sábado, 14 de julho de 2012

Navigator: Uma fantasia medieval - moderna "na pista de nossos medos"


"O Grito" - Edward Munch, 1983.

        O Medo, a incerteza e a inquietação frente ao que é desconhecido e assolador sempre será uma característica intrínseca residente no âmago mais profundo natureza humana.  Caractere universal que, ao menos neste ponto, aproxima os homens das mais diferentes sociedades e culturas, localizados em qualquer período histórico, o “Medo” é um estado emocional que possibilita profundamente, o reencontro do homem moderno com as suas fragilidades, com seus anseios e fraquezas infantis, muitas vezes sublimadas pela selvageria da modernidade.
         Ao que parece, em outros estágios da trajetória humana, dá-se a impressão de que foi possível manifestar-se com mais liberdade este medo. A diferença neste sentido é que estes manifestavam seus medos, enquanto que o homem moderno, envolto e escondido na sua ilusória carapuça de segurança, acaba por se esconder por detrás de inúmeros refúgios, como a crença numa ciência que irá resolver todos os problemas da saúde, afastando-o cada vez mais a morte, um medo tão forte nos dias atuais.
         A Idade Média, que tem sido apontada historicamente, e em censo comum, como um período tenebroso, de trevas, escuridão e ignorância, nesse sentido nos oferece um raio – x proveitoso sobre os nossos medos; Medos que permanecem e que podem ser postos em comparação com os temores modernos.

         O Medievalista Georges Duby em sua belíssima obra “Ano 1000, Ano 2000 – Na pista dos nossos medos” consegue com rara sensibilidade, promover esta questão. Analisando as estruturas sociais, culturais e mentais da sociedade medieval, Duby compara os temores de ontem com a tipologia do medo do ano 2000, demonstrando como estamos mais próximos do que pensamos daquela sociedade de outrora.
         Já no prefacio da obra, Duby deixa claro que: “As pessoas que viviam há oito ou dez séculos não eram nem mais menos inquietas do que nós” (DUBY, 1998,p.9).  Para ele, o papel da História e do Historiador seria justamente esta: resgatar do passado, dos escombros da história, aquilo que aproxima no plano mental, os homens de ontem aos de hoje. Só assim será possível “afrontar com mais lucidez os perigos de hoje” (Idem).
         O Passado, ao mesmo tempo em que ensina e ajuda a não repetir os mesmos erros e mazelas, noutro sentido, também reconforta, ao aproximar homens aparentemente tão diferentes e diversos, no que tange aos seus medos e a forma como lidaram com tais, a partir, principalmente, do fio condutor da fé, da manifestação com o divino, em outras palavras, a lide com a religião.
 
         Neste sentido, uma obra cinematográfica que empreende uma alegoria profunda sobre estes medos, temores que afligem a humanidade seja qual for à época, é a película “Navigator – uma odisseia medieval”, do ano de 1988, dirigida por Vincent Ward.
         Em meio ao furor ocasionado pela infestação da AIDS no decorrer dos anos 1980, esta película empreende a uma belíssima metáfora sobre os medos humanos e a procura iminente por respostas confortantes seja qual for à datação em que estejamos localizados.
         Baseada em um pano de fundo medieval, somos levados a uma pequena comunidade localizada na Cumbria, Inglaterra, no ano de Nosso Senhor - 1348, quando a Peste Negra deixa de forma bastante substancial, um grande número de vítimas em solo europeu, espalhando o caos, o terror e a incerteza frente ao dia de amanhã. Esse é o clima de Navigator: a constante manifestação do temor frente à morte e a procura, através da religiosidade, de manifestações divinas que aplaquem o poder devastador da Peste Negra. 

         Somos levados então ao mundo do jovem garotinho Griffin, que passa a sonhar constantemente com a construção de uma grande Catedral em homenagem a Deus, que passa a ser vista pelos aldeões, como uma mensagem de salvação, a solução para interromper a peste que se espalhava naquele momento. Para eles, a peste era vista como uma cólera divina, um flagelo de Deus enviado graças à insatisfação daquele frente aos desvios mundanos. Na sociedade medieval, as respostas para todos os segmentos da vida, perpassavam uma noção teológica. Os Mineiros cantam efusivamente "Os homens, acuados, viraram animais...”.

         Através dos sonhos teológicos do pequeno Griffin, os mineiros partem em uma odisseia temporal em busca de um “fosso na história”, uma viagem no tempo, que acaba levando-os até os anos 1980. É nesse ponto que o filme inova. É tudo muito simbólico, filosófico, existencial. Não há clichês, estereótipos depreciativos, preconceitos. Aproxima-se a noção de vida medieval – e seus medos – aos temores modernos do contemporâneo anos 1980.


Esta Cena não parece o Quadro "O Grito" de Edward Munch?

         Uma das cenas que reflete com grande sensibilidade essa aproximação se dá quando um dos mineiros passa por uma vitrine de lojas de TV, e no noticiário, está sendo informado sobre o caos e o temor ocasionado pela rápida viralização da AIDS em todo o mundo. A Peste Negra de ontem é o espelho da AIDS dos anos 1980, ainda sem resposta, sem os eficientes coquetéis criados posteriormente que ajudariam a aplacar a velocidade da doença. Naquele momento, não há respostas.

A Morte chegava através da Peste Negra

         No ano de nosso Senhor, 1348, sem respostas, como Duby explica, se procurou culpar os judeus e os heréticos pela manifestação da peste negra. Nos anos 1980, foram os homossexuais, os hippies, os africanos, etc, os apontados constantemente como culpados. É o medo do “outro” que permanece.
         Através de uma fantasia medieval – moderna, segue-se uma peregrinação em uma Londres oitentista, onde os mineiros medievais juntam-se a um grupo de pessoas que passam a auxilia-los em seus intentos, ainda que não consigam compreender profundamente o que está se passando. Mas é então a fé, o fio condutor de toda a película, algo que parece ligar aqueles homens do outrora século XIV aos do século XX.
         
        Enfim, esta desconhecida película faz um trabalho deveras primoroso em todos os seus aspectos: a fotografia e a trilha sonora, feita sob um verdadeiro trabalho de pesquisa medieval, são louváveis. O Contraste entre uma Idade Média em “preto e branco” e os anos 1980 em tons coloridos também é um ponto de destaque no filme.
         O que deve ser apontado como a principal qualidade do mesmo é esta dita reflexão empreendida entre os medos de ontem e o de hoje, a aproximação entre aqueles e estes. Mineiros, ferreiros e moleiros são mais próximos de burocratas, tecnólogos, bartenders do que podemos imaginar. O que nos aproxima em todos os sentidos é o fato de sermos todos humanos, carentes de resposta e insatisfeitos com tudo aquilo que nos é inexplicável e inaceitável.

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

Referências Bibliográficas:

DUBY, George. Ano 1000, ano 2000: na pista dos nossos medos. São Paulo, Unesp, 1998.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Quando Hoolywood decide falar sobre seus bastidores


            São raros os filmes que procuram retratar os bastidores de Hoolywood. Isto se torna mais difícil de ser encontrado quando nos voltamos à chamada era de ouro do cinema norte – americano, 1940 – 1960, momento em que o glamour da vida dos grandes atores e atrizes, passava a impressão de que tudo naquele mundo era repleto de beleza, de harmonia, felicidade.
         Contudo, alguns filmes produzidos pela própria indústria hoolywoodiana transgrediram nesse sentido; e por esse motivo causaram certa polêmica. Retratar questões obscuras, problemas do mundo hoolywoodiano, mazelas, era algo complicado, podendo não agradar aos produtores do mundo do Cinema. Musicais, filmes românticos, filmes de gangsteres, etc, todos os gêneros são bem vindo, desde que não falem do que não deve nunca ser de conhecimento do público.
         Neste sentido, dois filmes em especial, curiosamente produzidos no mesmo ano, 1950, conseguem paradigmaticamente ilustrar esta transgressão dita: “Crepúsculo dos Deuses” do genial Billy Wilder e “A Malvada” do também extraordinário Joseph L. Mankiewicz.
         Em ambas as películas, o glamour artístico é deixado para trás, e o que se vê é o desnudar das verdadeiras faces dos artistas, os caminhos obscuros tomados até chegar à fama, e noutros casos, o descontrole frente à queda/decadência em Hoolywood.
         Em Crepúsculo dos Deuses, somos levados a um alucinante noir, conduzido através de uma narração post – mortem do personagem principal – algo bastante inovador -, sobre a vida de uma estrela do cinema mudo, chamada Norma Desmond, interpretada pela sensacional Gloria Swanson, que não sabendo adaptar-se ao Cinema falado, acabou entrando em esquecimento. Seu orgulho e ego são tão grandes que a mesma vive numa falsa ilusão de sua fama. Enfim, spoilers a parte, a grande proeza do filme está no tratamento dado a este tão sonhado glamour hoolywoodiano; Ao demonstrar a queda de uma grande atriz, Wilder nos pergunta até que ponto a ilusão da fama, do reconhecimento, tem sua durabilidade... Algumas figuras paradigmáticas, que não souberam também, por motivos pessoais e diferenciados, transpassar ao mundo do cinema falado, como Buster Keaton, dão as caras no filme, dando um tom mais real ao que está sendo discutido na obra. Outro ponto positivo da obra é a aparição do fantástico diretor Cecil B. de Mille na película, interpretando a si mesmo, um cineasta famoso procurado pela personagem central da película, para dirigir seu suposto filme.
         Poderia me alongar demais sobre vários pontos do filme, mas não desejo assim agir, para não contar partes importantes do mesmo. Vale mais assistir e tirar suas próprias conclusões. Um diálogo marcante que personifica toda a ideal central do filme, está na fala de Norma Desmond quando ao ser indagada do seu desaparecimento no Cinema, afirma que: "Eu sou Grande. Os filmes é que ficaram pequenos". 
         Esta foi à noção que muitos artistas do Cinema Mudo tiveram com o furor causado pela entrada da fala no cinema falado. Norma personifica assim boa parcela de grandes gênios de um passado distante, que acabaram esquecidos pela velocidade do tempo e/ou não souberam adaptar-se a nova conjuntura que se formava.
         Crepúsculo dos Deuses levou o Oscar nas categorias: Melhor direção de arte, melhor trilha sonora e melhor roteiro, tendo sido indicadas para outras categorias, como melhor filme dramático, melhor atriz, melhor ator, tendo perdido estas categorias para seu principal concorrente, seu homônimo em discussão temática, a película “A Malvada” que levou todas estas categorias.
       Em “A Malvada”, o ambiente hoolywoodiano é subliminar, haja vista que na película, o glamour representado incide no Teatro. Contudo, está obvio que o que está sendo representado ali, faz menção ao Cinema. Nesta, somos levados a história de uma pobre moça chamada Eve Harrington, interpretada magistralmente por Anne Baxter, que é obcecada pela renomada atriz teatral Margô Channing, interpretada pela inigualável Bette Davis, a ponto de assisti-la em todas as suas peças, todos os dias da semana. Também partindo de uma narração que começa pelo fim, o filme conta então a gradual transformação da jovem fã em uma moça obcecada pelo sucesso, tentada a assumir o papel de quem venera. Infiltrando-se na vida de Chaning, Eve vai lentamente galgando espaços, seduzindo as pessoas próximas ao cenário artístico até conseguir seus objetivos.  
         Enfim, estas duas grandes películas do ano de 1950, que levaram praticamente a totalidade das estatuetas distribuídas no ano seguinte, são profundamente complementares, e nos ajudam em especial, a refletir sobre o que está por detrás de toda essa beleza, desse mundo fantasioso que se aviva nas telas do Cinema. Nem tudo é tão bonito quanto parece ser. Nem tudo é eterno!

Ass: Rafael Costa Prata
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Jogando Xadrez com a Morte: A Vida não passa de um jogo.


         
Procurar decifrar a película “O Sétimo Selo” significa perscrutar as profundezas da alma bergmaniana, e adentrar mais do que nunca, nas inquietações da alma humana, no decorrer de toda a nossa história. Trata-se de um filme atemporal, no sentido artístico, estético e acima de tudo ideológico. Ao contrário do que pareça não se trata de um filme sobre pessoas, questões e medos existentes durante a Idade Média, mas sim uma reflexão profunda e puramente existencial sobre a natureza humana que é aquém e inata a qualquer período histórico especifica.
         Desta forma, “o filme é na verdade uma alegoria que tem a Idade Média como pano de fundo, ou se quiser, como principal paisagem.[1]”, mas não o principal eixo de seu questionamento.  Com o “Sétimo Selo”, Bergman procurou acima de tudo reproduzir ou se questionar sobre a natureza do homem, seja ele, antigo, medieval ou moderno, na medida em que se encontra sempre diante dos mesmos temores, das mesmas angustias: O Medo diante do desconhecido, diante do anuncio de um amanha sombrio e sem respostas, através de uma alegoria clássica entre o jogo do homem frente a Morte.

   Não obstante, para efetuar metaforicamente tais reflexões, Bergman utiliza com eficiente destreza um desnudamento da alma humana a partir de uma “paisagem medieval” que remonta ao ano de Nosso Senhor (1348), quando a Peste Negra assolara a Europa, e trazia assim à tona além do medo, inúmeros questionamentos sobre a natureza divina, e, sobretudo sobre a fé humana. Este espaço temporal é apenas um meio pela qual Bergman procurou discutir, contudo, o necessário a salutar é que para ele, tudo aquilo é nada mais nada menos do que a representação do nosso presente. 
      Desta maneira, o proprio Bergman afirmava que “O Sétimo Selo” trata-se de um “poema moderno, sentado com material medieval muito livremente manipulado. O Cavaleiro do filme retorna da cruzada como o soldado de nosso tempo retorna da guerra.” [2]
         Assim, o que menos importa em Bergman, é a delimitação temporal. Tanto vale que estejamos em 1348, nos anos 1980, ou em 2012, pois para Bergman o que vale é a natureza humana, a parte suas inquietações, sofrimentos, que são os mesmos, contudo com uma face diferente, mas de mesma essência, no decorrer de toda a história da humanidade.
         O Temor diante da morte, da existência de Deus, e principalmente de um amanhã marcado por uma hecatombe mundial, sempre vai emergir quando o Ser humano encontra-se em particular diante de um período de inquietação forte, seja durante o ano da Peste Negra, seja no pós - segunda guerra, onde durante o filme foi rodado, cujos ventos anunciavam uma Guerra Fria, que traria a tona o medo de uma explosão mundial, que já era possível crer, graças às recentes inflamadas e assustadoras bombas mundiais de Hiroshima e Nagasaki.  Assim, a Peste Negra de ontem pode ser a difusão avassaladora da AIDS durante os anos 80, as cruzadas continuam a ser fruto da irracionalidade bélica humana, e como fruto disso tudo, o resultado será sempre um retorno a reflexão sobre si mesmo: O que é o homem, quais são os seus medos, como lidar com eles, e por fim, como nos consolaremos.
         Diante de tudo isto, Bergman conseguiu graças a sua genialidade, através desta marcante metáfora “medieval-moderna” abarcar todos os questionamentos de ontem, hoje, e com certeza de amanhã, utilizando-se um fundo histórico verídico eficientemente utilizado, e, sobretudo tornando a película nada menos que uma representação artística destes temores.
         Valendo-se de seus dotes teatrais, haja vista que Bergman foi acima de tudo um diretor aclamado de teatro, utilizou-se de muito da estética dramática dos palcos para reconstruir os temores de “O Sétimo Selo”. Desta maneira, Bergman conta com uma trupe de atores, que o acompanha desde as suas peças de teatro até seus mais aclamados filmes.
         Tudo em “O Sétimo Selo” é filosófica e historicamente pensado de forma a exprimir perfeitamente e com alto teor artístico herdado do Teatro, para representar as emoções humanas. Para assim ser, Bergman acaba recorrendo aos:
 “... contrastes de claro/escuro, o cuidado posto no vestuário, a caracterização central da Morte com seu rosto de mascara, os gestos automáticos e visivelmente programados dos flagelados na procissão, a opção por quadros autônomos, como se os atores estivessem em um tablado. (...) São ainda as raízes teatrais que esclarecem os sentidos dos importantes closes das fisionomias dos atores...” [3]

Daí em diante, nos confrontamos com o duelo entre a fé abalada do cavaleiro Antonius Block em sua busca por respostas, contra o ceticismo do já convalido pelas desgraças humanas escudeiro Jons. Deparamo-nos com uma personificação da Morte, que se torna impessoal, enigmática, sem respostas, que se torna por si só seu oficio, não atuando por Deus, nem pelo Diabo. Em suma, são os inúmeros questionamentos postos a prova por Bergman e seria quase que impossível destrinchá-lo neste breve comentário.
Se a relação da História para com o Cinema é importante, Bergman faz desse uso bastante proveitoso, e perfeitamente histórico e artístico. Toda a película é fundamentalmente histórica, e, sobretudo artisticamente falando. 
Uma cena em especial me chama a atenção, pois é ali onde percebemos a clara intenção, já afirmada, de Bergman para com o bom uso da arte: Durante um dos quadros do filme, o lenhador Skat utiliza-se de seus dotes artísticos de ator, para enganar o ferreiro Plot, e assim fugir de seu duelo. Considerando-se experto, o covarde ator sobe em uma arvore, até que percebe que a Morte está lhe derrubando a sua “arvore da vida”. Assim, percebe-se que a própria morte considera indigno aquele que utiliza a arte para coisas deploráveis, como fizera o ator. A morte respeita a arte e não quer assim que façam um deplorável uso dela. A arte é pura, por si so deve existir como manifestação da subjetividade e pureza humana. A própria morte é uma arte e não quer ser desrespeitada como tal. Fica clara a mensagem de Bergman através desta passagem como um dever diante da pureza da arte.


Sob o aspecto histórico, O Setimo Selo na verdade nada mais é do que uma eterna “Dança Macabra” desde a sofrida procissão dos flagelantes até a chegada da morte na casa de Block, levando-os “Todos eles, o ferreiro e Lisa, o cavaleiro, Raval, Jons e Skat. E a severa morte os convoca para dançar. Quer que todos dêem as mãos para formarem uma longa fila. A morte vai à frente com a foice e a ampulheta, mas Skat vai atrás com a sua lira. Eles vão dançando, se distanciando do sol, em uma dança solene. Dançam rumo à escuridão, e a chuva cai nos seus rostos lavando as lagrimas salgadas de suas faces” [4].  
Essa eterna dança é a chamada “Le Danse Macabre” que marcou a pintura medieval, iniciada a partir do século XIV, quando através das artes das pinturas das paredes das Igrejas, dentre outras formas de manifestação artística, procurava se demonstrar que a morte vem e não poupa ninguém, não há classes sociais, são todos iguais, chamados a dançar.



Esta caracterização da chamada Dança Macabra é crucial e abarca praticamente todo o eixo da obra, sendo de um caráter artístico perfeito durante toda a sua execução. A Película nada mais é do que uma fuga obsessiva desta macabra e indesejada dança que chamava para o baile a quase todos. Como sinal de negação a Morte, e a fim de encerrar este comentário, propositalmente deixo para o final algumas palavras sobre as personagens Jof, Mia e Mikael, que para Bergman tem todo um sentido religioso, messiânico até. 
Estes são os únicos que conseguem se salvar, inicialmente porque são os únicos seres puros de coração de toda a história, são artistas que fazem bom uso de sua arte, que para Bergman representam um sentido muito importante: “O Conceito de Santidade Humana. Se você desfizer as camadas de varias teologias, o sagrado sempre permanece.” É por isso que depois de tocada a sétima trombeta do apocalipse, somente sobrevivem como salvação e símbolo de um reinicio baseado na pureza, a trindade messiânica, um casal puro, Jof, Mia e Mikael, assim nada está perdido ainda, enquanto houver esperança, pureza, e unção entre o amor e o bom uso da arte pela arte. 
Ass: Rafael Costa Prata
Graduando na Universidade Federal de Sergipe



[1] MONGELLI, Lênia Márcia. Ingmar Bergman e o Jogo da Morte. In: MACEDO, José Rivair; MONGELLI, Lênia Márcia. (Org.), A Idade Média no Cinema. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009, p.83-127, p.86.
[2] Idem, p.84-85.
[3] MONGELLI, Lênia Márcia. Ingmar Bergman e o Jogo da Morte. In: MACEDO, José Rivair; MONGELLI, Lênia Márcia. (Org.), A Idade Média no Cinema. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009, p.83-127, p.89.
[4] Fala Final do personagem Jof durante a execução da película.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Blackface: Como “denegrir” a imagem do negro no Cinema.



            A Utilização do perigoso verbo “denegrir” no titulo desta postagem foi deveras intencional. Utilizado no dia a dia para “depreciar”, “macular” a imagem de alguém, este vocábulo traz consigo desde sempre, o germe do proprio preconceito, nesse caso, aquele pertencente ao racismo. Sim, porque a associação direta entre macular, depreciar, injuriar o outrem está diretamente associada com o ato de “fazer negro, escurecer”.
            Palavras e expressões como esta pululam no vocabulário cotidiano do dia a dia, de forma que muitas vezes não percebemos a essência de seus possíveis significados. Esta questão não se refere apenas aos negros, mas como também a outros que sofrem preconceito. Recentemente fiquei surpreso ao notar que o termo “judiar” se refere a um estereotipo depreciativo incidente aos judeus. Não se trata de defender o extermínio ou a não utilização destes termos, até porque, acredito que, 99% das pessoas que as utilizam, inclusive eu, assim não a fazem no intuito de depreciar este ou aquele.
            Este prologo serve apenas para demonstrar como algumas questões parecem se enraizar de forma tão forte que não nos damos conta. Puxo então esta questão do “denegrir”, pois foi com este intuito que um mecanismo cinematográfico foi bastante utilizado na primeira metade do século XX, no Cinema americano: o Blackface.
         O Blackface se apresenta como um conjunto de mecanismos artísticos que comportam tons e estereótipos puramente racistas em suas manifestações. Devemos ter em conta que o Blackface não surge com o Cinema, sendo apenas um espelho refletor da mentalidade norte – americana no pós – Guerra Civil Americana, em especial, uma visão branca sulista que procura sobrepor em todos os sentidos, inclusive raciais, a imagem do Norte, com destaque, a atuação dos escravos.
            Enfim, toda esta querela acabou se refletindo nos meios artísticos; o Blackface surge então no glamoroso a época, Vaudeville, ou o circo de variedades. Comediantes faziam sucesso representando de forma absurdamente estereotipada os antigos escravos americanos, para delírio de um público em sua maioria formado por aristocratas brancos, sulistas, ex – escravistas.

O Blackface no Teatro de Variedades ao iniciar do século XX: A Maquiagem e a encenação pitoresca.

            O Principal “efeito de realidade” utilizado nestas encenações é justamente a raiz do Blackface: pintavam-se os rostos brancos com tinta preta, procurando-se acentuar também o volume dos lábios – em alguns casos, chegava-se a pintá-los de vermelho – para chegar a uma certa “representação” desejada para os negros.
            O tão comum Blackface dos Cinemas logo galgou espaços dentro daquela nova mídia que crescia durante o iniciar do século XX. No Cinema, temos inúmeras mostras deste mecanismo, que vão desde películas hoje bastante criticadas e contestadas como de conteúdo puramente racista – como “O Nascimento de uma Nação”, de 1915 de Griffith – até outras obras menos faladas, estas de grande valorização e estima poética, mas que acabam por isso ocultando a utilização destes mecanismos em suas películas.
             Em “O Nascimento de uma  Nação” de Griffith, temos um filme de “caráter abertamente racista, repleto de estereótipos cruéis afro-americanos como pessoas bárbaras, sem instrução e sem cultura” (Rosenstone,2010, p.30) A idéia deste sulista era de dar a sua versão da guerra civil americana e as possíveis consequências para o país diante daquele fato. O que assusta disto tudo é que “A sua representação da Guerra Civil Americana, a sua visão do Sul como vitima das depredações dos ex-escravos e dos oportunistas do Norte durante a reconstrução, a sua exaltação dos integrantes da Ku Klux Klan como heróis do conflito racial e seus estereótipos terríveis dos afro-americanos eram (infelizmente) reflexos diretos das principais interpretações da época em que o filme foi produzido – não apenas das crenças das ruas, mas do saber da mais poderosa escola de historiadores americanos daquele período”(Idem).
            Enfim, obviamente que como artificio desta visão preconceituosa que se formaria durante o filme, o uso do Blackface ganharia destaque, sendo praticamente imortalizado no mesmo. Cena fortíssima que reflete o preconceito e que demonstra o uso pitoresco deste artificio racista se dá quando o “Negro Gus” persegue a jovem e branca Flora, que prefere jogar-se a morte em um penhasco para que aquele não a toque. O “Negro Gus” é um ator branco que se usa do Blackface. Gus é linchado pela Ku Klux Khan.

O Olhar "esbugalhado" do "Negro Gus" ao ser linxado pela KKK.
         
O Estereotipo do "Negro Buck": O Buck é um grande homem negro que é orgulhoso, às vezes ameaçador, e sempre interessado em mulheres brancas.
            Contudo, o curioso está em observar que este uso tão comum da “maquiagem” e “satirização” pelo Blackface não atingia somente a estes filmes mais, digamos políticos, atingindo também posteriormente películas mais comerciais com temáticas adversas. Curiosamente, o primeiro filme falado da história de Hoolywood procurou se utilizar deste artificio. Em “O Cantor de Jazz”, de 1927, o Blackface ganha papel de destaque na caracterização do personagem principal da película. Para isso, o Ator Al Jolson, a fim de interpretar um jovem cantor negro chamado Jack Robin, atua em boa parte do filme, com o rosto pintado.

Al Jolson em "O Cantor de Jazz": O Primeiro filme falado dá voz ao preconceito.

        Nestes dois casos, citamos o uso de um Blackface mais desmascarado, direto. A Maquiagem e a satirização é direta, sem disfarces. O Curioso, porém, é que ao passar do tempo, o uso do Blackface se metamorfoseia, se transforma ganhando novas feições que vão além de uma mera maquiagem: o Blackface se assume na caracterização de tipos sociais negros de ordem pitoresca. Não precisa pintar o rosto de negro e os lábios de vermelho, basta contratar atores e atrizes negras, e entregar-lhes personagens altamente depreciativos, moldados sob uma visão preconceituosa. Com este artificio, torna-se mais prático a arte do convencimento racista.
          


Eis a evolução do Blackface. O Negro Gus de antes, transforma-se no “Preto Velho” ou na “Mama Negra” – aquela cozinheira negra e gorda das casas de engenho -, ou nos “negrinhos danados”. Enfim, uma serie de caracterizações passam a surgir, estendendo todo o tipo de preconceito possível. 


              Um caso ilustre deste “Blackface moderno” se deu no venerado e poético filme “E o Vento Levou”, de 1938, onde mais uma vez a visão sulista ganha às caras, e os escravos representados por atores negros – ou seja, sem a necessidade de maquiagem – são sempre tipos caricatos de pessoas. Nesse sentido, vale destacar o papel dado a grande atriz afro – americana Hattie MacDaniel que interpreta “Mammy”, a cozinheira negra, das bochechas grandes, baixinha e gorda, e da voz “engraçada”. Mammy é um desses tipos caricatos preconceitos que surgem na evolução desse Blackface. É a personificação da escrava empregada que assume o papel de matrona dos filhos de senhores de engenho.


Hattie em "E o Vento Levou": O Oscar e o Preconceito
            Enfim, o preconceito perpassa todo o filme. Desde a sua cartilha que anuncia: “Existia uma terra de cavalheiros e campos de algodão chamada "O Velho Sul". Neste mundo bonito, galanteria era a última palavra. Foi o último lugar que se viu cavalheiros e damas refinadas, senhores e escravos. Procure-a apenas em livros, pois hoje não é mais que um sonho. Uma civilização que o vento levou!” até a caracterização dos Negros no filme.

Um dos estereotipos: a Mammy.

            Curiosamente esta mesma atriz, Hattie MacDaniel, entrou para a História do Cinema, ao ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz coadjuvante por este papel de destaque, tendo ganhado o premio, se tornando a primeira pessoa negra a ganhar este premio na história. Ora, temos aqui a demonstração do não – racismo e da valorização do negro?! Durante a entrega do premio, Hattie ficou em um local separado dos demais atores que recheavam a festa.

 

        Enfim, inúmeras citações poderiam sido feitas. A intenção foi refletir sobre este fenômeno, que ao contrário do que se pensa, continua ainda hoje a ocorrer dentro do Cinema e em decorrência, no restante da sociedade. O Blackface ganha cores modernas, desde o branqueamento de modelos negras em revistas de moda – no que seria um paradoxal White face – até a continuação da utilização destes estereótipos nas mídias, seja no TV ou no Cinema.

 Ps: Segue um vídeo que demonstra como o blackface atinge até as crianças, por meio dos clássicos desenhos infantis. Este desenho de nome "Scrub Me Mama With a Boogie Beat", do ano de 1940, engloba uma serie de estereotipos raciais. Vale conferir.

 

Referências bibliográficas:

 

ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes, os filmes na história. Tradução de Marcello Lino. São Paulo: Paz e Terra, 2010

Ass: Rafael Costa Prata

Graduando na Universidade Federal de Sergipe



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