sexta-feira, 25 de julho de 2014

Uma belíssima cientista oriunda do Cinema: Hedy Lamarr e sua "invenção do telefone celular"

Se hoje podemos acessar a Internet em qualquer ponto remoto, por meio do WI-FI, devemos agradecer a atriz Hedy Lamarr.  Aqueles que porventura quase sempre se “perdem” e por isso necessitam de um GPS para se locomoverem, também devem agradecer enormemente a Hedy Lamarr. Aliás, devemos todos agradecer a Hedy Lamarr, porque sem suas contribuições a tecnologia não teria hoje em dia, os nossos celulares. Sim, estou falando realmente de uma atriz de cinema, pois, além de suas contribuições a sétima arte, Hedy Lamarr foi uma grande inventora.
Nascida em Viena, na Áustria, em 1914, Hedy foi uma grande estrela durante todo os anos 1930, tendo ficado marcada na história do Cinema, por sua ousadia, ao ter participado daquela que é considerada a primeira cena de nudez da história do Cinema, na película “Êxtase” do ano de 1933. Na película, a jovem atriz de 19 anos, aparece parcialmente nua, e em uma das cenas, chega até a induzir que está tendo um orgasmo. Obviamente que a película causou enorme estardalhaço por conta do conservadorismo de então, e a atriz, acabou entrando para a História do Cinema Mundial.

Hedy Lammar em "Êxtase": sua nudez causou um enorme rebuliço. 

Mas a carreira de Hedy não se limitou apenas a “Êxtase”. Após essa película, a belíssima atriz continuou atuando até os finais dos anos 1950, quando resolveu abandonar a carreira.
Foi durante a Segunda Guerra Mundial que Hedy Lammar “descobriu” suas habilidades tecnológicas, quando, junto com o compositor George Antheil, trabalhou para o sistema de comunicações das Forças Armadas Americanas, tendo nesse período, desenvolvido uma tecnologia a que chamou “salto de frequência”, baseado nas ondas de som emitidas pelas teclas de um piano.
Lammar inventara assim um aparelho que emitia ondas que conseguiam produzir uma interferência no rádio dos aviões e navios de guerra dos americanos frente aos alemães, de modo que, as informações passadas não eram captadas pelos nazistas. No entanto, seu sistema foi rejeitado e engavetado, só sendo utilizado muitos anos após a Guerra, pelas tropas americanas em Cuba, durante os anos 1960.

Hedy e seus "inventos": a serviço das forças armadas americanas

A belíssima atriz – inventora faleceu em 19 de janeiro de 2000, aos 85 anos de idade. Mas antes disso, em 1997, recebeu do Governo norte-americano, uma menção honrosa por “abrir novos caminhos na fronteira da eletrônica”.  A atriz que já marcara a história do Cinema por sua “ousadia” em “Êxtase”, entrara assim para a História como a “mãe do telefone celular, do GPS, e do WI-FI”, haja vista que sua tecnologia serviu de sistema base na composição de tais mecanismos.

Att. Rafael Prata

Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

domingo, 20 de julho de 2014

Abraham Lincoln nas telas do Cinema: a indústria cinematográfica americana e suas versões sobre o símbolo político americano

Um dos grandes símbolos da história política norte-americana, se não a maior, Abraham Lincoln, marcou a história americana, tendo participado ativamente do processo que levou a abolição da escravatura naquele país durante a década de 60 do século XIX, quando em setembro de 1862, assinou a Proclamação de Emancipação, em meio aos combates da chamada guerra civil americana, na qual lutavam os estados confederados do Sul (contrários à abolição) e a União (a favor).
Só por esta grande contribuição política, Lincoln figuraria no panteão das grandes personalidades históricas norte-americanas. No entanto, um triste acontecimento o levaria mais rapidamente e de vez ao grande panteão dos lideres políticos: seu assassinato. Assim, no dia 14 de abril de 1865, o ator teatral John Wilkes Booth, de orientação sulista confederada, sobe até o camarote em que se encontrava o Presidente, no Teatro Ford em Washington, dá um tiro na nuca de Lincoln, matando-o imediatamente.
Triste sina, aliás, dos presidentes norte- americanos. Pouco mais de cem anos depois, outra grande liderança teria o mesmo fim em uma passeata: John Kennedy, em novembro de 1963, morreria assassinado, também por tiros, em mãos de Lee Oswald.
Mas enfim, uma grande personalidade política americana como Lincoln, obviamente não ficaria a margem da indústria do Cinema, haja vista que, uma grande personalidade local, talvez a maior delas, representaria sucesso imediato de público.
Foi assim que, já nos primeiros séculos do Cinema, que Lincoln chegou às telas por meio daquele que é considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos: D.W. Griffith. A película “Abraham Lincoln”, do ano de 1930, recria assim desde a suposta infância de Lincoln, passando por sua atividade política, até o seu assassinato. Obviamente que se apresenta como um grande filme patriótico, destinado a louvar não só a imagem de Lincoln, como também de ligar à essência americana a imagem deste, nos seus pouco mais 90 minutos de exibição.

"Abraham Lincoln", 1930, dir. D.W.Griffith.

Em 1939, outro grande cineasta norte-americano, John Ford, daria a sua “contribuição”, apresentando a sua versão da vida de Lincoln aos americanos, por meio do Cinema. O filme “A Mocidade de Lincoln”, porém, como o próprio título informa, procura centralizar suas ações na carreira de Lincoln como advogado nos anos 1830, procurando demonstrar seus valores, seus ideais e seu senso de justiça.

"A Mocidade de Lincoln", 1939, dir. John Ford.

Um ano depois, o cineasta John Cromwell, também leva as telas uma película voltada a Lincoln; a película “O Libertador”, também reconstrói fatos da infância de Lincoln, passando por sua carreira como advogado, até chegar aos seus atos como presidente, e seu fim derradeiro no assassinato.

"O Libertador", 1940, dir. John Cromwell.

Passado esse período de enorme apropriação da figura de Lincoln, sua figura permaneceu esquecida por um bom tempo. No entanto, em 2012, Lincoln ressurge em duas películas: “Abraham Lincoln, caçador de vampiros” e “Lincoln”.
O primeiro se apresenta como um curioso filme de ação/terror, na qual Abraham Lincoln se torna um destemido herói, que por detrás de sua carreira política, é também um hábil caçador de vampiros. Lincoln se torna uma espécie de Van Helsing da Guerra da Secessão.

"Abraham Lincoln - Caçador de Vampiros, 2012, dir. Timur Bekmambetov"


O segundo filme, muito mais destacado, se apresenta como um grande épico patriótico dirigido por Steven Spielberg, que centraliza sua narrativa nos esforços de Lincoln para fazer aprovar uma emenda na constituição americana que formalmente significaria a abolição da escravatura no país, e todos os esforços, choques políticos, decorrentes de tal ação. O filme conta com um elenco estrelado, com enorme destaque para a atuação fabulosa de Daniel Day-Lewis no papel do próprio Lincoln. O Filme obteve 13 indicações ao Oscar, tendo levado a estatueta em “Melhor Ator” para Daniel Day-Lewis e “Melhor designer de produção”.


"Lincoln, 2012, dir. Steven Spielberg"

Novas películas serão produzidas. Novas releituras da vida e da personagem histórica Abraham Lincoln. Reiteradamente a indústria do Cinema, em destaque a americana, tem oferecido suas versões acerca desse símbolo norte-americano, quase sempre é claro, sob uma perspectiva patriótica.

Att. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

terça-feira, 8 de julho de 2014

Um furacão entre dois irmãos: Marilyn Monroe e os irmãos Kennedy

Até hoje há quem diga que Marilyn não se matou. Para alguns, Marilyn foi “apagada” por questões políticas. Sua morte teria sido fruto assim de um assassinato e não da versão usual de suicídio por abuso de remédios. Eis uma das grandes e mais conhecidas teorias da conspiração envolvendo personalidades artísticas e da política.
Fato é que em vida, o furacão Marilyn arrancou suspiros de uma quantidade infindável de grandes personalidades de sua época, tendo se envolvido então com figuras proeminentes não só do seio cinematográfico, como da política norte-americana. Assim, a base dessa dita teoria da conspiração se encontra nos supostos relacionamentos – supostos sim, porque de todo ainda não foi comprovado – entre Marylin e os irmãos Kennedy, Bob e John Kennedy.

John Kennedy, Marilyn Monroe e Bob Kennedy

Deste modo, por “questões de segurança”, Marilyn teria sido assassinada, pois saberia de muitas questões da política nacional e externa americana, haja vista que, no pé da cama, ambos os Kennedy, em destaque John Kennedy, até então o presidente americano, teria lhe contado muitas questões sigilosas.
Marilyn teria tido um romance oculto com John Kennedy por cerca de seis anos. Romance sempre vigiado é claro pela CIA e FBI, que procurava manter tudo às escondidas para não manchar a imagem do querido presidente norte-americano. Ambos os Kennedy foram homens bastante mulherengos, e por detrás da imagem de pai de família que residia na figura do presidente Kennedy, havia um homem que traia constantemente sua esposa Jacqueline Kennedy, fato que preocupava demais a CIA.
Teorias da conspiração e lendas a parte, a morte de Marilyn continua ainda hoje um grande mistério. Assim como a morte do próprio John Kennedy. Em vida, aquelas duas grandes personalidades tiveram um rápido relacionamento que rende até hoje uma série de biografias, estudos, filmes/documentários.

Att. Rafael Costa Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quarta-feira, 25 de junho de 2014

[TOP10] Os Melhores Filmes e Documentários sobre Futebol

Em clima de Copa do Mundo, o ápice dos eventos futebolísticos, apresento nessa postagem, uma lista com filmes e documentários sobre Futebol. Como toda lista é limitada e subjetiva, apresento então os filmes e documentários a que pude assistir e mais me agradaram.

Segue as indicações:

1.   Todos os corações do Mundo (1995)


Não teria como não listá-lo em primeiro lugar. Cresci assistindo a esse grande documentário.  Trata-se do  "Documentário oficial da Copa do Mundo de 1994”, na qual o Brasil tornou-se tetracampeão. Além dos jogos, conhecemos as culturas dos países envolvidos, imagens de bastidores das partidas e muitas outras curiosidades.
A Trilha sonora e a edição das imagens do documentário é perfeita. As músicas acabam construindo todo um ambiente de suspense em torno dos jogos, habilidade esta que ficou a cargo do grande maestro húngaro Lazlo Griffin. Apesar desta Copa não ter sido das melhores, o filme consegue criar toda uma carga de dramaticidade. Enfim, dificilmente algum outro documentário sobre Futebol conseguirá chegar aos pés deste, na minha opinião. Aliás, poucos sabem, mas a direção do documentário é do brasileiro Murilo Salles.
Uma cena em especial se destaca no filme. É quando, antes de se iniciar a final entre Brasil e Itália, o atacante italiano Roberto Baggio está encarando o baixinho Romario. Perfeita a cena. Destaca-se também a homenagem póstuma ao zagueiro colombiano Escobar, que acabou sendo assassinado após a eliminação de sua seleção da copa.

2.   O Milagre de Berna (2003)


A Maior reconstituição de época do passado futebolístico a que pude assistir. Tudo é idêntico, dos fardamentos, a chamada “bola de capotão” até o chute do atacante alemão que daria o titulo a Alemanha na copa de 1954. Trabalho mais do que minucioso. Enfim,  o filme centra-se na figura de um garoto apaixonado por futebol e amigo de um jogador da seleção da Alemanha, que vê seu pai voltar traumatizado da União Soviética, onde ainda era um prisioneiro de guerra. O auge do filme é a final da Copa do Mundo da Suíça em 1954, quando a Alemanha venceu a poderosa Hungria na final. A película consegue unir drama, humanidade e futebol numa mesma perspectiva. A Recriação da copa de 1954 é perfeita, cenas idênticas, é claro com alguns tons fictícios, mas o filme tem o grande mérito de também retratar a situação do pós-guerra em que vivia o mundo, cheio de angustias e medos.

3.   Heleno (2012)


Heleno com certeza foi o melhor jogador do mundo durante os anos 1940. Infelizmente, durante o seu auge, não tivemos Copas do Mundo, pois por conta da Segunda Grande Guerra Mundial, o evento foi cancelado durante os anos de 1942 e 1946, justamente o seu auge. Quando a Copa “voltou”, em 1950, Heleno já estava sucumbindo na sua sífilis.  Galã, advogado, egocêntrico e cracaço de bola, Heleno teve sua biografia levada as telas nessa película que descreve o seu auge no Botafogo, suas passagens pela seleção brasileira, seu temperamento absurdamente explosivo, a força das doenças que lhe deterioraram, e seu fim. Vale muito assistir! Belíssimo filme! Grande atuação de Rodrigo Santoro no papel do temperamental atacante!

4.   Garrincha – A alegria do povo (1962)



Recentemente, em meio a essa Copa do Mundo, perguntaram ao grande atacante holandês, Robin Van Persie, qual era o seu grande ídolo. Sua resposta, para o espanto do jornalista, foi: Garrincha. Van Persie é um jogador novo, certamente não assistiu aos grandes jogos de Garrincha, mas sua admiração nasceu pelo fato de que, durante sua infância, assistira convulsivamente ao documentário “Garrincha – A alegria do povo” onde são demonstradas as diabruras do “anjo das pernas tortas” pelo Botafogo e pela seleção brasileira! Grande documentário do cineasta Joaquin Pedro de Andrade!


5.   Boleiros – Era uma vez o Futebol (1998)



Clima de Bar. Conversa de Buteco. Conversas, brigas acaloradas. Eis um grande filme sobre o pós – jogo e sobre as grandes histórias e lendas da bola. Nesse clássico nacional de Ugo Giorgetti somos levados a um bar de São Paulo onde um grupo de ex-jogadores de futebol se reúne, quase todas as tardes, para falar dos casos acontecidos nos seus tempos de jogadores. Conta-se sobre aquele lance que o juiz ladrão tirou do nosso time, aquele gol contra do zagueiro brucutu, aquela maria chuteira... etc.. Grande sacada de Ugo Giorgetti.

6.   Duelo de Campeões (2005)


Eis uma película pouquíssimo conhecida, ambientada em um cenário bastante conhecido por nós: a Copa do Mundo de 1950. O Filme, que lembra muito “O Milagre de Berna”, narra a história da também milagrosa vitória da seleção americana frente a Inglaterra na Copa do Mundo de 1950. Com um time de amadores, a seleção americana, pouco dotada da técnica futebolística, conseguiu assim, para assombro de todos, vencer uma das grandes potências da época. O ator hollywoodiano Gerard Butler, o mesmo do sucesso “300”, interpreta o herói americano Frank Borghi. Filme bem interessante! Um outro lado da Copa do Mundo de 1950 pouco conhecido!

7.   O Ano em que meus pais saíram de férias (2006)


Aqui não necessariamente o futebol é o tema principal. Mas é sim o grande fio condutor da película que conta a história de um garoto que se vê sem os pais, que são obrigados a fugirem do país por conta da ditadura militar, e que agora não tem outra opção do que refugiar-se no jogo de botão e também na campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970. Grande filme!

8.   United (2011)


Os “Busby Babies”. Assim eram chamados os jogadores do Manchester United aos finais da década de 1950, quando eram treinados pelo lendário Matt Busby. O Filme conta a história do sucesso da equipe, e do posterior acidente aéreo que acabou vitimando mais da metade da equipe, num dos mais trágicos acidentes de aviação da história. Bela reconstituição de época, grande filme!

9.   Fuga para a Vitoria (1982)



Um pipocão. Blockbuster para se divertir sem pensar muito. Eis a tarefa desse clássico de “Sessão da Tarde” que curiosamente foi inspirado em um trágico acontecimento real ocorrido na segunda guerra mundial. Nessa película contamos com uma série de estrelas hollywoodianas e do Futebol, como Sylvester Stallone, Michel Caine, Pelé, Bobby Moore, entre outros, que prisioneiros, armam uma fuga em massa. Muito divertido!

10.       Pelé Eterno (2004)


Para quem ainda tem dúvidas que Pelé foi o melhor de todos, basta assistir a esse documentário friamente para constatar essa questão. De fato, Pelé foi Rei. Batia com as duas pernas, cabeceava como ninguém, driblava implacavelmente, fazia gols como nenhum outro, etc, etc, etc. Não tem como negar. A partir de uma série de achados de gols de Pelé, Anibal Massaini reconstroi a vida e a carreira desse gênio do Futebol.

Menção honrosa: o curta - metragem “Barbosa” (1988)


Barbosa, goleiro brasileiro na Copa do Mundo de 1950, morreu levando a culpa da derrota brasileira na Copa de 1950. Falha ou não, todo time é formado por 11 jogadores. O peso da “culpa” em Barbosa se deve muito ao peso do racismo, o qual fez o goleiro ser perseguido e culpado pelo restante de sua vida. Esqueceram-se de culpar também os zagueiros que falharam na marcação, e os atacantes que perderam inúmeros gols na referida e fatídica partida. Enfim, esse curta-metragem, nos leva a curiosa situação de uma viagem no tempo ao dia da final contra o Uruguai na Copa de 1950, e sobre uma possível tentativa de mudar o ocorrido na história. Não direi mais nada. Vale muito assistir!

Ass: Rafael Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe




sexta-feira, 6 de junho de 2014

[Músicas Históricas] A canção “Apesar de você” (1970) de Chico Buarque nos ares de ditadura militar brasileira


Fora um censor quem havia perguntado o sentido da mesma. Censor da ditadura militar brasileira iniciada em 1964, e que só se extinguiria por completo em 1989. Pois é, mas na prática, a “mulher” que Chico Buarque menciona na letra da canção nunca foi uma companheira de seu passado, mas sim o terror do presente: ela, a ditadura, essa mulher autoritária e mandona, censora, punitiva, assassina.

O Lp do Single "Apesar de você" do ano de 1970.

Justamente para burlar os olhares ávidos desses censores é que Buarque escreve essa canção metafórica e subliminar com claro conteúdo de crítica ao regime. No entanto, o sentido da música inicialmente passou despercebido pelos próprios censores do sistema.
Foi em 1971 que os censores realmente compreenderam o sentido da canção, e após isso, obviamente que de imediato mandaram parar a sua execução nas rádios, e mandaram quebrar todas as cópias do disco single de Buarque na sede da Phillips, sua gravadora.
Foi justamente após essa “percepção” dos censores que Chico teve de se explicar, como citei no inicio do texto, acerca da natureza da “Mulher” da canção. Explicou mas não adiantou muito. Chico ficaria marcado pela ditadura, todos os seus passos seguidos, sendo suas músicas, até aquelas que realmente não possuíam sentido político, passam a agora a serem lidas, relidas com atenção, e censuradas pra evitar o “erro” de outrora.
Ao analisarmos com calma o conteúdo da letra, podemos perceber de certa forma até de forma clara, a forte crítica residente na mesma. Na primeira estrofe, Chico afirma:

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O Perdão


Ora, a música já se inicia afirmando o autoritarismo da dita “mulher” pois “hoje é você quem manda”. “Não tem discussão”. Mas nessa estrofe também podemos notar uma centelha de esperança quando este coloca o “hoje”. “Hoje é você quem manda”. Amanhã, pode ser que não mais.
 O compositor continua nas estrofes seguintes:

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florecer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. E tal

Apesar de você ditadura, amanhã alcançaremos uma nova fase, te superaremos. Uma nova fase chegará... E nas estrofes seguintes, Chico Buarque continua a cantar, a sua alegria ao ver chegada a hora de um novo momento, o tempo em que a ditadura “vai se dar mal”, quando as pessoas passaram a puder exprimir, com juros, todo o amor reprimido, proibido a tempos. 

A Canção se tornou um Hino na luta contra a ditadura


Enfim, são estrofes de um conteúdo crítico bastante alto, uma verdadeira “afronta” a ditadura militar. Praticamente uma “ameaça”.. Uma letra bastante subversiva que soube bater de frente ao sistema!

Ass: Rafael Prata
Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quinta-feira, 29 de maio de 2014

“Che: causa perdida” (1969): a primeira “biografia” cinematográfica da Revolução Cubana nasceu em solo americano...

Passados mais de cinquenta anos do ocorrido, a Revolução Cubana, uma série de filmes e documentários, de tempos em tempos, procuram reconstituir suas visões sobre os acontecimentos que engendraram este evento marcante da metade do século XX. A história do grupo de guerrilheiros, comandada por Fidel Castro e Che Guevara, na luta pela libertação de Cuba frente aos Estados Unidos, simbolizada na dependência de seu presidente Fulgêncio Batista, continua assim, a ser levada cotidianamente as telas do Cinema por produções de vários países.
Pois é, lá no distante ano de 1969, portanto, no “aniversário” de dez anos da revolução, e também dois anos após a morte de Che, foi produzida a primeira película sobre o evento. A película “Che: causa perdida” foi produzida ainda no calor das “consequências” da revolução, num momento de interpretação de suas causas, consequências.
Curiosamente, a película foi produzida nos Estados Unidos, o “país algoz” do evento. Sim, a película conta com um grande elenco cinematográfico, a começar pelo grandíssimo cineasta Richard Fleischer, e pelos grandíssimos atores Omar Sharif (Che Guevara) e Jack Palance (Fidel Castro), além da composição sonora de um dos maiores gênios da história do cinema, o músico húngaro Lalo Shiffrin.

A esquerda, Jack Palance como Fidel Castro, e a direita, Omar Shariff como Che Guevara. 

Uma verdadeira epopeia hollywoodiana. A película se inicia descrevendo os últimos momentos de vida de Ernesto Che Guevara, partindo então para um flashback onde passa a se descrever sua inserção no grupo de Fidel e a posterior participação na revolução cubana.
Bom, o resto da história já conhecemos. O que não podemos deixar de perceber é o caráter “ousado” da obra. Ora, produzir uma película “enaltecendo” o rival recente de seu próprio país, passados pouco mais de dez anos do ocorrido não deixa de ser uma atitude ousada, ainda se tratando de um ambiente tão conservador e alinhado a ideologia norte-americana como sempre foi a industria cinematográfica.

Polêmicas a parte, a caracterização física das personagens beira a perfeição no filme.

Obviamente que, para tal, além da dita “ousadia” havia um posicionamento político claro: o diretor Richard Fleischer havia pensado o projeto, a partir do roteiro de Michael Wilson, um homem de esquerda que figurava inclusive como um dos cabeças da lista negra do Macarthismo.
No entanto, o aspecto mais curioso em torno desse filme é a sua recepção pela própria esquerda; ao que se consta o filme foi um “fiasco” em seus propósitos. A esquerda ficou furiosa frente, principalmente, a uma cena em que um camponês entrega Che aos militares porque o movimento das tropas atrapalharia a atividade de suas cabras, cena esta que daria a entender uma falta de adesão popular ao movimento. Além do que a própria representação do Che, e mais ainda de Fidel Castro, este bastante apático no filme, foi altamente criticada pela esquerda latina.

Omar Shariff como Che Guevara: o filme foi produzido apenas dois anos após a morte do guerrilheiro

Enfim, a película merece ser vista. O próprio fato de ser uma primeira representação construída ainda no calor dos acontecimentos, e por “americanos”, já chama a atenção. Ademais, a película segue uma tradicional enunciação dos fatos descritos a posteriore em outros filmes. É a saga do utópico médico asmático argentino na ilha de Cuba, tema este que até hoje reacende os mais intensos debates. No cinema começou lá, em 1969, com esse tão polêmico filme de Fleischer, que não agradou nem aos “imperialistas” e muito menos aos esquerdistas.

Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe


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