sexta-feira, 15 de julho de 2011

Por detrás dos olhos de Christiane...

    ...Encontramos a mais bela e perfeita demonstração do que o gênero fílmico conhecido como “Terror” deve nos proporcionar. Christiane, seus olhos e sua mascara, como também sua camisola branca e comprida, fazem parte de uma película chamada “Les Yeux sans visage”, que em bom e claro português pode ser traduzido como “Os Olhos sem Face”.
Poster do filme à época (1959).
       Estranho. Um Filme etiquetado como pertencente ao mundo do Terror originário da França. Foi a minha primeira impressão preconceituosa, como se o grande Cinema francês, a qual, que fique claro, sou fã, não pudesse ter criado suas películas com o fio condutor do medo e do horror.  Causando-me mais surpresa ainda, tratava-se de uma obra de 1959, dirigida por um cineasta de nome Georges Franju, que havia fundado a Cinemateca francesa, com seu amigo Henry Langlois e Jean Mitry em 1936.

O Jovem Georges Franju na direção de " Olhos sem Face".
        A Cinemateca francesa se tornaria primordialmente o grande palco dos debates cinematográficos de Paris, onde convergiam as grandes expressões do cinema francês de outrora, e aprendizes dispostos a aprender com aqueles mestres; todos juntos com um proposito claro de restauração e preservação de filmes mudos ou tidos como perdidos, em grande parte dos Irmãos Lumiere e de Georges Melies, grandes patronos do Cinema Mundial.
        Só por isso a Cinemateca já justificava o seu culto. A Questão é que esta conseguiu se superar em seu estatuto existencial. Mais tarde, ao fim dos anos 1950, e inicio do acalorado anos 1960, ela se tornaria o grande palco de debates e de efervescência cultural de todo o país, quando a França se via revolucionada pela ação juvenil, pelas forças estudantis, e, sobretudo, por um novo paradigma cultural e porque não filosófico, que seria refletido na aclamada Nouvelle Vague, ou Nova Onda Francesa.
        Com a Nova Onda, os diretores, roteiristas e cineastas franceses em geral que pertenciam a esta tendência, subvertiam toda a ordem social, refletiam nas telas o que a efervescência juvenil carregava em estandarte nas ruas de Paris. Toda a estrutura clássica do filme passava a ser rompida; o fluxo linear era substituído pelo campo dos sonhos, o real era invadido pela ilusão, e a Poesia podia ser alimentada pelo Terror. Não havia dimensões impossíveis para esse movimento.


A Agitação popular e intelectual era comum diante da Cinemateca.

         É daí então que a nossa película em destaque acaba ganhando toda a sua carga fantástica. Se a poesia podia se alimentar do Terror, e o Terror podia ser descrito em linhas poéticas, talvez nunca na história do Cinema, houve uma obra poética tão surreal e fabulosa como “Olhos sem Face”.
      Georges Franju é um poeta da beleza escondida nas sombras do Horror. Isso é tudo que vemos em sua película.  Nesta, Franju, executa toda a sua genialidade de anos no meio cinematográfico, para levar à cena a adaptação fílmica de um aclamado romance francês de mesmo nome, escrito por Jean Redon. Não é um filme de terror como nos acostumamos hoje em dia. Não há sangue correndo em demasia, muito menos tripas escorrendo. A Obra recorre ao estatuto do Terror em sua essência máxima, quando assustar significa atrair o expectador e pegá-lo de surpresa na hora mais improvável: a Hora do Susto.
        O Medo se incrusta em cada quadro do filme, cada caminhar de seus personagens, cada dialogo traçado, em todo o delinear da trama. Esta é a grande sacada do filme. É uma Poesia do Terror vivo, do horror sublimado. Para assustar não é necessário sangue, tripas, ou todo tipo de nojeira em geral como nos acostumamos a ver no gênero slasher; mas sim basta deixar o dito falar pelo não dito. Ou o não dito, expressar o dito. Enfim, o terror está no que está para acontecer, e no que está em suas entrelinhas.
        Particularmente, eu nunca vi nada igual. Alguns podem considerar exagero da minha parte. Garanto o meu respeito às opiniões adversas; mas minha aclamada postagem se baseia no que considero um primor de resgate do terror e/ou suspense como forma de expressão das agruras da humanidade, ou como face até do real, do passível de se tornar vivo, como bem era retratado, por exemplo, nas obras de Edgar Allan Poe.

Edgar Allan Poe era o Poeta da Morte e do Terror.
         Por isso tudo é que Christiane me assusta muito mais do que Jason ou Freddy Krueger. Aquela magrela menina, de media estatura, de pernas finas, de olhar doce, chorosa e de caminhar adolescente, é o terror vivo da existência humana. Sobre estas considerações é que a película irá se justificar.

Christiane: Como esta jovem poderia assustar?

        Enfim, se a curiosidade deve se centrar no filme a este momento, eis então que rapidamente, ainda que com toda dificuldade possível, tentarei então abordar alguns pontos importantes da obra. Em primeiro lugar, a fotográfica e os quadros do filme por durante todos os seus noventa minutos de execução, são fantásticos. A Trilha sonora de do francês Maurice Jarre é sensacional, causando a cada minuto, a partir de uma balada de horror, um tormento incomensurável.

Maurice Jarre e sua música atormentadora.
         Não quero me alongar muito mais, vou direto ao centro da história. Esta, narra a triste história da família Genessier, que após um acidente de carro, acabam tendo toda a sua trajetória transmutada. Christiane, filha do aclamado cirurgião plástico Dr. Genessier, acaba tendo sua face desfigurada neste infeliz acidente do destino. Bela jovem era ela. Agora sua face não era mais do que uma carne crua e queimada.
O Cirurgião e Pai de Christiane: Dr. Genessier.
         Não, isso não nos aparece no filme. Somos poupados. E por este artificio é que o filme se torna cada vez mais acabrunhante. A Cada minuto queremos ver o rosto da bela Christiane. Deparamo-nos então com, talvez, o maior efeito de terror de todo o filme: Uma mascara, aparentemente de silicone, ou qualquer material cirúrgico. Ora, uma mascara incolor poderia assustar?! Sim, e muito!

Uma Mascara sem expressão.

       Na película há sempre um jogo entre a escuridão da casa dos Genessier e o andar fantasmagórico de Christiane com sua mascara protetora que muito lembra os efeitos obscuros do Expressionismo Alemão, com obras como " O Gabinete do Dr.Caligari", de Robert Wiene, rodado em 1920, que certamente inspirou o jovem Georges Franjou nos tempos de Cinemateca . 

O Jogo da Escuridão no " Gabinete do Dr. Caligari": Traço fortíssimo do Expressionismo Alemão.
Christiane na escuridão de sua mansão: A Claridade estava somente no seu rosto e na sua manta fantasmagórica.

            Mas eu sei que devem estar me perguntando: Qual o fio condutor da obra?! Sim, acontece que o Dr. Genessier, inconformado com a atual situação da filha, uma jovem agora sem futuro, desolada naquela Paris onde pululava a beleza e o ardor da juventude, aquela sua menina confinada dentro de sua enorme mansão, vai então elaborar uma maneira cirúrgica, obviamente antiética, para retirar a pele facial do rosto alheio e transportá-lo para sua filha, sem que este corpo novo a recuse.
      Obviamente que esta “transferência de pele facial” não se daria de forma pacifica. Para isto, o Dr. Genessier se utiliza dos dotes de sua fiel enfermeira, a belíssima Louise que vai até Paris para aliciar jovens e belas garotas cujo tipo físico facial se assemelha ao de Christiane. Aqui há outra grande sacada do cineasta Franju: Nestas situações, há sempre uma situação de lesbianismo sempre dissimulada. Louise vai até os cafés de Paris, até os cinemas, e sempre através de uma palavra doce, consegue atrair a todas as jovens para seu nefasto fim. Apesar disto, como em todo o movimento da Nouvelle Vague, Franju também em sua obra dá a mulher um papel crucial e de destaque em toda a película. Aliás, elas são o centro de tudo. 
Louise: A Sedução e a Morte em um dissimulado lesbianismo.

          Louise é uma mulher decidida, e todas as jovens que por ela são aliciadas, são jovens garotas com dezoito anos, sozinhas em Paris, assistindo filmes no Cinema – Uma Metalinguagem assumida – curtindo a vida e a liberdade sexual a todo ardor comum na Paris à época. Em outros momentos, também veremos como a mulher será retratada em toda a sua liberdade possível, ainda que em situações complicadas.
         Após aprisionar estas jovens, o Dr. Genessier começa as suas experiências, que sempre acabam mal fadadas. Nenhum daqueles rostos, ou daqueles tecidos, consegue se adaptar ao rosto de Christiane, que sempre acaba necrosando, e fazendo com que aquela volte a usar sua mascara tão simples, e ao mesmo tempo, tão metaforicamente horrenda. E à medida que os insucessos ocorrem, o cirurgião cada vez mais se desespera. Na mesma proporção são os cadáveres acumulados e enterrados em um tumulo onde supostamente estaria enterrada a sua filha Christine. Sim, isto porque após o acidente, o cirurgião fingira que sua filha havia morrido, para em sua paz, tentar reconstruir, sem tormentos, a vida daquela.

O Rosto perfeito da bela Chistiane após uma das muitas cirurgias...

Contudo a Necrose vem logo em semanas...
E com isso também a decepção de seu pai e sua mascara novamente..
       Paralelamente a esta vida particular, Genessier é um médico aclamado, palestrante, e um ótimo cirurgião. Em algumas cenas vemos como ele é atencioso aos pacientes do Hospital em que trabalhar. É um sujeito frio, mas correto. Este também é um ponto fortíssimo da obra. Genessier é humano, não é um personagem estereotipado, sem caráter e com a maldade aflorando a alma. É um homem atormentado pelo amor a sua filha, e cada vez mais pragmático em seus objetivos. Difícil de aceitar e justificar eu sei, mas enfim, é o que Genessier acaba se tornando.

Genessier: Um otimo pai e um excepcional médico. Um ser humano.
           Seus planos passam a se encontrar em dificuldade, quando a jovem Christiane não aguentando mais o enclausuramento naquela mansão escura, fria e doentia, acaba ligando para seu antigo namorado, também médico e auxiliar de seu pai, e a duras palavras assobiadas de fundo de suas cordas vocais, pronuncia: “Jacques...”. 

Ao telefone, o suspiro: "Jacques.."
           Cena fabulosa e agoniante esta, de forma que o filme então entra em sua fase final, quando a polícia começa a investigar indícios sobre a vida particular do cirurgião e o sumiço das moças de Paris; enfim, o que poderia haver de comum. 
         Neste momento uma jovem também belíssima chamada Paulette entra em ação. Esta é uma libertina jovem, que em sua cena inicial é demonstrada em apelos na cadeia para ser libertada. Para então o ser, o investigador arma um esquema para ela se colocar dentro do Hospital do Dr. Genessier visando descobrir algo. 
         Nenhum resultado para a Policia, mas ela acaba sendo também aliciada sem perceber por Louise na saída do hospital. Enfim, em uma das cenas mais fabulosas do filme, ela se acorda em uma maca de operação na casa do Dr. Genessier, e caminhando como um fantasma alucinado caminha a jovem Christiane atormentada. Aos gritos, Paulette lhe suplica a vida, pensando que encontraria a morte. 
       Mas a surpresa acontece: Christiane a solta, e ainda por cima assassina Louise e solta uma enormidade de cachorros – que eram utilizados por seu pai em larga escala para experimentos científicos – que acabam atacando seu pai o Dr. Genessier, e em um final belíssimo e absurdamente poético, Christiane com sua mascara, caminha nos jardins de sua mansão, e em seus ombros, pombos também libertos por ela, a seguem para um caminho que não se sabe qual destino.

Os cachorros experimentais são soltos: O Dr. Genessier pagará por seus pecados.
E os pombos apesar de libertos, não querem largar Christiane: Ela também desejou voar dalí.
Foi então que ela voou, mais sozinha do que nunca: Com sua face branca e vestidos brancos compridos.
            Enfim, como se pode perceber, o enredo não é nada fora do comum, mas, o absurdo e fantástico é justamente o modo como isto tudo é levado a cabo, cena a cena, dialogo a dialogo, respiração a respiração. Os diálogos são altamente significativos, as explosões de sentimentos, os rompantes de agonia de Christiane, a anunciação da violência por parte de Dr. Genessier sempre se anunciando, são algumas características que irrompem da obra para estas simples e descomedida postagem.
        Não há mais nada o que dizer. Até porque não consigo ultrapassar mais.
Dos Olhos mascarados de Christiane se anuncia a menção de que você deve assistir a película para entender, concordar, ou refutar tudo o que foi dito acima. Só não deixe de assistir, e tirar suas próprias conclusões sobre este filme surreal e fantástico filme de terror cujo enredo pode ser tão próximo a nossa realidade, ou sobre um filme de terror que não causa muito medo.
Christianne: Grandes olhos em destaque em meio a escuridão e a brancura.
        
         De uma coisa eu sei, esta película me agradou demais. Agora, pode ser que ao ver uma pessoa com mascara de silicone eu sinta ou não medo, mas, pensarei sempre, que por trás da mascara, os olhos agonizantes de Christiane podem estar à espreita. Espero, que por detrás da fantasia e de frente a realidade, nunca que me apareça na vida, verdadeiros olhos sem face – Les Yeux sans visage. 

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.

domingo, 5 de junho de 2011

O Cinema - Denuncia de C.Gravas em Amém: O Reich e suas relações com o Vaticano.

       As produções cinematográficas incidentes sobre a Segunda Guerra Mundial sempre irromperam como um grande gênero fílmico há muito tempo explorado pelo Cinema, graças ao seu teor provocativo e histórico, o qual reconstruindo um assunto ainda do tempo presente, cujas feridas e chagas ainda perduram nos nossos dias, continuam ocasionando altas doses de emoção no público consumidor de tais películas.
             Ademais, alguns filmes dentro desse gênero conseguem fugir, no entanto a certo clichê que rodeia a produção destes filmes do gênero bélico: Grande maioria costuma em muito apenas se aventurar por narrativas épicas, dotadas de grandes heróis, com recriações que muitas vezes apenas servem como um divertimento fugaz, negligenciando fatores de ordem psicológica que podem ser inteiramente incluídos na obra, enriquecendo-a até como ponte para todo este contexto histórico absurdamente complexo e traumatizante que se apresenta a guerra.
            A Película “Amém” é uma destas obras que conseguem distinguir-se desse gênero clichê. Não é atoa que sua separação esteja diretamente ligada aos autores de sua produção, em especial, seu diretor, o grego Constantin Costa – Gravas. 
Costa - Gravas : Uma Câmera e uma Denuncia.

               Nascido em 1933, o cineasta grego, mas radicado na França, Costa – Gravas ficou conhecido pela crítica, sendo muitas vezes por isso aclamado pela mesma, pelo alto teor crítico e de denuncia que perfazem as suas obras.  Aos 36 anos, em 1969, ganhou notoriedade com sua obra “Z” onde narrava os horrores da ditadura militar na Grécia durante os anos 1960, pouco conhecida no Ocidente Europeu, e a partir dali então esta ganhara holofotes para a sua visibilidade. Com este filme, o jovem cineasta ganhara o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.
Z: A realidade da ditadura militar grega pelos olhos de um grego.
            Não obstante, sua linha cinematográfica o apresenta como um grande cineasta de tendência crítica, cujas obras em geral, denuncia alguma opressão ou violência sentida em algum momento histórico específico. Outra de suas grandes obras, - ratificando como Costa – Gravas se apresenta como um sujeito aberto às feridas mundiais, não apenas europeias – se chama “Missing”, do ano de 1982, que por aqui recebeu a tradução: “Desaparecidos, Um Grande Mistério”, a qual atenta para a ditadura militar chilena de Augusto Pinochet, na nossa América Latina.
Missing: Os Olhos vivos de Gravas se voltaram ao Chile.
           Logo, vistas todas estas considerações, não nos surpreende que a obra “Amém”, rodada em 2002, tenha recebido tantos elogios positivos, como também, ao mesmo tempo tenha suscitado revoltas em parte do público que a consumiu. Na França e na Alemanha, principais localidades onde se deu a sua rodagem em inicial, a reação do público ao mesmo tempo foram ambíguas: parte das críticas aclamou a obra pelo seu grande potencial psicológico e de denuncia, mas uma ala considerável, por fatores que demonstrarei adiante, recepcionou tanto a película como o seu diretor, portando as mais pesadas pedras nas mãos.
            A Origem destas pedras críticas é o que evidenciaremos agora.

Amém: Um filme extremamente corajoso.
          A película traz a tona, em linhas gerais, uma problemática ainda muito polêmica e porque não dizer ainda não satisfatoriamente respondida, que é justamente a participação da Igreja Católica, de sua cúpula maior do Vaticano, nos eventos que caracterizam a Segunda Guerra Mundial. Em suma, Costa – Gravas procurar perscrutar psicologicamente de qual forma o Nazismo e seus eventos já conhecidos por todos, foram recepcionados pelo Vaticano, e de que forma este pode ter se omitido ou contribuído na resolução de tais fatos. Por si só, esta breve sinopse, já explicaria o porquê das pedras que voam, pois por assim dizer, não menos que uma grande parcela da fervorosa população católica francesa da época, e toda a Cristandade, repudiou o filme, considerando indigna a fé católica, caluniador por certo.
            Mais obviamente que se tratando de um cineasta como Costa – Gravas sua intenção não seria causar reboliços com a Igreja e seus fieis, para obter público através de um mercado fomentado pelas polêmicas religiosas, mas, sobretudo, sua denuncia está decididamente calcada em raízes e indagações de teor histórico. Ainda hoje nos perguntamos e vemos o quão é complicado entender a participação do Vaticano, em especial do Papa Pio XII, em relação aos eventos daquela dita guerra, procurando entender quais tipos de relações sociais e econômicas poderiam ter ocorrido entre a cúpula eclesiástica romana e os nazistas.

Papa Pio XII e Hitler: Muiitos possíveis acordos firmados.
            Não pretendo trazer aqui um resumo da película, o maldito conhecido como spoiler que tanto causa raiva aos amantes do Cinema, pois tiraria toda a graça daqueles que porventura irão assistir a esta obra, motivados ou não por esta postagem. Em comentários gerais, abordarei apenas algumas questões cruciais, mormente ao eixo central do filme, que são personificadas e vivificadas nas falas das personagens principais, um soldado SS e um jesuíta italiano.
            O Filme conta a história de um soldado SS chamado Gerstein que trabalhando em pró da erradicação da febre tifoide e da proliferação dos vermes em geral, acaba tendo o resultado de seus estudos desviado na utilização errônea do chamado Zicklon B, como gás letal para as recém-criadas câmeras de gás nos campos de concentração do Reich.

Zyklon B: Morte imediata!
        Sim, leia-se recém – criadas, pois este é outro fator interessantíssimo do filme, pois ao contrário de outros que procuram abordar somente a Guerra em movimento e a Alemanha como um produto acabado como se até o iniciar da guerra em 1939 não tivesse ocorrido transformações internas levadas a cabo por anos, esta então tem sua temporalidade iniciada em 1936, quando o Reich ainda transformava os professores universitários em químicos eugenistas, e os hospícios alemães passavam a ser veladamente transformados em mini – campos de concentração, tendo seus pacientes, deficientes e loucos em geral, sido mortos naquelas localidades, porque se apresentavam como de altos custos e desnecessários a política ariana alemã. 
        Aliás, uma das mais dramáticas cenas do filme reside justamente neste ponto: Logo no inicio do filme, uma enormidade de pacientes de hospícios alegres saudavam aqueles que seriam seus carrascos, aos gritos de Sieg Heil. Pouco tempo depois, seriam colocados em um banheiro, e por meio da fumaça de um caminhão, foram mortos por asfixia. O Genocídio e/ou matança começara muito antes dos holofotes da Guerra, e isso é um dos elogios a serem feitos por esta película de Costa – Gravas, pois ele traz isso à tona.
       Ainda dentro desta premissa, outra cena choca e demonstra como toda a operacionalidade nazista atingia, e, sobretudo se justificava e fazia funcionar, através da educação de seus infantes alemães. Em uma cena, a jovem garotinha filha do SS Gerstein, está resolvendo suas tarefas da escola. Uma das indagações é justamente um problema de matemática que perguntava quantas casas para os arianos poderiam ser feitas com a economia obtida pela destruição dos hospícios de toda a Alemanha? Obviamente levando-se em consideração o Fator X determinante que seria a eliminação de seus componentes.
            Enfim, inconformado com esta situação, o obstinado soldado Gerstein inicia uma luta para acabar com este massacre de judeus, deficientes, e pessoas em geral, procurando anunciar a todas as fontes possíveis, o mal que tem sido feito na Alemanha. Seu canal fiel será o jesuíta italiano Ricardo Fontana, que filho de um conde próximo ao Papa Pio XII, tentará de tudo para acabar com esta situação, agindo dentro das redes sociais do Vaticano.
Ricardo Fontana e o SS Geirstein: Um Jesuita e um SS cristão.
            Neste momento é que a problemática central e mais complexa do filme se apresenta, pois durante mais de 120 minutos do filme somos levados aos questionamentos do jesuíta, a sua luta para que o Papa Pio XII e os cardeais romanos evoquem seu poderio da Cristandade para anunciar todos aqueles crimes, podendo assim tentar salvar os judeus, os deficientes, os negros e ciganos, todos aqueles que estavam sendo aniquilados pelas forças nazistas.
Somos arrastados até um embate moral onde ora pensamos que a Igreja procura auxiliar os oprimidos, e ora temos a mais certa certeza que a Igreja se omite e até contribui na consecução daqueles eventos. 
Pio XII:  De mãos dadas com a culpa?
          Em todos os momentos do filme, o jesuíta Ricardo Montana, que é fictício, representa uma luta ínfima dentro da Igreja para abrir os olhos e ouvidos dos poderosos do Vaticano, mas sua luta é cega, é ineficiente, pois os interesses papais e eclesiásticos se sobressaem a qualquer outro fator que possa aparecer. E é esta questão que justamente nos aterroriza: Em muitos momentos as rusgas existentes entre o Vaticano e o Nazismo são frutos apenas de querelas oriundas por impostos ou questões de ordem monetária, enquanto que a situação judaica e todos os levados aos campos são decididamente esquecidos e deixados à revelia.  A Igreja se defende, jurando que procura assim se “manter neutra”, e apenas abre sua boca quando são os “convertidos” que passam a ser levados aos campos.
            Quando se espera que o Papa Pio XII, as vésperas do Natal de 1942, exercite sua fala em pró daquelas vitimas, ele apenas recita as seguintes palavras:A humanidade deve esse voto às centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa pessoal, às vezes apenas por razão de sua nacionalidade ou raça, estão marcadas para a morte ou extinção gradativa.”.
 
Omissão do Papa Pio XII?!
        Este foi o seu maior revérbero durante a guerra, e percebemos que em nenhum momento foge de um comentário abstrato, quase um clichê camuflado em uma benevolência ocultada por interesses diversos. Não há indignação em nome dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, negros e etc. Aliás, nenhum desses nomes é citado em todos os seus discursos durante aquela época. Uma cena bastante bela e não menos pesada acontece quando indignado após este discurso, o jesuíta Ricardo Fontana, imprime sobre sua bata de jesuíta, uma estrela de Davi para desespero e indignação daquele clero romano, mais preocupado com outras questões.
            Enfim, daqui para frente, eu não prossigo mais, pois seria adiantar fatos e questões que anunciariam todo o restante do enredo do filme. Ademais, para concluir, apenas reafirmo a indicação desta película, para aqueles que desejam fugir um pouco do clichê bélico, perscrutando as inúmeras perguntas que ainda esperam respostas que possam explicar as raízes daquele evento, e, sobretudo, dos participantes da mesma.  
            Se o Cinema pode ser um eficiente canal de denuncias e reflexões, com “Amém”, Costa – Gravas consegue levar esta prerrogativa com total eficácia, legando a todos aqueles que sempre se inquietaram com estas questões, a obrigação de assistir a este filme, e refletir sobre os ocasos, omissões e culpas que a humanidade deve carregar, quando aqueles lavam as suas mãos, e gritam “Amém” para estes atos horrendos.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Real Madrid x Barcelona: O Futebol no meio de campo das batalhas da História.

  
Mais do que um grande clássico, o duelo futebolístico envolvendo o Real Madrid e o Barcelona comporta uma dimensão histórica e simbólica que ultrapassa os meros limites das quatro linhas do campo. Sua importância e seu significado remontam todavia as origens da nação espanhola e por assim dizer, aos conflitos e embates que historicamente marcaram a formação territorial e principalmente política e ideológica da Espanha desde a sua formação como Estado Nacional, até principalmente os duelos ideológicos e separatistas que a caracterizam no decorrer do conturbado século XX.
Analisando as raízes históricas de cada clube podemos assim evidenciar e delinear muitos fatores que ensejam o equilíbrio de forças que fomentam historicamente esta disputa. Fundado em 1899, o mais do que centenário Futbal Club Barcelona já nasceu em suas entranhas fortemente relacionado ao mais puro sentimento de pertencimento da chamada região basca, cuja vontade de autonomia desta dita região da Catalunha frente à nação espanhola nos faz remontar aos primórdios do sentido da Espanha, ainda no século VIII, quando a mesma ainda era um Império cristão visigótico, este separatismo basco já se mostrava evidente, obviamente que dada as devidas proporções históricas, para com isso não cair em um anacronismo comparativo. Recentemente, em 1999, quando das comemorações do Centenário do Club, um torcedor ilustre, o grande tenor Josep Carreras, pronunciara que:"Ser torcedor do Barça vai além do puramente esportivo. É o sentimento de raízes, de valores e de uma identidade de país: a Catalunha"
Bandeira da Catalunha : Uma Nação a parte.


Mas enfim, não nos cabe aprofundar neste tão conhecido sentimento de pertencimento a causa basca que tão enlaça aquela particular região da Espanha. Aliás, a Espanha é talvez uma das nações cuja formação histórica se apresenta como de maior particularidade possível. Do século IX até o século XII, e mais adiante ainda, aquela região se mostrava singular ao restante do Ocidente Europeu Medieval, por apresentar uma estrutura territorial e de relações sócio-políticas muito singular e diferenciada. Apresentava-se formada por alguns fortes reinos cristãos localizados no norte da mesma, e principalmente por inúmeros reinos muçulmanos, ou reinos taifas, localizados no sul e no neste da referida localizada. Lá no norte da Espanha, dentro daqueles reinos cristãos, já se encontrava a região da Catalunha e seus condes de Barcelona, e ainda naquela época, o forte sentimento de pertencimento a uma cultura ou uma nacionalidade que é distante do restante da nação já se mostrava forte.
Enfim, voltemos a um tempo mais presente. Não obstante, em seus primeiros anos de fundação, o Barcelona disputava e rivalizava com o Valencia ao chamado Campeonato da Catalunha, ainda nos lidos de 1920, ou seja, ainda nesse momento a rivalidade contra o grande Real Madrid não era tão iminente.
Contudo a História do Barcelona e do clube da capital espanhola, o Real Madrid, se cruzariam com muita força a partir da metade dos anos 1920, quando a partir de combates políticos, o simbolismo da nascente rivalidade viria à tona. Em 1925, a Espanha vivia sobre o julgo da ditadura de Miguel Primo de Rivera que dentre outras coisas deu um golpe de Estado, dissolvendo o parlamento, e consequentemente ao assumir o Poder, passou a perseguir com veemência aos movimentos separatistas bascos.

Cartaz atual onde se lê: Catalunha não é Espanha.

Assim sendo, em um jogo do Barcelona em 1925, a torcida do clube acabou por vaiar ao hino espanhol, em repudio a repressão iniciada por este ditador, e como resultado o clube acabou sendo forçado a fechar suas portas, permanecendo nesse estado por mais de seis meses. 
Outro caso bastante interessante recorre também sobre sobre outro time de origem basca chamado Atlético de Bilbao. Ainda que o Barcelona mantenha suas raizes, este não impossibilita a entrada de qualquer jogador da mais váriada nacionalidade. Contudo, o Atlético de Bilbao talvez represente o mais fechado sentimento separatista haja vista que ainda hoje, neste mercado movimentado dos valores do futebol, não permite a entrada de jogadores de outras localidades, apenas jogadores da Catalunha, enfim, bascos.

Torcida do Atlético de Bilbao em ação separatista.

Desta maneira, com o passar do tempo, o enfrentamento do Barcelona contra as forças estatais espanholas ganhariam seu significado máximo pouco tempo depois destes ocorridos. Seria no governo de outro grande ditador que as disputas entre o Barcelona e o Real Madrid se tornariam palco ideológico que ultrapassavam o mero sentido esportivo.
Este ditador se chamava Francisco Franco. Fascista reconhecido mantinha contatos com Mussolini e Adolf Hitler que o ajudariam a desenhar o quadro politico de seu governo. Fato é que ao assumir o governo, Franco já instaurou o sistema da repressão e do terror, proibindo o uso da língua catalã, e mandando assassinar através de suas forças repressivas da extrema direita, ao presidente do Barcelona, que por ter sido considerado comunista, acabara sendo então aniquilado.

Franco: "Blanco" convicto, usou-se do time como instrumento propagandistico.
Do outro lado do embate, na capital espanhola, o Real Madrid, principal clube de origem nobre, daí seu titulo real, passaria a ser utilizado como canal de divulgação do Franquismo. O próprio Franco era fanático torcedor do clube, e por isso mesmo, iniciou um projeto de fortalecimento do mesmo, patrocinando e contratando os principais jogadores da época para tornar cada vez mais forte o clube, e assim aumentar o poderio qualitativo de sua imagem. Fato é que foi na chamada Guerra Civil Espanhola que o Real Madrid, ou “Los Blancos”, acabam despontando como o grande clube da Espanha, persistindo assim até os dias atuais. Seu presidente a época, durante os anos 1920 e 1930, chamado Santiago Bernabeu, que dá nome inclusive ao seu estádio, mantinha uma forte aproximação ideológica com Franco, evidenciando-se assim todos os usos e desusos ideológicos do clube pelo Franquismo.

Antigo Simbolo do Real Madrid entre os anos 1920 e 1930.
Em Madrid, enquanto o Real Madrid formava-se como o clube da extrema direita franquista, na Catalunha, o Barcelona se mostrava como o clube mais popular, formado e idolatrado  não somente pelo povão daquela região basca, mas também pelos inimigos do sistema franquista. No seu estádio o chamado "Camp Nou", a torcida enfurecida gritava e berrava aos montes, xingando com toda força ao general Franco, aproveitando aquela oportunidade para descarregar toda a energia e toda a raiva possível.

Camp Nou : Casa do Barcelona

 Não se trata de taxar ou rotular ambos os clubes. Seria um erro incomensuravel da minha parte. Contudo ao observarmos a História podemos perceber como grandes fenômenos sempre vão acabar sendo influenciados por questões de ordem política e ideologica. O Real Madrid não é mais um clube franquista, contudo não se pode esquecer muito de seu crescimento ligado ao passado proximo. Tampouco todo torcedor blanco seria de extrema direita e muito menos todo torcedor do Barcelona seria um nacionalista separatista convicto. Enfim, nada de generalizações descabidas. Esta postagem é somente um mero comentário a luz da ótica da história recente e em pró dos recentes clássicos ocorridos nesse ano de 2011 que tanto chamaram atenção.

Madrid x Barça: O Mundo para ao assistir o confronto.

Por conseguinte, diante disso tudo, a história do clássico aumenta a cada dia, desde este passado não tão remoto. Seu sentido ainda é hoje percebido embarcando todas estas rivalidades mencionadas, ainda que diminutas em algumas questões nunca hão de deixar de existir. Grandes idolos de ambos clubes trocaram de manto e com isso foram hostilizados: Figo e Ronaldo podem ser citados sobre isso. 
É por isso mesmo que toda vez que você leitor, se aventurar a ligar a telinha da TV para assistir a esse grande clássico futebolístico, nunca deverá se esquecer, que por detrás deste jogo, há muito mais do que uma pelada onde corre a bola, mais sim um fortíssimo simbolismo histórico e ideológico que permeia toda a nação espanhola.
Nunca! Nunca que um dia qualquer onde degladiariam Real Madrid x Barcelona será um dia comum. Um Clássico! Um combate!  Na marca da cal dos domínios da história para os limites do campo. Há de ser sempre um grande jogo!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Gênero Religioso - Parte 1. Jesus Cristo no Cinema.

    Em comemoração aos festejos da Páscoa que por meio de seu simbolismo acaba por ocasionar uma profunda reflexão sobre a passagem de Jesus Cristo em vida terrena com os ensinamentos cristãos, vos trago agora uma breve analise de um gênero especifico do Cinema que sempre se manifestou como um grande campo de apropriação cinematográfica: O Drama Religioso.

            Fato é que a comoção da vida e paixão de Jesus Cristo, grande símbolo da história da humanidade, sempre despertou os olhares dos cineastas, tornando-se no decorrer dos anos, um espaço de inúmeras interpretações acerca dos acontecimentos ocorridos. 
             Não obstante, um dos primeiros grandes filmes do Cinema tratou-se justamente de um grande épico religioso chamado “La vie et la passion de Jésus Christi", em português “Paixão e Vida de Jesus Cristo”, filmado no ano de 1903  de autoria do cineasta Ferdinand Zecca. De origem francesa, a película expunha em 44 minutos as passagens cruciais da Bíblia, enfim de toda a trajetória de Jesus Cristo por sob a terra, com filmagens ainda sob molde teatral, caracteristicos dos príncipios do Cinema mudo.

 La vie et la passion de Jésus Christi

            De 1903 para 2011, temos um grande alargamento temporal, e deste tempo decorrido sobressaltam algumas grandes obras religiosas que marcaram época, frente a outras tantas de mesmo teor temático, contudo mais desconhecidas.

            Destes grandes filmes, não aparecem somente obras voltadas propriamente a vida de Jésus Cristo, como também de personagens importantes que o cercavam, como Maria Madalena, sua mãe Maria, Judas Iscariotes, todos os seus discípulos, enfim, há uma enormidade de temas abordados dentro do gênero histórico.

           Longe de querer analisar todos os filmes existentes, até porque seria inviável e impossível, almejo apenas listar alguns filmes que admiro, e que me habituei a assistir desde a tenra infância. Alguns grandes clássicos consagrados, outros nem tanto.

            Aparecerão na história do Cinema, filmes mais transversais em relação à vida de Cristo, sendo assim, aparecendo então outras histórias, outras personagens bem posteriores ao mesmo. O que não os diferencia e o que torna todas as obras bastante próximas é justamente o caráter moral, religioso. 

           Por conseguinte pode ocorrer de alguns grandes filmes louváveis acabarem não figurando na lista. Não se trata de escolhas ou juízos de valores. Por assim dizer, a minha falha memória pode consecutivamente me trair e com isso somente prometerei expor alguns filmes, de forma a ilustrar mesmo, sobre a temática. Na primeira parte desta postagem, postarei apenas alguns filmes diretamente ligados a figura de Jesus Cristo, ou seja, biografias do mesmo. Mais tarde, em outras ocasiões, postarei sobre seus circundantes como também filmes que abordam contextos religiosos interessantes e que são basicamente posteriores a Cristo.

      Dito isto,vamos agora tecer pequenos comentários sobre algumas obras em especial:

1. Jesus de Nazaré, de Franco Zefirelli ( 1977).

           Com certeza trata-se de uma das maiores, se não a maior, representações biográficas da vida de Jesus Cristo. Exibido com certa fluência em datas como a que vivemos neste momento, esta obra é uma co-produção italiana e inglesa, rodada em 1977, por seu idealizador o grande cineasta italiano Franco Zefirelli, que ao transmiti-lo em formato mini-serie, acabou levando-o também as telas do Cinema.

         Com mais de sete horas de filmagem, a película consegue percorrer significativamente grandes passagens da vida do Cristo, passando da sua infância até o momento de sua morte e posteriormente sua ressurreição. Vale destacar no filme a grande interpretação do ator Robert Powell que desempenha justamente a dificil tarefa de tentar encarnar Jesus em corpo e alma. 

     Enfim, sem mais delongas, esta obra é um clássico que considero que todos se ainda não a assistiram, já ao menos tiveram a oportunidade de contato. Passou-se o tempo, mais ainda este filme setentista ainda continua sendo um modelo para os épicos religiosos atuais.

Jesus muito perto de ser condenado.

2. A Paixão de Cristo, de Mel Gibson (2004).

     De assumido grande impacto, esta película mais contemporânea acabou sucitando as mais diversas opiniões sobre seu possível teor moral.  De autoria do cineasta Mel Gibson, a película logo de cara acaba por se destacar pelo carater decididamente perfecionista como são todas as obras destes respectivo cineasta. Gibson sempre inovara em suas obras ao utilizar-se das linguas matrizes locais de cada local, de cada época. Portanto, em a Paixão de Cristo são faladas as linguas da época de Jesus, que são o aramaico, o latim e o hebraico. Este " Efeito de Realidade" traz ao filme uma dimensão muito especial e o sentido de realidade frente ao público se torna justamente muito maior por esta adoção linguistica.

    Essêncialmente a obra como as demais do gênero procura abordar os fatos ocorridos na vida de Jesus, contudo esta acaba inovando ao adotar o Flash Back para rememorar os fatos pensados e vividos pelo Cristo. 

   Contudo o filme ganharia mais destaque e mais considerações na imprensa e pelos críticos que a foram, devido a uma possível brutalidade e excesso de violência que choca durante a execução do filme, e principalmente sob certa acusação de antisemitismo por parte do diretor, Mel Gibson, do que por sua qualidade técnica que é também impressionante.

Jesus e as marcas do sofrimento: Um exagero por parte de Gibson?

   Sobre uma possível demonstração exagerada do sofrimento de Cristo, o proprio Papa a época chegou a dizer que o filme era relevante na medida em que expunha realmente as dores que Jesus havia sofrido por nós. Ou seja, o Vaticano aprovara a obra.

   No tocante ao quesito do antisemitismo, algumas correntes judaicas contestam e acusam Mel Gibson, este religioso bastante conservador, de ter dado a cabo uma visão deturpada e impondo uma visão sobre os judeus como os verdadeiros responsaveis pela condenação e morte de Cristo.

  Enfim, polêmicas a parte, o filme é tecnicamente muito bonito, o choque de realidade é impressionante, e as atuações de Jim Caviezel como Jesus Cristo e principalmente da atriz Rosalinda Celentano como no papel de Satanás são decidamente louvaveis entre outras tantas questões do filme.

O Diabo representado na figura tentadora.


3. O Rei dos Reis, de Cecil B. de Mille (1927).

   Grande épico relígioso típico de B.de Mille, a película " O Rei dos Reis" marcaria a época justamente pelos grandes cenários, pelas vestimentas e pelo grau de investimento em geral. Por ser de 1927, ainda caracteriza-se como do Cinema Mudo, contudo sua fama aparece justamente além dos grandes arranjos arquitetônicos bem avançados para a época, inovará também quando B.de Mille procura utilizar-se de certos truques de ilusão para recriar os milagres da vida de Cristo, como o andar sobre o mar e a transformação da agua em vinho.

   Enfim, trata-se de um grande clássico ainda hoje muito cultuado. Grande filme com quase 2 horas e meia de relato biblico, com destaque para o ator H.B. Warner que interpreta com muita lucidez a Jesus.

H.B.Warner como Jesus.

4. A Última tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988).

        Com certeza nenhum filme conseguiu causar tanta comoção dentro das estruturas da Igreja, nos meandros do Vaticano, como esta película de Scorsese conseguira. Isto tudo porque o filme faz uma releitura dos momentos finais da vida de Jesus, também utilizando-se do efeito Flash Back, onde o mesmo vai rememorando variadas questões de sua vida, arrenpendendo-se de algumas, lamentando-se por outras, dando margem então a personificação de um Jesus mais humano e menos divino, sujeito a erros. Neste, em outras tantas abordagens, Jesus se imagina como teria sido seu destino caso tivesse casado com Maria Madalena, como também é demonstrado como um sujeito inseguro cuja relação com seu pai Deus é sempre tumultuada.

    Enfim, a película de pronto foi considerada como herética e não recomendada aos cristãos por ser considerada desviante dos bons costumes, por parte das ordens do Vaticano. O Filme é inspirado assim na obra homônima do escritor grego Nikos Kazantzakis que obviamente também sofreu inumeras críticas por parte da Igreja, mas seu livro não menos tornara-se um best seller mundial a ponto de ser alçado como vemos a uma película.

  Aos de pensamento mais fechado o filme torna-se um exercicio dificil, mas a leitura passada com a obra é interessante, e no mínimo é necessário assistí-lo para poder então criticar suas idéias. 

  No campo da atuação vale destacar com absurda certeza o grande papel desempenhado pelo ator Willem Dafoe que encarna com perfeição esse Jesus humano, cheio de tentações, dúvidas e incertezas sobre seu destino e sua natureza. 

Dafoe como um Jesus atormentado está sensacional.

  Enfim, não obstante, ainda hoje a obra causa grandes polêmicas sendo idolatrada por alguns, e sendo destroçadas por outros. Vale assistir e tirar sua propria conclusão tanto sobre este filme como quanto aos outros citados. Uma Boa Páscoa a todos!

Ass: Rafael Costa Prata 

Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe.
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