano, característica esta que sempre impulsionou os Estados Unidos a se “intrometerem”, intervindo nos mais variados assuntos de outros países, conforme a manutenção de seus interesses políticos e econômicos.

O SuperSam sempre "intervindo" no ambiente do Chapolin

O SuperSam não é mais do que uma sátira inteligente e certeira sobre essa mais do que reconhecida característica norte-americana. Um outro fator que corrobora na construção dessa crítica se dá na já dita vestimenta da personagem: além da roupa que mescla o TioSam com o Superman, o personagem possui como arma, uma grande sacola de dinheiro com “$”, a qual quando utiliza para bater emite o som característico de uma maquina registradora, e o personagem em questão, alegremente reproduz a frase: “Time is Money”, ou seja, “Tempo é dinheiro”, numa outra clara alusão ao pragmatismo da política externa americana, quase sempre visando um ganho capital, em detrimento de qualquer valor moral.
Assim, nos próprios episódios em que o “SuperSam” aparece, Bolaños procura deixar claro a sua crítica a esse intervencionismo americano. No primeiro episódio em que esse personagem aparece, a questão já fica bastante claro na exposição do título do episódio Livrai-nos dos metidos, Senhor!. 
Em outro episódio intitulado “História de uma mina abandonada prestes a desabar, a personagem de Florinda Meza ao convocar o Chapolin em uma situação de apuro, acaba tendo que lidar com o SuperSam, que aparece para "socorre-la". O curioso nesse episódio é que quando ele aparece, passa a tocar a canção Yanke Doodle, uma canção símbolo dos Estados Unidos. 

SuperSam e sua "arma": uma sacola de dinheiro

Enfim, em alguns outros episódios, a figura do SuperSam é recorrente sempre apresentado da mesma maneira: quando alguém em perigo chama pelo Chapolin, este aparecerá de maneira intrometida, causando a insatisfação do próprio Chapolin, que tem seu “ambiente” invadido.
Fica visto então que, por meio dessa curiosa e inteligente sátira, o genial Roberto Gomez Bolaños, apresentou a sua crítica a esta tão arraigada política externa norte-americana, e sendo Bolaños um mexicano, sabia muito bem o que era contar com a quase sempre “influência” desse eterno vizinho chato.

Ass: Rafael Costa Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe




quinta-feira, 1 de maio de 2014

[Músicas Históricas] Compreendendo a letra de “Biko” (1980) do cantor inglês Peter Gabriel

A História do movimento anti-apartheid na África do Sul não se resume apenas a figura magnifica de Nelson Mandela. Assim como Mandela, outros tantos homens lutaram para romper com o regime racista e segregacionista que vigorava na África do Sul desde o ano de 1948.

Com certeza, uma dessas figuras mais importantes foi o ativista Steve Bantu Biko, que durante os anos 1970, no auge do apartheid, se tornou uma das mais importantes vozes negras contra este sistema deplorável do apartheid.
Por suas palavras e por sua força, Biko foi morto. Em Setembro de 1977 foi preso pela polícia sul-africana e espancado até a morte por quase uma semana em uma penitenciaria. Biko morreu, mas sua mensagem foi transmitida.
Assim, três anos após a sua morte, o cantor inglês Peter Gabriel, ex-líder da grande banda Genesis e com certeza um dos artistas mais ativos e politizados da história da música, compôs a música “Biko” em sua homenagem, de modo a lembrar a sua vida, sua morte e os horrores do vigente apartheid. 
A Música é curta, mas é de uma beleza imbatível. Na primeira estrofe da música, Peter Gabriel canta:

Setembro de 1977
Clima agradável no Porto Elisabeth
A rotina era a mesma
Na sala policial 619

De imediato percebemos que a primeira estrofe se refere diretamente a prisão de Steve Biko naquele dito mês de Setembro de 1977, em Porto Elizabeth, na África do Sul. Gabriel deixa claro também que a prisão do ativista e de outros tantos era de natureza normal naquela conjuntura de opressão, assim “a rotina era a mesma”.
Nos dois estrofes seguintes, Gabriel continua:

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja – O homem está morto.

Quando tento dormir à noite
Meus sonhos são vermelhos
Lá fora o mundo é negro e branco
Com apenas uma cor morta.

Nestes versos, além das lamentações pela Morte de Biko, Gabriel demonstra, por meio de  metáforas entre as cores negra e branca, a violência a que sofriam as pessoas negras na África do Sul. Nos sonhos deles, o sangue aparece, e nesse mundo segregado, se torna aparente que esse sangue jorrado são da pessoas negras, massacradas pelo regime do apartheid. É a cor negra quem morre diante dessa violência.
Na penúltima estrofe da música, Peter Gabriel informa quase como um manifesto:
Tu podes assoprar uma chama
Mas não podes fazê-lo com uma fogueira
Uma vez que as fagulhas incendeiam algo
O vento as tornará maiores
Oh, Biko, Biko, Porque Biko?

Ou seja, a mensagem é: vocês podem ter matado Biko (a chama), mas a fogueira (suas mensagens) vocês não conseguirão apagar. Muito pelo contrário, de certo, a morte de Biko ajudou a potencializar as suas mensagens e a luta contra o apartheid, na medida em que cada vez mais os olhares externos se voltaram a realidade sul-africana.
E por fim, no derradeiro estrofe da canção, Gabriel reforça esta questão:

Yihla Moja, Yihla Moja – O homem está morto.
E os olhos do mundo agora estão vigilantes.


Biko está morto, porém os olhos do mundo agora estão voltados a África do Sul.  Além da música de Gabriel, outras tantas homenagens foram feitas a Biko, como a película “Cry Freedom” dirigida por Richard Aftenborough no ano de 1987, a qual retrata a história de vida e de luta deste grande ativista político.
De certo, esta grande canção de protesto de Peter Gabriel ajudou a tornar sempre viva a memória e a mensagem deste que foi um dos grandes ativistas sul-africanos na luta contra o famigerado regime do apartheid. Biko is alive!

Ps: Segue o video da canção com a tradução:


Ass: Rafael Costa Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe


terça-feira, 29 de abril de 2014

Raízes do “faroeste”: o estereótipo do nativo no Cinema norte – americano

Homens brancos montados em seus cavalos galopantes empunham suas armas e atiram. Acertam o tiro. Derrubam e matam apaches, comanches, ou outros nativos. Os indios tentam se defender como podem, com suas armas naturais, frente ao poderio do armisticio de fogo do homem branco. Grandes Guerras marcaram a chamada “Corrida para o Oeste” entre 1778 e 1890 nos Estados Unidos.
No Cinema norte - americano, a representação desse nativo não poderia ter sido de outra maneira: é a visão branca, expansionista e pragmática que impera. Normalmente os brancos são os mocinhos, e os nativos os vilões.
O gênero “Faroeste” era durante os anos 1940 – 1960, o que para nós hoje em dia são os chamados “filmes de ação”. Xerifes e forasteiros errantes dizimavam uma quantidade infindável de nativos nessas películas de outrora. Seria impossível contabilizar as mortes indigenas em um só exemplar desses filmes.

Um dos maiores símbolos do Cinema norte – americano foi o ator John Wayne.  Seu personagem típico foi justamente a figura do calado cowboy, xerife, ou forasteiro, que desbravando as terras do Oeste, perde a conta de quantos indios perfurou com suas balas.
John Ford, talvez o maior cineasta do gênero faroeste na história do Cinema. Foi ele quem imortalizou a figura desse forasteiro, e por conseguinte, a figura de John Wayne, que dentre tantos filmes do gênero, acabou sendo marcado pela película “Rastros de ódio”, filme de Ford de 1956.
E dificilmente outro tipo de representação era produzida. Era algo de rotina, e de enorme receptividade. Mas não para todos. Pois foi ai que em 1973, o ator Marlon Brando, ao receber o Oscar de melhor ator por seu papel em O Poderoso Chefão, não compareceu ao evento, e de maneira surpreendente, enviou uma atriz contratada para se vestir de india e discursar pedindo justamente a melhoria da representação dos índios no cinema norte – americano.


Entre silêncio e vaias, a jovem atriz representando uma índia, não pode falar mais do que 45 segundos, pois ao perceber a questão, os organizadores do Oscar, deram um jeito de retirá-la do palco.
O gênero aos poucos foi saindo de moda, mas a imagem dos nativos americanos não deixa de se reclusa. Hoje em dia, quase sumiu, no entanto, quando aparece é justamente nos termos citados acima. Poucos são os filmes que tem concedido uma visão mais coerente e justa aos nativos americanos.

Ass: Rafael Costa Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

sábado, 26 de abril de 2014

[Músicas Históricas] Compreendendo a letra da canção “Wind of Change” (1990) da Banda alemã “Scorpions”


Escrita em 1990 para o CD “Crazy World”, por Klaus Meine, vocalista e cantor da banda alemã Scorpions, a canção “Wind of Change”, ou “Vento de Mudança”, foi resultado do olhar do compositor frente a conjuntura histórica de finais dos anos 1980 e o inicio dos anos 1990, ou seja, o período de mudança que se efetuava em todo o leste europeu, com a gradual queda do regime soviético na Rússia, e de outro modo, a consequente quebra do muro de Berlim, ocorrida justamente pouco tempo antes, em 1989.
Logo, o fio condutor da canção seria um observador – o próprio Klaus Meine – que caminhando passa a observar as mudanças que gradualmente ocorrem nesse momento.  Por conseguinte, nos versos que compõem a canção, Klaus Meine se utiliza de uma serie de simbolismos para afirmar estes ventos de mudanças. Vamos então a análise das estrofes;
Na primeira estrofe da música, temos:
“Eu sigo o Moskva
Até o Parque Gorky
Escuto o vento da mudança
Uma noite de verão em agosto
Soldados caminhando
Escutando o vento da mudança”

       Assim, logo de início, ele cita que ao caminhar pelo Rio Mosvka de encontro com o Parque Gorky, ele já conseguia sentir os ventos de mudança. Ventos de mudança na Rússia, porque tanto o Parque Gorky como o Rio Moskva são símbolos da capital do país soviético, a cidade de Moscow. Então por lá, ele já percebe ainda a presença de soldados, porém sem o tom de outrora, pois os mesmos também estão escutando o anunciar desses ventos de mudança.
        Na segunda estrofe:
“O mundo se fechando
Você já imaginou
Que poderíamos ser tão próximos, como irmãos?
O Futuro está no ar
Posso senti-lo em todo lugar
Soprando com o vento da mudança”

Nessa estrofe, parece clara a alusão ao contexto de divisão característico da famigerada Guerra Fria. Aliás, tanto Klaus Meine, com os demais integrantes da banda, cresceram justamente nesse ambiente dividido da Alemanha, onde desde 1961, figuraria o muro de Berlim, na divisão entre a Alemanha Oriental, de cunho socialista, e a Alemanha Ocidental, de cunho capitalista. E no fim da estrofe é claro, a certeza de que algo está para acabar, dando lugar a algo muito bom futuramente.
       Nas estrofes seguintes:
“Leve-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças de amanhã sonharão
Com o vento da mudança
Caminhando pela rua
Recordações distantes
Enterradas no passado, para sempre”

      Nestes versos, se reforça o sonho de que este passado de separação entre “irmãos” não se repita nunca mais, que estejam, portanto,“enterradas no passado, para sempre”.
       E por fim, os derradeiros estrofes:

“Leve-me à magia do momento

Numa noite de glória

Onde as crianças compartilham os seus sonhos

Com a mudança
O vento de mudanças sopra diretamente
Na face do tempo
Como uma tempestade que tocará
O sono da liberdade para a paz da mente
Deixe sua balalaika cantar
O que meu violão quer dizer”

      Eis a anunciação das boas novas, e o desejo de sua recepção por todos, alemães com seus violões e os russos com suas características balalaikas, uma viola de três cordas, os quais juntos, cantam a alegria de um novo tempo, do “vento de mudança”.
        Enfim,  “Wind of Change” com certeza se apresenta como uma das músicas político – históricas mais importantes a serem mencionadas. Um paradigma do principiar dos anos 1990, a canção se tornou símbolo da nova fase alemã, sendo até hoje, para além disso, um grande clássico musical. Poucas músicas conseguiram captar tão bem o tempo presente como “Wind of change” em sua época.

Ps. Segue um clipe da música em versão legendada:


Ass: Rafael Costa Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

domingo, 20 de abril de 2014

“Os Trapalhões e o Mágico de Óroz” (1984): por detrás de uma grande comédia, uma belíssima crítica social

       Com certeza, nenhum outro grupo de comédia fez tanto sucesso no Brasil quanto aquele denominado “Os Trapalhões”. O Grupo formado pelos comediantes Renato Aragão (Didi), Dedé Santana (Dedé), Antônio Carlos Gomes (Mussum) e Mauro Gonçalves (Zacarias) marcaram o cenário cinematográfico e televisivo brasileiro num período que vai do final da década de 1960, quando o primeiro filme – “Na onda do iê-iê” (1965) - é produzido(contando no momento apenas com Didi e Dedé), até os primeiros anos da década de 1990, quando o último filme do grupo foi produzido, a película “Os Trapalhões e a Árvore da Juventude”, de 1991.

De cima para baixo, da esquerda para a direita: Dedé, Mussum, Didi e Zacarias

No total, foram 23 filmes produzidos entre 1978 e 1991, sob a batuta da formação clássica, caracterizada quase sempre pelo experto Didi Mocó, pelo cérebro do grupo Dedé, pelo alcoólatra Mussum e pelo tímido Zacarias, os quais unidos se metiam sempre em grandes confusões, contando sempre é claro com um grandíssimo elenco formado por atores globais.
Nunca as salas de Cinema conseguiram tanto público como durante as exibições dos filmes dessa trupe. Aliás, dos dez maiores públicos do Cinema Nacional, sete são originários dos filmes do grupo, o que demonstra o sucesso comercial do grupo.
No entanto, apesar de se basearem numa suposta simples comédia do tipo “pastelão”, boa parte dos filmes produzidos pelo grupo estavam embutidos de um certo teor de crítica social. Não foram poucos os filmes que estiveram revestidos de algum tipo de crítica endereçada a segmentos específicos ou questões relevantes da sociedade.

Talvez, o mais relevante desses filmes foi a película “Os Trapalhões e o Mágico de Oroz”, rodada no ano de 1984, uma “releitura” do clássico livro “O Mágico de Oz”(1900) do escritor L.Frank Baum. Nesta película, o grupo “adapta” de forma inteligentíssima, o conto de Baum a realidade nordestina, no intuito justamente de efetuar uma crítica a realidade social nordestina do momento ( e porque não dizer de todo o sempre).
Assim, a película conta a história do humilde sertanejo Didi – uma espécie de Dorothy sertaneja - que, padecendo de fome diante da seca do sertão nordestino, parte juntamente com seus companheiros Soró e Tatu em busca de melhores condições de vida, peregrinando em busca de uma nova vida longe da fome. Nessa sua saga, acaba encontrando justamente com o “Espantalho” (Zacarias), “O Homem de Lata”(Mussum) e o Leão(Dedé), todos eles segundo o modelo de sonhos do clássico conto de Baum: o Espantalho desejando um cérebro, o Homem de Lata ansiando um coração, e o Leão pedindo por coragem em detrimento de sua típica covardia.

Didí, o Homem de Lata, o Espantalho e o Leão

E quanto a Didi, partilhava de um desejo comum a todos eles: agua. Ao entrarem em contato com a lenda do “Mágico de Óroz”, partem então para os meandros do sertão, local onde residiria esse ser lendário que poderia concretizar seus sonhos.
Ao encontrarem o conhecido Mágico de Óroz, este lhes orienta a encontrarem um suposto “monstro de metal que jorra água pela boca” que teria o poder então de acabar com a seca do sertão. No entanto, em meio a sua peregrinação, o grupo acaba entrando em conflito com o famigerado Coronel Ferreira, um grande latifundiário da região, que além de seus lucros com a terra, enriquece comercializando a pouca agua dos açudes de Óroz a pobre população local. Mas a trupe consegue derrotá-lo, e logo então, satisfeito com a perseverança do grupo, o Mágico de Óroz por meio de um feitiço leva o grupo ao encontro do dito “Monstro de metal que jorra agua pela boca”. Tal monstro seria curiosamente uma torneira gigante localizada no centro do Rio de Janeiro.

O "Grande Monstro que jorra agua pela boca"

Emocionados com a descoberta, carregam então, com muito trabalho, a gigantesca torneira até os confins do sertão, para delírio da pobre população total, mas algo ao fim dá errado. A torneira só funcionava por conta da encanação local, logo, não havendo encanação por ali, não haverá agua. Como resultado, a população de Óroz se revolta e condena a morte seus antigos salvadores.
Na hora da morte, o perseverante e cheio de fé Didi não desiste, e logo então passa a motivar seus amigos, repetindo em grande voz, como um verdadeiro mantra: 
“Vamos todos pensar firme, vamos todos pensar forte, pra cair um pingo d´agua e mudar a nossa sorte”.

E então o “milagre” acontece: chove no sertão, o monstro passa a funcionar, e num passe de mágica, o sertão passa a ter água, e os membros do grupo passam a ter realizados seus sonhos.
Ao final da película, o grupo direciona uma mensagem as autoridades do país:
 “E choveu. Que a chuva que molhou o sofrido chão do Nordeste não esfrie o ânimo de nossas autoridades na procura de soluções para a seca”.

A Dita mensagem final do filme


Enfim, trata-se de uma grandíssima comédia com toques de drama e crítica social. Como nenhum outro grupo, aqueles sabiam muito bem como trabalhar temáticas sociais de relevo e consonancia com o seu tempo, sabendo dozar os risos com os lágrimas. Desse filme, como visto, fica uma simples porém inteligente crítica a negligencia e o descaso governamental frente a dificil realidade do sertanejo, o dominio de poder nessas regiões pelos históricos “coronéis”, e por outro lado, são bem representadas caracteristicas marcantes dos sertanejos, como a perseverança e a fé, dentre outras questões.

Ass: Rafael Costa Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe
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